Farto!

Por vezes estou farto das unhas dos pés pintadas de vermelho com porcaria no sabugo, das unhas sujas dos bebés de colo, da porcaria acumulada nos umbigos e entre os dedos dos pés, das manchas de sujidade nas regiões mais inacessíveis das costas, das crostas de caspa nos ombros, dos cabelos oleosos, escorridos, mal oxigenados, com as raízes í  mostra, das orelhas sujas, dos olhos ramelosos, do cheiro a sovaco não lavado, do odor a corpo e a cama e a suor retoiçado, dos restos de comida nas gengivas e nos escombros dos dentes podres, dos traços escuros nas dobras dos cotovelos e dos joelhos, dos calcanhares encardidos a arrastar chinelas de meter o dedo, das banhas pendendo sobre o púbis.

Outras vezes, encolho os ombros e ando em frente.

O ciclo das hóstias

—Portanto, é assim:

Os emigrantes comem, fazem a digestão e evacuam. Os dejectos vão para a natureza e, de um modo ou de outro, acabam por adubar a terra, fertilizando-a e ajudando o trigo a nascer e crescer.

Depois, o trigo é colhido, metido em sacos e transportado pelos emigrantes para Fátima.

Lá, nesse lugar mágico, os eclesiásticos transformam o trigo em hóstias.

Mais tarde, nas peregrinações periódicas, os mesmos eclesiásticos enfiam as hóstias nas bocas dos emigrantes.

E o ciclo recomeça.

Asneiras vermelhas

Tiago – estava triste…

Avó – porquê?

Tiago – fiz asneiras ao pai…

Avó – asneiras? Que asneiras fizeste, Tiago?

T – asneiras vermelhas…

A – asneiras vermelhas? Fizeste asneiras vermelhas ao pai?

T – é…

V – e as asneiras que fazes í  mamã?

T – são azuis…

Bela – então e as asneiras que fazes í  tia são de que cor?

T (já com sorriso malandro) – laranja…

V – e as asneiras que fazes í  avó?

T – são azuis escuras…

V – e as que fazes ao aví´?

T – são verdes…

Espectacular, este conceito de dar cor í s asneiras, conforme o membro da família envolvido. Boa, Tiago!

Especialistas

Tez morena, cabelo puxado para trás, ar de tipo vivido, camisola de alças, braços outrora musculados, com alguma gordura pendente, a descair a tatuagem de amor de mãe.

Olha para a repórter da televisão com olhos de carneiro mal-morto, se não estivesse aqui a câmara comia-te toda, e diz que já é o terceiro ano consecutivo que há incêndios neste sítio, no Gerês, e não se aprendeu nada. Se os bombeiros tivessem vindo quando eu os chamei e se tivessem começado logo a fazer o que estão a fazer agora, a coisa não tinha ficado tão complicada…

É um especialista em combate a incêndios.

Somos um país de especialistas.

Treinadores de bancada, economistas de vão de escada, doutores da mula ruça, juristas de trazer por casa, medinas carreiras da treta, filomenas mónicas armadas ao pingarelho, nunos rogeiros de pacotilha.

Nos fóruns da tsf e da sic notícias, é ouvi-los, bom dia sr. manuel acácio, a arrotar postas de pescada e a botar opinião sobre tudo, desde a crise económica até í  reflorestação da Peneda-Gerês, desde o plantel do Benfica í  falta de condições das clínicas oftalmológicas.

Não há portuga que não mande umas bocas sobre qualquer coisa e certamente que nenhum de nós conhece um que diga que não gosta de trabalhar, outro que afirme que mete baixas fraudulentas, outro ainda que afirme fugir deliberadamente aos impostos.

São sempre Os Outros e a culpa é sempre Deles.

Somos todos muito honestos, muito competentes, muito organizados, muito esclarecidos, menos os treinadores, no futebol, os dirigentes, na política, os bombeiros, nos incêndios.

Nas reportagens televisivas, vemos mulheres vestidas com batas (porque será que todas as portuguesas que aparecem nas reportagens usam bata?) correndo de um lado para o outro, de mãos na cabeça, enquanto as chamas lavram a escassos metros das habitações lá da aldeia.

E não vemos homens. Eles estão afastados, encostados aos muros, a dar entrevistas, a explicar como é que devia ser a estratégia dos bombeiros. Eles que deviam ter limpo a caruma e as garrafas de minis que deitam para o chão, eles que atiram beatas incandescentes pela janela do carro – eles são os especialistas no combate aos incêndios.

E estamos condenados a respirar o mesmo ar…

Dexter – 2ª e 3ª temporadas

—Michael C. Hall faz um Dexter perfeito.

As 2ª e 3ª temporadas desenvolvem a personagem do psicopata controlado que consegue viver em sociedade, satisfazendo a sua necessidade de matar eliminando assassinos que a justiça não consegue condenar.

Depois de ter morto o irmão, no final da 1ª temporada, Dexter vê-se obrigado a matar o seu único amigo, no final da 3ª temporada e casa-se, o que vai ser óptimo como disfarce. Quem vai desconfiar do técnico forense casado e com um filho a caminho?

Entretanto, Michael C. Hall adoeceu com um linfoma mas, felizmente, parece estar a recuperar e há-de conseguir fazer a 4ª temporada desta que eu considero uma das melhores séries ainda no ar.

Mercados

Gosto de ver mercados.

Gosto de ver as frutas e os legumes coloridos alinhados nas bancadas, os peixes, por vezes desconhecidos, com aqueles olhos esbugalhados e as bocarras abertas, os frangos sem cabeça, pendurados com as patas pendentes, e os locais fazendo as suas compras. Eles já lá estavam antes de eu entrar no mercado e vão continuar com as suas vidas, mesmo quando eu me venho embora.

La Boqueria (Barcelona), Mercado do Porto (Cuiabá), Centraltirgus (Riga), Mercato Centrale (Florença), Kauppatori (Helsínquia), Jema Al-Fna (Marraquexe), Petticoat Lane (Londres), são alguns dos mercados por onde já passei.

Algumas notas e respectivas fotos em Já Lá Estive, pesquisando a “tag” mercados.

Silly judge season

É tradicional: o mês de Agosto é o mês de notícias ainda mais patetas.

Há pouco material noticioso, a não ser os incêndios, a violência doméstica (24 mulheres assassinadas desde Janeiro pelos respectivos companheiros), a catástrofe dos incêndios na Rússia, as inundações na Polónia, na Alemanha e no Paquistão, o regresso de Fidel Castro, após quatro anos de retiro, a possível tensão bélica entre a Venezuela e a Colí´mbia, a divulgação na comunicação social de milhares de documentos secretos do exército norte-americano – mas, enfim, sem ser isto, que não interessa nada, pouco há para noticiar.

É, portanto, nestas alturas, que os jornais e as televisões se viram mais para os fait-divers, para a pequenina notícia idiota que, em outras alturas, passaria despercebida.

Chama-se a isto a silly season.

Mas esta silly season tem um atractivo: os juízes.

Não se entendem.

Por causa do Freeport, zangaram-se a sério. De um lado, Pinto Monteiro e Cândida Almeida; do outro, o sindicatos dos juízes.

Os procuradores encarregados do Freeport arquivam o processo, publicando um despacho em que dizem que não tiveram tempo, em 6 anos, para questionar o 1º ministro; Pinto Monteiro diz que manda tanto como a rainha de Inglaterra; ontem o Expresso dizia que Cândida Almeida negociou a não inquirição a Sócrates, em troca da publicação das perguntas que lhe deveriam ter sido feitas; o DN diz hoje que, segundo os ingleses, os procuradores portugueses não percebiam nada do processo e estavam mas era preocupados em afirmar a sua independência…

Silly judges!…

PS – este post deve ser lido tendo, como música de fundo, aquela célebre estrofe: “se tu visse o que eu vi/ í  porta do tribunal/ as cuecas do juiz/ embrulhadas num jornal”

Os poderes de Pinto Monteiro I

Pinto Monteiro I (leia-se “Primeiro”) diz que tem os mesmos poderes que Elizabeth II (leia-se “Segunda”).

Não está satisfeito e compreende-se.

Eu também não estaria.

Ser considerado o chefe dos procuradores e ser gozado por todos eles, estar no topo da pirâmide e ter um Sindicato a roer-me os calcanhares!…

Não sei porquê – preconceito, se calhar – sindicato cheira-me a suor, sovacos molhados, pêlos no peito, punhos no ar, dentes amarelos, bocas vociferantes expelindo perdigotos.

Caricaturas, eu sei…

Porque este sindicato dos procuradores é fato e gravata de seda, relógios automáticos, cabelo bem penteado, cuecas Armani (borradas na mesma, mas isso é outra questão, parecida com a história da lágrima do António Gedeão…).

E então, Pinto M onteiro I (leia-se “Primeiro”) quer outros poderes.

Por exemplo: a audição do Super-Homem, para poder fazer escutas sem precisar dos tipos da Judiciária.

Por exemplo: visão RX, para ver através das paredes e antecipar as tramas que lhe estão a tramar.

Por exemplo: poder voar.

Voar daqui para fora!

Santa ingenuidade…

Eu sei que parece ingenuidade, mas reparem:

– o Bruno Alves foi vendido ao Zenit de São Petersburgo por 22 milhões de euros (obrigado, tovarich! os relvados portugueses vão ficar muito mais seguros!)

– o Miguel Veloso foi vendido ao Génova por 9 milhões

– o Sporting comprou Zapater por 2 milhões

– o Benfica vendeu o Ramires por 20 milhões ao Chelsea e comprou o Rodrigo, ao Real Madrid, por 6 milhões

– o Porto comprou o avançado Walter por 3,7 milhões

– o Braga vendeu o Eduardo ao Génova por 4,5 milhões.

Só aqui estão contabilizados mais de 60 milhões de euros.

Crise? Qual crise?