“Quando é que Jesus traz as costeletas?”, de George Carlin

quandojesus.jpgAo contrário de Jerry Seinfeld, George Carlin é um comediante de stand up pouco, ou nada, conhecido em Portugal.

Muito mais politicamente incorrecto que Seinfeld, muito mais duro na linguagem e nas críticas, Carlin é mal disposto por natureza e parece estar contra tudo e contra todos.

Neste seu livro – cujo título, segundo o autor, é este porque consegue, numa só frase, “consegue ofender cristãos, muçulmanos, judeus e vegetarianos” – Carlin barafusta, sobretudo, contra os eufemismos. Nesta linha, o autor chama a nossa atenção para o facto de, de repente, termos começado a “ver «programas de animação», em vez de desenhos animados. (…) Os «teatros» acharam que estavam a ficar ultrapassados e, por isso, transformaram-se, também eles, em «centros de artes performativas» ou, í s vezes, «espaços performativos» em consonância com algumas «discotecas» que começaram a ser chamadas «espaços de animação nocturna» (as mais alternativas, são só «espaços»).”

A mania da linguagem politicamente correcta pode, segundo Carlin, transformar provérbios populares em coisas imperceptíveis. É o caso do provérbio «em terra de cegos, quem tem um olho, é rei», que se transformará em: «em área de residência de invisuais, aquele que tiver um défice de cinquenta por cento no número tradicional de globos oculares com que o ser humano costuma vir equipado, tem mandado popular para governar».

O livro é um pouco irregular, misturando grandes discursos contra os tais eufemismos, com histórias quase surrealistas sobre tios esquisitos, textos de algum mau gosto, nacos demasiado ligados í  realidade norte-americana para que tenham graça entre nós, e aforismos deliciosos, como este: “muitos homossexuais recusam-se a sair do armário porque gostam mesmo de roupa”.

“O Jardim de Cimento”, de Ian McEwan

jardimdecimento.jpg“The Cement Garden”, publicado em 1978, foi o primeiro romance deste escritor britânico. É um pequeno livro altamente perturbador.

A história é-nos contada por Jack, um rapaz de 15 anos, que vive numa casa isolada com duas irmãs adolescentes e um irmão pequeno. O pai morre subitamente, com um ataque de coração e a mãe vai morrendo aos poucos, não se sabe muito bem porquê. Jack e as irmãs resolvem levar o corpo da mãe para a cave, metê-la num baú e cobri-la com cimento. Depois, e durante vários meses, vivem sozinhos, fazendo o que muitos adolescentes gostariam de fazer se os pais não os vigiassem: comer e dormir a qualquer hora, não tomar banho, não arrumar a cozinha, não ir í  escola.

Para além do núcleo da história, já de si mórbido, todo o livro tem uma atmosfera estranhamente erótica, acabando por se consumar o incesto.

E, no entanto, parece que não se passa nada. Embora nos pareça “errado” o que estes miúdos fazem, acabamos por entrar no jogo e chegar í  conclusão que, se calhar, eles não tinham outra opção, se não seguir aquele rumo.

Um livro que incomoda.