30 dias sem fumar

Já passaram 30 dias!

A coisa vai, já só com meio comprimido de Champix ao pequeno-almoço.

Claro que não há dia nenhum que não me apeteça fumar um cigarrinho. E, ao longo de cada dia, há várias ocasiões em que um cigarro vinha mesmo a calhar. Mas bebe-se um golo de água, masca-se uma pastilha elástica, chupa-se um palito, e a crise passa.

Dois apontamentos: não é tão difícil como eu imaginava, mas só agora percebo que estava mesmo dependente da nicotina (dou por mim a pensar «tenho-me portado tão bem, que mereço um cigarro!»).

Pensamento racional: acabaram-se os cigarros porque fazem mesmo mal í  saúde e está-me a apetecer viver mais uns anos.

Emocionalmente: que se lixe a saúde! Dêem-me o meu cigarrinho de volta!

Vasco Pulido Valente escrevia, há uns tempos, que «viver sem cigarros era como escrever sem pontuação».

É uma boa imagem mas o que é verdade é que se pode escrever sem pontuação o texto talvez fique um pouco mais confuso mas não é por isso que não se consegue comunicar

Por outro lado, se o uso de vírgulas e de pontos finais (cigarros) implicar um cancro no pulmão ou na bexiga, então prefiro escrever como o Saramago.

Mais vantagens: ao fim de 30 dias está melhor o fí´lego, está melhor o hálito, está melhor o cheiro e está melhor a performance em geral (e também essa, em particular…)

Outra grande vantagem: já posso dar grandes beijos no meu neto sem estar com receio que ele se enjoe com o cheiro a Marlboro.

E o meu neto até já tem um dente!

Só uma nota final: continuo com saudades e cheira-me que vou continuar com saudades. Tenho que fazer de conta que o tempo em que fumei é como um país longínquo que visitei uma vez, de que gostei muito, mas ao qual não posso voltar nunca mais, porque desapareceu, qual Atlântida.

E quem poderá, alguma vez, esquecer a Atlântida?…

PS (escrito em 6 de Janeiro de 2008) – 4 meses e meio sem fumar! Avancem para o post “2008 – um ano sem fumo“.

“Até Onde se Pode Ir?”, de David Lodge

ateondesepodeir.jpgLodge é católico e não o esconde. Muitos dos seus livros têm, como pano de fundo, a religião católica, como travão í  liberdade, sobretudo, sexual, dos seus personagens. Num desses livros, um personagem chega a dizer que a vida sexual começa depois da menopausa, porque deixa de haver o medo de engravidar.

Neste “How Far Can You Go?”, de 1980, Lodge conta-nos a história de um grupo de estudantes universitários católicos, nascidos no post-guerra e para os quais “a revolução sexual chegou tarde de mais”.

Vamos acompanhando o crescimento destes jovens, os seus casamentos, as suas dúvidas sexuais, os seus receios, os malabarismos que fazem para se manterem dentro dos limites impostos pela religião católica, numa Inglaterra em constante mudança, com o aparecimento dos Beatles, do “free love”, da míni-saia.

Sempre com os olhos postos no Vaticano, í  espera de uma mudança, estes jovens começam a envelhecer, sem que nada de especial aconteça na ortodoxia do catolicismo. E bem podem esperar sentados porque, mesmo depois do aparecimento da Sida, o Vaticano continua a condenar o uso de preservativo!

Com alguns bons momentos de humor, o livro acaba por ser um pouco moralista. Lodge não deixa de ser católico e, apesar dos vários pecados cometidos, os personagens do livro mantêm-se fiéis í  Igreja e parece que, na opinião do autor, assim é que deve ser…

Scolari acaricia um sérvio

scolari_soco.jpg

Não se fala de outra coisa. Numa verdadeira demonstração de afecto pelos Balcãs, o seleccionador nacional de futebol, Filipe Scolari, resolveu fazer uma festinha na face de Dragutinovic. Tudo aconteceu no final do jogo Portugal-Sérvia, que terminou empatado a um golo. Drag preparava-se para dar um beijinho no Quaresma quando Scolari, um pouco invejoso, se intrometeu e fez uma festinha no rosto do sérvio, perante a indignação de um tipo que eu agora não me lembro o nome e que foi guarda-redes, e que também queria oscular Quaresma.

Isto é o que se supõe. Ao certo, ninguém sabe o que se passou.

Há jornais que dizem que foi um soco e que a atitude de Scolari manchou a imagem da selecção nacional de futebol – o que não se percebe. Então a malta não acabou o Euro 2000 í  porrada, depois do cabrão do árbitro ter inventado aquele penálti a favor da França? Então não é verdade que o João Pinto foi obrigado a dar um soco no árbitro, para o gajo ver se passava a apitar como deve ser, no Mundial de 2004? Então aquele puto dos sub-19 não sacou o cartão vermelho da mão do árbitro, demonstrando-lhe, assim, como estava errado na sua decisão de expulsar um português?

As selecções nacionais têm já um longo historial de mau comportamento, falta de fair-play e incivilidade, portanto, é natural que o gesto de Scolari tenha sido mesmo um soco.

Mas, cá para mim, aquilo foi uma carícia, o que acaba por ser muito mais grave.

O futebol é um desporto para homens, caramba!

Deixem-se de mariquices!

Cagar ao relento, cuspir no chão e bater no ceguinho

O Público traz hoje um artigo muito interessante, do Washington Post, intitulado “Um apito e uma lanterna para obrigar indianos a ir í  casa de banho”.

O artigo, da autoria de Bruce Wallace, dá-nos conta do Programa Sanitário do governo indiano, que pretende que, até 2012, os indianos percam esse velho hábito de defecarem ao ar livre. Para que isso seja possível, o governo incentiva a construção de casas de banho, mas os mais pessimistas acham que isso não chega. Não é por terem uma casa de banho por perto que os indianos vão deixar de cagar ao relento. Os seus antepassados assim o fizeram – por que razão eles não o hão-de fazer também?

Os críticos deste programa governamental dizem que seria mais importante tentar mostrar aos indianos a relação que existe entre as águas contaminadas por fezes e o número de casos fatais de diarreia (cerca de 700 mil casos por ano!).

O artigo conta-nos, ainda, que um tal Ravi Shankar Singh, patrulha as estradas da sua aldeia, depois do pí´r-do-sol, í  procura de cagões. Quando apanha alguém, de cócoras, no meio do acto, sopra num apito e foca o cagão com a sua potente lanterna. Talvez assim os seus conterrâneos se comecem a envergonhar.

Na viagem de autocarro, entre Nova Delhi e Agra, para ir ver o Taj Mahal, vi diversos indianos a defecar í  beira da estrada, no meio de acampamentos andrajosos, búfalos-de-água esqueléticos e mares de lama, sacos plásticos rasgados e cabras famélicas.

Parece ser mesmo uma questão cultural.

Na China, uma campanha idêntica está em marcha há alguns anos, contra o velho hábito chinês de cuspir no chão.

Quem não se lembra de ver as imagens de Mao Zedung (será assim que se escreve, hoje em dia?) a receber os seus convidados estrangeiros, sentado num confortável sofá e sempre com uma escarradeira ao lado?

Também vi, há dois anos, em vários locais públicos da China, inúmeros cinzeiros, com um letreiro, em mandarim que dizia, segundo me disseram, qualquer coisa como «não cuspas no chão; usa este cinzeiro».

Os portugueses também precisavam de campanhas deste género. Bem sei que cagar ao ar livre já não se usa, em Portugal, a não ser que se seja cão. No entanto, mijar nas esquinas nos prédios, nos túneis do metro ou atrás daquela árvore, que ninguém está a ver e eu estou tão aflitinho, continua a ser prática corrente.

O mesmo no que respeita a cuspir para o chão. Português que se preze, do sexo masculino a sério, não passa sem uma boa escarradela na calçada portuguesa.

No entanto, o nosso forte é mesmo bater no ceguinho.

O que a gente gosta de bater no ceguinho!

Ontem vi, em todos os telejornais, os bons chefes de família, daqueles que dão tareias nas mulheres e as boas donas de casa portuguesas, daquelas que dão sovas monumentais nos filhos, a apupar a mãe da criança inglesa, que desapareceu, em Maio, na Praia da Luz.

Foram os mesmos chefes de família e as mesmas donas de casa que foram chorar para a porta da igreja, quando a miúda desapareceu e que correram a atar fitas amarelas í  volta do pulso e que deram entrevistas a todas as televisões, com a lágrima a escorrer pela cara, até í s bocas desdentadas, mostrando quanta pena tinham dos senhores doutores ingleses, cuja filha tinha sido raptada.

Alguns meses depois, no dia em a Judiciária considera que os pais da miúda podem ter tido um papel importante no seu desaparecimento, toca a apupá-los e a dizer «a mim nunca me enganaram, estes bifes de merda, todos emproados! Estava-se mesmo a ver que aquela cabra inglesa não queria saber dos filhos para nada! Se fosse comigo, partia-lhe a cara toda!»

Bater no ceguinho – é a nossa especialidade.

Em termos de saúde pública, não é tão grave como cagar na rua.

Mas é igualmente abjecto.

História Incorrecta

Estava o Ambientalista sentado numa esplanada, a comer um rabanete de agricultura biológica, quando veio o Preto e comeu-o. O Coxo Sádico, que ia a passar, virou-se para o Preto e disse-lhe «então comeste o Ecologista?! Ele estava a fazer-te algum mal?!»

O Preto nem teve tempo para responder. O Transgénero Disléxico atacou-o í  sorrelfa, cortando-lhe a cabeça de um só golpe.

Limpando os salpicos de sangue, o Transgénero Disléxico avançou para o Coxo Sádico, de machado na mão, pronto para novo combate. Foi quando surgiu a Lésbica Maneta e o Fumador Gordo, que rapidamente desarmaram o Transgénero Disléxico e lhe forneceram uma rajada, que o deixou moribundo.

Agradecido, o Coxo Sádico começou a fugir, mas devagar, por causa da deficiência e a Lésbica Maneta passou-lhe uma rasteira que o fez estatelar no cimento.

O Fumador Gordo riu-se com vontade, mas durante pouco tempo. O riso gelou-se-lhe nos lábios quando foi trespassado pela navalha do Careca Gago.

Foi nessa altura que o Invisual Masoquista, guiado pelo Cão Sarnento, fez explodir a bomba.

Morreram todos.

Só se salvou uma galinha.

Diário de Notícias – um clássico

Compro e leio o Público, diariamente. No entanto, aos fins-de-semana, como tenho mais tempo livre, compro também o DN (í s sextas, sábados e domingos).

Apesar de todas as mudanças gráficas, há coisas que não mudam no DN, e ainda bem.

Gosto muito, sobretudo, das chamadas “pequenas locais”. São pequenas notícias dos correspondentes do DN espalhados pelo país e são sempre deliciosas. As de hoje, por exemplo. Começo pelos títulos: “Apanhou mulheres que roubavam loja”, “Entrou na cadeia com droga nas cuecas”; “Portugueses não temem ratos espanhóis”.

Vamos aos pormenores.

A notícia das mulheres que roubavam loja vem de Aveiro: segundo Júlio Almeida, correspondente do DN, duas mulheres estavam a roubar numa loja, mas a dona da loja foi atrás delas, apanhou-as e só as largou quando chegou a polícia. Refere a notícia: “as suspeitas, de 35 anos, estavam na posse de quatro cortinados, oito camisolas, um par de calças e um colar de bijutaria”.

Isto sim, é jornalismo. Vejam o rigor desta notícia! O jornalista não se limita a dizer, por exemplo, que as ladras tinham, em seu poder, “diversos produtos roubados” – vai ao pormenor de os discriminar, elaborando uma lista detalhada. Vinte valores!

Quanto í  jovem, de 25 anos, que entrou na cadeia com droga nas cuecas, a coisa é mais complexa. A notícia vem do correspondente do DN em Vila Real, José António Cardoso. A jovem foi interceptada pelos guardas prisionais, í  entrada da prisão, onde ia visitar um familiar. Diz a notícia: “os guardas prisionais detectaram na roupa interior, concretamente nas cuecas, droga dissimulada. Foram apreendidas 1,92 gramas de haxixe e 0,47 gramas de cocaína”. Que precisão! Que detalhe!

Reparem neste pormenor: os guardas prisionais detectaram droga na roupa interior da jovem. Para qualquer jornalista de meia tigela, isto seria suficiente. Mas não para o correspondente em Vila Real. É que foi “concretamente nas cuecas”!

E não foram “cerca de 2 gramas de haxixe e meio grama de cocaína”, não senhor! Foram, exactamente, 1,92 gramas de haxixe e 0,47 gramas de cocaína – nem mais, nem menos um grama, carago! Cinco estrelas!

Finalmente, quanto í  notícia dos ratos, vem da correspondente em Bragança, Sandra Bento. Pelos vistos, existe uma praga de ratos dos campos, lá em Espanha, praga essa que poderia estar a aproximar-se do “Nordeste Transmontano” (assim mesmo, com letra grande, como vem na notícia). Claro que, se os ratos entrassem em Portugal, seria um desastre para os agricultores, mas, segundo o “director geral da Agricultura do Norte” (assim mesmo: director geral com letra pequenina e Agricultura do Norte com letra grandalhona!), a praga de ratos «não tem implicações para a agricultura portuguesa» (esta, com letra pequena).

Mais í  frente, diz a jornalista: “os agricultores portugueses raianos ainda não vislumbraram qualquer roedor nas propriedades”. Que frase linda! Os agricultores ainda não vislumbraram nenhum roedor é muito mais bonito do que, por exemplo: os agricultores ainda não viram nenhum rato. É ou não é?

O DN tem mais notícias deste género, como por exemplo, logo na primeira página, uma com o título: “Jardim Gonçalves vence guerra no BCP” e que está ilustrada pela foto de dois gerontes sorridentes, o tal Jardim, com uma gravata azul-bebé e um tal Pinhal, com uma gravata rosa-bebé.

Mas a notícia não tem graça.

Prefiro a da jovem com droga dissimulada na roupa interior, concretamente nas cuecas.

Português assalta yankees

A notícia vem no DN: pelo menos 15 lojas e bancos, em 13 estados norte-americanos, receberam ameaças de bomba, durante a última semana. A ameaça é feita pelo telefone e o bandido exige dinheiro, em troca da desactivação da bomba. Já terá conseguido mais de 10 mil dólares.

Até aqui, nada de especial.

Agora, o que espanta é que as chamadas telefónicas, aparentemente, são feitas a partir de Portugal.

Segundo a notícia, que cita a CNN e o New York Times, o português liga para o banco ou para a loja escolhida, diz que está lá uma bomba pronta a explodir, a menos que lhe transfiram alguns dólares para uma determinada conta. Pelo sim, pelo não, o proprietário vai na conversa, até porque o saque exigido nunca é muito elevado.

Digam lá se, ou não, um bom truque?

Bom, e agora fico por aqui; desculpem lá, mas tenho que ir fazer um telefonema importante.