“Cão em Fuga”, de Don DeLillo (1978)

—Ainda não foi desta que consegui penetrar no “universo singular” deste autor norte-americano, como lhe chama a nota da contra-capa desta edição da Relógio de ígua.

Já aqui há uns anos tinha lido um livro de DeLillo, chamado “Mao II”, editado em 1991 e, também então, não consegui entrar bem no texto.

Neste “Cão em Fuga”, a história decorre í  volta da possibilidade de existir um filme com proezas sexuais passadas no bunker de Hitler. Atrás deste filme, surgem um coleccionador de artigos eróticos, uma jornalista que já foi radical e que escreve numa revista que tem o mesmo nome que o romance (Running Dog) e Glen Selvy, “um homem treinado para a luta e suficientemente leal para enfrentar os inimigos com as armas que eles próprios escolhem” (nota da contra-capa)

Não é um policial, não é um livro de espionagem, não é um livro de guerra – é o tal “universo singular”, no qual não consegui penetrar, talvez por falta de empenho da minha parte.

Mas ainda não desisti.

í“ ílvaro, posso tratar-te por pá?

O novo ministro da Economia, ílvaro (o apelido não interessa) é muito solto, muito sorridente, muito saltitante!

É natural – ele esteve Lá Fora, ele foi professor em faculdades Lá Fora.

Foi Lá Fora que ele aprendeu que até a reles secretária tratava o professor universitário por Mark.

í“ Mark, a que horas dás a próxima aula? í“ Mark, queres que eu te leve um café? í“ Mark, tira daí a mão, que os alunos estão a ver!…

Toda esta familiaridade entre a reles secretária e o super-génio é natural Lá Fora.

Cá Dentro, é Sr. Professor para a direita, Sr. Doutor para a esquerda (para a esquerda, não! Lagarto, lagarto! Que o ílvaro – o apelido não interessa – quer a esquerda bem longe!)

Então, o novo ministro da Economia visitou ontem uma feira de artesanato, o que é significativo. Com a crise, voltamos a fazer tudo í  mão…

E o ílvaro pediu aos artesãos para espetarem uma bandeira de Portugal junto aos seus produtos. Um bandeira de Portugal no pastel de natal, no galo de Barcelos, na cavaca das Caldas!

Boa, ílvaro, tu é que sabes!

Estiveste Lá Fora, deves saber como é que se espevita a economia!

Eu também só viajo em económica

Cheguei ontem da Noruega e viajei, como sempre, em classe económica.

Sou um homem simples, detesto ostentações.

Por isso, percebo perfeitamente o nosso novo primeiro-ministro, quando decidiu optar pela económica, em vez da classe executiva a que tinha direito.

Também ele é um homem simples…

E, ao fim e ao cabo, daqui a Bruxelas, são pouco mais de duas horas de voo; não dá tempo para que o Pedro fique com as pernas dormentes e, considerando a sua idade, ainda não deve sofrer de espondilose…

Mas penso que deve haver outra razão para Passos Coelho ter escolhido a económica, para as suas viagens de avião. E passo a explicar:

Ontem, antes de embarcar em Oslo, o funcionário do check-in informou-me que o voo estava overbooked, havendo quatro passageiros a mais. Assim, a companhia estava disposta a oferecer-me 400 euros, se eu desistisse daquele voo e optasse por um voo Oslo-Amesterdão e, depois, Amesterdão-Lisboa. E ainda ganharia mais milhas, caso tivesse aderido a algum programa de passageiro frequente.

É este o plano de Passos Coelho: ao escolher a classe económica, quando era suposto viajar em executiva, está a contribuir para o overbooking do voo.

Quando deixar o cargo de primeiro-ministro, terá milhas acumuladas que lhe permitirão viajar até ao fim do mundo.

E, quem sabe, não regressar…

“O Céu É Dos Violentos”, de Flannery O’Connor (1960)

Flannery O’Connor morreu em 1964, aos 39 anos, vítima de lupus. Tinha apenas publicado dois romances e uma série de contos e ganho diversos prémios. O National Book Award foi-lhe concedido a título póstumo, em 1972, pela colectânea dos seus contos.

“The Violent Bear It Away” é o seu segundo romance e é uma história estranha, negra, fechada sobre si própria.

Ao ler o romance, não pude deixar de pensar na luta entre os criacionistas e os evolucionistas, que tantos ódios desencadeia nos EUA.

—O romance narra a história de Tarwater, um jovem de 14 anos. O seu tio-aví´, um lunático que se julga um profeta enviado por Deus, raptou-o, ainda bebé, e cuidou dele, ensinado-o a tornar-se, também, um profeta.

Vivem os dois isolados numa casa, no campo. Certo dia, o velho morre subitamente e o rapaz, incapaz de abrir uma cova suficientemente funda para enterrar o aví´, deita fogo í  casa com o aví´ lá dentro. Depois, foge para a cidade, em busca do seu tio, irmão da sua mãe. Este é um professor que renegou a religião, só aceitando a ciência. Vive só, depois de a mulher o ter deixado, a ele e a um filho, que é atrasado mental.

O professor recebe Tarwater de braços abertos. Quer tirar-lhe da cabeça todas as ideias místicas que o velho lá implantou e mostrar-lhe que a ciência tudo explica. No entanto, o rapaz é intratável, não aceitando sequer vestir roupas novas.

A linguagem da escritora é, ao mesmo tempo, lírica e rebuscada: “o rastilho podia ser um pau ou uma pedra, o desenho de uma sombra, o andar absurdo e geriátrico de um estorninho a atravessar o passeio”.

O retrato destas personagens obcecadas pela religião e pela culpa, dá uma ideia de uma certa América que, de certo modo, ainda se mantém nos dias de hoje.

O livro foi publicado em 1960 e está datado. Hoje em dia, um miúdo de 14 anos não passa de um fedelho. Tarwater, pelo contrário, é já um homem, fuma os seus cigarros e bebe o seu whisky.

O modo como a escritora falar dos personagens de raça negra, perdão, dos afro-americanos, também não seria bem aceite, hoje em dia: “Estava prestes a sentar-se quando, mais adiante, num espaço varrido pelo vento í  beira da estrada, viu uma cabana de pretos. (…) Os pretinhos ficaram a observá-lo até ter saído daquele lugar e ter desaparecido pela estrada abaixo”.

No final do livro, Tarwater afoga o primo imbecil, depois de o baptizar e, mais tarde, parece que é violado por um homem que lhe dá boleia, mas a escritora apenas o sugere.

A culpa, sempre a culpa. E a respectiva expiação…

“O Homem Lento”, de J. M. Coetzee (2005)

Coetzee é garantia de boa leitura, como já tinha comprovado com “A Vida e o Tempo de Michael K” (1983), “Desgraça” (1999) e “Diário de Um Ano Mau” (2007).

—Neste romance, Paul Rayment é um fotógrafo sessentão, í  moda antiga, avesso aos avanços da tecnologia que, certo dia, ao passear de bicicleta, é abalroado por um carro.

Na sequência dos ferimentos sofridos, amputam-lhe uma perna. Paul recusa a prótese e volta para casa ainda mais deprimido do que já estava antes. É um homem amargo, misógino, divorciado, que nunca teve filhos.

De acordo com a assistência social, uma enfermeira é destacada para dar apoio a Paul, dar-lhe banho, limpar-lhe a casa, alimentá-lo (a acção decorre na Austrália). Mas o feitio de Paul é muito difícil e as enfermeiras vão-se sucedendo. Nenhuma aguenta muito tempo as idiossincrasias do fotógrafo.

Surge então uma enfermeira de origem croata, Marijana, que consegue dar a volta a Paul, com a sua simplicidade de mãe de família, habituada a ultrapassar muitas dificuldades. A pouco e pouco, o fotógrafo percebe que se está a apaixonar pela enfermeira.

Nessa altura, entra em cena a escritora profissional Elizabeth Costello, uma septuagenária que está í  procura de material para o seu futuro romance. Paul e a sua perna amputada, Marijana, o seu maridos e os três filhos, são excelentes personagens.

Em resumo, este é o riquíssimo material que Coetzee juntou para escrever este livro.

Acrscente-se as recordações de infância de Paul, de origem francesa, com um padrasto holandês, a sua paixão platónica por Marijana, que o leva a querer proteger e ajudar os seus filhos, a paixão, também ela platónica, de Elizabeth por Paul, os problemas dos dois filhos mais velhos da enfermeira, e temos um livro cheio de questões éticas de difícil resposta.

Mas também não é de respostas que Coetzee está í  procura. A missão do escritor é, exactamente, a de levantar as questões. Compete-nos meditar sobre elas.

Boa companhia de viagem, mais este romance de J.M. Coetzee, escritor nascido na ífrica do Sul, em 1940, e que recebeu o Nobel em 2003.

Os calos de Cavaco Silva

Hoje, no Fundão, no dia em que se comemorou o 10 de Junho, Cavaco Silva fez o elogio das cerejas.

Disse, por exemplo, que, na sua juventude, gastava todo o dinheiro do almoço em cerejas, “e depois ficava sem almoço”. Explicou que isso acontecia porque, no Algarve, de onde é oriundo, não havia cerejas. E garantiu que as cerejas fazem bem a tudo – “até aos calos”!

Cavaco disse piadas!

Cavaco está distendido, tranquilo, quase feliz – embora um tipo tão oriundo como Cavaco, raramente se possa sentir feliz.

E o que faz Cavaco tão alegre?

A resposta é óbvia e tem a ver com a saída de cena de Sócrates.

Aliás, a retirada de Sócrates é um dos momentos políticos mais relevantes dos últimos anos.

Nunca tantos se juntaram no ódio a uma só pessoa. A esmagadora maioria dos jornalistas e comentadores da nossa praça nutria um ódio de estimação por Sócrates – o que só pode abonar em seu favor.

De facto, um tipo que foi, ao longo destes seis anos, o alvo das críticas mais ferozes de tipos tão diversos, de Pacheco Pereira a Vasco Pulido Valente, de Manuel Maria Carrilho a Marcelo Rebelo de Sousa, para não citar uns gajos que eu cá sei que, de repente, de transformaram em comentadores, com direito a páginas inteiras no DN – um tipo desses tem que ter algo de especial.

Mais: o que vai ser da primeira página do Sol, agora que Sócrates sai de cena?

Ver, agora, um telejornal da Sic, por exemplo, é uma experiência totalmente nova. Os repórteres, muito simpáticos, planam em redor de Passos Coelho e de Paulo Portas, pedem desculpa por existirem, respeitam os seus silêncios, fazem vénias, põem-se a jeito.

Mesmo assim, Passos Coelho não confiou nos seus compatriotas e contratou uma brasileira (quem mais?!) para organizar a sua campanha eleitoral. Alessandra Augusta, de sua graça, especialista em marketing, assegurou ao Expresso que “Passos foi o primeiro político a ganhar eleições dizendo o que pensa”.

És burra, Alessandra! Ao dizeres isto publicamente, nunca mais vais ser contratada. Então, todos os restantes políticos a quem organizaste campanhas eleitorais, não pensavam o que diziam? Ou não diziam o que pensavam?

Burra, também, foi Ana Gomes, ao dizer que Paulo Portas não devia fazer parte do governo, devido aos seus problemas anteriores (submarinos, cabeleiras postiças…).

Burra porque esse tipo de ataques resultavam com Sócrates, que foi maricas, falso engenheiro e corrupto no Freeport – mas não resultam com Portas, que toda a gente vê que é um estadista, até pelo modo como beija as peixeiras ou aperta firmemente a mão aos agricultores.

E já que estou a falar de burros, voltemos a Cavaco e í  sua devoção pela agricultura.

As lágrimas vieram-me aos olhos quando li o artigo de Cavaco, hoje, no Expresso, incentivando os jovens a dedicarem-se í  agricultura.

É bonito vermos um homem que contribuiu para a destruição da agricultura e das pescas, em troca de dinheiros comunitários para o cimento, enquanto foi primeiro-ministro, render-se, agora, í  Terra e a quem a trabalha.

Uns aninhos a mais, ou umas gotas para o cérebro a menos, e Cavaco adere ao PCP.

O Jerónimo que se cuide!…

Gregos mortos-vivos

Continua o ataque desenfreado do FMI í s democracias europeias.

Agora, na Grécia, até decidiram tirar a reforma aos mortos!

Segundo a ministra do Trabalho grega, Luka Katseli (jeitosa, por sinal…), o Estado grego pagava pensões de reforma a 4500 gregos já falecidos.

E depois?

Lá por um grego estar morto, não quer dizer que não mereça continuar a receber a sua pensão de reforma. Toda a gente sabe que, por vezes, um gajo trabalha tanto e durante tantos anos que, para ser ressarcido, merecia receber reforma mesmo depois de morto!

Mas o FMI tinha que meter o bedelho e a Luka lá sacou as pensões aos gregos mortos!

Atenção portugas, mortos ou vivos: nem sabeis o que vos espera!