Foi Salazar que inventou os swap

Como toda a gente sabe, tudo o que está a acontecer a Portugal, desde o desemprego í  má colheita de cerejas da Gardunha, é culpa do Sócrtes.

Mas os swap, não.

Descobriram agora que, já em 2004, o Citibank tentou impingir swap ao governo de Santana Lopes.

Mas também não foi Santana Lopes o inventor dos swap.

O inventor dos swap foi Salazar, que aceitou o ouro que os nazis roubaram aos judeus, em troca de divisas.

E isso foi um swap do caraças!

Prenda-se o polícia que não prendeu o ladrão!

É tipicamente português: quando se é apanhado pela polícia em excesso de velocidade ou com álcool a mais ou com o seguro caducado, é azar.

Não é uma contravenção – é azar, pronto!

Temos a tendência de criticar a polícia quando não prende o ladrão, porque o ladrão, coitado, limita-se a cumprir a sua obrigação.

O vice-presidente do PSD, Marco António Costa, deu hoje mais um exemplo dessa característica tipicamente portuguesa, ao declarar que o seu partido exige uma investigação ao governo de Sócrates, porque este pode ter ocultado um “ilícito criminal”.

Diz M. C. Costa: «a ser verdade o que é relatado pela imprensa, que as instituições bancárias abordaram o anterior Governo para vender produtos financeiros que alegadamente permitiriam adulterar ou falsificar as contas públicas, questiona-se como é que o Governo de então não denunciou tais práticas ao Ministério Público e ao Banco de Portugal».

E acrescentou: «O PSD reclama a averiguação dos factos por parte das autoridades competentes para esclarecer a eventual ocultação de actos que poderão configurar ilícito criminal por elementos ligados ao anterior Governo».

Por outras palavras: o Governo de Sócrates ocultou ilícitos criminais e o Governo de Passos Coelho nomeou um dos tipos que propí´s esses ilícitos criminais para secretário de Estado do Tesouro.

Em resumo: todos para a prisão.

Já!

Por que razão Pais Jorge se deve manter no Governo

Toda a gente pede a demissão do secretário de Estado do Tesouro, Pais Jorge porque ele, quando era director do Citi Bank, tentou vender swaps ao governo Sócrates.

Não estou de acordo.

Pais Jorge deve manter-se no governo porque lá é que ele está bem!

Relvas Olímpico

Há pessoas que têm o seu lugar garantido no Olimpo.

São deuses na Terra.

Concedem-nos o privilégio de viverem entre nós e depois, a certa altura, elevam-se para a Casa dos Deuses.

Miguel Relvas é uma dessas pessoas.

Fez um curso superior com rapidez e equivalências, transformou um jovem e banal social-democrata num primeiro-ministro banal, acabou com freguesias de que ninguém sabe o nome e quase privatizou a RTP.

Com este brilhante currículo era natural que fosse chamado para um grande cargo, onde pudesse brilhar condignamente.

E finalmente, isso aconteceu!

Miguel Relvas foi nomeado Alto-Comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa.

Não um comissário baixo ou de altura média, não! Um Alto-Comissário!

É o próprio Relvas que dá a notícia, através de comunicado, que parece um discurso de Passos Coelho (por que será?).

Diz ele: «Como condições prévias, exijo fazê-lo a título não oneroso e geograficamente abrangente, isto é, englobando, nas realidades culturais a promover, além dos países que têm comités olímpicos, aqueles territórios que, fazendo parte de outros países soberanos, têm com a cultura portuguesa uma conexão forte e associações que perseguem os mesmos fins que os comités olímpicos nacionais”.

Perceberam?

Eu não.

Enfim, a Casa Olímpica, de quem Relvas será Alto-Comissário fica no Rio de Janeiro e o homem terá como responsabilidade, «promover a língua portuguesa».

Estamos tramados!

relvas olimpico

 

Desde que não sejemos toscos, a gente podemos mudar o país

Finalmente a gente temos um primeiro-ministro como deve ser, que auguenta as broncas e que se mantém firme.

Inda agora, a porpósito desta coisa da salvassão naçional, Paços Coelho diçe:

«Desde que tenhamos os pés assentes na terra e sejemos realistas – quer dizer, não comecemos a estabelecer objectivos que estão manifestamente para além daquilo que as condições nos permitem -, então é possível vencer e ultrapassar obstáculos e conseguir um clima de união nacional, não é de unidade nacional, é de união nacional, que permita essa convergência».

É isto mesmo que a gente precisamos: que sejemos realistas e façemos uma união naçional.

A última vez que a gente fizemos uma união naçional, durou 40 anos.

Digam lá se não era bonito que os deputados todos foçem amigos uns dos outros e  andaçem sempre abrassados?

Imajinem a Açunssão Esteves abrassada ao Jerónimo e a Catarina do Bloco ao colo daquele tipo do CDS que tem o cabelo oleozo, e o Zorrinho a fazer festinhas na barba do líder do PSD – digam lá se não era uma coisa bem bonita?

Sejemos realistas: demos a mãos uns aos outros, facemos um esforço para estarmos todos de acordo e de certeza que a troika nos empresta mais maça a um juro para amigos.

 

Maria Luís não mente, embora não fale verdade (breve explicação)

O problema começa no nome.

A senhora não se chama Maria Luísa, mas sim Maria Luís. Este nome contraditório, metade feminino e metade masculino, diz tudo sobre a personalidade da nova ministra das Finanças.

Não mente nem fala verdade.

maria luis_minto

“O Jogo do Mundo (Rayuela)”, de Julio Cortázar (1963)

Nos anos 70 do século passado, o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), foi um dos meus preferidos.

Foi entre 1975 e 1978 que li Todos os Fogos o Fogo (1966), Bestiário (1951) e Blow-up e Outras Histórias (título original: Las Armas Secretas, 1959).

Eram livros de contos, onde Cortázar misturava realidade com fantasia, í  boa maneira de outros autores latino-americanos, como Garcia Marquez, mas com um cunho político mais marcado.

rayuelaNo entanto, a principal obra de Cortazár, só em 2008 viu a luz  do dia em Portugal, graças í  Cavalo de Ferro (tradução de Alberto Simões). Trata-se de Rayuela, com o incompreensível título em português de O Jogo do Mundo.

Com efeito, rayuela é o nome castelhano para o conhecido jogo da macaca e, caso não se quisesse optar por esses título em português, mais valia manter o título original.

Rayuela é um calhamaço de mais de 600 páginas e o próprio autor diz, logo no início, que não é preciso ler todos os capítulos. Cortázar dá-nos duas opções: ou lemos o livro da forma tradicional, capítulo a capítulo e, chegando ao fim do capítulo 56, por volta da página 400, «onde se encontrarão três vistosas estrelas que correspondem í  palavra FIM», podemos parar – ou começamos no capítulo 73 e vamos, depois, seguindo uma sequência determinada (no fim de cada capítulo, indica-se qual o capítulo que deve ser lido a seguir).

Optei pela forma tradicional de leitura e confesso que tive alguma dificuldade em ultrapassar algumas páginas.

A história tem duas partes, uma passada em Paris, outra em Buenos Aires. O único personagem comum é Horácio Oliveira, um argentino que vive em Paris durante algum tempo e depois regressa í  sua terra. Há também uma personagem feminina que, em Paris se chama Maga e é uruguaia e em Buenos Aires se chama Tanita; no fundo, são a mesma pessoa, não sendo.

Li algures que a escrita de Rayuela teria sido influenciada pelos livros torrenciais de Henry Miller, que também viveu em Paris durante alguns anos, escrevendo Nexus, Plexus, Sexus e os Trópicos de Cancer e Capricórnio.

Não estou de acordo.

Embora haja alguns pontos de contacto: a prosa avassaladora, a referência constante a escritores, pintores, músicos, etc, o surrealismo de algumas cenas fez-me lembrar, sobretudo, as obras de Boris Vian.

Alguns parágrafos são tão longos que é difícil lê-los de uma assentada.

Um pequeno exemplo:

«Apenas dessa vez, hipnotizado como um matador mítico para quem matar é devolver o touro ao mar e o mar ao céu, Oliveira humilhou a Maga durante uma longa noite da qual pouco falaram depois, fê-la Pasífae, virou-a e usou-a como um adolescente, explorou-a e exigiu dela a servidão da puta mais triste, elevou-a a constelação, teve-a entre os seus braços a cheirar a sangue, fê-la beber o sémen que corre pela boca como o desafio do Logos, sorveu a sombra do seu ventre e da sua anca, levando-lhe í  cara para untá-la de si mesma, parte última do conhecimento que só um homem pode dar a uma mulher, encheu-a de pele, cabelo, saliva e queixas, esvaziou-a até ao fim da sua magnífica força…» (etc…)

Os jogos de palavras e o gozo das palavras são, por vezes, um fim em si mesmos.

Um exemplo:

«Foi procurar o Dicionário da Real Academia Espanhola, onde a palavra real fora determinantemente destruída a golpes de canivete, e abriu-o ao acaso, preparando a seguinte tirada para Manu:

“Cansado do cliente e dos seus cleonasmos, clausuraram-lhe a clavícula e o clítio, fazendo-o claudicar com algum cloridrato. Em seguida, aplicaram-lhe um clister clínico na cloaca, o que fez com que eclodisse uma clivagem de tão clivosa ascensão de água mesclada com cloro. Só então o cliente se declarou um clérigo claustrofóbico”».

Não foi nada fácil ler este calhamaço, xiça!