4 meses sem fumar

A ausência de cigarros já não me faz diferença nenhuma. Sinto-me mais livre: quando fumava, estava sempre í  espera do intervalo para poder fumar; sem dar por isso, um tipo organizava a vida, de modo a arranjar maneira de poder fumar um cigarrinho – isto, claro, desde que se descobriu que o tabaco fazia mal í  saúde (todos nós nos lembramos do tempo em que toda a gente fumava em todos os lugares e ninguém questionava esse facto…)

Claro que tenho algumas saudades, mas o luto está quase feito.

Agora, surgiu a notícia de que o Champix poderá ter, como efeito secundário, o aparecimento de ideias suicidas. É irónico – um fumador é, por definição, um suicida; um suicida lento, mas um suicida.

Recebi, entretanto, uma série de comentários sobre esta notícia (ver “30 dias sem fumar“). Claro que toda a gente que está a tomar Champix, ficou muito preocupada. Não vale a pena, meus amigos. Passo a explicar:

– se são (ou eram) fumadores, têm tendências suicidas há muito tempo

– se, ao tomarem Champix, sentirem que a vontade de acabar com a vida cresce, de dia para a dia, desistam do medicamento e voltem a fumar; o resultado será o mesmo, isto é, acabarão com a vida

– em último lugar, fiquem com este pensamento: esta notícia (o Champix pode provocar ideias suicidas), não será resultado do lobby da Tabaqueira?

De qualquer modo, estou há 4 meses sem fumar, sinto-me bem e tenciono continuar assim.

Alberto Luis – o prolixo

E assim, de repente, um Alberto Luís inundou-me de comentários. Habitualmente, não ligo. Democraticamente, apago-os. Foi o que fiz, aliás, mas guardei um, apenas para dar o tom.

Aqui vai:

«o crime que constitui todo um conjunto de leis avulsas que tem desde há uns tempos para cá tem propiciado e mais, incentivado a desertificação humana de todo o interior de Portugal; deste modo, e com uma postura dos portugueses nunca antes vista, políticos ignorantes, gestores danosos, decidiram í  revelia de mais de oito séculos da nossa história, a destruição de usos, costumes, formas de ser e de pensar há muito enraizados no povo português. Desnorteados, espezinhados e agredidos no que têm de melhor, abandonam o país, fogem para as cidades, tornam-se verdadeiros treinadores de bancada, morrem, da mesma forma que pouco a pouco vemos morrer tantas aldeias, vilas e cidades de todo o interior português. Por S. Jorge que morremos aqui a ver fechar, todos os dias Escolas, Centros de Saúde, Maternidades sem nada podermos fazer. Cabe a cada um de nós saber exercer as suas funções de cidadania contra esta classe politiqueira escabrosa e incompetente, contra todos os adeptos da globalização, contra o novo riquismo rasca, e fundamentalmente contra todos aqueles que desistem de lutar mesmo antes da guerra estar perdida, pois que o pior ainda pertence ao futuro. Fiquem com esta: atenção aos meios de comunicação, transmitem uma doença incurável: a apatia generalizada. Defendo a luta diária e contínua contra os cabotinos e quejandos que alastram como fogo por pasto ressequido. Como, sabiamente, dizia a minha mãe: os lobos não se comem uns aos outros. É bem português viver a única vida que temos de cabeça levantada. Não posso compreender que todo um Povo se ajoelhe perante um tiranete compulsivo e rancoroso. Aonde estão os descendentes dos guerreiros que ajudaram Afonso Henriques na tomada de Lisboa, aonde param os guerreiros de Aljubarrota e os homens do mar quinhentistas que deram novos Mundos ao Mundo? Saiam das vossas tocas e enfrentem as novas muralhas e o novo mar que se a levanta mesmo á nossa frente, a cada segundo, a cada minuto e nos tolhe o avanço com golpes vis e cobardes, menosprezando o que há de mais sagrado na vida humana: viver em liberdade com dignidade. A qualquer preço, a lógica economicista sobrepõe-se á dignidade do ser humano com a pobreza e o desemprego a dispararem em flecha. Entretanto as classes mais favorecidas vivem numa escandalosa opulência, í  revelia de todas as regras morais, menosprezando os princípios mais elementares de uma saudável convivência humana. Aonde Estás meu querido Jesus? Será que abandonas-te o homem á sua triste sina? Ao homem cabe refazer o caminho que certos indivíduos por ignorância ou por malvadez querem em muito pouco tempo destruir.»

Os restantes comentários do A.L. são do mesmo teor: extensos e multitudinários e, muito sinceramente, não sei por que razão A.L. quer partilhar comigo estes profundos pensamentos.

Acalme-se, Alberto Luís.

Vivam os passeios rebaixados!

É uma das grandes conquistas das obras do Metro Sul do Tejo. Os passeios rebaixados facilitam a vida aos cidadãos com deficiência, mas, sobretudo, í  malta que quer estacionar os seus carrinhos em cima do passeio e não quer dar cabo das jantes.

Exemplo 1:

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Exemplo 2:

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Exemplo 3:

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Exemplo 4:

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Exemplo 5:

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Obrigado, Câmara de Almada!

Sócrates de volta í  santa terrinha

Foram 6 meses de grandes andanças por essa Europa fora, terminando com o frenesim da Cimeira com os dirigentes africanos e com a assinatura do Tratado de Lisboa.

Sócrates não parou! E foi vê-lo a dar grandes abraços ao Sarko francês, sonoras beijocas í  alemã Angie, tratar tu-cá, tu-lá com os grandes dirigentes, quer da Europa, quer de ífrica, como Kadhafi, esse grande ex-terrorista, agora mais bonzinho.

Há dois níveis de leitura destes acontecimentos: ter sido o governo português a organizar a cimeira com os dirigentes africanos e passar a existir um Tratado com o nome de Lisboa, não deixa de prestigiar o nosso país (primeiro nível de leitura), mas para que raio é isso serve (segundo nível)?

Agora, querem que a malta referende o tal Tratado. Para quê? Qual é a alternativa? Sair da União Europeia? Voltar ao escudo?

E como posso eu votar (a favor ou contra) se não faço a mínima ideia do que é o Tratado de Lisboa – e, muito sinceramente, não estou interessado em saber?

No fim do mês, Sócrates deixa de ser o grande líder da Europa e vai voltar í  terra.

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E tem já um grande desafio pela frente: explicar por que escolheu a Dulce Pontes, a gritar a Canção do Mar e a dar aos braços, qual gaivota etilizada, para abrilhantar a cerimónia da assinatura do Tratado.

Porque hoje é sábado

camioneta2.jpgE porque hoje é sábado, lá está a puta da camioneta a ocupar todo o passeio em frente í  minha casa!

Ainda não descobri quem é o dono da camioneta, mas suspeito que more no mesmo prédio que eu e que desconheça o meu site, caso contrário, já tinha vindo tocar í  minha campainha…

Como prometi, tenho enviado todos os dias, um mail para a Câmara de Almada, para o vereador da mobilidade, com a fotografia da camioneta mas, até agora, ainda não recebi qualquer resposta.

Mas como hoje é sábado, os automobilistas pensam que os transeuntes podem voar, em vez de andarem pelos passeios.

carronopasseio.jpgEntão, agora, que os passeios estão rebaixados em frente í s passadeiras para peões, é ainda mais fácil subir para os ditos, como é o caso deste carro todo modernaço, também parado junto ao meu prédio.

Portanto, quem venha de Cacilhas, a subir a 25 de Abril, a empurrar um carrinho de bebé, por exemplo, quando chega í quele passeio, tem que se desviar da camioneta, passando por baixo da arcada do prédio, onde o passeio tem vários degraus. Depois, ao retomar o passeio, tem que se desviar do carro modernaço, para poder continuar a subir a avenida.

betel.jpgE já agora… a vida também não está fácil para certos e determinados automobilistas, nomeadamente aqueles que têm a estúpida mania de cumprir as regras. Logo na ruazinha abaixo do meu prédio, os senhores da Betel (uma instituição que ajuda pobres e necessitados, segundo apregoam), decidiram que uma das faixas de rodagem é para estacionamento, e toca de estacionarem ali uma das suas camionetas. Portanto, quem vier da direita, em direcção í  25 de Abril, só tem é que contornar a camioneta da Betel, passando para a outra faixa – isto, se não vier outro carro em sentido contrário, ou se não estiver um estacionado, também na faixa de rodagem, em frente í  casa que vende baterias.

E agora, vou enviar esta texto para o senhor vereador, a ver o que é que ele diz…

“Proibido!” – de António Costa Santos

proibido.jpgAntónio Costa Santos (ACS, como eu), escreve com graça. Mas, mesmo que não escrevesse, as proibições que ele recorda são, por si só, um fartar de rir.

É que, durante o Estado Novo, era proibido, por exemplo: usar biquíni, acender um isqueiro na rua sem licença, ir de míni-saia para o liceu, beber coca-cola, jogar í s cartas nos comboios, dar beijos em público e andar de bicicleta sem licença.

Menos piada tinham outras proibições: ler certos livros, ver certos filmes, comprar certos discos, casar com uma professora e, para uma mulher casada, viajar para o estrangeiro, sem o consentimento do marido!

ACS escreveu uma pequena crónica para cada uma destas proibições e decidiu editar tudo em livro, e fez muito bem.

Suspeito, no entanto, que apenas tipos acima dos 50 anos se sintam tentados a comprar e ler este livrinho, já que a sua leitura fazia muita falta a malta mais nova que anda sempre a dizer que «isto agora está muito pior!»… Pior que quê? Pior que proibir uma mulher casada de viajar para o estrangeiro, sem o consentimento do marido?

Dr. ou DJ?

Alguém sabe quem é a Rita Mendes?

Mesmo que haja por aí alguém que saiba, não interessa muito. Interessa isto, que li na íšnica de sábado passado. A tal Rita Mendes começou a ser DJ há cerca de um ano. Actualmente, cobra mil euros por 3 horas a meter discos.

Quer dizer: basta que a Ritinha trabalhe 12 horas por mês para ganhar o mesmo que eu, que trabalho cerca de 200 horas.

Qual dê-érre, qual carapuça – DJ é que é!

“Amores Perros” – de Alejandro Gonzalez Ií±árritu

amorcao.jpgTrês histórias que se encontram num cruzamento, ou melhor dizendo, que se chocam num choque de automóveis: a do jovem que ganha umas massas com os combates entre cães, a da manequim, que tem um caniche, e que rouba o marido í  outra e a do vadio, ex-guerrilheiro, sempre rodeado de vira-latas, e que se transformou num assassino a soldo.

Três histórias que nos mostram três formas de amor entre humanos, e entre humanos e cães

Gostei mais da história do homem “maduro”, que engata a manequim boazona, acabando por abandonar a mulher. Pouco depois de se ter mudado para a casa nova, juntamente com a manequim, o caniche desta cai num buraco do soalho e, logo a seguir, ela sofre o violento acidente de viação, que é o ponto de encontro das três histórias.

O ritmo é bom, as histórias são interessantes, os actores são bons, a produção é profissional (só nome da produtora artística diz tudo: Brigitte Broche).

Com filmes destes, Hollywood fica com as orelhas a arder.

Puta da camioneta!

Ontem, enviei este mail para a Câmara de Almada:

“Caro Sr. vereador:
Muito bonitos, os espaços envolventes do MST, aqui, em Cacilhas, na avenida 25 de Abril.
Passeios amplos, rebaixados onde devem sê-lo, adaptados aos cidadãos com deficiência ou aos carrinhos com bebés.

Mas de que servem esses passeios se, invariavelmente, estão atravancados com carros?
Em anexo, segue uma foto de uma camioneta que, TODOS os fins-de-semana, está estacionada í  porta do prédio onde resido.
O que é preciso fazer para acabar com isto?!

Cumprimentos”

camioneta.jpg

Como não me responderam, hoje reenviei o mail. E tenciono reenviá-lo todos os dias, até que alguém me responda.

“Cultura – tudo o que é preciso saber” – de Dietrich Schwanitz

cultura.jpgGraças a um poder de síntese formidável, Schwanitz consegue, em cerca de 500 páginas, ensinar-nos tudo o que convém saber, para se ter uma Cultura, digamos, razoável.

O livro começa com a História europeia, continua com a Literatura, fazendo-nos um resumo de uma dúzia de obras fundamentais, passa pela História da Arte, pela História da Música, fala, depois, dos grandes filósofos, terminando com algumas considerações finais, as quais incluem o “que convém não saber”, porque ser culto também implica saber o que não se deve saber…

O tom do livro alterna entre o humor fino e frases inextricáveis, de difícil compreensão. É, portanto, impossível dizer qual é o tom geral desta obra, que seria muito mais fácil de ler se o autor estivesse sempre bem disposto. Segundo parece, Schwanitz morreu o ano passado, vítima de ataque cardíaco e não me custa pensar que, enquanto estava a escrever este livro, deve ter tido alguns maus momentos.

Mas quando estava bem disposto, a sua produção é um fartar de rir.

Para começar, o autor fala-nos nas obras fundamentais da cultura ocidental, como a Ilíada, a Odisseia e, claro, a Bíblia. No que respeita a esta última, depois de nos contar, muito resumidamente como Deus criou Adão e Eva e o Paraíso, comenta:

«foi assim que se deu o acontecimento que viria a ser conhecido como pecado original, com todas as suas consequências: a descoberta do sexo e da vergonha, a invenção da parra e da moral, a expulsão do jardim, a condenação a um trabalho remunerado regular e o estreitamento da bacia devido í  postura vertical com o acréscimo de um nascimento correspondentemente prematuro e, já agora, doloroso, um prolongado período de dependência total da criança, prazos educacionais prolongados e uma sobrecarga generalizada para a mulher, devido ao seu papel de liderança por ocasião do pecado original».

Para além de alguns momentos de humor, como este, o livro está cheio de aforismos muito acertados. Como este, a propósito da revolução americana: «as revoluções não eclodem quando as pessoas passam pior mas sim na altura em que pensam que pouco as separa de estarem melhor».

Schwanitz parece não nutrir grande simpatia pela psicanálise. A propósito dos psicanalistas, diz: «a psicanálise (…) criava os problemas cuja solução apregoava. Isso tornava o mercado insaciável. Quanto mais a psicanálise se divulgava, maior era a necessidade de reforços. Era como uma bebida que faz sede: uma espécie de necessidade que se reproduz a si própria, breve, uma droga».

Esta citação mostra que o autor não é imparcial. De facto, ao explicar-nos o que é importante para a nossa cultura, Schwanitz toma partido e dá-nos a sua opinião.

É também o caso desta citação, a propósito da Universidade e das novas “…ciências”: «cada vez mais especialidades envergaram o traje da ciência e estabeleceram-se nas universidades apesar de, na realidade, não passarem de práticas academicamente nobilitadas: é o caso do jornalismo, das artes teatrais, da investigação sobre o ensino das línguas, da direcção artística, da politologia e de diversas disciplinas psicológicas situadas algures entre o xamanismo e a banha da cobra».

O livro poderia ser ainda mais interessante se o autor não estivesse tão preocupado em escrever para alemães e se o texto não fosse, por vezes, tão complexo (a menos que haja, de vez em quando, algumas coisas que se perdem com a tradução).