“Diário de um Ano Mau”, de J.M. Coetzee

—Um escritor sul-africano, radicado na Austrália, é convidado pelo seu editor a escrever um livro onde deverá expor as suas opiniões sobre diversos assuntos. Septuagenário e sofrendo de reumático, o escritor contrata uma vizinha, emigrante filipina, para lhe passar os textos í  máquina.

A vizinha, de formas voluptuosas, faz despertar, no escritor, desejos difíceis de concretizar e entre os dois desenvolve-se uma relação platónica de sedução e atracção.

Para desenvolver esta ideia nuclear, Coetzee recorre a um estratagema curioso, acabando por escrever três livros: o livro principal, com as opiniões do escritor sobre a gripe das aves, a pedofilia, o terrorismo e outros temas actuais da nossa sociedade, um outro livro, onde o escritor vai descrevendo as sensações que a filipina lhe provoca e um terceiro livro, onde a própria filipina faz os seus comentários, introduzindo ainda a personagem do seu namorado. í€ medida que o livro vai evoluindo, as opiniões do escritor vão-se suavizando, com as críticas que a filipina lhe faz e esta, por sua vez, começa a consciencializar-se mais em relação a certos temas, ao transcrever os textos do escritor.

E os três livros convivem muito bem, mesmo na mesma página, obrigando-nos a alguma ginástica, que eu fiz com muito prazer.

Mais um excelente livro de Coetzee.

Rafinina

Tiago  (exclamando) – Rafinina! Rafinina!

Nós – Rafinina?! O que é isso?

T -Â É um país.

N – Um país?

T – Sim. É onde vivem as pessoas.

Corre para o mapa-mundo que está na parede e, apontando lá para cima, para o Norte, diz:

T – Os avós estiveram lá!

Não foi propriamente em Rafinina que nós estivemos, mas foi lá perto

Delicioso neto!…

—

Não se importa de repetir?

No negócio Telefónica/PT/Vivo, o Estado português fez uso da Golden Share.

Ou da Golden Chair?

Ou da Chére Golden?

Tudo isto para impedir que a Telefónica comprasse a Vivo.

Morto ou Vivo, a PT não pode prescindir do mercado brasileiro.

Daí o uso da Golden Share – ou será Golden Cher?

Já houve tempos em que a Cher poderia ser considerada Golden… agora, muitas cirurgias depois, não passa de uma Plastic Cher.

Se existe uma Golden Share, é de supor que exista, também, uma Silver Share.

E se a Golden é usada contra a Vivo, será que a Silver será usada contra a Morto?

Confusão…

Com a nossa extensa plataforma continental, não será Golden Shore?

Are you sure it’s golden?

Yes - it’s Golden Share, sure!

Compulsivamente?!

Manchete da primeira página do Diário de Notícias de hoje:

“Portugal eliminado após erro de Queiroz – Substituição de Hugo Almeida abriu portas í  derrota que Eduardo chorou compulsivamente”.

Em primeiro lugar, Portugal não é eliminado por causa de um erro de Queiroz, mas sim por causa dos múltiplos erros do referido senhor.

Mas do que eu gosto é de Eduardo a chorar compulsivamente!

Compulsivamente?!

“Compulsivamente” vem de compelir, que significa “constranger a fazer alguma coisa, forçar, obrigar”

O jornalista não quereria dizer “convulsivamente” (“convulsão: movimento espasmódico causado por uma emoção forte”)?

Cada jornalista tem a selecção que merece!…

Essa do Queiroz!…

Valente selecção! Conseguiu empatar com a primeira equipa do ranking, o Brasil, e só levar um golo da segunda, a Espanha!

A selecção jogou certinha, encolhidinha, aflitinha,Â í  rasquinha, pobrezinha mas honradinha.

Jogou triste, como o país.

A passar para o lado e para trás ou a chutar lá para a frente, í  espera de um bambúrrio.

Duas linhas defensivas, bem fechadas, muita cafuga, muita miaúfa e muito medinho e, acima de tudo, muito respeitinho pelos espanhóis – porque o respeitinho é muito bonito.

Depois, como é costume, começaram com muita pressa no final do jogo, a tentar fazer o que não foi feito nos 90 minutos anteriores.

E no fim, a selecção foi eliminada.

Queiroz desapertou o segundo botão da camisa, mostrou o fiozinho de oiro sobre os pêlos do peito e disse que saíram todos de cabeça erguida.

Deves estar a ver mal, ó Queiroz!

Saudades da paróquia!

Estive uma dúzia de dias ausente e que saudades que eu já tinha!

Saudades do ministro da Economia, Cavaco Silva, sempre a acentuar a próxima bancarrota do país a que ele preside – se a situação é insustentável, por que razão não dissolve a Assembleia e convoca eleições antecipadas?

Saudades da discussão em redor das Scut: quando as Scut foram criadas, todos criticaram o governo por não ter criado portagens; agora, os que não queriam portagens, já as querem e os que eram a favor, são contra. E depois, ainda há a história do ex-assessor do secretário de Estado das estradas, que agora está na empresa que fornece os chips que serviriam para a cobrança electrónica! E alguém acredita que o PSD está preocupado com a privacidade dos cidadãos, ao ser contra os chips? Enredo de telenovela…

Saudades de manchetes como a do Público de ontem: «cortes na cultura ameaçam os artistas independentes». Então, se eles são independentes por que razão estão preocupados com os cortes no Orçamento do Estado? Independentes, dependentes de subsídios?

Saudades de um país que tem um primeiro-ministro, Sócrates, a ser queimado em lume brando e outro primeiro-ministro, Passos Coelho, já na calha, que se reúne com o futuro primeiro-ministro espanhol, Aznar, que praticamente já está a governar, mas que não tem coragem para fazer passar uma moção de censura ao governo e provocar eleições antecipadas, a fim de se tornar primeiro-ministro, de facto.

Saudades de um primeiro-ministro, Sócrates, que, pelos vistos, deve ser o único português que ainda acredita no país, ao ponto de afirmar: “muitas vezes sinto-me sozinho a puxar pelo país!»

Pois deve ser por isso – por estar sozinho a puxar – que o país não sai do mesmo sítio…

Houve tempos em que ele, o país, até partiu, í  descoberta, qual jangada de pedra, mas o Saramago morreu, a crise instalou-se e o país não sai da cepa torta.

Que saudades que eu já tinha da minha paróquia!

“A Vida e o tempo de Michael K.”, de J. M. Coetzee

—Ao contrário de “Solar”, li este livro de Coetzee de um fí´lego.

Coetzee (prémio Nobel da literatura em 2003), conta-nos a história de Michael K., um sul-africano que nasceu com lábio leporino e com um ligeiro atraso mental e que trabalha como jardineiro municipal. A mãe de Michael está muito doente e gostaria de voltar para a sua terra natal, antes de morrer. Michael decide levar a mãe, percorrendo as estradas do país com a mãe, num carrinho improvisado, e isto apesar do país estar mergulhado no que parece ser uma guerra civil.

O livro está dividido em três partes: na primeira parte, o autor conta-nos a odisseia de Michael; na segunda, é o médico que está a tratar de Michael, depois de ele ser internado numa espécie de campo de concentração, que fala, contando-nos o que sente em relação a este homem que não quer comer; na terceira parte, voltamos a Michael, para conhecer o desfecho da sua aventura.

Em parte alguma, Coetzee nos dá indicação da etnia dos personagens mas, sabendo nós que a história se passa na ífrica do Sul, somos levados a crer que Michael é negro, que o patrão para quem a sua mãe trabalhava é branco, que o médico também deve ser branco e que a enfermeira Felicity deve ser negra.

Aconselho.

“Solar”, de Ian MacEwan

—Um livro vale, também, pelo seu leitor. Quero com isto dizer que o “estado de alma” do leitor pode influenciar o valor do livro. Um tipo que esteja com uma grande depressão vai ficar ainda pior ao ler, por exemplo, “As Benevolentes” e vai dizer que o livro é uma tristeza, do princípio ao fim, sendo incapaz de encaixar alguns capítulos sem uma náusea profunda.

Serve isto para dizer que, apesar de Ian McEwan ser um dos meus escritores favoritos, este “Solar” nunca conseguiu entusiasmar-me e li-o aos repelões, sem nunca conseguir fixar a minha atenção.

Culpa minha, que estava com a cabeça noutro lado ou culpa do romance, que não consegue “agarrar” o leitor?

“Solar” conta-nos a história do físico Michael Beard, galardoado com o prémio Nobel, que é um sujeito fisicamente insignificante, o que não o impede de ser um mulherengo compulsivo.

Além disso, Beard não é muito honesto no seu trabalho científico, usando-se do esforço e do trabalho de outros, para se auto-promover. No entanto, no final, não será recompensado.

Não me entusiasmou, repito.