200 post, 200 fotos

Já Lá Estive, o meu blog de viagens, atingiu os 200 post e as 200 fotos, com o nosso passeio por Alcobaça, Nazaré, Batalha e Mira de Aire.

São 200 textos curtos, ilustrados pelas 200 respectivas fotos, de outros tantos sítios por onde já passei, em Portugal, Espanha, França, Itália, Grã-Bretanha, Irlanda, Holanda, Bélgica, Suíça, íustria, República Checa, Eslováquia, Hungria, Alemanha, Suécia, Finlândia, Estónia, Letónia, Rússia, Grécia, Cabo Verde, Quénia, Marrocos, Egipto, Índia, China, Estados Unidos, Canadá, Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Costa Rica, Peru, Austrália, Polinésia Francesa.

E falta tanto!…

“Sunset Park”, de Paul Auster

—Auster já tem uma legião de seguidores em Portugal, o que lhe permite ter todos os seus livros traduzidos e editados por cá, mal saem nos EUA. O mesmo não acontece com Philip Roth, que tem um novo romance que só será editado por cá no próximo ano…

Claro que Auster merece. É um notável contador de histórias e, ainda por cima, é simpático, dá entrevistas a toda a gente, gosta da Europa e é pouco americano.

Este “Sunset Park”, no entanto, é mais do mesmo. Como este, já Auster escreveu vários romances.

A história gira í  volta de quatro jovens adultos que ocupam uma casa abandonada em Sunset Park, Nova Iorque. São dois homens e duas mulheres mas não são dois casais. Cada um tem a sua história, o seu drama pessoal, as suas dúvidas existenciais e Auster vai-nos dissecando as suas dúvidas e angústias; cada capítulo é dedicado a uma das quatro personagens principais e mais duas ou três acessórias.

Como também já é habitual nas narrativas de Auster, a história acaba abruptamente, sem um fim “como deve ser”.

Já li coisas muito melhores escritas por ele.

Parvoíces

Então sempre vamos ter a nossa manifestação parva, convocada através do Facebook, í  imagem da revolução egípcia.

Os parvos, isto é, a malta que não se importa que lhe chamem “geração parva”, irão para a Praça Al Tahrir cá do sítio, manifestar-se contra esta sociedade onde, segundo o inspiradíssimo poema da canção dos Deolinda, “para ser escravo é preciso estudar”…

Confesso que o primeiro álbum dos Deolinda até me entusiasmou; mas esta cançoneta que, de repente, serve de bandeira a algo que ninguém sabe o que é, a mim é que me deixa parvo.

A pobreza da letra é confrangedora, mas glorificada nas páginas dos jornais e nos blogs por tipos que dizem fazer parte desta geração “í  rasca” – geração que, voltando aos versos, é “sem remuneração” mas que, afinal “ainda me falta o carro pagar”.

Sempre gostava de saber qual é o escravo que, sem remuneração, tem um carrito…

Uma rápida pesquisa no Google permite-nos saber que os três elementos dos Deolinda nasceram em 1978 e têm, portanto, 33 anos – uma idade verdadeiramente parva!

São, portanto, da geração dos meus filhos e se, segundo a letrinha da cantiga, ainda andam a estudar, algo vai mal, porque os meus filhos terminaram os seus cursos aos 22-23 anos.

Ou então, é por isso que eles dizem que são da geração parva, da geração que precisa de 10 anos para fazer uma porcaria de um curso, sem que nunca lhe tenha passado pela cabeça… trabalhar, fazer um cursinho de electricista ou de cozinheiro ou de bate-chapas, ou qualquer coisa assim.

Geração í  rasca, cada um com o seu iPhone?

Geração parva, cada um com o seu mac?

Desculpem-me a franqueza mas agradecia que fossem dar banho ao cão.

Morrer em casa

Agora, de repente, os portugueses começaram a descobrir velhotes mortos em casa há semanas ou meses… ou anos!

Somos mesmo um povo de modas, caramba!

Bastou ter-se descoberto aquela velhota, morta há 9 anos, esquecida na sua própria casa e logo os portugas desataram í  procura de mais cadáveres!

Hoje, o jornal da ASIC abriu com mais dois casos: um velhote de 80 anos, morto há umas duas semanas e outro, de 72 anos, morto há cerca de três meses.

E já se fala que, a partir de agora, além do enterro e da cremação, podemos optar por deixar estar.

Morremos e deixamo-nos estar, sossegadinhos, na nossa casinha.

Alguém nos há-de descobrir.

Eventualmente.

Passos, sabes o que é esquizofrenia?

O Bloco anunciou que vai apresentar uma moção de censura ao governo.

Ai que medo!…

E o PSD? Votará a favor ou contra?

Diz Passos Coelho:

«Não penso que Portugal precise de andar esquizofrenicamente todas as semanas a viver e a especular sobre sentimentos de crise política e não creio que seja isto de que o país precisa».

Por favor, leiam a frase com atenção.

Começando por dizer que não pensa, Passos confirma isso mesmo ao inventar um adjectivo (“esquizofrenicamente”), a partir do nome de uma doença.

O que quererá o gajo dizer com “esquizofrenicamente”?

Se a esquizofrenia é uma perturbação mental caracterizada por uma alteração do contacto com a realidade, com delírios e alucinações, será que Passos Coelho acha que as críticas ao governo de Sócrates são delírios? Que quem chama mentiroso ao primeiro-ministro está a alucinar?

Depois, toda a construção da frase é de um pobreza confrangedora: «Portugal não precisa de andar todas as semanas a viver e a especular sobre sentimentos de crise política»?

O que raio serão «sentimentos de crise política»?

E quer este gajo ser primeiro-ministro!…

Greve ao sexo? Pois claro!

—

A deputada social-democrata belga, Marleen Temmerman propí´s que as mulheres dos políticos façam greve í s relações sexuais até que todos cheguem a um acordo e haja, finalmente, governo (a Bélgica está sem governo há 240 dias!)

Esta estranha iniciativa merece-me os seguintes dois comentários:

Primeiro: tanta gente que diz estar a ser fodida pelo governo e há belgas que propõem deixar de foder porque não há governo!

Segundo: basta olhar para a cara da Marleen para aderir í  greve que ela propõe!

Já!

“Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaí±o (1998)

—Depois de ter lido “2666” e este “Os Detectives Selvagens”, não fiquei rendido a Bolaí±o, pelo menos, não ao ponto de o considerar “indiscutivelmente o escritor mais brilhante no actual panorama da literatura latino americana. Um autêntica lenda literária”, como se diz no El País, citado na contracapa de mais um calhamaço de 500 páginas.

Também não vejo onde “Os Detectives Selvagens” seja uma “visão brutal e lírica dos últimos trinta anos do milénio”, como diz Le Monde des Livres, também citado na contracapa.

Aliás, penso que “Os Detectives Selvagens” e “2666” são o mesmo livro ou, por outras palavras, Bolaí±o foi escrevendo e depois, decidiu dividir as milhares de páginas que escreveu em dois livros e, cá para mim, até trocou os títulos, tal como Boris Vian fazia.

De facto, onde é que há detectives? Em “2666” e não em “Os Detectives Selvagens”. E a data 2666, ou aproximada, aparece é em “Os Detectives Selvagens” e não em “2666”. Na página 496 do segundo livro, lê-se: «Porém Cesárea falara dos tempos que haviam de vir, e a professora, para mudar de assunto, perguntara-lhe que tempos seriam esses e quando viriam. E Cesárea dissera uma data: por volta do ano 2600. Dois mil seiscentos e picos”

“Os Detectives Selvagens”, tal como “2666” é uma sequência de pequenas histórias entre poetas, e não só. A acção principal decorre no México e a primeira parte do livro (“Mexicanos perdidos no México”) passa-se em 1975 e surge como um diário escrito por um jovem poeta, que pertence í  corrente “real visceralista”. Já aí se fala em Arturo Belano e Ulisses Lima, duas personagens que percorrem todo o livro, sem nunca terem voz activa na narrativa. Há sempre alguém que fala deles, sobre eles, por eles – o que os torna ainda enigmáticos.

A segunda parte do livro, chamada “Detectives Selvagens”, decorre entre 1976 e 1996 e é formada por entradas, como se se tratasse de uma enciclopédia de histórias. Cada entrada pertence a um personagem, um local e uma data e é uma história, não necessariamente relacionada com as outras, embora se fale muitas vezes do tal Lima e do tal Belano. As entradas não têm ordem cronológica e a histórias decorrem maioritariamente na Cidade do México, mas também no Midlewest americano, Barcelona, Paris, Londres ou Telavive.

Joaquim Font, a partir da Clínica de Saúde Mental El Reposo, nos arredores da Cidade do México, diz, em Janeiro de 1977:

«Não se pode viver desesperado toda uma vida, o corpo acaba por dar de si, a dor acaba por se tornar insuportável, a lucidez escapa-se em grandes jorros frios. O leitor desesperado (ainda mais o leitor de poesia desesperado, esse é insuportável, acreditem-me) acaba por se antagonizar com os livros, acaba inelutavelmente por se transformar num desesperado sem apelo nem agravo. Ou cura-se! E então, como parte do seu processo de regeneração, volta lentamente, como que entre algodões, como que sob uma chuva de comprimidos tranquilizantes fundidos, volta, como ia dizendo, a uma literatura escrita para leitores serenos, repousados, com a mente bem centrada. A isso se chama (e, se ninguém lhe chama assim, eu chamo-lhe assim) a passagem da adolescência í  idade adulta. E com isto não quero dizer que quando nos convertemos num leitor tranquilo se deixe de ler livros para desesperados. Claro que se lê! Sobretudo se são bons, ou passáveis, ou se um amigo os recomendou. Mas, no fundo, chateiam-no! No fundo, essa literatura amarga, cheia de armas brancas e de Messias enforcados, não consegue penetrá-lo até ao coração como, por outro lado, o consegue uma página serena, uma página meditada, uma página tecnicamente perfeita.»

Mais í  frente, na página 321, André Ramirez, no bar El Cuerno de Oro, em Barcelona, em Dezembro de 1988, fala-nos de Eusébio!

«(…) por fim zarpámos e deixámos para trás a laboriosa capital portuguesa, que eu imaginava, nos meus sonhos febris, como uma cidade negra, com gente vestida de negro, com casas feitas de ébano, ou de mármore negro, ou de pedra negra, talvez porque no meu delírio febril tivesse alguma vez pensado em Eusébio, a pantera negra daquela selecção que tão bom papel desempenhara no Mundial de Inglaterra de 1966».

Na página 408, é marco António Palacios, que nos fala na Feira do Livro, em Madrid, em Julho de 1994, sobre escritores:

«Visitar os escritores nas suas residências, ou abordá-los nas apresentações de livros e dizer a cada um exactamente aquilo que ele quer ouvir. Aquilo que ele quer desesperadamente ouvir. E ter paciência, pois nem sempre funciona. Há cabrões que te dão uma palmada no ombro e a seguir se te vi não me lembro. Há cabrões duros, e cruéis, e mesquinhos. Mas não são todos assim. É necessário ter paciência e procurar. Os melhores são os homossexuais, mas, cuidado, é preciso saber em que momento parar, é necessário saber com precisão o que é que se quer, de contrário pode-se enrabado debalde por qualquer velho mariconço de esquerda».

E finalmente, a terceira parte do livro, e a mais curta, intitula-se “Os desertos de Sonora”, passa-se em 1976 e é novamente um diário que descreve a viagem de quatro amigos, incluindo Lima e Belano, em busca dos locais por onde passou e viveu Cesárea Tinajero, a pretensa primeira poeta real visceralista, seja lá o que isso for…

Fecho o calhamaço, respiro fundo, arrumo-o na prateleira, satisfeito. Foi uma boa companhia durante cerca de dois meses, mas tão cedo não vou pegar em “O Terceiro Reich”, outro do Bolaí±o que espera para ser lido…