“Canadá”, de Richard Ford (2012)

canadaDell Parsons é um jovem de 15 anos que tem uma irmã gémea, Berner. Vivem com os pais numa terreola de Montana. O pai pertencia í  Força Aérea, mas está na reserva; é um tipo estranho, distante e que se dedica a alguns negócios menos limpos, como traficar carne de vaca. A mãe, é uma pequena judia que, aparentemente, tem pouco em comum com o pai.

A história é-nos contada por Dell, 50 anos depois dos acontecimentos narrados.

Os negócios estranhos do pai de Dell correm mal e ele fica a dever dinheiro a um grupo de índios violentos. Para resolver o problema, o pai decide assaltar um Banco, com a ajuda da mãe, mas a coisa corre mal.

Depois da prisão dos pais, Berner foge porque não quer ir parar a alguma família de acolhimento, enquanto Dell é levado para o Canadá, por uma amiga da mãe. E é numa pequena cidade do Canadá que Dell vai conhecer e involuntariamente colaborar com um assassino.

richard-fordRichard Ford (Jackson, Mississipi, 1944) é um romancista norte-americano que já ganhou um Pulitzer, mas do qual nunca tinha lido nada.

Canadá é uma daquelas histórias que nos agarram desde o princípio.

Será que todos somos vítimas das circunstâncias?

Gostei.

“Verão” (2009), de J. M. Coetzee

veraoJ. M. Coetzee (Cidade do Cabo, 1940) é um dos meus escritores preferidos e este Summertime é mais um bom texto com uma ideia notável.

Um biógrafo inglês está a escrever um livro sobre o falecido escritor John Coetzee, centrando-se nos anos 1972-77, altura em que o escritor tinha í  volta de 30 anos e ainda não tinha publicado nada de importante.

Nesse sentido, entrevista uma mulher casada com quem Coetzee teve um caso amoroso, a sua prima Margot, uma bailarina brasileira, cuja filha foi aluna de inglês do escritor e alguns ex-colegas professores.

Graças a essas entrevistas, conhecemos o jovem Coetzee, um homem solitário, desajustado, que vivia com o seu velho pai viúvo e que ganhava a vida com trabalhos temporários de professor.

Recomendo.

Outras obras de Coetzee: No Coração desta Terra (1976), O Homem Lento (2005), A Vida e o Tempo de Michael K. (1983), Diário de um Ano Mau (2007), A Infância de Jesus (2013), Desgraça (1999).

“O Assédio”, de Arturo Pérez-Reverte (2010)

assedioFoi com alguma dificuldade que li este romance histórico de Pérez-Reverte. São mais de 650 páginas de escrita densa e, por vezes, difícil de desbravar, sobretudo quando o autor decide inundar-nos de termos náuticos.

Exemplo (pág. 204):

“A enorme vela carangueja embate contra o mastro, dando balanços na marejada, com fortes puxões que fazem estremecer o pau e o casco preto da balandra. í€ popa, junto dos dois timoneiros que dirigem a cana de ferro forrado de couro, Pepe Lobo mantém a embarcação de capa, com o vento de proa a fazer ondular a bujarrona solta e com a longa retranca a oscilar sobre a sua cabeça. Até ele chega o cheiro dos bota-fogos que fumegam no costado de estibordo, junto dos quatro canhões de 6 libras que, por essa banda e sob supervisão do contramestre Brasero, apontam para a tartana imobilizada muito perto, a tiro de pistola, com as duas velas triangulares a ondular e com as escotas soltas.”

E trechos como este não faltam, ao longo do livro.

O Assédio passa-se em 1811, na cidade espanhola de Cádis, cercada pelas tropas de Napoleão. Cercada não será o termo certo, porque a cidade mantém a saída para o mar, o que lhe permite resistir por mais de três meses.

Nessa cidade sitiada, um assassino está a matar jovens mulheres, chicoteando-as até í  morte e os corpos vão aparecendo onde, momentos depois, há-de cair uma bomba francesa.

Um comissário de polícia muito pouco escrupuloso, persegue o assassino, acabando por conseguir apanhá-lo com a ajuda de um oficial inimigo.

Paralelamente, vamos conhecendo a história de Lolita Palma, dona de um empresa de exportação e do corsário Pepe Lobo, que quase vai para a cama com ela – e outras pequenas histórias laterais.

Pérez-Reverte documentou-se a valer e descreve, ao pormenor, hábitos, costumes, indumentária, móveis, publicações, e muito mais da Cádis do século 19 e, por vezes, a narrativa tem o tom de uma grande reportagem (o autor foi jornalista, nomeadamente repórter de guerra).

O Assédio é um bom romance histórico, embora pudesse ganhar mais ritmo se não fosse tão longo.

Outras obras do mesmo autor: O Pintor de Batalhas, O Hussardo, O Cemitério dos Barcos Sem Nome e A Rainha do Sul.

“Belos Cavalos”, de Cormac McCarthy (1992)

cormac-mccarthyConheci Cormac McCarthy com A Estrada (2006) e fiquei logo adepto da sua escrita.

Logo a seguir, o nome deste escritor norte-americano foi muito badalado graças ao filme dos irmãos Coen Este País Não É Para Velhos.

Li o livro primeiro e confesso que, tanto o livro como o filme me desiludiram um pouco. Já escrevi porquê.

Posteriormente, li Filho de Deus (1973) e Suttree (1979) e o quadro começou a compor-se.

Cormac McCarhty nasceu em 1933, mas vive há muitos anos no Texas, em Santa Fé e os seus livros são, no fundo, livros de cowboys.

Belos CavalosEste Belos Cavalos (All The Pretty Horses) é claramente um western, embora a acção decorra na segunda metade do século 20.

O herói é John Grady Cole, um jovem adolescente que ainda não completou 17 anos mas tem a maturidade de um homem feito, graças í  vida dura que leva.

John Grady passa praticamente todo o livro em cima de um cavalo, excepto durante o período em que está preso numa miserável prisão mexicana.

Grady e um amigo decidem deixar a sua terra natal e cavalgar até ao México, onde arranjam trabalho como domadores de cavalos selvagens. Depois, tudo lhes acontece.

No final, qual poor and lonesome cowboy, John Grady despede-se do amigo e vai-se embora, em direcção ao horizonte.

«Onde fica a tua terra? perguntou

Não sei, disse John Grady. Não sei onde fica. Não sei o que acontece í s terras.

Rawlins não respondeu.

Até í  vista, parceiro, despediu-se John Grady.

Seja, até í  vista.

Ficou ali de pé, a segurar o cavalo enquanto o cavaleiro dava meia volta e viu-o trotar para longe e mergulhar aos poucos na linha do horizonte.»

Gostei.

“London Fields”, de Martin Amis (1989)

London_Fields“Uma divertida história de mistério, uma sátira apocalíptica, uma meditação escatológica sobre o amor, a morte e o inverno nuclear… alternando entre o tom lírico e o obsceno, entre o coloquial e o rapsódico” (in New York Times, citado na contracapa do livro).

Pode ser que sim mas, na minha opinião, trata-se de mais um livro intragável deste escritor britânico, tão aclamado pela crítica.

Já com A Viúva Grávida tinha tido muita dificuldade em acabar o livro. Com este London Fields, desisti por volta da página 170.

Definitivamente, o estilo de Amis não se dá comigo. A história é desligada, o escritor parece esforçar-se por ter graça, mas não tem graça nenhuma e já não tenho pachorra para génios destes!

“Deixa o Grande Mundo Girar”, de Colum McCann (2009)

Colum McCann nasceu em Dublin em 1965, mas vive em Nova Iorque, onde dá aulas de escrita criativa.

Deixa o Grande Mundo GirarEm 2009 publicou este Let the Great World Spin e, com ele, ganhou o National Book Award.

É um livro notável, emotivo, uma alegoria í  tragédia do 9/11 que, apesar de ser muito “americana”, toca-nos a todos.

O livro narra diversas histórias que têm um elo comum: o facto do funânbulo francês, Phillipe Petit, ter passado de um torre gémea para outra, equilibrando-se sobre o cabo de aço, a 7 de agosto de 1974.

Este facto verídico atravessa as histórias de um grupo de prostitutas de Bronx, de dois irmãos irlandeses, um deles padre, de um juiz e da sua mulher, que perderam um filho na guerra do Vietnam e de outras personagens, cujas vidas, banais, belas e dramáticas, como todas as vidas, acabam por ter algo a ver com aquele facto insólito e extraordinário: o de alguém se atrever a passear no espaço, entre as duas torres do World Trade Centre.

Gostei muito e aconselho.

 

 

“Filho de Deus”, de Cormac McCarthy (1973)

Conheci este autor norte-americano através do surpreendente A Estrada (2006), um dos livros que mais me marcou nos últimos anos.

cormac mccarthyLogo no ano seguinte, em 2007, Cormac McCarthy foi muito falado a propósito do filme dos irmãos Coen, No Country for Old Men, baseado no seu livro homónimo, Este País Não é Para Velhos (2005).

Fui em busca de mais livros seus.

McCarthy, vencedor do National Book Award e do Pullitzer, nasceu em 1933, em Rhode Island, mas vive há muitos anos no Texas e alguns dos seus livros têm esta zona dos States como pano de fundo.

É o caso de Suttree e de Child of God, este último baseado em factos verídicos.

O livro conta-nos a história de Lester Ballard, um solitário camponês que, afastado das suas terras, e sofrendo de graves perturbações psicóticas, inicia uma série de crimes hediondos, incluindo, por exemplo, profanação de cadáveres.

Um pequeno excerto:

filho de deus«Você não é da polícia, disse o rapaz.

Isso é cá comigo, disse Ballard. O que é que vocês os dois estão a fazer aqui?

Estávamos só aqui sentados, disse a rapariga. Tinha preso ao ombro um enfeite de folhagens de gaze com duas rosas de crepe púrpura.

Estavam-se a preparar para foder, não estavam? Observou a cara deles.

É melhor ter cuidado com a língua, disse o rapaz.

Porquê? És tu que me vais obrigar?

Deita a espingarda e vais ver.

Se estás em pulgas, salta cá para fora, disse Ballard.

O rapaz curvou-se sobre o painel de instrumentos e girou a chave na ignição, fazendo o motor soltar alguns roncos.

Larga isso da mão, disse Ballard.

O motor teimava em não pegar. O rapaz levantara o braço como se fosse dar uma pancada no cano da espingarda quando Ballard lhe deu um tiro no pescoço. Ele caiu de lado sobre o colo da rapariga. Ela juntou as mãos e pí´-las debaixo do queixo. Oh não, disse.

Ballard puxou a alavanca da arma e meteu outro cartucho na câmara. Eu avisei esse estúpido, disse ele. Ou não avisei? Não sei porque é que as pessoas se gostam de fazer surdas.»

Este é o estilo de McCarthy, sincopado, frases curtas, discurso directo e indirecto misturados, o que dá um ritmo muito especial í  narrativa.

Gosto.

“A infância de Jesus”, de J. M. Coetze

John Maxwell Coetzee (Cidade do Cabo, 1940), é um dos escritores da actualidade de que mais gosto.

Dele já li várias obras e gosto da sua maneira de contar histórias.

infancia_de_jesusEste A Infância de Jesus é, também, uma boa história, que nos prende logo desde a primeira página.

Um homem de meia idade, Simon, e uma criança com cerca de 6 anos, David, chegam a uma terra chamada Novilla, que nunca se chega a saber onde fica, vindos não se sabe de onde.

David não é filho de Símon e este, apesar de nunca ter conhecido a mãe de David, está convencido que saberá quem ela é, quando a vir.

Em Novilla, toda a gente começa uma vida nova, esquecendo o passado e é lá que Símon vai conhecer Inês, que ele decide que será mãe do miúdo. Inês nunca teve filhos e, embora relutante no início, acaba por se afeiçoar a David e há-de defendê-lo como uma verdadeira mãe.

Entretanto, Símon trabalha como estivador, descarregando continuamente sacos e sacos de trigo, que depois são transportados em carroças puxadas por cavalos e armazenadas num grande armazém, onde abundam ratazanas.

Não sabemos em que período da História se passa tudo isto porque coexistem automóveis e carroças; os estivadores descarregam os navios transportando os sacos í s costas, mas já existem guindastes e, aparentemente, eles não os querem usar.

Sem que isso nunca tenha sido dito, o leitor (pelo menos eu…) é levado a pensar que Símon e David são daqueles africanos que atravessam o mar para procurarem melhor vida no sul da Europa e que Novilla, no fundo, é uma espécie de cidade de acolhimento para emigrantes. Mas pode não ser nada disto.

Pelo meio da história, outros factos estranhos são relatados, como a existência de um casa chamada La Residência, onde são proibidas crianças, e de uma Universidade, onde todos os estivadores aprendem Filosofia.

A história prende-nos do princípio ao fim e o final, í  primeira vista, pode parecer “fraco”. No entanto, tendo em atenção o título do livro, The Childood of Jesus, percebe-se a intenção do autor.

Aconselho.

Outros livros de J. M. Coetze: No Coração desta Terra (1976); O Homem Lento (2005); Diário de Uma Ano Mau (2007); A Vida e o Tempo de Michael K. (1983)

“O Quinto da Discórdia”, de Robertson Davies

RobertsonDaviesRobertson Davies (1913-1995) foi um escritor canadiano, que se notabilizou não só pelos seus romances, mas também pelas peças de teatro e crónicas jornalísticas, de cariz humorista.

O Quinto da Discórdia (Fifth Business) foi publicado em 1970 e é, sobretudo, uma história muito bem contada, que prende a nossa atenção desde o início.

O que mais me fascinou neste livro foi o facto de a história ser muito diferente do habitual: não há um grande caso de amor, não há um crime, não há nenhuma tragédia e, no entanto, o autor consegue prender a nossa atenção.

O livro conta a história de Dunstan Ramsay, desde a sua infância até í  sua reforma como professor catedrático, passando pela Primeira quinto da discordiaGuerra Mundial. Além de professor universitário, Ramsay é especialista em santos, realizando diversas viagens pela Europa, a fim de conhecer melhor a história de muitos santos.

Um episódio ocorrido na infância de Ramsay, marcou a sua história pessoal: o seu amigo Boy Staunton atira-lhe com uma bola de neve, Ramsay, baixa-se e a bola atinge a Dra. Dempster, que estava grávida. Assim nasce, prematuramente, Paul Dempster, que se há-de tornar um grande mágico, enquanto a sua mãe se transforma na louca da aldeia.

Ramsay é o “quinto da discórdia”, isto é, o elemento que, não sendo protagonista da história, tem uma importância capital no seu desenrolar.

Gostei.

“Netherland”, de Joseph O’Neill

Joseph O’Neill nasceu na Irlanda em 1964, tem ascendência irlandesa e turca, cresceu na Holanda e vive em Nova Iorque, onde é professor.

netherlandNetherland, que ganhou o Prémio Pen/Faulkner em 2009, é um livro triste que, no entanto, termina com uma nota de esperança.

O narrador é um holandês, Hans van den Borek, que vive em Nova Iorque com a sua mulher inglesa, Sara, e o filho Jake. A acção do romance começa pouco depois da destruição das Twin Towers. O apartamento onde esta família vivia, na zona da Tribeca, ficou danificado e eles vivem, agora, provisoriamente, no conhecido Chelsea Hotel.

O medo de mais ataques terroristas fazem com que Sara queira ir viver para Londres, que pensa ser uma cidade mais segura. Hans quer continuar em Nova Iorque. A relação entre o casal deteriora-se.

Hans é um entusiasta de criquet e conhece um imigrante de Trinidade, Chuck, também ele amante daquele desporto. Os dois desenvolvem uma amizade com alguns contornos estranhos.

No final da história, Hans vai para Londres e reconcilia-se com Sara.

O’ Neill não perde tempo com palavras inúteis. O tom do livro é limpo e seco, mas não desprovido de sensibilidade, pelo contrário. Hans chora, tem saudades, por vezes raiva, mas tudo muito comedido, diria, muito “holandês”.

Como diz o crítico do New Yor Times, Dwight Garner, Netherland é “the wittiest, angriest, most exacting and most desolate work of fiction we”™ve yet had about life in New York and London after the World Trade Center fell.”

Gostei.