Tragédia socrática

O governo da Grécia vai abolir os subsídios de Natal e de férias dos funcionários públicos que ganham mais de 3 mil euros mensais, aumentar a idade da reforma e a duração da carreira contributiva, aumentar o IVA para 23% e criou uma brigada especial que está a passar a pente fino os rendimentos dos médicos, advogados, cantores, futebolistas, etc.

Zapatero vai acabar com o cheque-bebé (2500 euros), uma das suas bandeiras na campanha eleitoral de 2008.

Também o governo inglês vai acabar com o Child Trust Funds, uma série de medidas de apoio í  natalidade, poupando 370 milhões de euros.

O novo governo britânico também determinou que os ministros deixassem de ter carro e motorista privados – ou vão a pé, ou usam os transportes públicos ou a sua própria viatura. E quando viajarem de avião, não poderá ser em executiva.

A França e a Alemanha vão aumentar a idade da reforma e estão a pensar em aumentar os impostos.

É este o resultado de 4 anos de governação desastrada de Sócrates!

“Como os Médicos Chegam ao Diagnóstico”, de Lisa Sanders

—Lisa Sanders é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale e publica, no New York Times, há 6 anos, uma rubrica intitulada “Diagnosis”, onde  conta algumas histórias clínicas interessantes e o modo como se chegou a certos diagnósticos.

A série televisiva “House” é, em parte, baseada na coluna de Lisa Sanders e ela é uma das consultoras da série. Claro que a personagem do Dr. Gregory House não tem nada a ver com a Dra. Lisa Sanders, já que esta se mostra muito compreensiva, preocupada com os doentes e acha que o exame clínico é essencial para se chegar a um diagnóstico, ao contrário do House que, se puder, nem sequer olha para o doente.

Socorrendo-se de meia dúzia de histórias clínicas, contadas como verdadeiras histórias (aliás, o título original do livro é “Every Pacient Tells a Story” e, mais uma vez, não compreendo por que razão o mudaram), Lisa Sanders aproveita para dissertar sobre o erro médico, a importância do exame clínico, a possibilidade de se evoluir para um diagnóstico “digital” e outros temas que, além de interessarem médicos, interessam, também, o leitor em geral.

Claro que as histórias clínicas aqui apresentadas não são tão mirabolantes como as de House, até porque, supostamente, serão todas verdadeiras.

Ideias idiotas

O jornal A Bola está a vender, em pequenas caixas de plástico, pedaços de relva, supostamente arrancados ao do Estádio da Luz.

Vou comprar quatro ou cinco caixas daquelas e só espero que, numa delas, encontre um pouco de expectoração do David Luiz!

E por que não venderem, também, frasquinhos com suor de Jesus?!

Seria algo de sagrado!

O franciú, o portuí±ol e o Anhuca

Depois do 25 de Abril, Portugal sofreu duas grandes crises económicas e ambas estão ligadas a primeiros-ministros socialistas e a problemas de pronúncia.

Nos anos 80 do século passado, Mário Soares, que falava um francês tão típico, que se tornou anedótico, foi obrigado a retirar o 13º mês aos funcionários públicos, para diminuir a despesa pública.

Foram os tempos do franciú e do mon-ami-miterã.

Agora, é Sócrates que está aflito com o endividamento do país. O “rating” – ou seja-lá-o-que-for – está a lixar o orçamento, mas Sócrates também tem culpas no cartório: ninguém percebe o que ele diz, naquelas entrevistas que dá em Espanha.

São os tempos do portuí±ol e do mi-amiego-zapatero.

Entretanto, vocês já repararam que a comunicação social está a fazer ao Passos Coelho o mesmo que fez ao Sócrates há 6-7 anos: está a levá-lo ao colo até ao lugar de primeiro-ministro.

Passos Coelho é sempre mostrado com ar solene, a dizer coisas sérias e definitivas e sublinhando o seu cadastro (ainda) limpo.

Talvez tenha chegado a hora de começarem os boatos: que o Passos é disléxico, trissexual ou, até, que é mesmo o Anhuca, mas sem o nariz vermelho e com a gravata.

“High Violet”, The National

—Nunca tinha ouvido falar desta banda de Cincinatti, Ohio, sediada em Brooklyn mas, perante tantos encómios, encontrados em diversas publicações, arrisquei-me a comprar o CD (como diz o meu filho, eu sou a única pessoa que ele conhece que ainda compra discos…).

Arrisquei e petisquei, porque The National é uma banda e pêras.

Liderada por um tal Matt Berninger, com voz de barítono e responsável pela maioria das músicas e das letras, a banda tem ainda dois pares de irmãos: Scott (guitarra) e Bryan (percussão) Devendorf, e Aaron (baixo) e (guitarra) Dessner.

Activos desde 1999, The National vão no seu 5º disco e, segundo os entendidos, com “High Violet” deixaram de ser apenas uma banda apreciada por críticos, para passarem a uma banda que pode ser aplaudida por públicos mais vastos.

Duvido, porque os temas não são fáceis, o tom é depressivo q.b., o vocalista nunca levanta a voz e o ambiente tende sempre para a tristeza e a introspecção e será difícil extrair do disco um single para passar nas rádios (talvez “Conversation 16”).

Não há dúvida que The National são uma banda “indie”; tão “indie” que até os primeiros acordes de “Runaway” são iguais aos acordes base de “Vejam Bem”, do Zeca Afonso…

Mas gostei do disco. Os músicos são competentes, os arranjos são sóbrios e eficazes e o conjunto de temas é coerente. Recomendo.

“2666”, de Robert Bolaí±o

—Dizia Tom Waits, numa entrevista, há uns anos, que a única profissão que continuava a dar dinheiro, mesmo depois da morte, era a de rock star.

A de escritor, também. Nestes dois últimos anos assistimos a dois exemplos: o jornalista sueco Stieg Larsson, que morreu em 2004, aos 60 anos, de ataque cardíaco, antes de ver o estrondoso êxito da sua trilogia sobre o super-jornalista Mikael Blomkvist e o escritor chileno, Roberto Bolaí±o, morto aos 50 anos, em 2003, de insuficiência hepática, antes de ver o sucesso deste “2666”, já considerado como a primeira obra-prima da literatura do século 21.

Bolaí±o tem algo de comum com as rocks stars: uma vida de excessos, de bolandas de um país para outro, a participação em movimentos radicais, a eventual dependência de heroína, que teria levado í  hepatite C e í  consequente insuficiência hepática, e a consagração como grande autor, depois da sua morte.

“2666” é um calhamaço de 1025 páginas, que me levou meses a ler, aos bochechos, porque tenho mais que fazer e porque a sua leitura não é nada fácil. O livro divide-se em cinco partes e alguns defendem que devia ter sido publicado em cinco volumes separados. Não estou de acordo. Apesar da sua diversidade, “2666” forma um todo coerente, embora seja um intrincado de milhares de pequenas histórias, aparentemente sem grande relação entre elas.

O livro começa e termina com Benno von Archimboldi, um estranho e obscuro escritor alemão, que adoptou um pseudónimo italiano, para escapar a um crime de guerra – e dizer isto é dizer quase nada sobre o núcleo da(s) história(s).

A melhor definição deste livro é dada pelo próprio autor, na página 911, quando diz “a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes, de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade”.

Também “2666” não tem um momento determinante, sendo constituído por uma sucessão de pequenos episódios, como se o autor tivesse tricotado as histórias e as fosse unindo umas í s outras.

Uma coisa é certa: nunca li nada de parecido e a leitura de “2666” não deixa ninguém indiferente e deixa marcas. Profundas.