Prison Break – 2

prisonbreak2.jpgOs manos Scofield conseguiram fugir da prisão mas os seus problemas só agora começaram. A Companhia – um conglomerado de multinacionais muito más, que dominam tudo e todos, incluindo a Presidente da República – não vai descansar enquanto não os apanhar. No seu encalço, coloca um agente do FBI com graves problemas psicopatológicos e um asiático-americano sem super-ego, capaz de matar toda a gente com um sorriso nos lábios.

Como sempre, Paul Scofield mantém aquele ar de menino que precisa urgentemente de uns beijinhos e de umas festinhas e não perde a calma em circunstância alguma. No fundo, parece tão psicopata como todos os outros.

Esta segunda série mantém os mesmos níveis de dependência, terminando cada episódio com algo que nos obriga a ter que ver o episódio seguinte, sob pena de não dormirmos descansados.

No entanto, começa com algo de pouco credível: o excelente T-Bag, consegue colocar a sua mão decepada numa geleira, que rouba a campistas e obriga um veterinário a re-implantar-lhe a mão. Vão dar banho ao cão!

Depois, ao longo desta fuga maluca, os manos Scofield mantêm uma máquina zero impecável, o que lhes confere aquele ar modernaço, sport-chic, mas nós não percebemos como arranjam eles tempo para ir ao barbeiro.

No último episódio desta 2ª série, o Big Chief da Companhia, que, afinal, é general e usa bata branca, parece que é uma espécie de cientista, que estará a testar o Paul Scofield. Se assim é, fica provado que os argumentistas ficaram sem ideias para esta série e escusam de fazer greves que, de mim, não levam aumento de ordenado.

Aguardemos…

Kadhafi aconselha: metralha com moderação

A cimeira Europa-ífrica, que decorre este fim-de-semana, em Lisboa, é uma autêntica colecção de cromos e, de entre eles, destaca-se o líder líbio, Muammar Kadhafi.

Kadhafi gosta de viajar com a tenda atrás. Não confia na segurança dos hotéis e prefere fazer ó-ó na tenda que transporta consigo. Este fim-de-semana, o homem mandou instalar a tenda no Forte de S. Julião da Barra mas, como a tenda não tem ar condicionado, parece que Kadhafi tem rapado um barbeiro dos antigos.

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Entretanto, fez publicar na imprensa, um anúncio de página inteira que é um verdadeiro monumento í s alucinações provocadas pelo deserto.

O anúncio começa com a frase «bem-vindos ao site oficial de Muammar Al Gathafi» e continua com a afirmação «a Convenção de Otava de 1997 deve ser revista».

Essa Convenção é sobre minas terrestres e Al Gathafi está de acordo com algumas partes do texto. Está de acordo, por exemplo, com a decisão de «retirar todas as minas anti-pessoal e anti-tanque e outras por explodir em cerca de 60 países» e está de acordo com «o tratamento e a reabilitação das vítimas».

No entanto, o líder líbio não está de acordo com:

«1. A total proibição do fabrico e utilização de minas terrestres

2. A destruição da reserva de minas terrestres»

Não sei porquê, mas parece-me que existe aqui uma contradição: por um lado, Kadhafi aceita que se destruam as minas ainda por rebentar, mas é contra a proibição do fabrico de novas minas!

E porquê?

O texto do anúncio é elucidativo: «os países fortes, que são capazes de violentar a terra dos outros para os destruir com as suas armas estratégicas mortais, nunca pensaram nas necessidades dos fracos que não têm armas ofensivas; que não têm outra coisa a não ser armas defensivas como minas.»

Por outras palavras: Kadhafi é contra as minas que não chegaram a explodir, nos países em que já não há guerra – mas é a favor de que as minas continuem a explodir nos países que ainda estão em guerra.

Enfim, o sol do deserto é forte e o aquecimento do encéfalo produz coisas deste género…

 

Mas o Público de hoje traz outro anúncio de página inteira, ainda mais curioso.

O anúncio chama a atenção para o site de Kadhafi, em www.algathafi.org.

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E tem esta frase engraçadíssima: «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no seu uso exagerado».

É como o álcool, que se deve consumir com moderação – também as metralhadoras devem ser usadas com conta, peso e medida.

Metralha os teus inimigos, mas com moderação. Mata-os só um bocadinho, acerta-lhes só com meia dúzia de balas da tua arma metralhadora, não os fures todos de um lado ao outro, segue a palavra de Kadhafi.

Mas o líder líbio diz outras coisas que não parecem fazer sentido (lost in translation?…), como, por exemplo: «a análise intelectual é o código dos acontecimentos»; ou ainda: «pela piedade humana há necessidade de apoiar o meu apelo para anular as armas metralhadoras exceptuando as outras armas convencionais».

Por favor, Kadhafi, sai da torreira do sol, homem!

 

O socialismo e a merda

Ontem, o presidente Hugo Chavez espantou os jornalistas, ao dizer que a vitória da Oposição, no referendo que ele propí´s, tinha sido “una vitória de mierda”!

Truculento, Chavez classificava de merdósica, a vitória da Oposição, considerando a percentagem obtida (pouco mais de 50% dos votos).

No entanto, Chavez limitou-se a seguir a tradição dos políticos truculentos. Há-de haver por aí malta que ainda se lembra de Pinheiro de Azevedo, o almirante sem medo?

Para quem não se lembra, ou não sabe, eu recordo, ou informo: Pinheiro de Azevedo foi primeiro-ministro do 6º Governo Provisório, após o 25 de Abril de 1974. O país estava uma bagunça ingovernável. Nas ruas, os sindicatos, dominados pelo PCP, davam a ideia de que o Poder era deles. As pessoas não sabiam muito bem o que queriam para o país: uma democracia formal, í  moda do resto da Europa, uma democracia popular, í  moda sabe-se lá de quem (do Chavez, por exemplo?), um regime tipo-cubano, uma ditadura pura e dura, como os países da chamada Cortina de Ferro?

Certo dia, os trabalhadores da construção civil, com betoneiras e tudo, resolveram sitiar a Assembleia da República, com deputados e governo lá dentro.

Depois de muitas horas de negociações, os operários deixaram sair os deputados do PCP e mantiveram o cerco aos restantes “representantes da burguesia”. A páginas tantas, o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, conhecido por não ter papas na língua, veio a uma varanda do edifício da Assembleia e, enfrentando os milhares de manifestantes, berrou: «Bardamerda para o socialismo!»

Azevedo tinha razão. Quem queria o socialismo com betoneiras a sitiar a Assembleia dos representantes da Nação, bem podia mandar esse socialismo í  merda?

O caso de Hugo Chávez é um pouco diferente e cheira mais a mau perder. Se a Oposição ganhou o referendo com pouco mais de 50% dos votos e foi “uma vitória de merda” – como classificar a derrota de Chávez?

Pontapés na língua

organizao.jpgNão é de agora. Há muito tempo que detecto erros ortográficos nos jornais, nomeadamente, no Público – erros incompreensíveis, até porque, hoje em dia, toda esta gente deve escrever com um software de correcção.

Há uns dias, era a palavra “obececado”, em letras bem grandes. Tive esse recorte em cima da secretária vários dias, mas acabei por deitá-lo para o lixo, já sem paciência para escrever.

Mas esta não passa.

Então, a Associação Cultural de Aradas e a Livraria de Santo António “organizão”?

É que este não é um erro de teclado. No que respeita a “obececado”, até admito que, ao teclar, o jornalista pudesse ter colocado um “e” a mais e não ter reparado que o corrector chamava a atenção para o erro.

No entanto, no caso de “organizão”, quem escreveu este pequeno texto deve estar mesmo convencido(a) que é assim que se escreve.

O texto saiu na Pública de 25 de Novembro.

Notícias desta choldra

Que país parvo é Portugal. Parvo no sentido latino do termo, isto é, pequeno. Pequeno no sentido de inferior.

Nos últimos dias, duas notícias têm merecido parangonas nos jornais e aberturas de telejornais: a explosão num prédio, em Setúbal e o facto de uma funcionária pública de Vitorino de Piães não ter sido reformada pela junta médica.

Vamos lá escalpelizar isto.

Comecemos por Setúbal: uma aparente fuga de gás num andar de um prédio, em Setúbal, provocou uma forte explosão, que destruiu os três últimos andares do edifício e causou grandes danos em todos os restantes andares e nos edifícios vizinhos.

E depois?

Depois, dias a fio, as televisões transmitiram, em directo, afirmações dos condóminos, da governadora civil, da presidente da Câmara, dos donos das lojas, de tipos da Protecção Civil, de todos e de cada um. Até vimos, em directo, um engenheiro do LNEC a explicar, com um esquema, como iria ser reforçada a estrutura do prédio, de modo a evitar um eventual desmoronamento.

Tenho muito respeito por Setúbal, que até é a capital do distrito onde vivo, posso sentir alguma solidariedade para com os habitantes do prédio, que ficaram com as suas casas destruídas e os seus haveres em fanicos – mas daí até considerar este episódio digno de directos nos telejornais, vai uma distância enorme.

Segunda notícia: uma funcionária da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães, em Ponte de Lima, foi a uma junta médica, após três anos de baixa, e foi considerada apta para o trabalho. Os jornalistas consideraram que isto merecia ser notícia. Vimos, então, a anafada senhora, com o colar cervical da praxe, deitadinha na cama ou sentadinha no sofá, dizendo que sofre de uma doença degenerativa da coluna e que não pode sequer deslocar-se sozinha.

O espalhafato foi tanto, que o ministro das Finanças que, de doenças degenerativas da coluna percebe nada, veio a público dizer que a funcionária iria continuar de baixa e que seria submetida a nova junta médica.

A nova junta médica foi ontem e os meus colegas devem ter sido confrontados com um cenário que eu bem conheço: alterações degenerativas da coluna cervical e lombar, instabilidade da charneira lombo-sagrada, uma ou outra cervicartrose,  uncodiscratroses e, ao que parece, sequelas de uma eventual cirurgia a hérnia discal que, segundo os jornais, não terá corrido muito bem. Ora bem, tudo isto (menos a cirurgia) tenho eu e mais uns quantos milhões de portugueses. Arrisco-me a dizer que, depois dos 40 anos (a funcionária tem 43), toda a gente tem alterações degenerativas na coluna. Quanto a mim, só na coluna cervical, tenho três hérnias. Doença degenerativa da coluna não é o mesmo que, por exemplo, doença degenerativa do Sistema Nervoso Central – e se os jornalistas não sabem isto, perguntem a quem sabe.

A junta médica considerou a funcionária apta para o trabalho.

Como é natural…

Diz o DN: “recorde-se que até o ministro das Finanças tinha dito «ser óbvio que a situação tem de ser reanalisada e reapreciada»”

O que quer isto dizer? Que é óbvio que a senhora está incapaz para trabalhar? Agora é o ministro das Finanças ou os jornalistas que decidem estas coisas?

Como tem sido hábito os juízes, graças í s providências cautelares, decidirem a reabertura dos SAP, a repetição dos exames ou o pagamento de horas extraordinárias nas aulas de substituição, pode ser que, a partir de agora, sejam os jornalistas a decidir quem está incapaz para a sua profissão por doença invalidante.

E hoje, a cereja sobre o bolo: os elementos da Junta de Freguesia de Vitorino de Piães ameaçaram demitir-se se a situação da funcionária não for revista.

A isto chama-se democracia popular – ou não?

Não.

A isto chama-se choldra… e já no tempo do Eça assim era…

“Apocalypto”, de Mel Gibson

apocalypto.jpgFinalmente arranjámos paciência e estí´mago para ver mais este filme de Mel Gibson, o tal que é falado em dialecto maia. O núcleo do argumento, afinal, é igual a tantos outros: os homens maus querem escravizar os homens bons. A coisa fica mais fácil porque a história acaba por se resumir a um homem mau e a um homem bom – o qual, ainda por cima, tem a sua mulher, grávida, e filho, presos num poço.

O filme é violentíssimo e tem cenas eventualmente chocantes e desnecessárias para o desenvolvimento da história, como a cena do jaguar que ataca um dos maus, comendo-lhe a cara (por que não uma perna?).

í€ medida que se aproxima do fim, as coisas complicam-se e ficam cada vez pior, sobretudo quando começa a chover e o poço onde estão a grávida e o filho se inunda. Mas ainda vai ficar pior: no horizonte, vêem-se os galeões espanhóis.

Frenético e assustador, violento, por vezes desnecessariamente violento, com um cenário espectacular (a selva mexicana) e um brilhante conjunto de actores amadores, sem tiques de estrelas, sem ademanes, sem truques – penso mesmo que o filme vale, sobretudo, por estes amadores, já que, se os actores fossem profissionais conhecidos, o filme poderia cair na vulgaridade.

David Fonseca versus Santana Lopes

Sou do tempo em que, para assistirmos a um espectáculo ao vivo, tínhamos que nos deslocar a Madrid, no mínimo. E como, na altura, a semanada nem para o tabaco chegava, tínhamos que nos contentar com o que havia. E era pouco.

Lembro-me de, em 1971 ou 72, ter ido ao Pavilhão de Cascais ver os Procol Harum e já fui com sorte. E tive que esperar que o meu filho tivesse barba para poder ver, ao vivo, os Rolling Stones e os Pink Floyd – na companhia do meu filho, claro…

Agora, é í  fartazana!

Todos os fins-de-semana há espectáculos, os mais variados. Parece impossível como há público para tantos espectáculos.

E a escolha é difícil. Por exemplo: ir assistir ao espectáculo em que David Fonseca vai cantar, ao vivo, o seu último disco, ou ir ao jantar-debate com Pedro Santana Lopes?

Convenhamos que tomar uma decisão não é nada fácil. Tendo em conta o número de patrocinadores, o jantar-debate com Santana Lopes deve ser mais importante que o espectáculo de David Fonseca – além de que, enquanto o cantor é um tipo sorumbático e que parece levar tudo a sério, o Sr. Lopes é um bacano, sempre disposto a uma chalaça.

Confesso: preferia voltar a ver os Procol Harum…

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