Doutores arquitectos

A minha avozinha, que viveu até aos 94 anos, achava que toda a gente que tinha um curso devia ser doutor. Por isso, nunca dizia “advogado” ou “arquitecto” – dizia sempre “doutor advogado” ou “doutor arquitecto”.

A importância do “dê-érre” está bem patente na campanha institucional das “Novas Oportunidades”.

Nessa campanha, vemos, por exemplo, Carlos Queiroz a aparar a relva de um campo de futebol, Pedro Abrunhosa a indicar os lugares numa sala de espectáculos e Judite de Sousa como empregada de uma papelaria.

Supostamente, estas três “figuras públicas” não teriam singrado na vida se não tivessem terminado os respectivos cursos.

Quer dizer que teríamos perdido um treinador mediano, um artista limitado e uma jornalista banal.

Ou será que teríamos perdido um excelente aparador de relva, um óptimo arrumador de cinema e uma formidável empregada de papelaria?

Que merda de fixação é esta pelos graus académicos?

Terá alguma coisa a ver com o facto do engenheiro técnico Sócrates não estar inscrito na Ordem dos Engenheiros e toda a gente dar muita importância a isso – ou é, apenas, uma campanha publicitária falhada?

Se todos formos doutores, quem nos recolhe o lixo, desentope os canos, asfalta as ruas, apara a relva ou vende os jornais?

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O limbo acabou – os bebes estão salvos!

O misericordioso Papa Bento XVI aprovou as conclusões de uma Comissão Teológica Internacional que põe fim ao conceito do limbo.

Que alívio!

Agora, as crianças não baptizadas, que morram í  fome no Darfour ou num atentado bombista, no Iraque, já não ficam no limbo, para sempre, e poderão ir para o céu!

Isto é tão idiota que até dói!

A tal Comissão, segundo o DN, “assevera que Deus é misericordioso e deseja «a salvação de todos os seres humanos», existindo «fortes bases teológicas e litúrgicas para esperar que, uma vez mortos, os bebés não baptizados são salvos“.

E como é que esta Comissão chegou a tal conclusão, que provas novas descobriu sobre a existência ou inexistência do limbo? Será que falou directamente com Deus, que teve a amabilidade de lhes explicar que o limbo fechou definitivamente, que era obsoleto, que estava í  cunha de bebés africanos, chineses, árabes, judeus, hindus, não baptizados?

Por este andar, ainda acaba também o purgatório.

Depois, o céu e o inferno ficarão por um fio…

E o tamanho do meu pénis?

Almada está esventrada por causa das obras do Metro.

As avenidas 25 de Abril e D. Afonso Henriques estão reduzidas a duas faixas de rodagem, sem nenhum lugar para estacionar.

É o caos.

Mas a Câmara Municipal de Almada e a Junta de Freguesia de Cacilhas dão uma ajuda: a meio da avenida 25 de Abril, inventaram um parque de estacionamento no cimo de uma morro baldio e arranjaram mais una quantos lugares para estacionar, na pracetas limítrofes.

Só que, para que os residentes possam estacionar, gratuitamente, nesses locais, têm que adquirir um cartão especial.

E o que é preciso para obter esse cartão?

Simples: entregar, na Junta de Freguesia de Cacilhas cópias da carta de condução, da certidão de domicílio fiscal, com prova de pagamento do IRS, o cartão de eleitor ou um atestado de residência, o certificado de matrícula do carro ou o título de registo de propriedade.

Ou seja: não basta eu provar que moro na avenida 25 de Abril; tenho, também que provar que o carro é meu, que tenho carta de condução e que tenho os meus impostos em dia.

Por outras palavras: se eu morar na avenida 25 de Abril, for proprietário do carro, mas for outra pessoa a conduzi-lo, porque eu não tenho carta, já não tenho direito ao tal cartão que me permite estacionar gratuitamente, perto da minha casa.

E, já agora, a Junta fica a saber se eu pago os meus impostos e se tenho o cartão de eleitor actualizado.

Simples, não é?

Já agora, não querem também saber o tamanho do meu pénis?

É que pode ser demasiado pequeno, ou demasiado grande, para eu ter direito a estacionar no vosso formidável parque de estacionamento!

The Closer – 1ª série

closer1.jpgNão faço ideia se esta série está a passar na televisão portuguesa, mas devia.

É difícil traduzir o título da série, mas é certo que ela se baseia no modo como Brenda Johnson interroga os suspeitos: de olhos nos olhos, de perto, frente a frente, e sempre com muita amabilidade, aparentando não perceber muito do que está a fazer.

Brenda (Kyra Sedwick) vem da polícia da Atlanta para chefiar uma brigada especial anti-crime, em Los Angeles. Os elementos dessa brigada não vêem essa nomeação com bons olhos, mas, í  medida que Brenda vai desvendando os casos mais complicados, vão começando a ganhar-lhe respeito.

Os argumentos são acima da média, sendo que alguns deles são muito melhores que muitos dos filmes policiais que por aí andam.

Do elenco masculino, reconhecemos alguns actores secundários de muitos filmes de segundo plano, caso de Robert Gosset.

No satisfaction

O guitarrista dos Stones, Keith Richards, disse, numa entrevista, que tinha snifado uma mistura de cocaína com as cinzas do falecido pai.

No dia seguinte desmentiu.

Não era uma mistura.

Eram mesmo só as cinzas do pai.

Até porque Richards, com 63 anos, já não se mete na coca.

Por estas e outras, se diz que, depois do holocausto nuclear, só três coisas sobreviverão: a fita cola, as baratas e Keith Richards.

Mais um incentivo para os maridos arrearem nas gajas

O ministro da saúde anunciou mais uma enorme medida, própria do complexo de esquerda que ainda enforma o governo socialista: a partir de agora, as vítimas de violência doméstica ficam isentas do pagamento das taxas moderadoras.

Estou mesmo a ver, lá no meu Centro de Saúde, a Dona Ermelinda aproximar-se do balcão administrativo e dizer:

“í“ Fatinha, o meu marido, ontem, deu-me uma carga de porrada. Como já perdi direito ao subsídio de desemprego, porque recusei todas as propostas de trabalho que me foram oferecidas, e perdi o direito ao Rendimento Social de Reinserção porque não me está a apetecer nada ir limpar matas, a mando da Junta de Freguesia, e não sou diabética, insuficiente renal, tuberculosa ou doente oncológica, como não sofro de lúpus, hemoglobinopatia ou doença profissional, como não sou seropositiva, nem toxicodependente ou alcoólica integrada num plano de recuperação – não tive outro remédio se não pedir ao Zé para me dar uma carga de porrada! Agora, como vítima de violência doméstica já posso vir a médico e não pagar os 2 euros e 10 cêntimos, não posso?!”

Eu sei que isto parece um pouco reaccionário, mas não resisti!

Sócrates, o falso engenheiro

Os jornais não largam o osso. Vasculham os arquivos, falam com antigos colegas de Sócrates, interpelam professores, reitores, contínuos, mulheres da limpeza, vizinhas do lado, porteiras.

Qualquer depoimento serve para levantar mais suspeitas.

Empregado do café onde Sócrates costumava estudar í  noite: “Nunca o vi estudar a sério. Vinha para aqui, sentava-se naquela mesa, só pedia uma bica e ficava o tempo todo a ler livros de banda desenhada. Os livros sobre Cálculo de Estruturas e Betão Armado em Parvo, nunca os abria!”

Antigo contínuo da Universidade Independente: “Se o vi entrar nas salas de aula? Nunca! Ficava aqui, na sala de estudantes, a fumar cigarros e a ler revistas porcas!”

Gajo que ia a passar: “Esse gajo nunca me enganou: tem mais cara de agente técnico do que engenheiro!”

A parolice í  solta!

O país de doutores e engenheiros que somos rejubila com esta polémica: “já sabes que, se calhar, o Sócrates não é engenheiro?!”

Alguns jornalistas, ressabiados por não terem tido nota para entrar num curso a sério e não terem tido alternativa se não escolher Comunicação Social, pensam ter encontrado a investigação das suas carreiras.

Claro que o Sócrates não é engenheiro, é óbvio que arquitectou um arranjinho para conseguir o diploma, com umas equivalências manhosas e umas chico-espertices banais, só possíveis com a multiplicação de Universidades privadas que, como se está a ver, não passam de empresas que escondem os seus estranhos negócios atrás da fachada supostamente fiável do Ensino Superior.

Sócrates é, acima de tudo, um político.

E está tudo dito.

Ninguém nunca o iria contratar para, por exemplo, ser o engenheiro responsável pela construção de uma ponte, de um parque de estacionamento subterrâneo, ou mesmo de uma casa de um só piso e com apenas uma divisão assoalhada.

Agora, há uma coisa que não percebo: de que está í  espera Sócrates para dizer qualquer coisa de substancial sobre esta polémica.

O que dá que falar, neste caso, é o seu meio silêncio.

Das duas, uma: ou o tipo, desde o princípio, não dizia nada sobre o assunto e deixava os jornalistas tasquinharem no lodo até se fartarem – ou então, já devia ter dito qualquer coisa.

O silêncio de Sócrates alimenta a polémica.

Uma nota final para comentar um comentário. Um simpático colocou um comentário ao meu anterior texto sobre a “engenheirice”, dizendo que eu devia ter vergonha de confessar que não fui a nenhuma aula de Ortopedia. Claro que não editei o comentário desse senhor, porque o Coiso é meu e só cá escreve quem eu quero. Mas vale a pena esclarecer que todos os estudantes universitários de 1973/1974 tiveram passagens administrativas.

Não foi isso que me tornou melhor ou pior médico.

Perdão, licenciado em Medicina…

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