Respeitem os chinesinhos

Segundo a agência noticiosa chinesa, Xinhua, os professores chineses vão deixar de poder insultar ou bater nos alunos. Parece que, numa sondagem realizada no ano passado, 80% dos alunos das escolas primárias chinesas, afirmavam que os insultos dos seus professores eram o seu maior problema.

Acabou-se. As autoridades chinesas decidiram que os professores têm que respeitar os menores.

Nas salas de aula chinesas, nunca mais se vai ouvir frases como: “Ouve lá, ó chinoca, por que raio não fizeste os trabalhos de casa? Vê lá se queres que te ponha os olhos em bico!”

Boa forma por decreto

Tony Blair nomeou Caroline Flint como secretária de Estado para a boa forma física. Parece que o governo inglês está muito preocupado com a obesidade, que terá aumentado 38%, desde 2003.

A Caroline terá agora, a seu cargo, a responsabilidade de pí´r os ingleses aos pulos e aos saltos, a ver se perdem as banhas extras. Espera-se que, como compete ao bom Estado Providência, o governo inglês ofereça aulas gratuitas de cardiofitness a todos os gordos indigentes.

ER – 6ª série (1999/2000)

er6.jpgDepois de ter sido esfaqueado por um doente psicótico, Carter fica dependente de analgésicos e, quando é descoberto, os colegas fazem-lhe um ultimato: ou vai para uma clínica de desintoxicação ou é despedido; o mesmo doente psicótico, mata Lucy Knight; o pai do Dr. Greene, depois de ir para a cama com a mãe da Dra. Corday com o entusiasmo de um adolescente, morre de cancro do pulmão em dois episódios; a enfermeira Hathaway começa a ceder aos avanços do Dr. Kovac mas, de repente, decide partir para Seattle, a fim de reencontrar-se com o Dr. Ross e deixa o médico croata a falar sozinho.

Tudo isto quer dizer que os argumentos do ER, nesta 6ª série, parecem dar muito mais importância aos imbróglios particulares das personagens do que aos casos médicos das urgências. E é pena, porque foi o realismo desses casos que nos têm prendido í  série. Num dos episódios, por exemplo, Benton prescreve Bisacodil a um doente e, devido aos gatafunhos da receita, a farmácia dá ao doente Bisoprolol; o homem toma um comprimido e faz um enfarte. É forçado. E isto não era costume nos argumentos do ER, habitualmente muito rigorosos e realistas.

Três terços não é uma unidade?

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Notícia de hoje, do Público: “Confirmada ligação entre líquido para lentes de contacto e infecções oculares – três terços dos doentes confirmados nos EUA tiveram de fazer um transplante de córnea”.

Leio o título e exclamo: “Xiça! Ainda bem que não uso lentes de contacto!”

É que, quando andava na escola, ensinaram-me que três terços equivale a uma unidade, o que quer dizer que TODOS os doentes que usavam o tal líquido (ReNu – faz lembrar o “rei vai nu”) tiveram que fazer transplante de córnea.

Leio depois a notícia e fico baralhado. Afinal, os cientistas, diz a notícia “não sabem ao certo a sua (da infecção) origem”. Mau… então a culpa da infecção não era o tal líquido?…

Mais í  frente, a notícia acrescenta: “pesquisas adicionais do centro americano para o controlo e prevenção de doenças junto de 164 casos de queratite microbiana (infecção da córnea provocada por um fungo) confirmados nos EUA permitiram constatar que as pessoas que usam a solução para lentes de contacto ReNu MoistureLoc têm 20 vezes mais probabilidades de contrair a doença.”

Falta de vírgulas í  parte, percebemos que, afinal, a malta que usa o líquido só tem mais 20% de probabilidades de apanhar a infecção. Quer dizer: nem todos a apanham.

E continua a notícia: “este novo estudo, publicado esta terça-feira no Journal of the American Medical Association, revela que um terço dos americanos que contraíram queratite tiveram de fazer um transplante de córnea.”

Mau Maria!… Então, agora, já não são três terços? É só um terço dos americanos? Ou será, apenas, um terço dos 164 doentes estudados?

Que grande confusão!

O que vale é que o tal ReNu foi tirado do mercado.

O mesmo devia acontecer a quem escreveu esta notícia…

Jornalistas que refazem a História

João Pereira Bastos, director da Antena 2, de 1996 a 2005, escreve uma divertida carta ao director do Público sobre um programa que a RTP transmitiu, a propósito do centenário do nascimento de Marcelo Caetano, no passado dia 17.

Pelos vistos, segundo os jornalistas responsáveis pelo programa, a Acção Nacional, de Caetano (que substituiu a União Nacional), chamava-se Assembleia Nacional Popular, a ala liberal não incluía Pinto Balsemão, Maria Callas veio ao S. Carlos cantar a “Aida”, de Verdi, e não La Traviata, e o seu acompanhante mudou de nome: em vez de Alfredo Kraus, passou a chamar-se Alfredo Strauss.

J.P. Bastos termina a sua carta com muito humor, dizendo: “é como se eu fosse obrigado a escrever sobre futebol, matéria que não me é familiar, e não me certificasse que o ex-treinador do FCP, Co Adriannse, não é uma variante dos meus comprimidos para a pressão arterial, o Co Aprovel”.

Não querendo comparar Marcelo Caetano aos Rolling Stones, até porque estes, ao contrário do cinzento professor, ficarão na História e são muito mais divertidos, a Visão de 10 de Agosto, tem um artigo, assinado por Miguel Judas, que começa com um chorrilho de imprecisões.

Começa o artigo por dizer: “Na pequena sala de concertos The Scene, como já era habitual í s quartas-feiras, uma pequena multidão apinhava-se para ver os «miúdos» Brian, Keith e Mike…”

Para além de a estreia dos Stones ter sido no Marquee Club, em Londres, em 1962, acrescente-se que a composição da banda era: Brian Jones, Keith Richards, Mick Jagger, Charlie Watts e Bill Wyman. Quem seria o Mike?…

Logo a seguir, o artigo continua: “Mais de 40 anos depois, as mesmas palavras continuam a ser utilizadas quando se fala dos Rolling Stones, a banda composta pelos «graúdos» Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood (que entrou após a morte de Brian Jones, em 1969)”

Mais uma série de imprecisões: Ron Wood não substituiu Brian Jones coisa nenhuma. Jones morreu em 1969 e foi substituído por Mick Taylor. Os Stones continuaram como quinteto e gravaram “Trough the Past Darkly” e “Let it Bleed”, em 1969, “Get Yer Ya-Ya’s Out”, em 1970, “Sticky Fingers”, em 1971, “Exile on Main Street”, em 1972, “Goats Head Soup”, em 1973, “It’s Only Rock’n’Roll”, em 1974, “Metamorphosis”, em 1975, e só então, seis anos depois do que diz Miguel Judas, é que Ron Wood se juntou aos Stones, tendo saído Mick Taylor. Mais tarde, em 1992, Bill Wyman saiu e só então, há apenas 14 anos, é que os Rolling Stones ficaram com a sua actual formação.

Judas decidiu-se pela simplificação, ignorando os factos, ou não sabia nada disto? É que é fácil: a informação sobre os Rolling Stones é vasta e está acessível em muitas fontes. Basta clicar, por exemplo, www.allmusic.com.

O problema é que, como diz João Pereira Bastos: “o erro grosseiro de hoje arrisca-se a ser a verdade histórica de amanhã”.

Sinais do apocalipse

1. Jesualdo Ferreira passou-se do Boavista para o FCP. Quebrou o contrato. Pelo facto, irá pagar ao clube do Bessa, um milhão de euros de indemnização.

Eu teria que trabalhar 21 anos para conseguir pagar esta indemnização.

E o meu salário não é nada mau.

2. Alguém revelou que George Bush está a ler um livro.

Esta revelação, em si, já é um sinal de que o mundo deve estar quase a acabar.

O pior é que esse livro é “O Estrangeiro”, de Albert Camus!

Imaginem o que aconteceria se, de repente, Bush se transformasse num intelectual.

É que não há nada pior que um intelectual idiota!

3. A aldeia de Capela fica no concelho de Penafiel.

Pela quinta vez, no último ano, alguém roubou os fios de cobre das ligações telefónicas e a aldeia ficou sem telefone.

Os ladrões serram os postes telefónicos, depois derrubam-nos e, a seguir, roubam os fios de cobre.

Repito: no espaço de um ano, os ladrões já fanaram, por cinco vezes, os fios de cobre das ligações telefónicas da aldeia de Capela.

Quantos mais metros de fio de cobre terão que roubar para conseguirem um lucro semelhante ao da indemnização que Jesualdo vai pagar ao Boavista?

E por que raio não se deixam eles de roubos patéticos e, em vez disso, não se dedicam, í  leitura?

O presidente da maior potência do mundo aconselha “O Estrangeiro”, de Camus…

“Casei com um Comunista” – de Philip Roth

caseicomcomunista.jpgO livro conta-nos a história de Iron Rinn, um comunista í  americana, que veio do meio operário dos subúrbios de Nova Iorque, subiu ao estrelato e acabou no anonimato, em parte devido í s suas convicções e í  caça í s bruxas, levada a cabo pelo senador McCarthy, em parte porque acabou por ceder í  burguesia que ele tanto odiava.

Rinn era um calmeirão, cheio de energia e de ideias progressistas. Devido í  sua semelhança física com Lincoln, começou por personificá-lo em festas das colectividades operárias e acabou por interpretar o seu papel num famoso teatro radiofónico, muito em voga na América, na altura em que a televisão ainda não tinha assumido o seu papel omnipresente nos lares de toda a gente.

Apesar de comunista convicto, Rinn acabou por se apaixonar por Eva Frame, uma estrela do cinema mudo, que era tudo o que ele desprezava: burguesa, rica, sofisticada, vaidosa, superficial. O casamento com Eva transformou a vida de Rinn num inferno, sobretudo por causa das disputas com Sylphide, filha de um anterior casamento de Eva.

O casamento passou do amor apaixonado ao ódio arrebatado. Apoiada por dois jornalistas da extrema-direita americana, Eva escreve um livro, intitulado “Casei com um Comunista”, em que denuncia o próprio marido. McCarthy e a sua comissão de defensores dos valores norte-americanos, fizeram o resto e Iron Rinn é despedido da rádio vai trabalhar novamente para as minas e morre, aos 51 anos, só e desprezado por quase todos. No entanto, ainda consegue, antes de morrer, que jornalistas de esquerda desmontem a falsidade da personagem de Eva Frame: afinal, era não era filha de navegadores do Massachussets, mas sim de um casal judeu que nem inglês sabia falar.

O mais interessante de mais este denso romance de Roth é o modo como está escrito, quase todo em discurso directo. De facto, toda esta história é contada pelo irmão mais velho de Ira a um antigo discípulo. É notável como Roth consegue fazer avançar a narrativa, sempre em discurso directo, o que não é nada fácil, suponho.

“Lord of War”, de Andrew Niccol

senhordaguerra.jpgÉ um filme difícil de classificar. Todo o seu tom é jocoso, fazendo lembrar algumas coisas dos irmãos Coen (é impossível não nos lembrarmos de “Razing Arizona”, até porque o protagonista é o mesmo).

Partindo do princípio de que Niccol quis fazer uma sátira, aceita-se. Cage interpreta a personagem de Yuri Orlov, um ucraniano emigrado nos States, que não se satisfaz com a vida pequeno-burguesa dos pais e decide tornar-se traficante de armas.

Em pouco tempo, vemo-lo a vender armas a tudo o que é grupo insurrecto, do Líbano í  Libéria. Ao mesmo tempo, leva uma vida dupla, casando com uma modelo e proporcionando-lhe um elevado nível de vida.

Claro que, í  medida que vai subindo no negócio, Orlov começa a deparar-se com uma série de dilemas morais: ele fornece armas a exércitos que chacinam crianças. O seu relacionamento com o presidente da Libéria, por exemplo, parece uma rábula dos Monty Python. O pior é que, se calhar, aquilo não está muito longe da verdade. Tipos como Charles Taylor e outros ditadores africanos, só podem ser uma de duas coisas: psicopatas perigosos ou perigosos psicopatas.

No final, a velha Teoria da Conspiração vem ao de cima: claro que Orlov não pode ser preso pela Interpol. Como ele próprio diz ao agente que o persegue há anos: ao presidente dos EUA dá jeito que existam free-lancers como ele, que podem fornecer armas, sem que o presidente tenha que sujar as mãos.

“The Constant Gardener”, de Fernando Meirelles

fieljardineiro.jpgSerá que a indústria farmacêutica faz mesmo o que este filme denuncia?

A dúvida fica sempre no ar…

Não li o romance de John Le Carré, que serviu de base para o argumento do filme, mas pareceu-me que o realizador romanceou demasiado as coisas.

No centro do argumento está uma suspeita muito grave: a indústria farmacêutica, quando tem, entre mãos, um medicamento novo (um anti-tubercolostático, por exemplo), que poderá revolucionar o tratamento de determinada doença e fazer subir os lucros exponencialmente, não hesita em experimentar essa nova droga nas populações miseráveis de ífrica. Mesmo que alguns morram, com os efeitos secundários, não faz grande diferença, porque essas pessoas, de qualquer modo, já estavam condenadas, devido í s condições extremas em que vivem.

E se alguém decidir denunciar o esquema, o atropelo ético que é, saltar uma ou duas fases de ensaio da droga, passando logo para a administração indiscriminada, a indústria também não hesita em contratar alguém que acabe com esse estorvo.

É isto que este filme denuncia, mas a história acaba por ficar submersa na culpa de um funcionário da embaixada britânica no Quénia (Ralph Fiennes) – culpa por não dar a devida atenção í  sua jovem esposa (Rachel Weisz) e por pensar que ela o andava a enganar com um autóctone (que, afinal, até era gay), em vez de perceber que, o que ela estava a fazer, era tentar demonstrar que uma determinada empresa farmacêutica testava um novo medicamento na andrajosa população queniana, não se importando com os efeitos secundários, muitas vezes mortais.

As personagens pareceram-me pouco consistentes: nem Fiennes me convenceu, como funcionário de embaixada, sobretudo interessado na jardinagem e ligando pouco ao mundo que o rodeia e que, depois da morte da mulher, se transforma num quase detective; nem Rachel Weisz me convenceu como activista anti-globalização, com pais ricos, que decide desmontar a mentira da grande indústria.

No entanto, as paisagens de ífrica são lindas e o tema é perturbador…

“Boris Vian por Boris Vian”

borisvian.jpgBoris Vian (1920-1959) foi um agitador francês que viveu depressa. Durante a sua curta passagem pela vida, deixou bem vincada a sua marca em Saint-Germain-des-Prés e meteu-se em quase tudo: escreveu peças de teatro e canções, poemas e romances, foi trompetista de jazz e tudo e tudo.

Dele, conheço melhor os romances: “A Espuma dos Dias” e “O Outono em Pequim”, ambos de 1947, e “O Arranca-Corações”, de 1953. Já tive a minha fase Boris Vian e duvido que os seus romances aguentassem uma segunda leitura.

Como é natural num tipo hiperactivo, deu opiniões sobre tudo e mais alguma coisa e, no ano passado, Noel Arnaud decidiu compilar citações e aforismos de Vian, neste livro, editado agora em Portugal, pela Fenda.

Nele encontramos palavras de Boris Vian sobre o amor, as mulheres, a moral, o jovens e os velhos, o futuro, a morte, deus e os seus servos, etc

Sobre o trabalho, por exemplo, disse Vian: “O paradoxo do trabalho é que, no fim de contas, trabalhamos apenas para o suprimir. E, ao recusar constatar com honestidade o seu carácter nocivo, acordamos-lhe todas as virtudes que mascararam o seu lado fatal. De facto, o verdadeiro ópio do povoe a ideia que se lhe dá do trabalho.”

É um livrinho interessante, que se lê numa tarde, embora algumas das frases e comentários de Vian não tenham assim tanto interesse, até porque muitas delas estão datadas, falando-nos de personagens contemporâneas de Vian, que terão sido importantes para ele próprio, mas que, a nós, nos dizem muito pouco.