É Carnaval, ninguém leva a mal?

* Patrões querem que seja legal despedir para renovar os quadros

* Irão inaugura centro espacial e lança foguetão

* Berlusconi espera voltar ao poder

* Houve cinco abortos na Madeira em Janeiro, o primeiro mês da aplicação da nova lei

* Tribunal recusa indemnização a Pinto da Costa

* Um filho pode custar 236 euros/mês durante 25 anos, segundo um estudo de uma equipa de psicólogos de Coimbra

* Mais algarvios vão receber tratamentos em Cuba

* Começam amanhã as comemorações dos 400 anos do padre António Vieira (velho como a merda, este padre!)

* Cientistas criam um ratinho que apanha constipações

* Google oferece ajuda í  Yahoo! para recusar a oferta da Microsoft

(Todas estas informações foram recolhidas das “gordas” da edição de hoje do Público)

Telmo, o Despachado

santana_telmo.jpgO Público de hoje diz que, na madrugada do dia em que o Governo de Sócrates tomou posse, Telmo Correia – ministro do Turismo do Governo deposto do Sr. Lopes – assinou 300 despachos.

Ao longo de dez dias, Telmo não pí´s os pés no Ministério e, logo na noite em que foi despedido, foi a correr assinar três centenas de despachos!

Entre esses 300 despachos constaria aquele que ofereceu aos donos do Casino do Estoril a concessão do edifício onde está instalado, agora, o Casino de Lisboa que, como se sabe, era para ficar no Parque Mayer, depois do negócio com a Bragaparques. Isto não tem nada a ver com o facto do chefe da ASAE ter sido fotografado a fumar no Casino Lisboa, na noite em que a nova lei do tabaco entrou em vigor e de ter afirmado que, nos Casinos, a lei não se aplicava e, depois, o Director Geral da Saúde, Francisco George, que tinha dito que se demitiria se a lei não fosse cumprida, acabar por dizer que, afinal, nos Casinos, por causa de uma lei qualquer do jogo, se podia fumar em sítios pré-determinados. E claro que isto também não tem nada a ver com os contactos entre o presidente da Câmara de Lisboa, Santana Lopes, e o arquitecto Frank Ghery, que foi contratado para transformar o Parque Mayer, mas depois ficou tudo em águas de bacalhau e o Sr. Lopes foi para primeiro-ministro e Carmona Rodrigues ficou no seu lugar e já não me lembro do resto. E isto também não tem nada a ver com o negócio dos submarinos do Paulo Portas e do Jacinto Leite Capelo Rego, nem tem nada a ver com Nobre Guedes, os sobreiros, o Abel Pinheiro, o caso Portucale, o bastonário Marinho Pinto e a frase que ele repetiu duas vezes (“ele assina qualquer merda”).

O facto de Telmo Correia ter assinado 300 despachos na madrugada do dia em que foi despedido, não tem a ver com nada.

Sinceramente, nem sei por que raio é que os jornais continuam a publicar merdas destas!

Recados a Ana Jorge

Não sei se a Ana Jorge se lembra de mim. Chegámos a ser colegas, no H. D. Estefânia e já nos cruzámos várias vezes no H. Garcia de Orta.

Se calhasse falar com ela neste momento, em que acaba de ser nomeada ministra da Saúde, gostaria de lhe dar algumas dicas.

E quem sou eu para dar conselhos í  ministra da Saúde?

Bom, sou um colega, médico há 30 anos, médico de família há 23 anos, trabalhando num Centro de Saúde situado junto a três bairros sociais multi-étnicos, Centro de Saúde esse que faz cerca de 80 mil consultas por ano, com apenas 10 médicos.

Como médico, tenho estado sempre presente nas várias reformas dos Cuidados Primários, desde o Serviço Médico í  Periferia ao Projecto Alfa e ao RRE. Agora, a Unidade de Saúde onde trabalho foi aprovada como USF, modelo B.

Portanto, penso não ser pretensiosismo dar-lhe os seguintes conselhos:

As Unidades de Saúde Familiares poderão ajudar a resolver o principal problema dos Cuidados Primários de Saúde: os utentes sem médico de família; poderão, também, responder melhor í s necessidades das populações, evitando idas aos SAP.

No entanto, para que as USF resultem não podem continuar a estar sujeitas ao regime de voluntariado. No concelho onde trabalho, existem 5 USF e 7 Extensões de Saúde que nunca irão aderir a esta reforma. Para quê? O que poderá levar médicos na casa dos 50 anos a embarcar em mais uma reforma, sujeitando-se a ver o seu trabalho avaliado por outros colegas, se podem continuar na sua rotina?

Correia de Campos conseguiu 100 USF em ano e meio. A esta velocidade, a minha geração de médicos atinge a idade da reforma antes da reforma dos CSP estar concluída!

Além disso, a actual reforma pode levar í  distinção entre utentes de primeira (os que têm a “sorte” do seu médico de família fazer parte de uma USF) e utentes de segunda (aqueles cujo médico não aderiu a nenhuma USF ou os que nem médico de família têm…).

Não consigo perceber como é que o Ministério da Saúde convive bem com o seguinte: é exigido í s USF, modelo B, que registem as hemoglobinas glicosiladas dos seus doentes com diabetes; se, pelo menos, 80% desses doentes tiverem esse valor registado nos últimos três meses, haverá lugar ao pagamento de um incentivo. Parece-me correcto. Estimula os médicos a pedirem e registarem a análise que mais diz sobre o controlo da doença.

E quanto í s restantes Unidades de Saúde que não são USF, e que são a maioria – nessas, o registo das hemoglobinas glicosiladas já não tem importância?

De facto, passam a existir utentes de primeira e utentes de segunda – e com a agravante de não poderem escolher.

Portanto, o que há a fazer é generalizar algumas das regras das USF, e transformá-las em lei, a saber:

1. Os médicos de família passam a ter listas de, no mínimo, 1800 utentes, em vez dos actuais 1500.

2. Os vencimentos da equipa de saúde (médicos, enfermeiros e administrativos) passam a estar indexados í s listas de utentes ponderadas (é muito diferente gerir uma lista de idosos ou gerir uma lista onde predominam os jovens adultos).

3. Haverá incentivos sempre que sejam cumpridos os indicadores previamente contratualizados (número de gravidezes, consultas de Planeamento Familiar, taxa de cobertura, etc).

4. Os indicadores serão avaliados de forma ágil e simples, através dos registos informáticos, pelo que serão escolhidos indicadores fáceis de avaliar desta maneira. Isto quer dizer que não serão necessárias grandes equipas de “cientistas” para fazer essas avaliações – por outras palavras, sobram mais médicos para o terreno. A propósito: quantos médicos de família estão, neste momento, integrados nas comissões, subcomissões e outras coisas acabadas em “ões” e que, por conseguinte, não fazem consultas?

5. Os vários elementos da equipa de saúde intersubstituem-se nas ausências por doença, férias ou formação, só havendo lugar a horas extraordinárias quando houver uma ausência inesperada superior a duas semanas.

6. Todas as Unidades de Saúde que tenham dimensão suficiente, terão que estabelecer escalas de modo a que possa haver uma resposta í s doenças agudas, das 8 í s 20 horas, todos os dias úteis.

7. Aos sábados, domingos e feriados, as diversas Extensões de Saúde de uma mesma região, deverão organizar-se, de modo a oferecerem resposta í s situações de doença aguda, em rotatividade.

São apenas 7 dicas.

Li algures, num jornal desta semana, que a nova ministra da Saúde teria “sensibilidade e bom senso” na condução da política de saúde.

Espero bem que sim.

Mas não quero deixar de acrescentar que as reformas feitas pelos próprios profissionais tendem, muitas vezes, a esquecer que o objectivo dessas mesmas reformas deve ser o utente, e não o profissional.

Eu vi um SAP!

correiadecampos.jpgNão aguentou a pressão! Tantos grupos de trabalho, tantas inteligências í  sua volta, tantos colaboradores e ninguém o avisou que um SAP, neste momento, vale tanto como a capelinha ou a taberna.

Qualquer lugarejo que se preze tem que ter os seus locais de culto: um sítio para rezar pelas alminhas, um outro para emborcar os seus púcaros e, finalmente, um serviço de urgência, onde se possa ir mostrar a unha encravada ou o joanete de estimação.

O Sr. Campos não realizou a força dos SAP. E o SAP engoliu-o.

Tentou fazer passar a ideia de que, caso se tenha uma dor no peito suspeita de enfarto do miocárdio, é mais seguro chamar o INEM do que ir ao SAP lá do sítio. A malta quer morrer no SAP, caramba! Como muito bem disse o autarca de Anadia: «já nem se tem a dignidade de morrer num hospital!»

Eu sou dos antigos. Eu sou dos que pensam que a morte não tem dignidade nenhuma. Mas, já que tenho que morrer, prefiro que seja em casa.

Agora, a Dra. Ana Jorge aceitou o cargo e já disse que a política de saúde é para continuar.

Se é para continuar, por que raio é que o Sr. Campos se foi embora?

Enfim… tinha tanta coisa para dizer sobre isto mas, acreditem, estando por dentro de tudo, estou tão farto que não me apetece dizer mais nada.

O CDS e a unidose

portas_supositorio1.jpgE por que será que o CDS quer a unidose?

Quantos comprimidos para controlar a tensão hei-de eu receitar a um hipertenso: 30 para um mês, 60 para dois meses ou 365 para o ano inteiro? E quantos comprimidos receito para uma dor de dentes?

Se não me engano, neste momento, só os anglos-saxões continuam a usar as unidoses e, pelo menos em Inglaterra, já se fala em deixar essa velha mania.

Desde que houve o redimensionamento das embalagens, já há caixas com 10, 30 e 60 comprimidos de anti-inflamatório, caixas de 10, 20 e 60 de analgésicos, caixas de antibiótico para tratamentos de 3, 6, 7 ou 10 dias.

O problema é que há médicos que, distraidamente, prescrevem embalagens grandes quando uma pequena chegaria para uma dada situação.

O problema é que há doentes que continuam a não tomar a medicação até ao fim.

De qualquer modo, fiquei com a pulga atrás da orelha: por que raio é que o CDS quer a unidose?

Cinco meses sem fumar

A sensação de liberdade é magnífica!

Não estar sempre í  espera do momento para fumar mais um cigarro, não cheirar a tabaco, não ter a boca a saber a almanaques Bertrand de 1923 e seguintes, não ressonar, não tossir, não ficar a arfar depois de subir uma ladeira, não andar sempre í  procura do isqueiro, não ter cinzeiros para despejar, não sentir o coração a bater descompassado depois de três cigarros seguidos, não ser olhado de lado pelos próprios filhos, não estar com medo de queimar o sofá com o morrão do cigarro, não ter buracos no tapetes do carro, ter menos pedra nos dentes, não ter os dedos amarelos, não ter que me chatear por causa da hipocrisia da lei anti-tabaco…

…poupar cerca de dois mil euros/ano…

Santa Clara, a Velha e a costa vicentina

A barragem de Santa Clara, no concelho de Odemira, tem uma albufeira linda e, nas margens, uma Pousada muito tranquila e competente.

As torres elevatórias da barragem fazem lembrar uma obra da engenharia soviética ou algo da Dharma Iniciative.

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De manhã cedo, a neblina sobrevoa as águas da albufeira e dão-lhe um ar lúgubre.

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Para chegar í  costa vicentina, tem que se percorrer uma estrada com curvas e contracurvas. Podemos começar por Vila Nova de Mil Fontes, onde o Atlântico tenta empurrar o rio Mira de volta para o continente, em vão.

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No Cabo Sardão, há um farol, um campo de futebol de terra batida (as bolas fora vão parar ao Atlântico) e cegonhas que fazem ninho mesmo ali ao pé da rebentação.

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A Zambujeira é mais bonita quando está deserta.

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“Viagens no Scriptorium”,de Paul Auster

viagens.jpgQuando se tem uma carreira firmada, já se pode brincar um pouco consigo próprio, e vender livros na mesma.

Neste pequeno livro, de cerca de cem páginas, Auster conta-nos uma história sem princípio nem fim – tem apenas o meio: um velhote, fechado num quarto, com a memória muito afectada, aparentemente culpado de alguns crimes. Decidiu chamar-lhe Mr. Blank (vazio) e, pelos vistos, este velhote poderá ter sido o culpado de algumas das personagens que Auster criou, nos seus romances anteriores.

Ou não.

Mas há uma grande história, que vale toda a narrativa: um homem vai, todos os dias, ao mesmo bar e pede três whiskies, que bebe, de enfiada. Intrigado, o empregado do bar, perde a vergonha e, ao fim de alguns dias, pergunta-lhe por que motivo ele pede três whiskies e os bebe, de enfiada, em vez de beber um whisky e, só depois, pedir outro. O homem explica-lhe que tem mais dois irmãos, a viver longe e que os três combinaram, a uma determinada hora do dia, beberem um whisky em honra de cada um deles.

Os meses passam-se e, ao fim de algum tempo, o homem pede só dois whiskies, em vez de três. O barman pensa que um dos seus irmãos talvez tenha morrido, mas não tem coragem para perguntar. No entanto, a sua curiosidade é mais forte e, alguns dias depois, acaba mesmo por perguntar, por que razão o homem passou a pedir só dois whiskies – será que lhe morreu algum dos irmãos? Qual quê! exclama o homem. Os meus irmãos estão óptimos. Eu é que deixei de beber!

Cinco estrelas!

Um cheiro nunca visto!

Os telejornais rejubilaram: um cheiro a gás invadiu parte da cidade de Lisboa. Vários edifícios foram evacuados. Vieram os bombeiros, a polícia, a protecção civil e, claro, os jornalistas. Repórteres histéricos entrevistavam transeuntes em pânico, ninguém sabia, ao certo, o que se passava, mas diversos “especialistas” de bigode e cara de caso, levantavam tampas de esgoto e mergulhavam aparelhos de medição, em busca do gás – porque tinha que ser um gás.

Nos dias anteriores, os mesmos telejornais tinham transformado em notícia nacional, uma explosão e fuga de gás num bairro, em Évora. Portugal é, de facto, uma pequena paróquia e um traque do padre é notícia nacional.

Ora, como no tal bairro de Évora, a fuga do gás fora para os esgotos, talvez o mesmo se estivesse a passar em Lisboa. Evacuou-se uma Universidade, chegou a temer-se pela segurança do Hospital de Santa Maria e seus doentinhos.

A repórter da RTP-1, uma loira, que também acompanhou o caso Maddie, esganiçava-se para a câmara, em directos sobre coisa nenhuma, porque não havia coisa nenhuma para noticiar.

A causa do cheiro a gás, afinal, provinha de um frasco partido de ácido sulfídrico, que alguém deitou nas traseiras da faculdade de Farmácia.

Como dizia uma testemunha, í  beira do colapso, “foi um cheiro que nunca visto!”

Podem crer: quando um cheiro for visto, os jornalistas atingirão o orgasmo!

Em directo.