“Travessuras da Menina Má”, de Mário Vargas Lolsa

travessuras.jpgFiz de propósito: trazer, para a viagem, dois livros de autores que se exprimem em castelhano. Comecei pelo peruano Llosa.

Este romance não me pareceu tão “sul americano” como outras coisas que li dele, nomeadamente, “A Guerra do Fim do Mundo” e ” Os Cadernos de Dom Rigoberto”. í€s tantas, parecia que estava a ler um romance do Paul Auster. Curiosamente, quase no fim do livro, o protagonista está a traduzir um livro de Auster, “um escritor da moda” e, embora não se lhe refira directamente, parece não lhe dar grande crédito, como escritor. Faz mal, porque este “Travessuras da Menina Má” quase que podia ser um romance de Asuter, não fossem as constantes referências ao Peru e os frequentes diminutivos, tão típicos dos sul-americanos.

O romance conta-nos a história de Ricardo, tradutor-intérprete da Unesco que, desde a infância, no bairro de Miraflores, em Lima, sempre ambicionou viver em Paris. Aliás, era essa a sua única ambição na vida. Conseguiu emigrar para Paris e viver de traduções; a sua vida acabou por se resumir a isso e a uma relação estranha e obsessiva pela tal menina má, alguém que ele conheceu na infância e que foi fazendo diversas aparições, ao longo da sua vida, causando-lhe sempre grande sofrimento. Ricardo sempre esteve apaixonado pela menina má, enquanto ela nunca se apaixonou por ninguém e, da vida, apenas se queria afastar da pobreza que tinha vivido no Peru, e ser rica, muito rica.

Cada nova aventura da menina má é uma nova história. Ricardo serve de fio condutor e de cimento que faz com que as diversas histórias se conectem. De facto, Llosa quase que podia ter escrito um livro de contos, tal a riqueza e a variedade das histórias, dentro desta história: a criança vietnamita, adoptada por um casal de intelectuais franceses, que sofre de mudez psicossomática; o velho Arquimedes, a quem os engenheiros peruanos recorrem para saber onde podem construir esporões para amansar o Pacífico; o pintor falhado que faz fortuna a pintar os cavalos de corrida dos arredores de Londres; o tradutor de origem turca, que tem uma queda inata para as línguas, que faz colecção de soldadinhos de chumbo e se apaixona por um japonesa; e muitas outras pequenas histórias, que Vargas Llosa faz com que se entrecruzem e se choquem, por acção do acaso.

Foi uma boa companhia, durante a primeira semana desta viagem.

“Até Onde se Pode Ir?”, de David Lodge

ateondesepodeir.jpgLodge é católico e não o esconde. Muitos dos seus livros têm, como pano de fundo, a religião católica, como travão í  liberdade, sobretudo, sexual, dos seus personagens. Num desses livros, um personagem chega a dizer que a vida sexual começa depois da menopausa, porque deixa de haver o medo de engravidar.

Neste “How Far Can You Go?”, de 1980, Lodge conta-nos a história de um grupo de estudantes universitários católicos, nascidos no post-guerra e para os quais “a revolução sexual chegou tarde de mais”.

Vamos acompanhando o crescimento destes jovens, os seus casamentos, as suas dúvidas sexuais, os seus receios, os malabarismos que fazem para se manterem dentro dos limites impostos pela religião católica, numa Inglaterra em constante mudança, com o aparecimento dos Beatles, do “free love”, da míni-saia.

Sempre com os olhos postos no Vaticano, í  espera de uma mudança, estes jovens começam a envelhecer, sem que nada de especial aconteça na ortodoxia do catolicismo. E bem podem esperar sentados porque, mesmo depois do aparecimento da Sida, o Vaticano continua a condenar o uso de preservativo!

Com alguns bons momentos de humor, o livro acaba por ser um pouco moralista. Lodge não deixa de ser católico e, apesar dos vários pecados cometidos, os personagens do livro mantêm-se fiéis í  Igreja e parece que, na opinião do autor, assim é que deve ser…

“O Bode Expiatório”, de DBC Pierre

bodeexpiatorio.jpgO título original é “Vernon God Little”. Tem um subtítulo, em português: “Uma farsa do século XXI, em presença da morte”

Ganhou o Booker Prize e o Whitbread Award, em 2003.

E foi apenas por isso que me sacrifiquei a ler o livro até ao fim, sempre í  espera, em vão, de uma qualquer revelação.

O livro está dividido em três actos. O primeiro acto chama-se “Houve merda”, e esta palavra surge inúmeras vezes, ao longo de todo o texto.

Vernon Little é um jovem de 17 anos, que vive numa pequena cidade do Texas, chamada Martírio. Parece que aconteceu uma daquelas tragédias semelhantes a Columbine. Um, ou mais, alunos da escola local, assassinou um número indeterminado de colegas e, em seguida, talvez se tenha suicidado.

Little é um dos suspeitos. O outro, chama-se Jesus e suicidou-se mesmo.

O presidente do júri do Booker Prize, John Carey, terá dito que esta é “uma fulgurante comédia negra que reflecte o nosso temor, mas também o nosso fascínio pela América moderna”.

Talvez.

Eu acho que é um texto desgarrado, uma caricatura demasiado grosseira da América dos reallity shows, tão grosseira que transforma um fenómeno sério (a atracção pelas armas e as chacinas nas escolas) numa anedota de gosto duvidoso.

“Todo-o-Mundo”, de Philip Roth

todo_o_mundo.jpgO novo livro de Roth (“Everyman”, no original) conta-nos a história de um homem qualquer, um homem no fim da vida, enfrentando a doença e a morte, a solidão e o sentido da vida (ou a sua ausência).

Depois do seu terceiro divórcio e depois de se reformar, este homem retira-se para a sua aldeia natal, para se dedicar í  pintura e recordar os bons e maus momentos da sua vida. Em sete anos, é operado outras tantas vezes, devido a problemas cardiovasculares. Há sempre uma artéria que teima em ficar entupida, no momento em que ele acaba de recuperar do desentupimento anterior.

Uma certa tristeza perpassa por toda a história, mas também uma resignação, que não é muito habitual nos romances de Roth. A isto não deve ser alheio o facto de o próprio Roth estar, também, doente e ter a mesma idade que o protagonista do livro.

Enfrentando a morte por várias vezes, arrependido de muitas opções que fez ao longo da sua vida, o homem está sozinho, como muitos de nós. Resignado.

E Deus está ausente de tudo isto.

“Na Praia de Chesil”, de Ian McEwan

napraiadechesil.jpgPublicado este ano, este pequeno romance de McEwan mais parece um conto extenso. A acção decorre em 1962 e centra-se em Edward e Florence, dois jovens apaixonados mas inexperientes, no que ao sexo diz respeito.

Ele gosta de rock and roll, ela é violinista e toca num quarteto de cordas. O namoro é o mais “respeitoso” possível. A revolução sexual ainda não tinha rebentado, mas estava í  porta. Já se falava que, nos EUA, as raparigas tomavam a pílula anticoncepcional.

Florence sabe que o casamento vai implicar intimidade física e, racionalmente, tenta preparar-se para isso. Edward está desejoso de tocar no corpo de Florence, já que ela nem um beijo na boca, que inclua contacto de línguas, lhe permite.

Com estas premissas, claro que a noite de núpcias é um desastre.

Afinal, “all you need is love” ou “all you need is sex”? Ou, melhor ainda: “all you need is love and sex”?

Lê-se de uma penada.

“A Estrada”, de Cormac McCarthy

estrada.jpgSem hesitação: o melhor livro que li nos últimos anos.

Um homem e o seu filho percorrem a estrada, em direcção í  costa, num mundo post-apocalíptico. Não sabemos o que aconteceu antes, não sabemos qual o seu objectivo. Sabemos apenas que aquele homem e aquela criança têm que sobreviver numa terra queimada, destruída, coberta de cinzas, enfrentando o frio e a chuva e a falta de alimentos, de abrigos, de ajuda. Sabemos, também, que não há aves, nem peixes, nem qualquer outro tipo de animais e que as árvores estão mortas, queimadas, que as cidades estão desertas, apenas habitadas por cadáveres ressequidos. Sabemos, ainda, que há outros homens e outras mulheres, sujos e andrajosos como eles, famintos e desesperados como eles, mas o homem e a criança têm que os evitar.

De vez em quando, ao longo da estrada, surge uma casa abandonada, com uma despensa repleta de conservas fora de prazo, de barras de chocolate com bolor, de bidões com água e de botijas de gás e que o homem e a criança fazem um festim e tomam banho e são felizes por dois dias. E depois, voltam í  estrada.

O instinto de sobrevivência, em estado puro. O engenho do homem, para conseguir proteger o seu filho e fazer, de pequenos objectos, as armas da sobrevivência.

Ao ler a descrição desta caminhada, penso nas intermináveis estradas dos EUA, mas a acção poderia decorrer em qualquer outro lugar do mundo. McCarthy deixa muitas coisas em aberto. Nada sabemos da aparência, quer do homem, quer da criança. Ficamos com o campo aberto para imaginarmos as suas feições, assim como depende de nós a explicação para o que aconteceu ao mundo, para que ficasse daquela maneira e por que razão o homem quer, desesperadamente, chegar í  costa.

Fiquei irremediavelmente agarrado í  escrita de McCarthy, que, ainda por cima, nos conta a história de um modo original, sem divisão em capítulos, com os diálogos entranhados no texto, mas sem necessitar de deitar fora as vírgulas e os pontos finais.

Tenho que ler os anteriores livros de Cormac McCarthy rapidamente.

“Casa das Mulheres”, de ílvaro Pombo

casadasmulheres.jpgFoi o primeiro livro que li deste escritor espanhol (n. 1939) e gostei bastante. Editado em 1996, “Donde las Mujeres” conta-nos a história de uma família peculiar, na qual os homens estão aparentemente ausentes.

A narradora é a filha mais velha, que começa o livro com cerca de 8 anos; há uma irmã, dois anos mais nova, e um irmão mais pequeno; há também a mãe e a irmã da mãe. Vivem em duas casas isoladas, numa espécie de península e formam um clã, com laços muito fortes entre eles. Os outros, os que vivem na aldeia próxima, os colegas da escola, todos os que pertencem ao mundo exterior, não lhes dizem grande coisa. Este núcleo familiar cria uma espécie de mundo í  parte, com as suas regras e as suas fidelidades. Há um pai destas três crianças, mas está ausente.

No entanto, toda esta harmonia se vai esboroar quando o pai resolve regressar e a narradora descobre o segredo da família. Porque todas as famílias têm os seus segredos.

Gostei, sobretudo, da escrita de Pombo e do modo como ele consegue dar voz a uma rapariga de um modo que, pelo menos a mim, me convenceu.

“Por Aqui e Por Ali”, de Bill Bryson

bryson_walk.jpgInvejo o Bill Bryson, a quem pagam para viajar. Depois, ele “só” tem que escrever um livro sobre isso.

Este chama-se “A Walk in the Woods” mas, mais uma vez, o responsável pela edição portuguesa achou o título pateta e decidiu chamar-lhe “Por aqui e Por Ali”.

Bryson publicou o livro em 1997 e nele conta as suas caminhadas pelo trilho dos Apalaches, que vai desde a Geórgia ao Maine, atravessando as Carolinas, a Virgínia, a Pensilvânia, um pouco de Nova Iorque, e depois o Massachussets, o New Hampshire e Vermont. São mais de 3300 km, dos quais Bryson “apenas” percorreu 1400, por vezes sozinho, outras vezes acompanhado pelo seu amigo Katz.

Sempre com muito humor e com preocupações ambientais quanto baste, sem entrar em histerias, Bryson vai-nos descrevendo as suas longas caminhadas por uma das maiores florestas do planeta, ao longo das montanhas dos Apalaches (mais de 350 picos com mais de 1500 metros de altitude). O Trilho dos Apalaches é o mais antigo e longo do mundo, e ficou concluído em 1937.

Um daqueles livros que sabe bem ler com companhia. E um tipo fica logo com vontade de tentar percorrer, pelo menos, uma parte desse trilho.

“Amor & Etc”, de Julian Barnes

amoretct.jpgEditado em 2000, este livro de Julian Barnes está escrito em forma de entrevista. Os vários personagens vão-nos dando depoimentos, como se estivessem a ser entrevistados e, cada nova entrada, faz avançar a história.

Basicamente, a trama centra-se em Gillian e nos dois homens da sua vida: Stuart, o primeiro marido, e Oliver, o segundo.

Em tempos, estas três pessoas foram grandes amigos. Gillian e Stuart casaram-se ainda jovens e, passado pouco tempo, Gillian e Olivier começaram a entender-se. Stuart saiu de cena, foi viver para longe e voltou a casar. Gillian e Olivier tiveram duas filhas e o seu casamento entrou na pasmaceira. Stuart divorciou-se e regressou e voltou a entender-se com Gillian.

Uma história banal, que já todos ouvimos contar mas, neste caso, apresentada de um modo diferente.

Parece que este livro é uma espécie de sequela de um outro, de Barnes, intitulado “Love & Cª”.

Talvez seja melhor lê-lo, para entender melhor este. No entanto, pareceu-me um livro aparentemente superficial mas que, no fundo, retrata os sentimentos de muita gente banal, de muita gente verdadeira (conheço alguma dessa gente).

Pode ler-se aos solavancos, sem grande concentração.

“Pastoral Americana”, de Philip Roth

pastoralamericana.jpgSeymour Levov, conhecido como o Sueco, é um judeu norte-americano bem sucedido. Na escola, era o ídolo dos colegas, membro destacado das equipas de futebol americano e de basquetebol. Herdou, do pai, uma fábrica de luvas, em Newark, e foi um patrão exemplar, não discriminando empregados, quer pelo sexo, quer pela etnia. Casou com Dawn, uma católica – e aí, teve que afrontar o pai, muito mais ortodoxo do que ele e para quem foi muito difícil aceitar uma nora não judia. Mas Dawn era linda, tinha sido Miss New Jersey e revelou-se uma esposa exemplar, tomando conta de uma quinta, onde criava vacas.

Levov era o retrato do norte-americano feliz e realizado, sempre fazendo “the right thing”. Depois nasceu a filha, Merry e a família viveu feliz e próspera até começar a guerra do Vietnam e Merry, que entretanto chegara í  adolescência, se ter transformado numa militante radical anti-guerra.

Merry levou o seu radicalismo ao extremo, colocando uma bomba na estação de correios que, ao explodir, matou acidentalmente um médico idoso e respeitado em toda a comunidade judaica. Merry passou í  clandestinidade, foi responsável por outros atentados, nos quais morreram mais três pessoas e, anos depois, abraçou a religião Jain, não comendo seres vivos e recusando-se a tomar banho, para não conspurcar a água.

Levov viveu anos de desespero, sem saber onde parava a filha, sem compreender a sua atitude, mas sempre fazendo “the right thing”.

Nem sempre os bons são recompensados, nem sempre a “normalidade” gera “normalidade”, não está escrito, em lado nenhum, que a vida é justa.

Roth é um dos meus escritores favoritos e, neste livro, para além de ser torrencial, como de costume, interpreta muito bem os sentimentos de um homem que não consegue perceber o que fez de errado para merecer uma filha assim. Se calhar, na vida, uma coisa não tem que forçosamente levar a outra.

Com este livro, Roth ganhou o Prémio Pullitzer, em 1998. A edição portuguesa é da D. Quixote, com tradução de Maria João Delgado e Luisa Feijó.