O exemplo de São Martinho

Foi mais ou menos no ano 315, da parte da tarde, que São Martinho (na altura só se chamava Martinho) viu um pobre a tiritar de frio, apesar de se estar no verão (o famoso verão de São Martinho, como toda a gente sabe).

São Martinho despiu a capa que trazia vestida e com ela cobriu o pobre.

Depois, foram os dois comer castanhas e emborrachar-se com o vinho novo.

Desde então, todos os anos por esta data, os portugueses honram a memória de São Martinho distribuindo capas pelos pobres e apanhando pielas.

A tradição é uma coisa muito bonita…

Dupla personalidade

Outra pequena local do DN de sábado passado, página 27: 

“Um indivíduo de 21 anos foi ontem detido pela PSP de Santarém por ter furtado um veículo em A-dos-Cunhados, Torres Vedras. No interior da viatura foram apreendidos objectos de arte sacra, também furtados. O detido não tinha documentos de identificação e já apresentou dois nomes distintos para si próprio” 

Assim se vê a dificuldade do trabalho de um polícia: prende-se um ladrão de arte sacra, vai-se a ver e o gajo não só não tem identificação, como tem a mania que é dois!

Não admira que seja cada vez mais difícil recrutar agentes para a PSP, nomeadamente nas pequenas localidades. Quem é que quer ser polícia em A-dos-Cunhados e, ainda por cima, ter que levar com ladrões com dupla personalidade?

Neste caso particular, o polícia encarregado da prisão do ladrão teve que enfrentar um problema bem complexo: aquilo que parecia ser um simples furto de um veículo, acabou por se revelar um caso de roubo de arte sacra por indivíduo sem identificação e, ainda por cima, esquizofrénico.

Não há polícia que aguente isto, caramba!

O minuto 34

Mais uma notícia espectacular do Diário de Notícias de ontem, página 27: 

“Um homem de 21 anos foi detido quinta-feira, na Venda Nova, Amadora, por ter tentado furtar dois pacotes de leite e um comando de televisão, avaliado em 31 euros, do interior de um estabelecimento comercial, situado na Rua Elias Garcia. Os funcionários detectaram o furto e alertaram a PSP, que deteve o indivíduo í s 14.34.”

Ora aqui está uma pequena local, como antigamente se chamava a estas pequenas notícias enviadas pelos correspondentes da província, que encerra muito ensinamentos, a saber:

– Portugal é, todo ele, uma província. Apesar do choque tecnológico, da banda larga e dos 10 milhões de telemóveis, continuamos uns provincianos. Esta notícia vem da Venda Nova, Amadora – e não, por exemplo, de algum buraco escondido do nordeste transmontano;

– Dizem que a criminalidade cada vez está mais sofisticada, mas ainda há ladrões pouco ambiciosos. O desta notícia tentou roubar apenas dois pacotes de leite e um comando de televisão. Se a criminalidade estivesse, de facto, a aumentar, o tipo deveria roubar, pelo menos, uma palete de leite e levar, também, o televisor, além do comando.

– Quando dizemos «onde está um polícia quando precisamos dele», é má vontade nossa. Como demonstra esta notícia, o polícia está sempre í  mão, mesmo quando se tentam roubar, apenas, dois pacotes de leite. Vejam bem que, assim que os funcionários detectaram o furto, avisaram a PSP e ela logo apareceu.

– Logo apareceu e apanhou o malogrado ladrão, í s 14.34! Mais uma vez, a precisão jornalística. O tipo não foi preso por volta das 14.30, ou depois das 2 da tarde ou alguns minutos antes das 15 horas. O ladrão foi preso, precisamente, í s 14.34!

Quando leio notícias destas no DN, vêm-me lágrimas aos olhos. A publicação de notícias destas demonstra que, apesar de tudo, os administradores do DN ainda sentem alguma ternura por estes pequenos correspondentes de província e continuam a dar-lhes trabalho.

Bem hajam!

Nossa Senhora dos Foguetes

Hoje, í s 8 da matina, o pároco de Cacilhas virou-se para o acólito e disse:

– Vamos lá acordar esses hereges!

Seguiram-se 15 minutos de foguetório.

É que hoje, aqui em Cacilhas, celebra-se o dia em que a Nossa Senhora fez com que o maremoto fosse para o lado de lá do Tejo e matasse milhares de alfacinhas, em vez de vir para o lado de cá, arrasar os cacilhenses.

Isso foi em 1755, mas os católicos não esquecem essas coisas. Por isso, todos os anos, no primeiro dia de Novembro, há uma festa religiosa que consiste em acordar a malta toda com foguetes, logo í s 8 da manhã.

Acho que, depois dos foguetes, é capaz de haver uma missa e tenho quase a certeza de que há uma procissão – mas, para mim, o que me interessa são os foguetes.

Que divertimento pode haver em atirar ao ar uma cana que, chegando lá acima, explode?

E qual será o objectivo do pároco de Cacilhas, ao organizar esta alvorada com 15 minutos de explosões? Espírito bélico? Pura maldade? Obra do demónio?

Os foguetes não devem servir para acordar quem queira participar nas festividades porque, quem acorda ao som dos foguetes só pode exclamar “cabrão do padre! Se ele enfiasse mas era os foguetes num sítio que eu cá sei!”

Os balcões de Sócrates

O choque tecnológico tem destas coisas.

O que dizer desta iniciativa: um balcão, nas lojas do cidadão, onde podemos tratar de todos os documentos, depois de nos roubarem a carteira?

É uma boa ideia. Sem dúvida.

Mas o nome…

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Balcão Perdi a Carteira.

Pode ser defeito meu, mas…

Na foto, publicada num jornal, uma funcionária pública, com ar deprimidíssimo, sobre um fundo vermelho, agressivo, aguarda a investida dos cidadãos. Diz o jornal que, logo no primeiro dia, este balcão foi visitado por mais de 100 pessoas. Vocês acreditam que, só num dia, mais de 100 pessoas perderam a carteira?

Estou a ser duro de mais. Claro que o balcão não se destina apenas a quem tenha perdido a carteira. É apenas uma maneira modernaça de dizer que o balcão serve para tratar de todos os documentos que, habitualmente, trazemos na carteira.

Sendo assim, e seguindo o mesmo raciocínio, proponho a criação dos seguintes balcões:

Balcão Assaltaram-me a Casa e Levaram-me as Pratas

Balcão Roubaram-me os Pneus e Deixaram-me o Carro, que Era um Chaveco

Balcão Levaram-me a Mulher-a-Dias Porque lhe Ofereceram um Ordenado Melhor e Inscrição na Segurança Social

Balcão Fui Despedido e Quero o Rendimento Mínimo

Balcão Sofro de Várias Doenças Crónicas, Vivo Numa Barraca, Estou Desempregado, Sou Toxicodependente e Sou de Outra Etnia

Balcão Fui Sodomizado e Não Vi Nada Porque Estava de Costas

 

Aceito outras sugestões…

A alcachofra selvagem do Dr. Santos

Chamo-me Santos e sou médico, mas não sou responsável pelas alcachofras selvagens. Juro!

Portanto, se receberem, na vossa caixa do correio, uma série de folhetos sobre a alcachofra selvagem, enviados pelo Dr. Santos, não tenho nada a ver com o assunto.

Mas tenho pena, confesso.

A alcachofra selvagem, a acreditar no Dr. Santos faz o seguinte:

– alivia e pára as dores (1)
– elimina as inflamações
– reconstrói a cartilagem
– lubrifica as articulações
– reforça o capital ósseo
– desperta a memória
– estimula as capacidades intelectuais
– melhora a vista, o ouvido e o olfacto (2)
– alisa os tecidos do interior, apaga as rugas e faz crescer o cabelo perdido (3)
– reduz a tensão arterial
– drena o sangue
– purifica as artérias
– elimina a diabetes e o colesterol (4)
– aumenta a resistência aos esforços
– desperta a libido
– provoca desejo, prazer
– aumenta consideravelmente o desempenho sexual
– reaviva o prazer e o tónus
– exalta as relações amorosas

(1) – se pára as dores, não é necessário aliviá-las…

(2) – se a janela da sua sala dá para um baldio cheio de ervas e lixo, depois de tomar a alcachofra selvagem, passará a ver uma praia paradisíaca, com um oceano azul-turquesa e uma areia fina e branca, porque a alcachofra “melhora a vista”.

(3) – o que serão os “tecidos do interior”? Será aquilo com que somos feitos por dentro? Faz crescer o cabelo perdido? Então, se o cabelo me estiver a cair pela casa fora, ele vai crescer se eu tomar alcachofra? Isto quer dizer que, quando eu chegar a casa, tenho o chão da sala cheio de cabelos enormes!

(4) – se elimina a diabetes, que interessa o colesterol?

Este Dr. Santos promete que, com 2 cápsulas diárias de alcachofra selvagem, qualquer velhote volta í  adolescência e tem a lata de mostrar a foto de um velho numa cadeira de rodas e, depois do tratamento, a fazer desportos radicais; e de uma velha, também numa cadeira de rodas e, depois, a andar de trotineta a velocidade estonteante.

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O mais grave é que o Dr. Santos tem um rosto e tem um apartado, no Estoril, no nome de um tal Centro de Vida Sã.

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Este Dr. Santos, tem a lata de prometer eliminar todas as dores em 2 dias, contribuir para o rejuvenescimento em 3 dias e alcançar o nirvana em 8 dias, que é como quem diz, voltar a mandar grandes quecas, apesar de se ter 95 anos e uma pila mais engelhada que o sovaco de um náufrago, perdido no Pacífico, sem água, há mais de três semanas!

A ASAE, que anda atrás dos ciganos que vendem Lacoste falsas e dos brasileiros que vendem bolas-de-berlim fritas em óleo saturado, não vão a casa deste Dr. Santos perguntar-lhe como é que ele pode prometer í s pessoas que elimina a diabetes com 2 cápsulas de alcachofra selvagem por dia?

Ou esta é uma daquelas coisas que só compra quem quer e está-se mesmo a ver que é aldrabice?

…é que as Lacoste dos ciganos, também…

O arcebispo e as camisinhas

Leio e não acredito.

O arcebispo do Maputo, Francisco Chimoio, acusa os europeus de infectarem propositadamente preservativos com o vírus da sida, «para acabar com o povo africano».

Ora tomem lá as palavras do arcebispo, em entrevista í  BBC, citadas pelo DN: «os preservativos não são seguros porque eu sei que há dois países europeus que estão a produzi-los com o vírus de propósito».

Claro que o arcebispo não disse quais eram esses países, mas acrescentou que a melhor maneira de evitar a sida, não é o uso de camisinhas, mas sim a abstinência. E ainda teve a lata de afirmar que os medicamentos retrovirais também estão infectados com o vírus da sida.

Em Moçambique, surgem, todos os dias, 500 novos casos de sida (calcula-se, porque saber, ninguém sabe). E é desta maneira que a igreja ajuda o seu povo: contribuindo para a sua ignorância e, no fundo, para a sua auto-destruição. Se a igreja condena o uso de camisinhas e até avisa: «cuidado, que as camisinhas estão infectadas!», a malta não vai usar preservativo – mas também não vai manter a abstinência, como o invejoso do arcebispo preconiza. Vai é continuar a propagar a doença e, desse modo, contribuir para o fim do povo africano, como Chimoio prevê, aliás.

Será que o homem é tolo, além de arcebispo, ou é esta a política oficial da igreja moçambicana?

Osculo-te, Santana Lopes!

E cá temos mais um sinal do apocalipse: o Sr. Lopes tomou uma atitude digna, correcta, com a qual estou de acordo, que merece o meu aplauso, que tem todo o meu apoio, que admiro, que eu gostaria de ter tomado – não posso ser mais encomiástico, pois não?

Claro que já toda a gente sabe o que foi, mas vou dizer na mesma, para que fique registado.

Estava o Sr. Lopes a ser entrevistado, na Sic Notícias, sobre as eleições no PSD, quando a jornalista o interrompe para passar a emissão directamente para o aeroporto da Portela, porque acabava de chegar o Mourinho (o José, aquele que foi treinador do Chelsea).

Quando a emissão regressou ao estúdio, o Sr. Lopes disse que aquilo não se fazia, que ele estava ali com prejuízo da sua vida pessoal e que o “país está louco”. Levantou-se e foi-se embora.

Grande Santana!

Podem dizer: ah e tal, o gajo anda sempre de braço dado com os jornalistas, agora reagiu assim porque ficou chateado, mas na próxima oportunidade já está, outra vez, ao beijo na boca.

Não interessa!

Pelo menos naquele momento, o Sr. Lopes mostrou, em directo, a saloiice dos nossos jornalistas que, no caso do Mourinho, andam completamente apaixonados. O homem cospe e vão-lhe recolher o cuspo; o homem espirra, e publicam-lhe os perdigotos na primeira página.

Sr. Lopes: peço-lhe desculpa pelas duras palavras que, em tempos lhe dirigi. Com esta sua atitude, acabo de lhe perdoar cerca de 45% das suas asneiras. Outro gesto como este e você fica pronto para regressar í  chefia do governo.