“O Hussardo”, de Arturo Pérez-Reverte

hussardo.jpgPí¨rez-Reverte é um escritor espanhol com algum interesse. Os seus livros “O Cemitério dos Barcos Sem Nome” (2000) e “A Rainha do Sul” (2002), são romances de aventuras bem conseguidos, cheios de peripécias, ao estilo de Alexandre Dumas. “A Tábua de Flandres” (1990), no entanto, não me pareceu tão interessante.

Muito menos este “O Hussardo”. Publicado em 1983, foi o primeiro romance de Pérez-Reverte. A edição que li é de 2004 e é uma revisão, feita pelo próprio autor e, como ele diz, numa nota introdutória, “aliviado de alguns advérbios e adjectivos desnecessários”.

Mesmo assim, pareceu-me um romance aborrecido. São páginas e páginas de descrições dos uniformes garbosos dos hussardos de Napoleão, das glórias que eles aguardam ao combater os andrajosos espanhóis e, depois, uma longa e fastidiosa descrição de uma batalha, que acaba em sangue, lama e morte.

O autor quer-nos mostrar como os jovens hussardos eram iludidos com a honra e a glória de pertencerem a um regimento tão garboso, servindo a França e o Imperador; depois, a realidade das batalhas era bem diferente, degradante e tenebrosa.

Não valia a pena escrever um livro por isto.

“Dias Exemplares”, de Michael Cunningham

diasexemplares.jpgDepois de ter lido os outros romances de Cunningham (“Uma Casa no fim do mundo”, 1990; “Sangue do meu sangue”, 1995; e “As Horas”, 1998), confesso que esperava mais deste “Dias Exemplares” (“Specimens Days”, 2005).

O livro está dividido em três partes: “Dentro da máquina”, passado nos finais do século XIX ou princípio do século XX, em plena Era Industrial; “A Cruzada das crianças”, que decorre na actualidade; e “Uma Espécie de beleza”, que se passa num futuro distante, após um qualquer holocausto.

Em comum, estas três histórias têm alguns pontos: todas têm Nova Iorque como cenário, os protagonistas são sempre um homem, uma mulher e um rapaz (embora não o mesmo homem, a mesma mulher e o mesmo rapaz), e os versos de Walt Whitman surgem nos três segmentos, com valor profético.

Qualquer destas três histórias poderia ter dado um bom romance independente. O autor também poderia ter optado por escrever três excelentes “short stories”. No entanto, optou por deixar cada um dos segmentos como que inacabado. Aliás, sobretudo no final da segunda e da terceira partes, fica-se com vontade de continuar a ler, fica-se com vontade de que a história continue.

“Dentro da máquina” foi o segmento que me despertou menos interesse. “A Cruzada das crianças” é uma história muito perturbadora e algo mística. Finalmente, “Uma Espécie de beleza” é um excelente conto de ficção científica, que me fez lembrar algumas coisas que li há muitos anos, na velhinha colecção Argonauta (Ray Bradbury, Philip K. Dick, por exemplo – se calhar, a comparação é blasfema…).

 

Cunningham tem uma escrita muito particular, poética e macia. Parece-me que escreve com ternura. Um exemplo: “Era pequena e bonita, infantil, embora tivesse pelo menos a idade de Catherine. Usava um roupão cor de tangerina. Tinha o aspecto de qualquer coisa que podia ser ganha numa rifa de feira.” Outro exemplo: “A cabeça redonda era demasiado grande para o seu corpo franzino. Assentava sobre os ombros da jaqueta como uma abóbora. Como um desenho da Lua num livro infantil.”

No entanto, repito, esperava mais deste novo livro de Cunningham.

“Cartas de um louco”, de Ted L. Nancy

cartasdeumlouco.jpgNão faço ideia de quem seja este Ted L. Nancy e não me admirava nada que este fosse um pseudónimo de Jerry Seinfeld, que escreve o prefácio deste livro singular, publicado em 1997.

O que é certo é que o tal Nancy escreveu uma série de cartas a hotéis, empresas, a clubes desportivos, universidades, ao vice-presidente dos EUA, ao rei do Tonga e muitas outras entidades, com as sugestões, os pedidos e os agradecimentos mais absurdos que se possam imaginar. E o mais surpreendente, é que recebeu resposta a essas cartas. Por vezes, as respostas ainda parecem mais absurdas que as cartas de Nancy.

Podia dar muitos exemplos, mas um basta, porque as restantes cartas são mais ou menos assim, ou pior:

“Ao balcão de reservas do Pan Pacific Hotel San Francisco:

Gostaria de me hospedar no vosso hotel na noite de 21 de Fevereiro. Porém, tenho um problema de saúde que gostaria de vos explicar.

Eu tenho três pernas. Duas delas são normais e com pés de tamanho normal (tamanho 42) e a terceira está a crescer ao lado da perna esquerda. A terceira perna calça o número 47. Como podem imaginar, é complicado arranjar calçado. Tenho montes de sapatos de tamanho 47 dos quais só poderei calçar uma das peças. E não ulso calções!

Gostaria de saber se posso ser hospedado assim que der entrada no vosso hotel. Haverá quartos disponíveis para o dia 21 de Fevereiro? E poderá um homem de três pernas hospedar-se no vosso hotel durante três dias? Para além disto, preciso de um divã ao lado da cama para conseguir dormir.

Obrigado pela resposta rápida que sei que me vão dar, pois preciso de fazer as minhas reservas o mais depressa possível, sempre ouvi dizer que a Pan Pacific chega a extremos difíceis de imaginar para conseguir receber decentemente pessoas com capacidades especiais, especialmente pessoas com três pernas.”

Perante uma carta como esta, quem responderia? Pois o que acontece é que quase todas as cartas de Nancy têm uma resposta. A esta, por exemplo, respondem-lhe com os preçários dos vários quartos, referindo o tamanho das respectivas camas e informando que todos os quartos possuem um divã. Quer dizer: o facto do candidato a hóspede ter três pernas, não causou qualquer estranheza!

Ele escreve, dizendo que viaja sempre com a sua própria máquina de gelo e pergunta se pode ser hospedado em determinado hotel, fazendo notar que ele mesmo carregará a máquina até ao quarto. Noutra carta, pergunta se pode ficar hospedado num hotel, levando as suas próprias cortinas. Escreve í  Mars, sugerindo novas qualidades de barras de chocolate, absolutamente absurdas. Escreve a uma cadeia de lojas, pedindo que lhe vendam um manequim, que se encontra na montra de uma delas, e que é muito parecido com um vizinho seu, recentemente falecido e era sua intenção oferecer o manequim í  viúva, para minorar a sua perda.

E todos lhe respondem sempre cordialmente, ignorando o facto do teor da carta ser completamente insano!

Não há dúvida que esta é uma grande ideia e, ao acabar de ler este livro, fiquei com uma grande vontade de ir alugar uma caixa postal e começar a enviar cartas semelhantes para algumas entidades portuguesas…

“A História da V”, de Catherine Blackledge

vagina.jpgCatherine Blackledge é doutorada em Ciências e uma conhecida jornalista científica inglesa. Para escrever este livro procedeu a uma investigação exaustiva sobre a vagina, em todas as suas vertentes: histórica, científica, mitológica, antropológica, etc.

Aprendemos muito com este livro. Blackledge não se poupou a esforços para realçar o papel que a vagina tem na nossa vida, chamando a atenção para o facto de esse papel ter sido subalternizado durante séculos, não só devido aos conceitos morais vigentes, liderados por homens, mas também devido a uma certa cegueira científica. Como é possível, por exemplo, que a Ciência tenha deliberadamente ignorado muitos factos sobre a importância da vagina, já detectados pelos Antigos? Neste particular, o papel obscurantista da Igreja é notável.

Penso que vale a pena transcrever algumas passagens deste livro, embora nada disto substitua a sua leitura integral.

Sobre a concepção, por exemplo: o papel determinante da mulher na concepção, melhor, o papel único, já que, para os Antigos, só a mulher estava implicada na concepção.

“O poeta grego Homero revela o quanto os homens ainda esperavam um papel principal na concepção, com a sua descrição de como as éguas são fertilizadas pelo vento. Uma teoria posterior propunha que o ar estava cheio de microscópicos ‘animálculos’ etéreos que, por acaso, o vento ou a corrente de ar penetravam na mulher e a engravidavam. (…) A versão cristã da concepção da Virgem Maria diz que ela foi ‘visitada’ por um Espírito Santo etéreo. Em contraste, os ilhéus das Trobriand contam como Bolutukwa, mãe de Tudava, seu herói lendário, concebeu quando gotas de água penetraram na sua virginal vagina.”

Quer dizer: parece que os homens não tinham nenhum papel na concepção. A importância da mulher na perpetuação da espécie era essencial para os povos antigos.

Sobretudo para certas culturas orientais, a vagina era (e é) sacralizada, em vez de ser demonizada, como acontece no ocidente, sobretudo depois da Idade Média e da Inquisição.

Blackledge coscuvilhou e encontrou coisas curiosas, como a ligação entre chifres, fertilidade e útero. Os médicos sabem que, segundo a anatomia humana, o útero tem cornos. Diz a autora: “a associação entre um homem corneado e chifres prevalece em toda a Europa meridional. Em português (cornudo ou cabrão), em espanhol (cornudo), em catalão (cornut ou cabron), em francês (cocu) e em grego (ketatas), a palavra para a pessoa corneada quer dizer ‘o que foi corneado’ ou ‘aquele que transporta os chifres’. (…) É significativo que esse termo só se aplique a homens, nunca a mulheres”.

A autora procura também decifrar o significado das palavras relacionadas com a vagina.

“Na verdade coí±o é uma palavra tão vulgar em Espanha (embora seja usada como imprecação) que, tal como os ingleses foram chamados de fuckoffs pelos franceses, no Chile e no México, os espanhóis são conhecidos como coí±os. (…)

A dicotomia do significado de cona também é visível noutras regiões da Europa. Em Itália, figa (cona) não é um insulto nem um palavrão. Trata-se, pelo contrário, de uma imprecação bastante comum (depois de cazzo – caralho – talvez seja a mais usada). Figa é a forma falada, e fica, o termo escrito. Che figa! É, de facto, uma expressão brejeira. Pode aplicar-se a pessoas, ‘que pedaço de mulher!’, a objectos – Che festa figa! – ‘que bela festa!’ e a situações, ‘que sorte!’ (…) No entanto, na Alemanha, tal como na Grã-Bretanha, cunt ou fotze são os supremos tabus. Mas fotze é igualmente uma antiga palavra para boca.”

Blackledge dedica muitas páginas ao clítoris e acho muito bem. Pena que muita gente nem sequer saiba muito bem onde fica o clítoris. Mais uma vez, a autora mostra como a Ciência escondeu, durante séculos, as descrições que anatomistas antigos fizeram desse órgão glorioso, como ela lhe chama, e com razão. De tal modo, que até parece que o clítoris só foi descoberto no século 17, quando existem descrições pormenorizadas dessa órgão em escritos antiquíssimos.

Neste particular, entram em acção os puritanos. Blackledge conta como, no final do século 19 e princípio do 20, a clitoridectomia esteve tão na moda, para resolver problemas de histeria e outros. “Kellog, o rei dos flocos de aveia, (…) defendia que se despejasse ‘fenol concentrado no clítoris’, caso as jovens continuassem a satisfazer-se sozinhas”. O que era preciso é que as mulheres não sentissem prazer. O papel das mulheres e da vagina, como simples receptoras do esperma para a concepção, dominou (domina?) o pensamento durante séculos.

São deliciosas, as lendas que a autora conta sobre o clítoris e a vagina, sobretudo as que são contadas em algumas ilhas do Pacífico, no Amazonas e também em ífrica. Só por essas histórias, o livro vale a pena. As histórias da vagina dentada, que comia os pénis,  são muito engraçadas.

O papel da vagina na relação sexual é bem destacado pela autora. Contradizendo a ideologia dominante, de uma vagina passiva, mero receptáculo do esperma, Blackledge explica como a vagina é essencial, por exemplo, na escolha dos espermatozóides mais promissores e como participa activamente na relação sexual. Os exemplos são í s dezenas, das besouras í s macacas. Baseada na teoria evolucionista, a autora mostra-nos como as fêmeas controlam tudo, no que respeita í  perpetuação das espécies.

E dá exemplos deliciosos: “o escritor francês Gustave Flaubert refere-se com entusiasmo aos seus encontros com as prostitutas profissionais exiladas na cidade egípcia de Esneh: ‘a sua cona ordenhava-me como rolos de veludo – eu enloquecia.” Através do mundo, Shilihong era uma profissional de sexo de Xangai famosa pelo seu excepcional controlo dos músculos vaginais. Consta que era capaz de movimentar o pénis do homem para dentro e para fora, simplesmente contraindo e relaxando os seus músculos, movimento que produzia uma sensação de sucção. Diz-se igualmente que a ‘chupeta de Xangai’, de Wallis Simpson, foi um dos motivos pelo qual a Grã-Bretanha perdeu um rei em 1936. Comentava-se que a Sra. Simpson conseguia que um palito de fósforo se sentisse um charuto de Havana”.

Pesquisando a literatura, Blackledge acaba por descobrir que, afinal, também as mulheres têm próstata ou, pelo menos, um tecido semelhante í  próstata, algures na parede ventral da vagina, naquilo a que se convencionou chamar o ponto G – aquele que, estimulado, provocaria, indubitavelmente, o orgasmo da mulher. Afinal, como muita gente já desconfiava, a mulher possui diversos tipos de orgasmos, com o clitoridiano í  cabeça. Sempre baseada em estudos, a autora avança mesmo com algumas ideias revolucionárias, como o facto de existirem semelhanças entre as estruturas tecidulares da tal próstata feminina e do nariz. Por isso, se percebe a importância do cheiro para as relações bem sucedidas. Quando uma mulher diz “este tipo não me cheira”, é natural que a relação não avance…

A importância do orgasmo para a concepção, o facto de os vibradores terem sido um dos primeiros utensílios domésticos a serem electrificados, a moda de os médicos dos finais do século 19 e princípios do século 20, masturbarem as suas pacientes, para as “curarem” das histerias e, simultaneamente, a Ciência condenar a masturbação feminina – tudo isso e muito mais percorre este livro interessantíssimo e que nos fez passar um bom bocado.

Aconselhamo-lo a toda a gente, nomeadamente a colegas de profissão, que, da vagina, só devem ter uma pálida ideia.

“Casei com um Comunista” – de Philip Roth

caseicomcomunista.jpgO livro conta-nos a história de Iron Rinn, um comunista í  americana, que veio do meio operário dos subúrbios de Nova Iorque, subiu ao estrelato e acabou no anonimato, em parte devido í s suas convicções e í  caça í s bruxas, levada a cabo pelo senador McCarthy, em parte porque acabou por ceder í  burguesia que ele tanto odiava.

Rinn era um calmeirão, cheio de energia e de ideias progressistas. Devido í  sua semelhança física com Lincoln, começou por personificá-lo em festas das colectividades operárias e acabou por interpretar o seu papel num famoso teatro radiofónico, muito em voga na América, na altura em que a televisão ainda não tinha assumido o seu papel omnipresente nos lares de toda a gente.

Apesar de comunista convicto, Rinn acabou por se apaixonar por Eva Frame, uma estrela do cinema mudo, que era tudo o que ele desprezava: burguesa, rica, sofisticada, vaidosa, superficial. O casamento com Eva transformou a vida de Rinn num inferno, sobretudo por causa das disputas com Sylphide, filha de um anterior casamento de Eva.

O casamento passou do amor apaixonado ao ódio arrebatado. Apoiada por dois jornalistas da extrema-direita americana, Eva escreve um livro, intitulado “Casei com um Comunista”, em que denuncia o próprio marido. McCarthy e a sua comissão de defensores dos valores norte-americanos, fizeram o resto e Iron Rinn é despedido da rádio vai trabalhar novamente para as minas e morre, aos 51 anos, só e desprezado por quase todos. No entanto, ainda consegue, antes de morrer, que jornalistas de esquerda desmontem a falsidade da personagem de Eva Frame: afinal, era não era filha de navegadores do Massachussets, mas sim de um casal judeu que nem inglês sabia falar.

O mais interessante de mais este denso romance de Roth é o modo como está escrito, quase todo em discurso directo. De facto, toda esta história é contada pelo irmão mais velho de Ira a um antigo discípulo. É notável como Roth consegue fazer avançar a narrativa, sempre em discurso directo, o que não é nada fácil, suponho.

“Boris Vian por Boris Vian”

borisvian.jpgBoris Vian (1920-1959) foi um agitador francês que viveu depressa. Durante a sua curta passagem pela vida, deixou bem vincada a sua marca em Saint-Germain-des-Prés e meteu-se em quase tudo: escreveu peças de teatro e canções, poemas e romances, foi trompetista de jazz e tudo e tudo.

Dele, conheço melhor os romances: “A Espuma dos Dias” e “O Outono em Pequim”, ambos de 1947, e “O Arranca-Corações”, de 1953. Já tive a minha fase Boris Vian e duvido que os seus romances aguentassem uma segunda leitura.

Como é natural num tipo hiperactivo, deu opiniões sobre tudo e mais alguma coisa e, no ano passado, Noel Arnaud decidiu compilar citações e aforismos de Vian, neste livro, editado agora em Portugal, pela Fenda.

Nele encontramos palavras de Boris Vian sobre o amor, as mulheres, a moral, o jovens e os velhos, o futuro, a morte, deus e os seus servos, etc

Sobre o trabalho, por exemplo, disse Vian: “O paradoxo do trabalho é que, no fim de contas, trabalhamos apenas para o suprimir. E, ao recusar constatar com honestidade o seu carácter nocivo, acordamos-lhe todas as virtudes que mascararam o seu lado fatal. De facto, o verdadeiro ópio do povoe a ideia que se lhe dá do trabalho.”

É um livrinho interessante, que se lê numa tarde, embora algumas das frases e comentários de Vian não tenham assim tanto interesse, até porque muitas delas estão datadas, falando-nos de personagens contemporâneas de Vian, que terão sido importantes para ele próprio, mas que, a nós, nos dizem muito pouco.

“Consultório Sexual da Dra. Tatiana para toda a Criação”, de Olívia Judson

tatiana.jpgA Dra. Tatiana, aliás, Olívia Judson, bióloga, teve uma ideia genial: em vez de escrever um livro denso e desinteressante sobre a vida sexual dos seres vivos, transformou as centenas de informações que foi compilando num livro divertido e fácil de ler, vestindo-o de consultório sexual.

Assim, a Dra. Tatiana é uma especialista em sexologia dos seres vivos, que recebe cartas dos quatro cantos do mundo animal e responde í s questões com explicações pormenorizadas sobre os mistérios da Natureza.

Um exemplo:

“Querida Dra. Tatiana: sou uma abelha-rainha e estou preocupada. Todos os meus amantes deixam os genitais dentro de mim e depois caem mortos. Isto é normal?

Para os seus amantes, é dessa forma que o mundo acaba – com estrondo e não com um queixume. Quando um macho de abelha doméstica alcança o clímax, ele explode, e os seus genitais são arrancados ao corpo com um estalido sonoro. Compreendo que considere isso enervante. Por que acontece? Lamento, Vossa Majestade, os seus amantes explodem de propósito. Ao deixar os genitais dentro de si, eles bloqueiam-na. Ao fazê-lo, cada macho espera que não consiga acasalar com outro”.

E a Dra. Tatiana prossegue a explicação, relatando outros exemplos de espécies animais em que os machos tentam que as fêmeas não sejam penetradas por outros machos, colocando tampões, colas e outras coisas, no tracto genital das fêmeas.

Todo o livro tem um humor muito bem conseguido, não deixando, no entanto, de prestar informações científicas bem documentadas, sempre sob o ponto de vista evolutivo.

Outro exemplo delicioso:

“Entre os primatas tal como entre os insectos, é regra geral que, nas espécies em que as fêmeas se associam a um macho de cada vez, os pénis são pequenos e desinteressantes. Veja o gorila – um tipo enorme com uma pilinha minúscula. Um gorila macho pode pesar 210 quilos, mas o seu pénis tem uns míseros cinco centímetros de comprimento e é inteiramente desprovido de protuberâncias e espigões. O macho do pato Oxyura vittata envergonha-o. O animal é pequeno mas o seu pénis, que rivaliza com o da avestruz, mede vinte centímetros de comprimento – e tem espinhos.”

No final de cada capítulo, a Dra. Tatiana dá uma série de conselhos a propósito que, graças ao modo como estão escritos, podem também servir para a espécie humana.

Aqui está um exemplo de um livro “científico” muito divertido e bem escrito – um verdadeiro achado. Parabéns a Olívia Judson, bióloga com um doutoramento em Oxford. O livro foi editado em 2002. Em Portugal saiu este ano, na Quetzal, com tradução competente, parece-me, de Manuel Leite.

“Made in America”, de Bill Bryson

madeinamerica.jpgNeste calhamaço de quase 600 páginas, publicado em 1994, Bryson apresenta-nos a História informal da América. A sua leitura ajuda quem, como eu, por lá andou há pouco tempo, a compreender algumas das idiossincrasias desse imenso país que, apesar de ser uma manta de retalhos, não deixa de ter uma verdadeira unidade nacional.

São vinte um capítulos que abrangem a História não oficial dos EUA, desde o Mayflower í  era espacial, com um enfoque muito especial na língua inglesa, tal como ela é falada pelos americanos.

No capítulo “Nomes”, Bryson conta que, quando a linha férrea estava a ser instalada no estado de Washington, em 1870, um dos vice-presidentes da companhia teve como tarefa dar nome a 32 novas comunidades que iam nascer, ao longo da linha. E então “deu nomes í s comunidades de tudo e mais uma alguma coisa, desde poetas (Whitier) e peças de teatro (Othello), a tipos de comida caseira (Ralston e Purina).”

Verifiquei isso mesmo, ao atravessar o South Dakota, o Iowa ou o Wyoming e ao deparar em localidades com nomes como Gillette, Atomic City, Montpelier, Alcova, Dinossaur, Eureka, Medicine Bow, Ten Sleep.

Fiquei também a saber (embora já suspeitasse), que a maior parte dos mitos sobre os tempos dos cowboys foram inventados por Hollywood. Por exemplo, aquela história das caravanas dos colonos se disporem em círculos, para melhor se defenderem dos ataques dos índios, é uma aldrabice. Diz Bryson: “durante a maior parte da viagem as carroças avançavam em filas paralelas com distâncias entre si que podiam ir até 15 quilómetros, a fim de evitar a poeira umas das outras e também os sulcos das rodas daqueles que tivessem por ali passado antes deles – o que criava mais um obstáculo í  formação do tal círculo defensivo”.

No que respeita í  comida americana, é verdade que ele não presta, mas também é verdade que os próprios americanos parecem ter vergonha dela, ao inventar nomes estrangeiros para coisas que eles inventaram.

Diz Bryson: “O Russian dressing é desconhecido pelos russos, assim como a variedade americana de French dressing é desconhecida para os franceses. A vichyssoise não foi criada em França mas em Nova Iorque, em 1910, e o queijo Liederkranz não veio da Alemanha, nem sequer da íustria ou da Suíça, mas de Monroe, em Nova Iorque, onde foi criado em 1892. Em Espanha, o chilli com carne era desconhecido até ao momento em que foi lá introduzido pelo Novo Mundo. Salisbury steak não tem nada a ver com a cidade inglesa famosa pela sua catedral (foi chamado assim por um americano – o Dr. J. H. Salisbury), nem o Swiss steak tem o mais pequeno pedigree alpino. Chop suey (baseado no cantonês para ‘miscelânea’) surgiu pela primeira vez em San Francisco nos finais da década de 1800 (e não na China). O bolinho da sorte foi criado em Los Angeles na segunda década do século XX. Ainda mais recente é o chow mein, que apareceu em 1927.”

Uma das características mais marcadas dos americanos parece ser transformar a mais pequena novidade numa verdadeira mania, e fazê-lo de tal maneira, que suplantam sempre todos os restantes povos. Os exemplos são inúmeros, ao longo do livro, desde os patins aos centros comerciais. Bryson diz-nos que, assim que a bicicleta atravessou o oceano e se instalou na América, por volta de 1882, os americanos aderiram de tal forma í  novidade que, em 1895, existiam cerca de dez milhões de bykes nos EUA.

Byke” é um dos milhares de termos novos, introduzidos na língua inglesa, graças aos americanos, que têm uma predilecção especial por abreviar palavras. Os exemplos são, também, aos milhares, desde “vic“, em vez de victim, até “fab“, em vez de “fabulous“. Outra coisa de que eles gostam muito é de usar neologismos, a partir de siglas, mesmo com os palavrões. Bryson dá alguns exemplos: tuifu (the ultimate in fuck-ups), tarfu (things are really fucked up), fubar (fucked-up beyond recognition), e fubid (fuck you, buddy, I’m detached).

O dinheiro, a imigração, as viagens, a comida, as compras, a educação, a publicidade, o cinema, os desportos, a política e a guerra, o sexo – são outros tantos assuntos escalpelizados exaustivamente por Bill Bryson, neste livro essencial para quem quiser conhecer melhor os EUA, os seus tiques e as suas manias.

“O Livro das Ilusões”, de Paul Auster

livrodasilusoes.jpgEste livro editado em 2002, foge, talvez, ao paradigma das histórias de Auster. Ou talvez não.

O livro conta-nos a história de David Zimmer, que é o narrador. Trata-se de um professor universitário que, após a morte da mulher e dos dois filhos, num acidente de aviação, cai numa depressão profunda e no alcoolismo. No auge do desespero, vê, acidentalmente, na televisão, um filme mudo de Hector Mann, um actor menor dos tempos do cinema mudo que, nos anos 20, desaparecera sem deixar rasto. O filme fá-lo sorrir, pela primeira vez em muitos meses e Zimmer decide saber mais sobre Hector. Entrega-se a esta tarefa, embrenha-se nela de tal modo que, de certo modo, consegue vencer a depressão e o alcoolismo. No final, depois de ter conseguido ver todos os filmes de Hector, de ter vasculhado bibliotecas e cinematecas, nos EUA e na Europa, publica um livro sobre a vida e obra desse obscuro actor.

A escrita desse livro fez com que Zimmer renascesse e voltasse ao trabalho. O projecto seguinte, será a tradução de “Memórias do Túmulo”, de Chateaubriand. É então que recebe uma carta, aparentemente escrita pela mulher de Hector, que o convida a visitá-los num rancho perdido no Novo México.

Incrédulo, Zimmer começa por pensar que a carta é uma brincadeira mas, algum tempo depois, é visitado por Alma, uma jovem que se apresenta como filha da actriz dos últimos filmes realizados por Hector, e que nunca ninguém ainda vira. Alma implora-lhe que visite Hector, no tal rancho, e que o faça rapidamente, pois o homem está moribundo e deixou escrito que, assim que morresse, a sua mulher deveria destruir todos os filmes que, entretanto, tinha realizado.

Hector, afinal, guardava um segredo terrível, que envolvia o encobrimento de um assassínio, e fora por isso que desaparecera de circulação. E, assim, este livro de Auster deixa de ser a história de Zimmer, para se tornar a história de Hector – mas também a história de Frieda, a mulher do actor, e de Alma, que acaba por se envolver com Zimmer.

Claro que, como sempre, o acaso assume a importância fundamental na vida das pessoas, como Auster tanto gosta. No entanto, o livro parece-me, como direi, mais folhetinesco, do que os restantes que já li e não me cheira tanto a Auster, talvez porque a grande cidade (Nova Iorque, sobretudo) e as suas ruas, os seus encontros e desencontros, não está presente.

“Cães Pretos”, de Ian McEwan

caespretos.jpgPublicado em 1992, “Black Dogs” foi, para mim, um livro difícil de seguir. O livro conta a história de um casal de jovens comunistas, Bernard e June que, após a Segunda Guerra, seguem caminhos diferentes. Um acontecimento traumatizante, precisamente com dois cães pretos, faz com June se afaste do comunismo e se entregue í  religião e a misticismo. Quanto a Bernard, apesar de, também ele, se afastar do comunismo, ainda antes dos anos 60, continua a ser um homem de esquerda. A história é-nos narrada pelo genro de ambos, Jeremy, que ficou órfão muito novo e que vê, nos sogros, uns segundos pais.

A acção do livro é contemporânea í  queda do muro de Berlim, mas o narrador recua até aos anos 40, para nos contar o tal episódio dos cães e essa é, na minha opinião, a parte mas interessante do livro que, talvez, resultasse melhor na forma de uma “short story“. Mas quem sou eu?…