“The Queen”, de Stephen Frears

rainha.jpgO filme é, sobretudo, um show de Helen Mirren, que faz uma rainha muito convincente.

Mas tem mais coisas que valem a pena: a ascensão de Tony Blair (“por favor, trate-me por Tony”), na sua posição quase esquizofrénica de querer, simultaneamente, a “modernidade” e a continuidade daquela família real; o espanto da chamada rainha-mãe e do marido da rainha, perante as manifestações de apoio a Diana, após a sua morte, incapazes de perceber o que se estava a passar; o próprio fenómeno mediático que foi a morte de Diana que, de certo modo, inaugurou uma nova espécie de notícia – a notícia que, embora tenha um facto real como base (a morte da princesa de Gales), é potenciada pela comunicação social, até se transformar em algo autónomo que, no final, já pouco tem com a notícia em si (veja-se o caso do desaparecimento da miúda inglesa, no Algarve).

Filme escorreito e sóbrio, como é habitual nos trabalhos de Frears.

Sexo por votos

Leio, no Sol, que Tânia Derveaux, candidata ao Senado da Bélgica, promete 40 mil relações sexuais a quem votar nela, “numa campanha de protesto contra as promessas eleitorais exageradas”.

Fui í  procura do site da Tânia e está aqui: http://www.nee-antwerpen.be/index-eng.htm.

Afinal, o que a Tânia oferece, em troca dos votos, é um broche (blowjob é isso mesmo, não é?).

Ora aqui está uma ideia que podia animar a campanha pela Câmara de Lisboa.

Cada candidato poderia oferecer, aos seus eleitores, aquilo que sabe fazer melhor. Tania faz broches e vamos supor que os sabe fazer bem. Portanto, é isso que ela oferece aos eleitores, em troca de votos.

Seguindo o exemplo da menina Derveaux:

António Costa podia oferecer combates a incêndios. Sempre que uma dona de casa tivesse a fritadeira a arder, telefonava ao Costa, que mandaria lá a casa uma corporação de bombeiros, só para ela.

Fernando Negrão, com aquele seu ar vagamente sedutor de ex-inspector da Judiciária, oferecia investigações, com aquelas luzes azuis para detectar manchas de esperma e aqueles pincéis tóteis para detectar impressões digitais.

Telmo Correia, assim de repente, não sei se sabe fazer alguma coisa bem feita, mas, pelo seu ar, talvez pudesse oferecer botões de punho ou assim.

A arquitecta Helena Roseta, está-se mesmo a ver, que podia oferecer maquetas para a marquise ou para o anexo, a todos os moradores de Camarate e Chelas que votassem nela.

Manuel Monteiro oferecia discos da Dina, que é aquela cantora com escoliose que, desde o século XVIII, compõe os hinos de todas as agremiações a que Monteiro preside.

Gonçalo da Câmara Pereira também iria para os discos, de fado, claro.

Ruben de Carvalho e Sá Fernandes teriam pouco para oferecer, em troca dos votos, mas talvez se arranjasse uns autocolantes e umas bandeirinhas, ou mesmo umas canetas com a efígie do Che (ainda ontem comprei uns chinelos com a cara do Che estampada; agora, ando com o Che a meus pés…).

Enfim, não seria tão divertido como trocar felacios por votos, mas podia ser que animasse a malta – que é o que faz falta, caramba!

“The Devil Wears Prada”, de David Frankel

diabovesteprada.jpgSe o diabo veste Prada, será que deus veste Boutique da Alcofa?

É esta a grande questão de mais um filme tipo gata borralheira. A menina-que-não-quer-saber-da-moda-para-nada, mas que quer ser uma grande jornalista (Anne Hathaway), arranja emprego como assistente da directora de uma grande revista de moda, a Sra. D. Miranda (Meryl Streep).

A Sra. D. Miranda quase nunca olha ninguém nos olhos, nunca levanta a voz, dá ordens e não tolera que a ponham em causa.

A gata borralheira, a pouco e pouco, aprende a vestir-se com estilo, arranja o cabelo e até fica com a cintura mais fininha: está a subir na vida e na consideração da D. Miranda. Até vai com ela para Paris e para a cama com um D. Juan nova-iorquino. Mas perde o namorado e a dignidade.

Então, desiste do emprego, volta a vestir-se como antigamente e reconquista o namorado.

A D. Miranda escreve-lhe uma carta de recomendação e a gata borralheira arranja emprego como jornalista no New York Mirror.

Se não estivéssemos de férias, o dvd bem podia ter ficado na prateleira do videoclube.

Tantos cães a um osso

Como é possível que um Câmara falida e com dívidas até ao tecto, tenha tanta gente a querer ocupar o cargo de presidente?

O PS não brinca em serviço e avança com a candidatura do nº2 do Governo, aquele senhor moreno que usa camisas e fatos um número abaixo.

Marques Mendes levou várias negas e acabou por ver a coisa preta; vai daí, convidou Negrão, que era vereador da Câmara de Setúbal e o homem aceitou porque, para ele, qualquer cidade serve, desde que tenha emprego.

O PCP avança com Ruben de Carvalho e o Bloco, com Sá Fernandes – escolhas lógicas.

O PPM apresenta o fadista Gonçalo da Câmara Pereira, que tem a vantagem de já ter a Câmara no nome.

O PDN (que é isso?…) concorre com Manuel Monteiro, um homem do Norte para endireitar Lisboa.

O CDS vai decidir hoje quem será o seu candidato, mas tem muita gente disponível: Teresa Caeiro, Luís Nobre Guedes, Telmo Correia e o próprio Paulo Portas que, ontem, ao Telejornal, fez questão de referir estes nomes por ordem alfabética (betinho…)

E ainda há a Helena Roseta que, de repente, está muito preocupada com o estado da capital do país.

E parece que aquele senhor que não gosta de pretos também vai concorrer mas, com esse não me posso meter, porque ainda acabo por ser perseguido por dois calmeirões carecas.

Ai pode, pode…

Posso ouvir, em meia hora, o seguinte: “Vibe Boogie” (Lionel Hampton), “Autoharp” (Hooverphonic), “I Have Not Been to Oxford Town” (David Bowie), “Glorious Pop Song” (Skunk Anansie), “Lonesome Road” (Stan Kenton), “Hurricane Eye” (Paul Simon) e “Suzie Q” (Creedence Clearwater Revival)?

Ai posso – no meu iPod.

Já lá estão 11 107 músicas e ainda tenho 40 gigas livres.

É chegar a casa, ligar aquele pequeno rectângulo branco e deixar que seja ele a escolher aleatoriamente a música que vou ouvir. Agora, por exemplo, o B.B. King está a acabar o seu “Outside Help”, ao vivo, em Kansas City, em 1972 e, já a seguir, os Stones atacam “Thief in the Night”.

Grande invenção, esta!

House – 2ª série

house2.jpgGregory House está mais ácido, nesta 2ª série, mais politicamente incorrecto, mais egocêntrico, mais insuportável, mais zangado com o mundo, mais solitário – pior da perna, literalmente.

Os temas de cada episódio são, nesta 2ª série, ainda mais raros e até um pouco inverosímeis, como o caso do síndrome de Erdheim-Chester que, ainda por cima, está mal apresentado. De facto, este síndroma raríssimo é apresentado, na série, como tendo início súbito, o que é falso e, no fim do episódio, House manda os seus discípulos administrarem o respectivo tratamento, que não existe. Além disso, a situação do doente agrava-se quando lhe é administrado o interferão, que é uma das poucas coisas que, de facto, melhoram a situação destes doentes. Finalmente, o doente em causa é uma criança, enquanto a idade média de aparecimento de Erdheim-Chester é aos 50 anos.

Claro que eu também não sabia nada disto. Os argumentistas de House devem ir ao Livro das Doenças Esquisitas procurar inspiração, o que não tem mal nenhum, já que o interesse da série se centra na personagem do House; os doentes e as suas doenças são meros elementos decorativos.

Acrescente-se que a legendagem tem erros crassos, com frequência irritante; “kidney” é traduzido por fígado, “hipotyroidism” é traduzido por hipertiroidismo e outras barbaridades.

Apesar de tudo isto, House continua a ser uma das melhores séries de tv desta nova vaga norte-americana.

Chegou a vez do sexo oral

Um grupo de cientistas engraçadinhos da Escola de Saúde de John Hopkins, Baltimore (a mesma onde se formou o Dr. House), chegou í  conclusão que fazer sexo oral aumenta a probabilidade de se contrair cancro na garganta.

Já não bastava o tabaco e o whisky – agora também já não podemos dar beijinhos da pilinha ou no pipi das nossas companheiras(os)!

Segundo o estudo que os engraçadinhos realizaram, os indivíduos que tiveram sexo oral com um a cinco parceiros, têm o dobro das possibilidades de contrair cancro da garganta, em relação aos que (idiotas!) nunca praticaram sexo oral.

Esta conclusão é um pouco perversa. Quer dizer, se eu já coloquei a minha língua no pipi da minha namorada, tenho o dobro do risco de ter cancro. Portanto, já agora, perdido por cem, perdido por mil: vou mas é colocar a minha língua nos pipis de mais quatro meninas. O risco é o mesmo! Mais é que não! Segundo o mesmo estudo, se praticares sexo oral com mais de seis parceiros, as hipóteses de cancro sobem 250%!

A culpa de tudo isto parece ser do vírus do papiloma humano que, pelos vistos, também se pode transmitir através do sexo oral.

E o mais engraçado (ou trágico?) do estudo, é que os cientistas tiveram o cuidado de fazer um inquérito a todos os indivíduos estudados, a fim de não enviesar os resultados com o eventual consumo de tabaco e álcool que, como se sabe, são os maiores responsáveis por cancros da garganta (ou eram?).

Portanto, agora, para além de termos, em locais públicos, sítios especiais só para fumadores, passaremos a ter, também, áreas restritas para praticantes de felacio e de cunilingus.

Eu tenho andado a avisar…

“Pastoral Americana”, de Philip Roth

pastoralamericana.jpgSeymour Levov, conhecido como o Sueco, é um judeu norte-americano bem sucedido. Na escola, era o ídolo dos colegas, membro destacado das equipas de futebol americano e de basquetebol. Herdou, do pai, uma fábrica de luvas, em Newark, e foi um patrão exemplar, não discriminando empregados, quer pelo sexo, quer pela etnia. Casou com Dawn, uma católica – e aí, teve que afrontar o pai, muito mais ortodoxo do que ele e para quem foi muito difícil aceitar uma nora não judia. Mas Dawn era linda, tinha sido Miss New Jersey e revelou-se uma esposa exemplar, tomando conta de uma quinta, onde criava vacas.

Levov era o retrato do norte-americano feliz e realizado, sempre fazendo “the right thing”. Depois nasceu a filha, Merry e a família viveu feliz e próspera até começar a guerra do Vietnam e Merry, que entretanto chegara í  adolescência, se ter transformado numa militante radical anti-guerra.

Merry levou o seu radicalismo ao extremo, colocando uma bomba na estação de correios que, ao explodir, matou acidentalmente um médico idoso e respeitado em toda a comunidade judaica. Merry passou í  clandestinidade, foi responsável por outros atentados, nos quais morreram mais três pessoas e, anos depois, abraçou a religião Jain, não comendo seres vivos e recusando-se a tomar banho, para não conspurcar a água.

Levov viveu anos de desespero, sem saber onde parava a filha, sem compreender a sua atitude, mas sempre fazendo “the right thing”.

Nem sempre os bons são recompensados, nem sempre a “normalidade” gera “normalidade”, não está escrito, em lado nenhum, que a vida é justa.

Roth é um dos meus escritores favoritos e, neste livro, para além de ser torrencial, como de costume, interpreta muito bem os sentimentos de um homem que não consegue perceber o que fez de errado para merecer uma filha assim. Se calhar, na vida, uma coisa não tem que forçosamente levar a outra.

Com este livro, Roth ganhou o Prémio Pullitzer, em 1998. A edição portuguesa é da D. Quixote, com tradução de Maria João Delgado e Luisa Feijó.

Letra de doente

A famosa letra de médico está a transformar-se em letra morta.

Com o advento dos programas informáticos de saúde, as receitas são passadas no computador e toda a gente percebe a letra do médico que, no fundo, já não é dele – é um “times new roman” qualquer.

A dificuldade, agora, reside em os médicos perceberem a letra dos doentes. Sobretudo, quando recebem papelinhos como este:

odescopia.jpg

“Sr. Doutora pedia o fabor de me passar uma crendencial Odescopia alta com biopecia.”

Um odescopia, o que será? Ainda por cima, alta. E uma biopecia?

Será que odescopia será um exame í  poesia, em forma de odes?

Seria uma ideia interessante: introduzir um endoscópio numa ode qualquer de um qualquer poeta.

Mas não é.

O doente queria escrever algo de muito menos romântico, porém, bem mais incómodo: “endoscopia alta, com biópsia”.

Enfim… letra de doente…