Moiros de trabalho

Gosto muito do que faço e só trocava isto por fazer coisa nenhuma.

É um sonho antigo: ser pago para não fazer nada ou, melhor ainda, ser pago por não fazer nada.

Mas enquanto esse sonho não se concretiza, tenho que trabalhar.

Em média, são 45 horas por semana, mas há semanas piores, em que posso chegar í s 62 horas semanais.

Cada vez que isso me acontecia, ficava ligeiramente preocupado. Trabalhar mais de 48 horas por semana é ilegal e não me apetecia nada, depois de tanto trabalho, ainda levar com uma multa em cima.

Agora, estou mais descansado.

O Conselho Europeu dos ministros do Trabalho e dos Assuntos Sociais aprovou uma directiva que permite aos estados membros alargar o limite do horário semanal de trabalho até í s 65 horas!

A luta de gerações de trabalhadores, que pugnaram pelo fim do trabalho escravo do sol-a-sol, foi toda por água abaixo.

A partir de agora, nada pode impedir os patrões de exigirem serões aos seus trabalhadores.

No tempo da ditadura, a propaganda do regime inventou uma coisa chamada Serões para Trabalhadores, que era assim uma espécie de espectáculos de variedades, organizado pela FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho) e que se destinavam a entreter as famílias (já repararam como as coisas tinham nomes sinistros, no tempo da Outra Senhora?…)

Agora, com 65 horas semanais de trabalho, os serões para trabalhadores transformar-se-ão em outra variedade de espectáculo: trabalhar mais pelo mesmo ordenado.

Obrigado, União Europeia!

Portugal desiste do Euro 2008

Foi pena. A selecção estava a jogar tão bem, ganhou com tanta limpeza, quer í  Turquia, quer í  República Checa, que foi uma desilusão ter que desistir.

Bem, eu não tenho a certeza se foi isso que aconteceu, mas deduzo que tenha sido por causa da saída de Scolari para o Chelsea.

Ontem í  noite, quando liguei a televisão, o canal 1 estava a transmitir, em directo, uma conferência de imprensa em que Scolari explicava que tinha que ir trabalhar para o Chelsea porque o Abramovich tinha mais dinheiro que o Madaíl. Como não tenho nada a ver com isso, mudei para a Sic, mas também esse canal transmitia, em directo, a mesma conferência de imprensa. Em desespero de causa, mudei para a TVI – coisa que só costumo fazer quando eles transmitem um jogo do Benfica – e lá estava, em directo, a mesma conferência de imprensa!

Ora, eu não me lembro de os três canais estarem a transmitir a mesma coisa desde que… desde que… Acho mesmo que nunca transmitiram nada em simultâneo, nem as comunicações ao país do primeiro-ministro ou do Presidente da República.

Logicamente, deduzi que, para a RTP, a SIC e a TVI estarem a transmitir, em directo e em simultâneo, a conferência de imprensa de um treinador de futebol, só poderia ser por três razões:

1º Scolari tinha assassinado Cavaco Silva e estava a confessar o crime, em directo;

2º Scolari tinha sido apanhado a roubar uma caixa registadora num supermercado suíço e ia ser preso;

3º Scolari ia treinar o Chelsea já amanhã, deixava a selecção portuguesa órfã e, por essa razão, a «equipa de todos nós» ia desistir do Euro 2008.

Deduzi que esta hipótese era a mais provável e fiquei triste.

Agora a sério: os responsáveis pelas três televisões não têm vergonha na cara?! Acham sinceramente que é notícia nacional o facto de um brasileiro ir treinar uma equipa inglesa e pensam que essa notícia mereça a transmissão em directo de um conferência de imprensa, em que jornalistas ingleses fazem perguntas sobre o futuro de um treinador de futebol?

Vão dar banho ao cão!

Que banho (checo) de bola!

Os que sabem o significado de “banho checo”, perceberão o que quero dizer.

O banho checo é mais ordinarote que o banho turco.

E foi isso que aconteceu. A selecção não jogou tão bem, o Ricardo e os centrais andaram um bocado aos papéis nos cantos e nos cruzamentos, mas a vitória acabou por ser mais dilatada do que contra a Turquia e, aparentemente, foi mais fácil vencer os checos.

Scolari fez um bom trabalho, nestas duas semanas e, também por isso, conseguiu um belo contrato com o Chelsea. Não há dúvida que conseguiu formar uma equipa – e a prova disso foi o terceiro golo contra a República Checa, um golo que só se consegue quando existe equipa.

Venha de lá a Suíça!

O raça do Cavaco!

Quem se lembra do Dia da Raça?

O Presidente Cavaco lembra-se, pelos vistos. Interrogado, pelos jornalistas, sobre a greve dos camionistas, resolveu dizer: «hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas».

O Dia da Raça calhava a 10 de Junho, no tempo da Outra Senhora e ninguém sabia que Raça era festejada: os pastores alemães, os serra da estrela, as charolesas, as barrosãs, os cocker spaniel?

A minha avozinha, que talvez deus tenha, quando se referia a alguém que a impressionava de algum modo, porque se portava muito bem ou porque se portava muito mal, costumava dizer: «o raça da rapariga só faz disparates!» ou «o raça do rapaz só tira boas notas!»

Deve ser nesta categoria que se inclui o «raça do Cavaco»!

Que banho (turco) de bola!

Dou a mão í  palmatória: a selecção jogou bem, correu do princípio ao fim e mereceu ganhar í  Turquia. Apenas fiquei irritado durante cerca de 10 minutos, depois do golo de Pepe, porque me pareceu que a equipa ia defender o resultado, ao bom estilo Scolari, em vez de procurar marcar um segundo golo. Mas, enfim, o Ronaldo lá meteu a terceira, o Moutinho teve um passe de mestre e o Meireles marcou.

Afinal, não houve banhos turcos, Portugal é que deu um banho í  Turquia e o cabeça-de-turco até foi um brasileiro com nome de mexicano.

Esta dos brasileiros naturalizados para jogar futebol, é algo que se está a generalizar. Além do Deco e do Pepe, em Portugal, temos, só neste Europeu, um Aurélio na Turquia, um Kuranyi na Alemanha, um Guerreiro na Polónia e um Senna na Espanha. Todos brasileiros.

E o fenómeno não é só brasileiro. A lista que o Público hoje traz é bem curiosa. Há um albanês (Gercaliu) e um croata (Vastic) na selecção da íustria, um australiano (Simunic), na Croácia, um suíço (Neuville), na Alemanha e um argentino (Camoranesi), na Itália.

Mas, se quisermos ir mais longe, temos um nascido em França (Petit) e outro no Congo (Bosingwa), na selecção portuguesa; um nascido na Bósnia (Jakupovic), um na Costa do Marfim (Djourou), um na Jugoslávia (Bhrami), um em Cabo Verde (Fernandes) e um na Colí´mbia (Vonlanthen), na selecção suíça; na selecção turca, temos dois nascidos na Alemanha (Balta e Altintop), um na França (Erdinç) e outro na Inglaterra (Kazim); na selecção austríaca, ainda temos um nascido na Hungria (Garics) e outro na Alemanha (Arnic); a Croácia tem um nascido na Suíça (Rakitc) e três na Alemanha (Robert e Niko Kovac e Klansnic); a própria Alemanha tem três jogadores nascidos na Polónia (Trochowski, Klose e Podolski) ; Perrotta, da selecção italiana, nasceu em Inglaterra; Vyntra, da Grécia, nasceu na República Checa; Linderoth, da Suécia, nasceu em França; e, finalmente, a selecção francesa conta com dois nascidos no Congo (Makelele e Mandanda), um nos Camarões (Boumsong) e dois no Senegal (Patrick Vieira e Evra).

Portanto, Pepe é português e o resto é conversa!

Aliás, o facto de a Turquia participar no Europeu também é muito discutível – a menos que todos os seus jogadores tivessem nascido para cá do Bósforo. Se nasceram para lá do Estreito, deviam jogar numa competição asiática qualquer.

Europeus ou asiáticos, os turcos não tiveram outro remédio senão atirar a toalha (turca) ao chão e renderem-se.

E agora, é a vez de arrasar os checos!

Obama sabe a pouco

Está bem, o facto de os democratas norte-americanos terem escolhido um candidato negro, é um avanço. Mas contra quem concorreu Obama? Contra uma mulher… Ora, escolher entre uma gaja e um preto, que raio de escolha é essa? Um americano que se preze, por muito democrata que seja, vê-se entre a espada e a parede e tem que escolher o preto. A gaja, nunca!

Agora, imaginem que Obama era uma gaja!

Ou melhor: que Obama era uma gaja lésbica.

Ou melhor ainda: gaja, lésbica, preta retinta e agnóstica.

Isso, sim – seria radical!

A escolha de Obama não é nada de especial.

No fundo, Obama não passa de um John Kennedy bronzeado

Indiana Jones e o reino dos marxistas-leninistas

Escrevi, no meu texto sobre o novo filme do Indy que, em 1981, “os meus amigos-intelectuais-de-esquerda torceram o nariz a tanto divertimento e acharam que o filme era mais um panfleto publicitário do imperialismo norte-americano”.

Referia-me ao “Raiders of the Lost Arch”, no qual, Indy defrontava e derrotava um exército de nazis, que tentavam sacar a Arca da Aliança.

Neste quarto filme, o vilão é uma militar soviética, interpretada por Cate Blachett, que estuda fenómenos para-normais e que acredita que as caveiras de cristal têm um poder extra-terrestre.

Os comunistas de São Petersburgo não gostaram. Apesar de poder haver alguma coisa que se perde na tradução, aqui estão excertos de um comunicado dos marxistas-leninistas, guardiões da Verdade:

O filme de Indiana Jones tem por objectivo «criar na juventude moderna uma ideia deturpada da política externa soviética da URSS nos anos 50 do século XX. (…) Vincamos decididamente a nossa profunda indignação face í  estreia na Rússia do filme-provocação, resíduo da guerra fria, pasquim nojento. (…) O filme apresenta, de forma caricatural e feia, as acções dos soldados soviéticos e dos nossos serviços secretos, que são cínica e cruelmente liquidados pelo super-herói americano Indiana Jones. Semelhantes invencionices formam, na nova geração de russos disposições (?) decadentes, falta de confiança no poderio do seu país e adoração pelos Estado Unidos. (…) Lançamos um apelo aos espectadores para assobiar o filme durante a estreia nas salas de cinema de São Petersburgo e enviar cartas de protesto aos fantoches do imperialismo Harrison Ford e Cate Blanchett».

Tudo isto soaria a anedota se não fosse verdade. Spielberg pensou que, ao escolher os soviéticos para maus da fita, não iria causar grandes danos – de facto, hoje em dia, quem defende o regime soviético?

Enganou-se. Saudosistas há muitos. Saudosistas que levam a sério um simples filme de aventuras e vêem nele algo de politicamente influente para a sua própria juventude…

Para a próxima, Spielberg terá que inventar uma raça de vilões, ou trazê-los de outro planeta…