Queremos mais listas

O Governo publicou a lista dos indivíduos e empresas que devem dinheiro ao fisco.

Está aqui: http://www.e-financas.gov.pt/de/jsp-dgci/main.jsp

Dezasseis cidadãos devem mais de um milhão de euros de IRS: o Sr. Almeida, o Sr. Djumo, o Sr. Campos, O Sr. Pinheiro, o Sr. Palma, o Sr. Teixeira, o Sr. Lopes, o Sr. Silva, a Sra. Rodrigues, o Sr. Marcelino, o Sr. Matos, dois Srs. Vieira, dois Srs. Mendes e a Sra. Mendes.

Se apenas estes dezasseis cidadãos fizessem o favorzinho de pagar o que devem, entrariam nos cofres do Estado mais de 16 milhões de euros.

Mas o Governo não devia ficar por aqui. A publicação de listas deste género poderia mudar a nossa vida.

Proponho que se publiquem, para já, mais as seguintes cinco listas:

– lista dos deputados no activo que já recebem uma reforma

– lista dos ex-ministros que são, agora, administradores de empresas públicas e respectivos ordenados

– lista dos cachets pagos pelos Bancos í s chamadas figuras públicas que aceitam participar nas suas campanhas publicitárias

– lista de todos os portugueses que já participaram num concurso televisivo (suspeito que já só falto eu e mais três ou quatro pessoas)

– lista de todos os jogadores que já foram do Benfica, desde o tempo do Artur Jorge

Referendar a táctica

Depois de levar 3-0 do Sporting, 1-0 do Deportivo da Corunha e 3-1, do AEK, o novo treinador do Benfica – que é engenheiro e tudo! – decidiu mudar de táctica.

Esta semana, um jornal desportivo perguntava: qual a melhor táctica para o Benfica?

É o descalabro!

A táctica do glorioso já é discutida na praça pública!

Acentue-se que não me espanta: nunca gostei do engenheiro. Não se pode confiar num homem que usa a camisola por dentro das calças de fato de treino. Sobretudo quando esse homem é treinador de futebol…

Mas, dada a dimensão do glorioso, talvez não seja má ideia: a táctica da equipa podia ser objecto de um referendo nacional. Desse modo, todos os portugueses benfiquistas – correcção: todos os benfiquistas, já que todos os verdadeiros portugueses são benfiquistas – poderiam decidir como gostariam que o seu clube jogasse.

Aliás, podia mesmo fazer-se um referendo semanal, de modo a que se pudesse adoptar a táctica a cada novo adversário.

Pelo menos poupava-se o ordenado de treinador e despedia-se o engenheiro.

O gesto é tudo

Chamei o doente seguinte. Era um cidadão da China e vinha acompanhado por um cidadão do Bangla Desh.

A ideia era a seguinte: o cidadão da China queixava-se em inglês e o cidadão do Bangla Desh traduzia para português; eu observaria o cidadão da China e, depois, faria a minha prescrição, em português; seguidamente, o cidadão do Bangla Desh traduziria para inglês, de modo a que o cidadão da China percebesse.

Acontece, no entanto, que o inglês do cidadão da China era tão mau que o cidadão do Bangla Desh tinha muita dificuldade em percebê-lo.

Acresce que o português do cidadão do Bangla Desh era, também, tão mau, que eu não entendia nada do que ele me dizia.

Ficámo-nos pelos gestos.

O doente chinês apontou para a garganta e fez um esgar internacional de dor. Com uma espátula, vi-lhe a garganta e fiz uma careta internacional para “isto está feio”.

Enquanto isto, o cidadão do Bangla Desh sorria-se, também internacionalmente.

Depois, foi só passar a receita e explicar como se toma o antibiótico, com o gesto internacional para “de 12 em 12 horas”.

Palavras para quê?…

Guerra no Médio Oriente – Teste de respostas múltiplas

1. Neste conflito, Israel luta contra:

A – O Hezbollah
B – O Líbano
C – O Irão e a Síria
D – Os palestinianos
E – Todas as anteriores

2. Por que razão a Al-Qaeda ainda não realizou nenhuma acção de retaliação contra Israel, desde que este conflito começou?

A – Porque o Hezbollah é xiita e a Al-Qaeda é sunita
B – Porque a Al-Qaeda odeia os xiitas tanto como os sionistas
C – Porque está í  espera de uma trégua para relançar o conflito
D – Porque os atentados no Iraque lhe estão a ocupar o tempo todo
E – Todas as anteriores

3. Por que motivo Bush não convence os seus aliados israelitas a suspenderem os bombardeamentos?

A – Porque lhe dá jeito que Israel gaste os mísseis Patriot todos, de modo a poder vender-lhe versões mais modernas
B – Porque Israel lhe está a fazer o favor de atacar um aliado do Irão, sem que os EUA se metam no assunto
C – Porque Bush pensa mesmo que Israel tem todo o direito de bombardear o sul do Líbano
D – Porque Bush ainda não percebeu muito bem onde raio fica o Líbano
E – Todas as anteriores

4. Não será um exagero destruir vilas e aldeias e matar centenas de civis por causa de dois soldados raptados?

A – Sim, mas se Israel não reagisse, o Hezbollah era muito capaz de raptar mais três ou quatro soldados
B – Não, porque a vida de dois soldados israelitas tem um valor incalculável
C – Sim, mas os civis libaneses são avisados que vão ser bombardeados e só morrem porque querem
D – Sim, bem… não, quer dizer, que importância tem isso?
E – Todas as anteriores

5. Qual o papel da União Europeia neste conflito?

A – Nenhum
B – Papel de parva
C – A União quê?
D – Esta pergunta não faz sentido
E – Todas as anteriores

A correcção deste teste será feita pelo Sr. Koffi Anan ou, no seu impedimento, pelo general Loureiro dos Santos, já que o Nuno Rogeiro deve estar de férias.

Cavaco – o fim de um mito

cavaco_duvidas.jpg

Longe vão os tempos em que o primeiro-ministro Cavaco Silva afirmava, convicto, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas.

Essas duas características – juntamente com o facto de nunca ler jornais – constituíam os super-poderes de Cavaco.

Foram esses super-poderes que convenceram o povo e que o levaram a eleger Cavaco como Presidente de todos os portugueses.

E agora, a propósito de uma coisa de nada, de uma colecção de arte moderna ou lá o que é, uma verdadeira mariquice, eis que Cavaco tem dúvidas!

Diz o Presidente: “o diploma suscita dúvidas, principalmente no que refere í  distribuição de poderes entre o Estado e o coleccionador” (Joe Berardo).

Ora, se Cavaco tem dúvidas numa questão tão comezinha, o que acontecerá, por exemplo, quando Portugal tiver que tomar uma decisão mais importante, como, por exemplo, declarar guerra ao Hezbollah ou demitir Laurentino Dias por não acreditar na inocência de Nuno Assis, no caso do dopping?

Pior: se Cavaco já tem dúvidas, não tarda nada, está-se a enganar!

Dias negros esperam a nossa querida nação!

Uma reforma Alegre

A rádio portuguesa está mais pobre: Manuel Alegre reformou-se.

O conhecido deputado do PS e ex-candidato í  Presidência da República passou í  reforma, depois de ter sido director de não-sei-o-quê, na RDP, há não-sei-quantos-anos, durante um período que não chegou aos doze meses.

O seu reconhecido e admirado trabalho na referida área, foi agora recompensado com uma reforma de três mil e tal euros.

Alegre até ficou espantado. Dizem que já nem se lembrava que tinha trabalhado na RDP. Decidiu acumular a reforma com o ordenado de deputado e, sendo assim, apenas receberá um terço da sua reforma.

Não me quero comparar com o deputado-poeta, mas a verdade é que trabalhei na RTP, entre Maio de 1974 e Dezembro de 1977, como jornalista. Claro que nunca cheguei a director de não-sei-o-quê, mas fui, durante alguns meses, chefe da edição da noite. Coisas da Revolução…

Portanto, se menos de um ano de trabalho na RDP, valem uma reforma de três mil euros, eu devo ter direito a uma reforma principesca pelos dois anos e meio de trabalho na RTP.

Vou já meter os papéis na próxima segunda-feira.

Sopranos – 4ª série

sopranos4.jpgA família Soprano continua a fazer-nos companhia aos serões, agora com a 4ª série, de 2002.

Esta série termina com a separação de Tony e Carmela, depois de ela ter descoberto que o marido andava enrolado com a ucraniana perneta. Pelo meio, Corrado livra-se da prisão, depois de o seu julgamento ter sido anulado, graças í s ameaças que os capangas fizeram a um dos jurados; Christopher passa três semanas numa clínica de desintoxicação, depois de, completamente pedrado, se ter sentado em cima do caniche de Adriana, asfixiando-o; Adriana começa a colaborar, timidamente, com o FBI; Tony passa-se da cabeça e mata Ralph, esquartejando-o em seguida; e mais, e mais…

Aparentemente livre dos ataques de pânico, Tony desiste da psicoterapia e começa a pensar em voos mais altos, iniciando jogos de bastidores para eliminar a concorrência de Nova Iorque. Parece que, por aquelas paragens, a corrupção de alguns autarcas também é corrente, e todos – mafiosos, autarcas e sindicatos – lucram com um enorme negócio de construção civil, em Newark.

Mas a 4ª série termina com Tony em baixo, novamente: aceita abandonar o lar, desiste da compra da casa da praia e quase que volta a telefonar í  Dra. Melfi, marcando nova consulta.

A qualidade da série mantém-se alta e a caracterização das personagens faz com que, í s tantas, um tipo até tenha pena do pobre Tony Soprano – o que ele sua para dar uma boa vida í  mulher e aos filhos, e como é incompreendido!

Deus é o senhor

A Marta fez-me chegar este anúncio:

 

antunes.jpg

A última frase do anúncio é deveras misteriosa. Depois de ficarmos a saber que o Sr. Antunes realiza transportes e mudanças para todo o país, e após uma descrição sumária dos serviços prestados e do respectivo preço, levamos com a frase:

“Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”

Qual a relação entre esta frase mística e os serviços prestados pelo Sr. Antunes?

Que nação será essa, em que Deus é o Senhor? O Irão? A Arábia Saudita? O Vaticano?

Aguardamos explicações do Sr. Antunes.

A menos que Antunes seja o senhor…

The Raconteurs – “Broken Boy Soldier”

raconteurs.jpgFoi o Pedro que chamou a atenção para esta nova banda norte-americana e, como ele escreveu, no Macacos, que algumas das suas canções soavam aos Beatles, comprei o disco. Um pouco de nostalgia sabe sempre bem.

E foi uma excelente surpresa.

A banda é formada por Jack White (voz, guitarra e sintetizadores), dos White Stripes, Jack Lawrence (baixo), Patrick Keeler (percussão) e Brendan Benson (guitarra e voz).

É verdade que alguns temas soam a coisas que os Beatles fizeram, mas não só. Todo o disco é um revivalismo do rock dos anos 60 e da primeira metade dos anos 70.

O primeiro tema, “Steady, as she goes”, podia muito bem ter sido composto por Lennon e McCartney; “Intimate secretary” soa a algumas das coisas que George Harrison fez, no período em que andou metido na meditação transcendental e no LSD; “Call it a day” tem harmonias vocais que fazem lembrar “Rubber Soul”.

Mas há outras “influências”: “Hands”, soa a Marc Bolan e T. Rex; “Broken Boy Soldier”, podia ser dos Stones; os Bee Gees dos primeiros tempos, não desdenhariam “Together”; qualquer banda de segundo plano dos anos 60 (tipo Small Faces, Lovin’ Spoonfull ou Hollies) poderia ter composto “Yellow Sun”; “Store bought bones” tem um início de teclas que faz lembrar os Nice e os Emerson, Lake and Palmer. Finalmente, “Blue Veins” é um blues que parece ser tirado de “Then Play On”, dos Fleetwood Mac, no tempo em que o Peter Green ainda pontificava.

Dito desta maneira, até parece que The Raconteurs se limitaram a fazer um disco a imitar todas estas bandas dos anos 60 e 70.

Não é verdade. Quase toda a música popular soa a qualquer coisa que já foi feita antes. E se estes quatro putos, muito provavelmente, cresceram a ouvir rock dos anos 60, por que não fazer um disco assim?

Fizeram muito bem e eu gosto!

Veleiros no tejo

A 50ª Grande Regata Tall Ships passou por Lisboa. Dezenas de grandes veleiros exibiram-se no Tejo e misturaram-se com muitos outros veleiros, mais pequenos. Hoje, a partir das 11 horas, as águas do rio estavam a abarrotar de velas.

É um privilégio poder passear pelo Ginjal e ver o Tejo assim tão cheio de vida!

Ao contrário do que é costume, hoje o cais do Ginjal, tinha muita gente. Vieram todos para ver os grandes veleiros, como o italiano Américo Vespuccio ou a portuguesa Sagres.

veleiros.jpg

O cais do Ginjal está abandonado há décadas. Com um panorama privilegiado sobre Lisboa e o seu imenso rio, o Ginjal é um conjunto de edifícios abandonados das antigas fábricas de conserva de peixe. Esses edifícios, em ruínas, albergam agora bandos de imigrantes romenos e não só, que, aos poucos, foram ocupando os espaços ao abandono. O lixo acumula-se: garrafas de cerveja, latas, plástico. Ao fundo do cais, cerca de dois quilómetros para lá de Cacilhas, em direcção í  ponte sobre o Tejo, grandes barracões abandonados são, agora, depósitos de lixo. Ao longo do cais, os pescadores de fim-de-semana atiram para o chão as caixas dos iscos, os papéis onde embrulham as sandes do lanche e as eternas garrafas de mínis.

Os poucos visitantes, muitos deles estrangeiros, que se aventuram pelo cais, habitualmente não vão além do elevador panorâmico que, ironicamente, está avariado, logo agora que, em época alta, o local tem mais visitantes. Mas, para além do elevador e do jardim que o rodeia, há outro cais para descobrir, e mais ruínas e mais lixo.

Suspeito que a maior parte da gente que vive em Almada e arredores nem sonha que tem aqui, no Ginjal, um passeio tão agradável.

E a Câmara de Almada, neste caso, ou está desinteressada ou valores mais altos se levantam.

(Mais fotos dos veleiros cruzando o Tejo, em direcção ao mar, podem ser vistas no Flickr).