“Entre os lençóis”, de Ian McEwan

entrelencois.jpgPublicado em 1978, este livro de McEwan reúne sete contos, qual deles o mais perverso.

Começa com o conto “Pornografia”, em que um sócio de uma loja de artigos pornográficos se vê confrontado com a aliança entre duas das suas namoradas que, no final, lhe reservam uma grande surpresa. E continua, com outras história, todas elas muito estranhas e que, sinceramente, não me entusiasmaram muito.

“Experiências com a Verdade”, de Paul Auster

auster_experiencias.jpgNeste livro de 1995, Auster reúne entrevistas sobre a sua obra, prefácios a alguns livros de outros autores e pequenos relatos autobiográficos.

Estes relatos, de algum modo, são a chave para a escrita de Auster: a vida, afinal, é feita de acasos, de coincidências, de factos que, se tivessem acontecido de outra maneira, poderiam ter mudado a vida das pessoas. Parece que, pelos vistos, temos pouco controlo sobre a nossa vida; ela poderia tomar um rumo totalmente diferente se, naquele dia, naquela hora, as coisas se passassem de maneira diferente.

Auster conta, por exemplo, duas história do seu pai que, por duas vezes, viu a sua vida em risco e que se salvou por sorte. E atribui significado a estes acasos.

Todos nós já passámos por isso e sabemos que, se em determinada circunstância, tivéssemos virado í  direita, em vez de voltarmos í  esquerda, a nossa vida poderia ter sido muito diferente do que é.

Mas Auster não atribui a estas coisas um sentido divino. Não é a mão de Deus que intervém. É o acaso, que é, no fundo, o cerne de todos os livros de Auster.

“Timbuktu”, de Paul Auster

timbuktu.jpgDelicioso livro de Paul Auster, publicado em 1999 e que nos conta a história de um cão rafeiro, Mr. Bones e do seu dono, Willy, um sem abrigo, com esquizofrenia.

Willy devia ter sido poeta, mas a doença alterou-lhe os planos e fez com que andasse em bolandas, pela costa leste dos EUA. Para o defender dos frequentes ataques de outros vagabundos, adoptou um rafeiro, a quem chamou Mr. Bones, que passou a ser o seu companheiro, guarda e confessor. E é graças ao cão que vamos lendo o relato da vida de Willy, dos seus sonhos e desencantos. Porque, a este cão, só lhe falta mesmo falar. Se Willy tivesse tido tempo, teria ensinado Mr. Bones a falar, como os humanos – mas não, apenas lhe ensinou a sonhar; a sonhar, por exemplo, com Timbuktu, a terra para onde todos nós vamos, depois de morrer, e onde, muito provavelmente, cães e homens falam a mesma língua.

Escrito quase como um conto de fadas, este livro de Auster foi uma boa companhia, na nossa viagem pelos States.

“Quando é que Jesus traz as costeletas?”, de George Carlin

quandojesus.jpgAo contrário de Jerry Seinfeld, George Carlin é um comediante de stand up pouco, ou nada, conhecido em Portugal.

Muito mais politicamente incorrecto que Seinfeld, muito mais duro na linguagem e nas críticas, Carlin é mal disposto por natureza e parece estar contra tudo e contra todos.

Neste seu livro – cujo título, segundo o autor, é este porque consegue, numa só frase, “consegue ofender cristãos, muçulmanos, judeus e vegetarianos” – Carlin barafusta, sobretudo, contra os eufemismos. Nesta linha, o autor chama a nossa atenção para o facto de, de repente, termos começado a “ver «programas de animação», em vez de desenhos animados. (…) Os «teatros» acharam que estavam a ficar ultrapassados e, por isso, transformaram-se, também eles, em «centros de artes performativas» ou, í s vezes, «espaços performativos» em consonância com algumas «discotecas» que começaram a ser chamadas «espaços de animação nocturna» (as mais alternativas, são só «espaços»).”

A mania da linguagem politicamente correcta pode, segundo Carlin, transformar provérbios populares em coisas imperceptíveis. É o caso do provérbio «em terra de cegos, quem tem um olho, é rei», que se transformará em: «em área de residência de invisuais, aquele que tiver um défice de cinquenta por cento no número tradicional de globos oculares com que o ser humano costuma vir equipado, tem mandado popular para governar».

O livro é um pouco irregular, misturando grandes discursos contra os tais eufemismos, com histórias quase surrealistas sobre tios esquisitos, textos de algum mau gosto, nacos demasiado ligados í  realidade norte-americana para que tenham graça entre nós, e aforismos deliciosos, como este: “muitos homossexuais recusam-se a sair do armário porque gostam mesmo de roupa”.

“O Jardim de Cimento”, de Ian McEwan

jardimdecimento.jpg“The Cement Garden”, publicado em 1978, foi o primeiro romance deste escritor britânico. É um pequeno livro altamente perturbador.

A história é-nos contada por Jack, um rapaz de 15 anos, que vive numa casa isolada com duas irmãs adolescentes e um irmão pequeno. O pai morre subitamente, com um ataque de coração e a mãe vai morrendo aos poucos, não se sabe muito bem porquê. Jack e as irmãs resolvem levar o corpo da mãe para a cave, metê-la num baú e cobri-la com cimento. Depois, e durante vários meses, vivem sozinhos, fazendo o que muitos adolescentes gostariam de fazer se os pais não os vigiassem: comer e dormir a qualquer hora, não tomar banho, não arrumar a cozinha, não ir í  escola.

Para além do núcleo da história, já de si mórbido, todo o livro tem uma atmosfera estranhamente erótica, acabando por se consumar o incesto.

E, no entanto, parece que não se passa nada. Embora nos pareça “errado” o que estes miúdos fazem, acabamos por entrar no jogo e chegar í  conclusão que, se calhar, eles não tinham outra opção, se não seguir aquele rumo.

Um livro que incomoda.