“Autor, Autor”, de David Lodge

autorautor.jpgHenry James nasceu em Nova Iorque, em 1843 e faleceu em Londres, onde vivia há muitos anos, em 1916. Romancista influente, foi autor de diversos romances: “Daisy Miller”, “O Calafrio”, “Retrato de uma Senhora”, entre outros. Confesso que não li nenhum livro de Henry James; talvez por isso, esta narrativa de David Lodge, sobretudo centrada sobre a tentativa (falhada) de James em se tornar um dramaturgo de sucesso, não me entusiasmou muito.

Numa escrita bastante diferente do que é hábito em Lodge, mais contida, com menos (ou nenhuns) devaneios humorísticos, é traçado um retrato um pouco frívolo do escritor, que passa a sua vida em compromissos sociais e muito preocupado com o sucesso (ou a falta dele) das suas obras teatrais.

James é apresentado como uma figura assexuada, que parece viver obcecado pelo êxito literário do seu amigo Du Maurier, autor de “Trilby”, um romance que hoje deveria ser classificado como literatura “light”. Ambivalente, Henry James parece invejar o sucesso do amigo e, simultaneamente, desprezá-lo, por se considerar superior.

Se conhecesse a obra de Henry James, talvez o livro me parecesse mais interessante…

“A Conspiração Contra a América”, de Philip Roth

conspiracao.jpgA ideia deste novo livro de Roth é engenhosa: em 1940, quando Hitler se preparava para iniciar a 2ª Guerra, Charles Lindbergh concorre í s eleições norte-americanas e derrota Roosevelt.

Lindbergh era, na altura, um verdadeiro herói, depois das suas façanhas na aeronáutica e consegue derrotar o candidato democrata, prometendo aos americanos que estes não vão interferir na guerra dos europeus.

A Alemanha, a Itália e o Japão podem, assim, tomar conta do mundo, perante a neutralidade dos EUA.

Sendo Lindbergh um simpatizante das ideias nazis, os judeus americanos começam a temer que lhes aconteça o mesmo que aos judeus da Europa.

O livro é narrado pelo próprio Philip Roth que, na altura, tinha 9 anos e vivia uma vida tranquila, com os pais e o irmão mais velho, em Newark, num bairro maioritariamente judeu.

A vitória de Lindbergh muda totalmente a vida desta família e muda, também, a História do Mundo.

O mais curioso nesta obra de Roth é exactamente o facto de o livro ser narrado por alguém que, em 1940, tinha 9 anos. Assim, as mudanças na vida daquele miúdo, na vida dos seus pais e do seu irmão, dos seus amigos e dos judeus daquele bairro, são uma parábola das mudanças que ocorrem em todo o mundo.

Imaginem, só por um momento, que os Estados Unidos tinham um presidente nazi e que, em vez de entrarem na 2ª Guerra, ao lado da Grã-Bretanha, se mantinham neutrais e que, mais tarde, declaravam guerra ao Canadá?

Perturbador, no mínimo.

“O Cego de Sevilha”, de Robert Wilson

cegodesevilha.jpgUma história dentro de outra história. Robert Wilson escreve livros policiais diferentes. O crime não é o cerne da trama, mas sim a história particular do protagonista.

No caso de “O Cego de Sevilha” (2003, D. Quixote), o protagonista é Fálcon, detective sevilhano que se depara com um assassínio particularmente bárbaro: alguém atou firmemente Raul Jimenez a uma cadeira, em frente a um televisor, passou-lhe uma corda pelo pescoço, cortou-lhe as pálpebras e obrigou-o a ver algo de tão horrível, que o pobre homem acabou por cortar as próprias carótidas com a corda que o prendia.

A este assassínio estranho, outro se lhe seguiu e, no decorrer da investigação, Fálcon acabou por perceber que havia uma ligação entre os mortos e o seu pai, também já falecido, que fora um conhecido pintor, cuja grande obra fora produzida enquanto vivia em Tânger. É então que Fálcon decide, finalmente, espiolhar o antigo estúdio do pai e descobre os seus diários.

Os diários de Francisco Fálcon são um livro dentro do livro e a sua narrativa é a parte mais interessante deste livro. Descobrimos que o pai do detective tinha sido membro da Legião espanhola, combatera contra os comunistas na Guerra Civil, instalando-se, depois, em Tânger, vivendo do contrabando, em sociedade com  Jimenez. E descobrimos que, afinal, o grande pintor tinha sido um torcionário, um pedófilo e um assassino.

A história do assassino de Sevilha transforma-se, assim, na história pessoal do detective e na sua descida ao abismo da sua história pessoal.

Um livro interessante, embora eu pense que Wilson se deixou levar pelo material que ele próprio inventou e que acaba por deixar muitas pontas soltas (por exemplo, a psicoterapia a que o detective decide submeter-se, na sequência das suas crises de pânico, desaparece da narrativa, í  medida que ele vai lendo os diários do pai; talvez não tivesse sido má ideia ler aquilo tudo, de seguida…)

“Notas sobre um país grande”, de Bill Bryson

notassobrepais.jpgLer um livro de Bryson é divertimento garantido. Conhecido como escritor de viagens, este norte-americano tem sentido de humor europeu e enriquece sempre a sua prosa com um estilo divertido.

Neste livro, Bryson juntou as crónicas que escreveu, semanalmente, para a revista inglesa Mail on Sunday’s Night and Day.

Depois de viver muitos anos na Grã-Bretanha, Bryson mudou-se com a família para os EUA e, nestas crónicas, fala-nos da América como se fosse um estranho em terra estranha.

Exemplos:

Sobre a mania que os americanos têm de colocar avisos por todo o lado: “a piscina pública local tem trinta e sete avisos afixados – tinta e sete! – sendo o meu preferido o que diz: «Em cada mergulho apenas é permitido um pulo no trampolim.»

Sobre a importância que os americanos dão ao facto de os carros terem suportes para copos: “faz pouco tempo, o New York Times apresentou um longo artigo sobre os testes que realizou a uma dúzia de carros familiares. Classificou-os de acordo com 10 tópicos, tais como motor, tamanho, espaço no porta-bagagens, comportamento na estrada, qualidade da suspensão e, pois é, número de suportes de copos. (…) Alguns carros, tais como o Dodge Caravan, vêm com 17 suportes de copos! Dezassete! O maior Caravan leva até sete pessoas. Não é preciso ser um físico nuclear, ou até estar bem acordado, para ver que isso dá 2,43 suportes por passageiro. É legítimo que se pergunte porque necessitaria cada passageiro do veículo de 2,43 suportes.”

Sobre a preocupação dos americanos pelos estilos saudáveis de vida: “todas as pessoas que conheço, quase não bebem, nunca tocam em cigarros, vigiam o colesterol como se fossem seropositivos, vão e voltam a correr daqui ao Canadá duas vezes ao dia e vão para a cama cedo. Tudo isto é muito ponderado, e sei que vão viver muito mais do que eu, mas não é lá muito divertido”.

Sobre a informática: “durante muito tempo espantava-me como é que algo tão caro, tão de vanguarda, podia ser tão inútil, e então ocorreu-me que um computador é uma máquina estúpida com capacidade de fazer coisas incrivelmente inteligentes, enquanto os programadores informáticos são pessoas inteligentes com capacidade de fazer coisas incrivelmente estúpidas. Formam, em suma, um par perigosamente perfeito.”

Sobre os políticos americanos e a pena de morte: “não acredito que haja um político na América – certamente nenhum com algum estatuto – que tivesse coragem de enfrentar um sentimento geral desta magnitude (57 por cento dos americanos continuariam a ser favor da pena de morte, mesmo se se descobrisse que um pessoa em cada cem tinha sido executada indevidamente). Tempos houve em que os políticos tentavam mudar a opinião pública. Agora limitam-se a responder a ela, o que é lamentável, porque estas coisas são imutáveis.”

Publicado em 1998, a edição portuguesa, da Quetzal, é deste ano; a tradução é de Miguel Conde.

“A História Íntima do Orgasmo”, de Jonathan Margolis”

orgasmo.jpgDepois de termos lido “A História da V.”, nada melhor do que ler esta História do Orgasmo. Uma coisa leva í  outra, não é?

Margolis é apresentado como colaborador do Guardian, Financial Times e Time e publicou este livro em 2004.

É um livro curioso, que analisa a visão do orgasmo, ao longo da história da civilização. Como o seu próprio autor diz: “apesar da sua importância como ícone em quase todas as culturas e países do mundo, nunca se produziu uma tese definitiva sobre o orgasmo – sobre o pouco que se conhece da sua história altamente secreta, da sua biologia, antropologia, psicologia, tecnologia e sociologia, sobre o seu papel cultural e a sua literatura. Por essa razão, escrevi este texto, além do facto de gostar muito de orgasmos”.

Algumas citações, para dar o tom do livro.

Das vantagens do orgasmo:

“Diz-se que o orgasmo tem as mesmas vantagens mentais e físicas que uma corrida de oito quilómetros, graças ao incremento do ritmo cardíaco equivalente a um intenso exercício aeróbico. (…) Aparentemente, os orgasmos melhoram a respiração,  a circulação, o sistema cardiovascular, a força, a flexibilidade e a massa muscular. Diz-se também que produzem um brilho no olhar, no rosto e nos cabelos, além de aliviarem os sintomas de perturbações menstruais, osteoporose e artrite. Os orgasmos podem até ajudar a perder peso, uma vez que a adrenalina libertada durante o orgasmo reduz a glucose responsável pela acumulação de gorduras.”

Das mulheres pretensamente insaciáveis e multi-orgásticas, citando Donald Symons:

“A mulher sexualmente insaciável encontra-se principalmente, se não mesmo exclusivamente, na ideologia feminista, nas esperanças dos rapazes e nos receios dos homens”.

Das ideias puritanas sobre o “excesso” de actividade sexual:

“(Sylvester) Graham (o americano dos flocos de aveia) acreditava (…) que a masturbação reduzia a esperança e vida e conduzia í  insanidade mental, e que os casais com excesso de actividade sexual seriam atacados de ‘languidez, lassidão, distensão muscular, debilidade e obesidade gerais, depressão de espíritos, perda de apetite, indigestão, desmaios e inanição, susceptibilidades acrescidas da pele e dos pulmões a todas as alterações atmosféricas, debilidade circulatória, calafrios, dores de cabeça, melancolia, hipocondria, histeria, debilidades de todos os sentidos, estrabismo, perda de visão, debilidade respiratória, tosse convulsa, redução pulmonar, perturbações hepáticas e renais, dificuldades urinárias, perturbações dos órgãos genitais, doenças da coluna, perda de memória, epilepsia, insanidade mental, apoplexia, abortos, partos prematuros, debilidade extrema, predisposições mórbidas e uma morte precoce dos filhos”.

Não era nada exagerado, este Graham, pois não?

Da obsessão anti-masturbaçãos dos puritanos:

“O Treatment of Masturbation, de 1900, da autoria do Dr. Sturgis, incentivou o uso de uma espécie de cinto de castidade masculino: ‘puxa-se o prepúcio bem para a frente, introduz-se o indicador esquerdo profundamente até í  base da glande e, do exterior, perfurando a pele e a membrana mucosa, insere-se um alfinete de segurança revestido a níquel, atravessando horizontalmente em um centímetro até encontrar o dedo indicador do outro lado. Finalmente, coloca-se outro alfinete, pelo lado oposto do prepúcio, que se ajusta ao anterior. Qualquer tentativa de erecção provocará um dor intensa que tem um efeito dissuasor da masturbação.”

Simpático, este Dr. Sturgis!…

Para além de estas e muitas outras curiosidades históricas, o livro dedica muitas páginas ao orgasmo feminino que, finalmente, parece liberto do estigma de Freud, que considerava o orgasmo clitorideano como imaturo, só aceitando o orgasmo vaginal, com penetração – coisa que, muito provavelmente, nem sequer existe.

Apesar de, por vezes, o livro me parecer um pouco confuso (será da tradução?), não deixou de ser uma leitura agradável e, em alguns passos, esclarecedora.

“As Loucuras de Brooklyn”, de Paul Auster

loucurasdebrooklyn.jpgAuster é um excelente contador de histórias e, em cada livro que escreve, não é nada usurário: conta-nos sempre muitas histórias.

Neste “The Brooklyn Follies”, o narrador, Nathan, é um ex-angariador de seguros, quase a fazer 60 anos, que se reforma antecipadamente por sofrer de cancro do pulmão, sem nunca ter fumado. Como Auster é fumador, percebe-se a ironia. Nat conta-nos inúmeras histórias, ao longo das quase trezentas páginas deste livro: a sua própria história, como ele acaba por vencer o cancro, como se entretém a escrever um livro, nas horas vagas, e como quase que morre de um ataque cardíaco, que afinal era uma esofagite; do seu sobrinho Tom, que tinha um brilhante futuro académico, mas acabou por se tornar taxista em Manhattan, depois, empregado num alfarrabista e, finalmente, milionário; da sua sobrinha Aurora, mãe solteira, com uma vida desregrada, cheia de namorados de ocasião, álcool e drogas, que acaba por aderir a uma daquelas igrejas cristãs fundamentalistas; de Harry, o alfarrabista, ex-presidiário, homossexual e sempre a arranjar esquemas para ganhar dinheiro com falsificações, etc, etc.

Quando acabamos de ler este livro, sentimo-nos bem, por dentro. A vida é, de facto, feita destas pequenas coisas: coisas boas e coisas más, que nos vão acontecendo; algumas delas, acontecem-nos porque nós fazemos por isso mas, a maior parte dessas coisas, simplesmente acontecem, por acaso. E o nosso papel, parece-me, é tentar domar esses acontecimentos e fazer com que eles, por mais estranhos e desesperados que sejam, acabem por nos favorecer.

“Longe do Abrigo”, de David Lodge

longedoabrigo.jpgPublicado pela primeira vez em 1970, “Out of the Shelter” foi o quarto romance de David Lodge e o mais autobiográfico.

Conta-nos a aventura de Timothy, um jovem britânico, de 16 anos, na sua viagem a Heidelberg, para visitar a irmã, Kate, que trabalhava para a força de ocupação norte-americana, logo a seguir ao final da Segunda Guerra Mundial.

Foram três semanas de férias que mudaram a vida do rapaz, marcando a sua passagem para a idade adulta. Como é habitual, nos livros de Lodge, que é católico, os dilemas morais e religiosos dominam as angústias de Timothy.

Ao mesmo tempo, o livro dá-nos uma ideia de como viviam, naqueles tempos, os alemães, derrotados na guerra, os britânicos, vencedores, mas mantendo restrições e racionamentos, e os americanos, já com os seus tiques de donos do mundo.

A escrita é escorreita, como habitualmente, sem grandes floreados, muito coloquial; a história tem princípio, meio e fim e não há lugar para grandes devaneios.

Lodge corrigiu o livro em 1985 e a edição portuguesa é de 2003, com tradução de Ana Maria Chaves.

“O Hussardo”, de Arturo Pérez-Reverte

hussardo.jpgPí¨rez-Reverte é um escritor espanhol com algum interesse. Os seus livros “O Cemitério dos Barcos Sem Nome” (2000) e “A Rainha do Sul” (2002), são romances de aventuras bem conseguidos, cheios de peripécias, ao estilo de Alexandre Dumas. “A Tábua de Flandres” (1990), no entanto, não me pareceu tão interessante.

Muito menos este “O Hussardo”. Publicado em 1983, foi o primeiro romance de Pérez-Reverte. A edição que li é de 2004 e é uma revisão, feita pelo próprio autor e, como ele diz, numa nota introdutória, “aliviado de alguns advérbios e adjectivos desnecessários”.

Mesmo assim, pareceu-me um romance aborrecido. São páginas e páginas de descrições dos uniformes garbosos dos hussardos de Napoleão, das glórias que eles aguardam ao combater os andrajosos espanhóis e, depois, uma longa e fastidiosa descrição de uma batalha, que acaba em sangue, lama e morte.

O autor quer-nos mostrar como os jovens hussardos eram iludidos com a honra e a glória de pertencerem a um regimento tão garboso, servindo a França e o Imperador; depois, a realidade das batalhas era bem diferente, degradante e tenebrosa.

Não valia a pena escrever um livro por isto.

“Dias Exemplares”, de Michael Cunningham

diasexemplares.jpgDepois de ter lido os outros romances de Cunningham (“Uma Casa no fim do mundo”, 1990; “Sangue do meu sangue”, 1995; e “As Horas”, 1998), confesso que esperava mais deste “Dias Exemplares” (“Specimens Days”, 2005).

O livro está dividido em três partes: “Dentro da máquina”, passado nos finais do século XIX ou princípio do século XX, em plena Era Industrial; “A Cruzada das crianças”, que decorre na actualidade; e “Uma Espécie de beleza”, que se passa num futuro distante, após um qualquer holocausto.

Em comum, estas três histórias têm alguns pontos: todas têm Nova Iorque como cenário, os protagonistas são sempre um homem, uma mulher e um rapaz (embora não o mesmo homem, a mesma mulher e o mesmo rapaz), e os versos de Walt Whitman surgem nos três segmentos, com valor profético.

Qualquer destas três histórias poderia ter dado um bom romance independente. O autor também poderia ter optado por escrever três excelentes “short stories”. No entanto, optou por deixar cada um dos segmentos como que inacabado. Aliás, sobretudo no final da segunda e da terceira partes, fica-se com vontade de continuar a ler, fica-se com vontade de que a história continue.

“Dentro da máquina” foi o segmento que me despertou menos interesse. “A Cruzada das crianças” é uma história muito perturbadora e algo mística. Finalmente, “Uma Espécie de beleza” é um excelente conto de ficção científica, que me fez lembrar algumas coisas que li há muitos anos, na velhinha colecção Argonauta (Ray Bradbury, Philip K. Dick, por exemplo – se calhar, a comparação é blasfema…).

 

Cunningham tem uma escrita muito particular, poética e macia. Parece-me que escreve com ternura. Um exemplo: “Era pequena e bonita, infantil, embora tivesse pelo menos a idade de Catherine. Usava um roupão cor de tangerina. Tinha o aspecto de qualquer coisa que podia ser ganha numa rifa de feira.” Outro exemplo: “A cabeça redonda era demasiado grande para o seu corpo franzino. Assentava sobre os ombros da jaqueta como uma abóbora. Como um desenho da Lua num livro infantil.”

No entanto, repito, esperava mais deste novo livro de Cunningham.

“Cartas de um louco”, de Ted L. Nancy

cartasdeumlouco.jpgNão faço ideia de quem seja este Ted L. Nancy e não me admirava nada que este fosse um pseudónimo de Jerry Seinfeld, que escreve o prefácio deste livro singular, publicado em 1997.

O que é certo é que o tal Nancy escreveu uma série de cartas a hotéis, empresas, a clubes desportivos, universidades, ao vice-presidente dos EUA, ao rei do Tonga e muitas outras entidades, com as sugestões, os pedidos e os agradecimentos mais absurdos que se possam imaginar. E o mais surpreendente, é que recebeu resposta a essas cartas. Por vezes, as respostas ainda parecem mais absurdas que as cartas de Nancy.

Podia dar muitos exemplos, mas um basta, porque as restantes cartas são mais ou menos assim, ou pior:

“Ao balcão de reservas do Pan Pacific Hotel San Francisco:

Gostaria de me hospedar no vosso hotel na noite de 21 de Fevereiro. Porém, tenho um problema de saúde que gostaria de vos explicar.

Eu tenho três pernas. Duas delas são normais e com pés de tamanho normal (tamanho 42) e a terceira está a crescer ao lado da perna esquerda. A terceira perna calça o número 47. Como podem imaginar, é complicado arranjar calçado. Tenho montes de sapatos de tamanho 47 dos quais só poderei calçar uma das peças. E não ulso calções!

Gostaria de saber se posso ser hospedado assim que der entrada no vosso hotel. Haverá quartos disponíveis para o dia 21 de Fevereiro? E poderá um homem de três pernas hospedar-se no vosso hotel durante três dias? Para além disto, preciso de um divã ao lado da cama para conseguir dormir.

Obrigado pela resposta rápida que sei que me vão dar, pois preciso de fazer as minhas reservas o mais depressa possível, sempre ouvi dizer que a Pan Pacific chega a extremos difíceis de imaginar para conseguir receber decentemente pessoas com capacidades especiais, especialmente pessoas com três pernas.”

Perante uma carta como esta, quem responderia? Pois o que acontece é que quase todas as cartas de Nancy têm uma resposta. A esta, por exemplo, respondem-lhe com os preçários dos vários quartos, referindo o tamanho das respectivas camas e informando que todos os quartos possuem um divã. Quer dizer: o facto do candidato a hóspede ter três pernas, não causou qualquer estranheza!

Ele escreve, dizendo que viaja sempre com a sua própria máquina de gelo e pergunta se pode ser hospedado em determinado hotel, fazendo notar que ele mesmo carregará a máquina até ao quarto. Noutra carta, pergunta se pode ficar hospedado num hotel, levando as suas próprias cortinas. Escreve í  Mars, sugerindo novas qualidades de barras de chocolate, absolutamente absurdas. Escreve a uma cadeia de lojas, pedindo que lhe vendam um manequim, que se encontra na montra de uma delas, e que é muito parecido com um vizinho seu, recentemente falecido e era sua intenção oferecer o manequim í  viúva, para minorar a sua perda.

E todos lhe respondem sempre cordialmente, ignorando o facto do teor da carta ser completamente insano!

Não há dúvida que esta é uma grande ideia e, ao acabar de ler este livro, fiquei com uma grande vontade de ir alugar uma caixa postal e começar a enviar cartas semelhantes para algumas entidades portuguesas…