“Holes”, de Andrew Davis (2003)

—Um jovem muito bem comportado (Shia LaBeouf), filho de um cientista falhado, que procura a cura para o chulé, encontra um par de ténis pertencentes a um desportista famoso e é acusado de os ter roubado. É julgado e condenado a permanecer 18 meses numa casa de correcção, no meio do deserto, com um capataz louco (Jon Voight), que gosta de matar lagartos venenosos e uma directora (Sigourney Weaver) que obriga todos os jovens delinquentes a abrir buracos no terreno de um antigo lago, agora seco.

Pelo resumo, podemos apreciar o absurdo da história.

Mas as coisas acabam por ter alguma piada porque todas as personagens estão relacionadas através dos seus antepassados, no tempo em que o lago ainda era lago.

Um entretenimento que não aleija… muito…

Não se importa de repetir?

Cavaco Silva, referindo-se ao Estado Novo:

“Eu e a minha mulher com certeza que não pensávamos bem do regime”.

Não pensavam bem?…

Tipo: eu e a minha mulher achávamos que o Exmo. Sr. Dr. Salazar era pouco simpático?

Ou tipo: eu e a minha mulher achávamos que aquilo dos presos políticos serem torturados era um pouco incómodo?

O facto do Alegre ter decidido atacar o Cavaco, dizendo, de certo modo, que ele colaborou com o antigo regime, não foi muito elegante, mas a resposta do Cavaco é, no mínimo, medíocre.

É o presidente que temos…

Lagarto pintado, quem te pintou?

Num directo, na SIC Notícias, o jornalista António Cancela, referiu-se ao treinador do Sporting, Paulo Sérgio, como “o treinador dos lagartos”.

O Sporting não gostou e cortou relações com o canal televisivo.

Quer dizer, os lagartos consideram um insulto serem chamados de lagartos!

Um sportinguista ferrenho que diga “sou lagarto desde pequenino” está, portanto, a ofender o clube.

Lagarto, assim como lampião e tripeiro são, pelos vistos, insultos. Vou ter que os juntar í  minha longa lista que já vai quase nos 500 termos injuriosos.

O que será mais insultuoso, afinal: dizer «o palerma do treinador do Sporting» ou «o inteligente treinador dos lagartos»?; «João Moutinho sempre foi leão» ou «Maniche é um lagarto do coração»?

Leão é elogio e lagarto, insulto?

O Sporting, sendo verde, e portanto ecologista, devia saber que, no reino animal, tanta importância tem o leão como o lagarto.

Se os de Alvalade tivessem ignorado o tal Cancela, com a audiência que a Sic Notícias tem, quase ninguém tinha sabido do caso. Assim, respondendo ao pretenso insulto, os leões mostraram que, afinal, não passam de lagartos…

Telegramas sortidos

Esta história da Wikileaks, que já enjoa, vai enjoar durante muito tempo – mais tempo do que a história da falta de açúcar (quantoÂ í  falta de afecto, nem vale a pena falar…)

Com mais de 200 mil telegramas roubados, haverá pano para mangas e sempre que os jornais estiverem sem assunto, podem sempre ir ao sítio do Assange e arranjam, de certeza, um telegramazito para fazer a primeira página.

No fundo, isto tem uma vantagem: fala-se menos da dívida soberana, que era outra história que já cheirava mal (sabem a como está a taxa de juro agora? se tivesse ultrapassado os 7% sabiam…).

Agora, no meio daqueles telegramas todos, descobriram um sobre a pobre da Maddie. Que o embaixador britânico disse ao americano que a polícia inglesa tinha descoberto provas contra os pais da miúda.

E depois? Isto é alguma novidade?

Não é, mas é o suficiente para mais umas quantas primeiras páginas e reportagens de 20 minutos nos telejornais.

Bocejo…

Vão ver que ainda vão descobrir um telegrama com o nome da mãe do filho do Cristiano Ronaldo, outro com a morada actualizada do Bin Laden e ainda outro com a cura do cancro…

PS – Assange é um apelido com sonoridade francesa e “singe” é “macaco” em francês. Por outras palavras, o fundador da Wikileaks é um grande macaco!

Mexerikileaks

Anda tudo num alvoroço por causa da revelação da Wikileaks.

Um australiano, com cara de obstipado crónico, inventou esta coisa que consiste na exposição pública de conversas privadas. Enfim, o gajo não inventou nada. Limitou-se a transpor para a alta política o mesmo espírito do Big Brother televisivo.

Diz ele que é o direito í  liberdade de imprensa. Resta saber se, ele próprio, aceitaria que fossem publicadas as suas conversas com a mãe, ou com as eventuais namoradas, ou com as fulanas que dizem ter sido assediadas e violadas por ele…

Mas, afinal, que novidades é que nos dá o Assange?

Que a ministra espanhola dos Negócios Estrangeiros disse que Hugo Chavez «é uma besta, mas não é estúpido».

Que o presidente do Egipto, Mubarak, no poder desde 1981, deverá ser candidato em 2001 e poderá continuar no cargo até morrer.

Que a presidenta eleita do Brasil, Dilma Rousseff, organizou três assaltos a bancos, nos tempos em que era guerrilheira de esquerda.

Que Angela Merkel terá dito que Putin era um “macho alfa” e Sarkozy um “rei vai nu”.

Que um conselheiro de Sarkozy terá dito que Chavez é louco e o estado iraniano é fascista.

Que Berlusconi é um tipo superficial e que é o “porta-voz” de Putin na União Europeia.

Que os diplomatas americanos dizem que Merkel é «o único homem capaz de governar a Europa».

Que Medved é o Robin do Putin Batman.

Etc, etc…

Olha que novidade!

Isto são coisas que toda a gente diz, no dia a dia.

Tudo isto está ao nível das revistas sociais, que exploram as figuras públicas. Mexericos. Mexirileaks.

Assange é um daquele heróis improváveis, que acaba por ter o apoio da esquerda que adora passar um fim de semana em Nova Iorque mas que, na sua fantasia anti-imperialista, pensa que era bom viver num regime norte-coreano ou iraniano.

“Once Upon a Time in Mexico”, de Robert Rodriguez (2003)

—Nascido no Texas, Rodriguez é um realizador-que-faz-de-conta-que-é-mexicano. É  da escola de Tarantino e este filme revela isso mesmo.

“Once Upon a Time in Mexico” é uma aventura louca, uma espécie de banda desenhada com personagens reais.

Banderas é um assassino profissional, conhecido como El Mariachi. Jonnhy Depp é um agente da CIA desmiolado e que mata os cozinheiros que não cozinham bem a carne de porco. Willelm Dafoe é o traficante. Salma Hayeck é a namorada do Mariachi, que foi morta pelo general corrupto. E ainda há por lá um Mickey Rourke, com um “perro microscópico” e um Enrique Iglésias, que até parece um actor a sério.

O filme é um pouco confuso no argumento e parece que o único objectivo é mostrar cenas em câmara lenta em que El mariachi dá tiros com o seu canhangulo, projectando os maus contra as paredes, com grandes buracos na barriga.

Fraquito…

Jornalismo paroquial

Corre na net um mail que tenta retratar a comunicação social portuguesa. Corre assim, em resumo:

“Como seria noticiada hoje em Portugal a história do Capuchinho Vermelho…
TELEJORNAL – RTP1
: “Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem… mas a actuação de um caçador evitou uma tragédia”
JORNAL DA NOITE – SIC:
“Vamos agora dar-lhe conta de uma notícia de última hora. Uma menina foi literalmente engolida por um lobo quando se dirigia para casa da sua avó! Esta é uma história aterradora mas com um final feliz… o Sr. telespectador não vai acreditar mas, esta linda criança foi retirada viva da barriga do lobo! Simplesmente genial!”
JORNAL NACIONAL – TVI: “… onde vamos parar, onde estão as autoridades deste país?! A menina ia sozinha para a casa da avó a pé! Não existe transporte público naquela zona? Onde está a família desta menina? E a Comissão de Protecção de Menores? Tragicamente esta criança foi devorada viva por um lobo. Em épocas de crise, até os lobos, animais em vias de extinção, resolvem aparecer?? Isto é uma lambada na cara da actual governação portuguesa.
CORREIO DA MANHíƒ:
“Governo envolvido no escândalo do Lobo”
JORNAL DE NOTICIAS:
“Como chegar í  casa da avozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho”
Revista MARIA:
“Dez maneiras de levar um lobo í  loucura na cama”
LUX:
“Na cama com o lobo e a avó”
EXPRESSO:
Legenda da foto: “Capuchinho, í  direita, aperta a mão do seu salvador”. Na reportagem, caixa com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Capuchinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
PíšBLICO:
“Lobo que devorou Capuchinho Vermelho seria filiado no PS”
SOL: “Gravações revelam que lobo foi assessor político de grande influência”

Esta ideia é já antiga, pegar numa notícia e dar-lhe as várias versões, conforme o órgão de comunicação que dá a notícia. Claro que, logo aqui, há uma incongruência: se é uma notícia, não devia haver diferentes maneiras de a transmitir, se a comunicação social fosse, de facto, independente.

Só que não é.

E, na nossa paróquia, a comunicação social é cada vez menos independente. E cada vez mais saloia, no mau sentido da palavra.

A propósito do tornado que varreu a região de Tomar, assisti hoje, no telejornal da SIC, a reportagens patéticas. Sexagenários a dizerem coisas definitivas como «nunca vi nada assim», velhotas, com lágrimas nos olhos, dizendo que «o bidro caiu-me de ximo da minha cabexa» e  massacres de reportagens mostrando, em detalhe, a destruição de oficinas, de telhados, de postes de electricidade, como se todo o país estivesse envolto em caos. E o telejornal arrastando-se, de quintal em quintal, de telhado em telhado – se estes jornalistas se mudassem para o Nebrasca ou para o Arkansas, o telejornal duraria 5 horas, no mínimo, para poder descrever, em pormenor, os danos causados por um tornado.

Mas o que mais me irritou nesta cobertura jornalística, foi a reportagem de uma loira, directamente de Casais, no concelho de Belmonte.

A loira comentou (não noticiou) a visita do ministro da Administração Interna, Rui Pereira, í  região. Que o ministro não tinha levado dinheiro, nem sequer promessas, que ninguém lhe tinha ligado nenhuma, que as pessoas continuaram a arranjar o que o tornado estragou e nem olharam para o ministro, que não acreditam que ele ajude, que ele tentou atirar as responsabilidades do pagamento dos prejuízos para a Câmara e eu, que até acho que o Rui Pereira é um ministro arrelampado e deslocado, que parece fazer um grande esforço para perceber o que se passa, embora raramente perceba o que o rodeia, fiquei com pena do homem. Quer dizer: o tipo foi lá para se inteirar dos estragos e a loira queria que ele levasse já o livro de cheques, para dar dinheiro í queles tipos todos? E, ainda por cima, a jovem repórter loira, de casaco da Desigual, garantiu que a população de Cascais tinha ficado desiludida com a visita do ministro!

Sim, a população de Cascais!

Tão loira é a repórter que decidiu rebaptizar a localidade de Casais, juntando-lhe um “cê”.

No Nebrasca, esta gaja estaria a trabalhar no The West Nebraska Oberserver, na secção de correio sentimental…

“A Lebre de Vatanen”, de Arto Paasilinna

—Paasilinna é um escritor finlandês, nascido em 1942 e que, ao que parece, estará internado num lar para terceira idade, devido a comportamentos anti-sociais recentes, como condução automóvel perigosa (sob o efeito de álcool?).

“A Lebre de Vatanen”, publicado pela Relógio de ígua em 2009, data de 1975 e é o seu romance mais conhecido, embora a classificação “romance” talvez não seja a mais correcta.

O livro conta-nos a história de Vatanen, um jornalista de Helsínquia (Paasilinna foi jornalista) que, num certo dia, a meio de uma reportagem, encontra uma lebre-bebé, resolve adoptá-la e deixa tudo, o colega que o acompanha na reportagem, a mulher, o emprego e a cidade, passando a viver com a lebre diversas aventuras, através das florestas da Finlândia, atravessando a Lapónia e, caçando um urso, até í  União Soviética.

Num tom humorístico e iconoclasta, que faz lembrar Boris Vian, o escritor vai-nos contando essas aventuras, com uma seriedade jocosa que nos leva a dizer: este tipo está a gozar connosco.

Estará?