“A História Íntima do Orgasmo”, de Jonathan Margolis”

orgasmo.jpgDepois de termos lido “A História da V.”, nada melhor do que ler esta História do Orgasmo. Uma coisa leva í  outra, não é?

Margolis é apresentado como colaborador do Guardian, Financial Times e Time e publicou este livro em 2004.

É um livro curioso, que analisa a visão do orgasmo, ao longo da história da civilização. Como o seu próprio autor diz: “apesar da sua importância como ícone em quase todas as culturas e países do mundo, nunca se produziu uma tese definitiva sobre o orgasmo – sobre o pouco que se conhece da sua história altamente secreta, da sua biologia, antropologia, psicologia, tecnologia e sociologia, sobre o seu papel cultural e a sua literatura. Por essa razão, escrevi este texto, além do facto de gostar muito de orgasmos”.

Algumas citações, para dar o tom do livro.

Das vantagens do orgasmo:

“Diz-se que o orgasmo tem as mesmas vantagens mentais e físicas que uma corrida de oito quilómetros, graças ao incremento do ritmo cardíaco equivalente a um intenso exercício aeróbico. (…) Aparentemente, os orgasmos melhoram a respiração,  a circulação, o sistema cardiovascular, a força, a flexibilidade e a massa muscular. Diz-se também que produzem um brilho no olhar, no rosto e nos cabelos, além de aliviarem os sintomas de perturbações menstruais, osteoporose e artrite. Os orgasmos podem até ajudar a perder peso, uma vez que a adrenalina libertada durante o orgasmo reduz a glucose responsável pela acumulação de gorduras.”

Das mulheres pretensamente insaciáveis e multi-orgásticas, citando Donald Symons:

“A mulher sexualmente insaciável encontra-se principalmente, se não mesmo exclusivamente, na ideologia feminista, nas esperanças dos rapazes e nos receios dos homens”.

Das ideias puritanas sobre o “excesso” de actividade sexual:

“(Sylvester) Graham (o americano dos flocos de aveia) acreditava (…) que a masturbação reduzia a esperança e vida e conduzia í  insanidade mental, e que os casais com excesso de actividade sexual seriam atacados de ‘languidez, lassidão, distensão muscular, debilidade e obesidade gerais, depressão de espíritos, perda de apetite, indigestão, desmaios e inanição, susceptibilidades acrescidas da pele e dos pulmões a todas as alterações atmosféricas, debilidade circulatória, calafrios, dores de cabeça, melancolia, hipocondria, histeria, debilidades de todos os sentidos, estrabismo, perda de visão, debilidade respiratória, tosse convulsa, redução pulmonar, perturbações hepáticas e renais, dificuldades urinárias, perturbações dos órgãos genitais, doenças da coluna, perda de memória, epilepsia, insanidade mental, apoplexia, abortos, partos prematuros, debilidade extrema, predisposições mórbidas e uma morte precoce dos filhos”.

Não era nada exagerado, este Graham, pois não?

Da obsessão anti-masturbaçãos dos puritanos:

“O Treatment of Masturbation, de 1900, da autoria do Dr. Sturgis, incentivou o uso de uma espécie de cinto de castidade masculino: ‘puxa-se o prepúcio bem para a frente, introduz-se o indicador esquerdo profundamente até í  base da glande e, do exterior, perfurando a pele e a membrana mucosa, insere-se um alfinete de segurança revestido a níquel, atravessando horizontalmente em um centímetro até encontrar o dedo indicador do outro lado. Finalmente, coloca-se outro alfinete, pelo lado oposto do prepúcio, que se ajusta ao anterior. Qualquer tentativa de erecção provocará um dor intensa que tem um efeito dissuasor da masturbação.”

Simpático, este Dr. Sturgis!…

Para além de estas e muitas outras curiosidades históricas, o livro dedica muitas páginas ao orgasmo feminino que, finalmente, parece liberto do estigma de Freud, que considerava o orgasmo clitorideano como imaturo, só aceitando o orgasmo vaginal, com penetração – coisa que, muito provavelmente, nem sequer existe.

Apesar de, por vezes, o livro me parecer um pouco confuso (será da tradução?), não deixou de ser uma leitura agradável e, em alguns passos, esclarecedora.

Chico Buarque – concerto no Coliseu

chico_concerto.jpgSegundo o folheto distribuído antes do concerto, Chico Buarque editou 43 álbuns, fora as inúmeras colectâneas.

São centenas (milhares?) de canções, quase todas pequenas pérolas da música popular. Se nos pedissem para escolher trinta destas canções para o concerto, muito provavelmente, cada um de nós escolheria um alinhamento diferente.

Por isso, é natural que a expectativa de cada espectador, antes do concerto, fosse diferente. Alguns gostariam que Chico cantasse “Construção”, outros prefeririam “Meus Caros Amigos”, “Apesar de Você”, “Vai passar”, etc, etc.

Chico, claro que optou pelas canções do novo álbum, “Carioca”, e juntou-lhe mais cerca de vinte temas, quase todos dos últimos 20 anos. Nada dos anos 60/70, a não ser o pouco conhecido “Mabembe”, de 1972. O tema mais antigo, daqueles que são mais populares, foi “Morena de Angola”, de 1980.

Não importa. O concerto foi muito bom e, durante duas horas, não dei pelo tempo passar.

Alguns dos pontos altos: “Imagina”, “Mil perdões”, “Ela é dançarina”, “Eu te amo”, “Grande Hotel”. E, claro, todo o “encore”, que incluiu o emocional “Tanto Mar”.

Acompanhado por dois percussionistas, um baixo, piano, sintetizador, saxofone/flauta e um excelente violão, Chico mostrou estar em forma, aos 60 anos e, como ele próprio disse, ter prazer em cantar.

Finalmente, boas notícias!

Primeira notícia boa:

Um estudo publicado na revista Science, revela que, se a pesca intensiva, a poluição marinha e a destruição dos ecossistemas prosseguir, em 2050, a totalidade das espécies de peixes estará esgotada.

Quer isto dizer que, quando eu tiver 103 anos, não mais me sentirei obrigado a comer peixe porque faz bem í  saúde!

Segunda notícia boa (aliás, muito melhor que a anterior):

Segundo um estudo da Universidade de Oklahoma, os medicamentos anti-colesterol podem proteger os fumadores das lesões pulmonares.

Há cerca de um ano que tomo, todos os dias, um comprimido de 10 miligramas de Rosuvastatina. O meu colesterol está num nível patético: 143 mg por decilitro, segundo as análises da semana passada.

E agora, ainda por cima, ao tomar esse comprimido mágico, posso estar descansado, sempre que acendo mais um cigarro, porque ele também protege os meus pulmões!

Obrigado, Rosuvastatina!

“As Loucuras de Brooklyn”, de Paul Auster

loucurasdebrooklyn.jpgAuster é um excelente contador de histórias e, em cada livro que escreve, não é nada usurário: conta-nos sempre muitas histórias.

Neste “The Brooklyn Follies”, o narrador, Nathan, é um ex-angariador de seguros, quase a fazer 60 anos, que se reforma antecipadamente por sofrer de cancro do pulmão, sem nunca ter fumado. Como Auster é fumador, percebe-se a ironia. Nat conta-nos inúmeras histórias, ao longo das quase trezentas páginas deste livro: a sua própria história, como ele acaba por vencer o cancro, como se entretém a escrever um livro, nas horas vagas, e como quase que morre de um ataque cardíaco, que afinal era uma esofagite; do seu sobrinho Tom, que tinha um brilhante futuro académico, mas acabou por se tornar taxista em Manhattan, depois, empregado num alfarrabista e, finalmente, milionário; da sua sobrinha Aurora, mãe solteira, com uma vida desregrada, cheia de namorados de ocasião, álcool e drogas, que acaba por aderir a uma daquelas igrejas cristãs fundamentalistas; de Harry, o alfarrabista, ex-presidiário, homossexual e sempre a arranjar esquemas para ganhar dinheiro com falsificações, etc, etc.

Quando acabamos de ler este livro, sentimo-nos bem, por dentro. A vida é, de facto, feita destas pequenas coisas: coisas boas e coisas más, que nos vão acontecendo; algumas delas, acontecem-nos porque nós fazemos por isso mas, a maior parte dessas coisas, simplesmente acontecem, por acaso. E o nosso papel, parece-me, é tentar domar esses acontecimentos e fazer com que eles, por mais estranhos e desesperados que sejam, acabem por nos favorecer.

Lobo Antunes e o Benfica

Lobo Antunes fala pouco. Quando fala, refere-se, quase exclusivamente, aos seus livros. É raro ouvir, da sua boca, uma opinião sobre o mundo que o rodeia. Aliás, ele próprio diz que está a ficar cada vez mais autista.

Neste contexto, a importância desta sua afirmação, na entrevista í  Pública, é de salientar:

“(…) descobri – parece-me, é cada vez mais claro – que a escolha política é a mesma coisa que a escolha de um clube, é muito mais afectiva que racional. Se fosse racional, toda a gente pensava da mesma maneira politicamente. Da mesma maneira que se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente era de um clube – na minha opinião, obviamente, toda a gente era do Benfica.”

Não posso estar mais de acordo!

Se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente seria do Benfica!

Está dito!

“Star Wars” – Exposição

Visitámos, hoje, a Exposição oficial da Lucasfilm, sobre a saga Starwars.

O mais interessante da exposição é, sem dúvida, o contraste entre as naves, os robots e os diversos bonecos do universo Lucas e o cenário proporcionado pelo Museu da Electricidade, as turbinas, os geradores, as caldeiras, os candeeiros. Temos, assim, espécimes de ficção científica, num ambiente retro.

Os objectos expostos têm um interesse relativo. Retirados do contexto, algumas peças não passam de bonecos. De qualquer modo, é curioso ver tudo aquilo e, com a ajuda dos vídeos, dos desenhos, das maquetas, imaginar como a equipa de George Lucas inventou tudo o resto. Notável, por exemplo, o modo como criaram a ilusão de uma multidão ululante, na arena das corridas de podcasters, a partir de milhares de cotonetes coloridas.

Mas, repito, a exposição vale, sobretudo, pela Central Tejo.

Gotan Project – “La Revancha del Tango”

gotan.jpgFoi graças ao “Nip/Tuck” que me decidi a comprar este cd, de que já tinha ouvido falar até í  náusea.

E não o comprei antes, exactamente devido í  enorme publicidade que rodeou a edição do disco, há cinco anos. Reajo assim, muitas vezes: quanto mais falam nas coisas, menos vontade tenho de as conhecer melhor.

Confesso, no entanto, que me despertou algum interesse, esta mistura de tango com música electrónica.

Depois, esqueci-me.

Só que a 3ª série do “Nip/Tuck” usa, em alguns episódios, “La Revancha del Tango” como música de fundo e o interesse renasceu.

É um disco curioso, que se escuta com agrado mas, penso eu, esgota a fórmula rapidamente. Embora seja um disco agradável não merece todos aqueles adjectivos que encheram a boca dos críticos.

Sei que o trio de argentinos-parisienses lançou, entretanto, mais discos, explorando o filão. Estão no seu direito, mas penso que deverá ser mais do mesmo.

“A Vida é um Milagre”, de Kusturica

vidaeummilagre.jpgOra aqui está mais um “Gato Preto, Gato Branco”, talvez não tem bem conseguido, mas divertido na mesma. Kusturica ri-se para não chorar.

A acção do filme passa durante o conflito da Bósnia e a guerra, a pobreza extrema, a destruição, tudo é vivido com aquela música de fundo, as bandas desconjuntadas sempre a tocar, os personagens todos um pouco loucos, um frenesim permanente.

A história é o que menos interessa: Luka quer transformar o “seu” caminho de ferro numa atracção turística, mas a guerra rebenta. O seu filho, Milos, que estava í  beira de ser contratado pelo Partizan de Belgrado, como grande estrela de futebol, vai para a guerra e é feito prisioneiro; a sua mulher, uma ex-cantora de ópera um pouco louca, foge com um músico húngaro; e Luka apaixona-se por uma enfermeira muçulmana, mesmo no meio dos bombardeamentos e das explosões.

Ao fundo, a música, sempre a música.