“Rapariga, Mulher, Outra”, de Bernardine Evaristo (2019)

Em 2019, houve duas vencedoras do Man Booker Prize.

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Apesar do Prémio ter Man no nome, foram duas mulheres as vencedoras: Margaret Atwood, pelo seu livro Testamentos e este excelente Rapariga, Mulher, Outra, de Bernardine Evaristo.

Quase que apetece dizer que o júri do Man Booker não se atreveu a conceder o prémio apenas í  escritora anglo-nigeriana, e resolveu juntar o nome de Margaret Atwood. De facto, Rapariga, Mulher, Outra é, na minha opinião, muito melhor que Testamentos.

Evaristo nasceu em Londres em 1959, filha de uma professora inglesa e de um soldador nigeriano, quarta de oito filhos.

É autora de romance, poesia, teatro e crítica literária e, com este Rapariga, Mulher, Outra, conseguiu um dos melhores livros que li ultimamente.

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Numa escrita torrencial, conta-nos as histórias de doze mulheres: Amma, uma dramaturga negra e lésbica, Shirley, sua amiga, professora, farta da profissão; Carole, ex-aluna de Shirley, uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento, que se envergonha das suas raízes africanas, a sua mãe, Bummi, negra e empregada doméstica; e mais oito personagens femininas principais, para além de outras que cirandam í  volta destas.

São quase 500 páginas de histórias que nos mantêm agarrados, e sempre com uma linguagem fresca, sem grandes rodriguinhos.

Claro que não conheço a versão original, em inglês, mas atrevo-me a dizer que a tradução de Miguel Romeira é excelente.

Marcelo esqueceu-se de um bastonário

O presidente Marcelo não sabe estar quieto. Nunca soube.

Quando era “…jornalista”, aborrecido pela rotina, criava factos políticos, inventava acontecimentos e, depois, comentava-os.

Tornou-se assim o comentador-mor, primeiro na rádio, depois na televisão.

Aos domingos, religiosamente, Marcelo e a sua homilia.

Agora, sendo presidente de um regime que não é presidencialista, faz tudo o que pode para manter o estatuto de comendador.

Será que se vai candidatar a um segundo mandato?

Claro que sim!

Mas só o saberemos quando não houver alternativa, quando ele for obrigado, pela lei, a anunciar que é candidato.

Entretanto, sendo presidente, pode continuar a fazer campanha.

E mete-se em tudo.

Na pandemia, claro.

Agora que a segunda vaga atinge Portugal e toda a Europa, Marcelo decidiu ouvir diversos sectores ligados í  saúde.

Começou pelo actual e por antigos bastonários dos médicos. Miguel Guimarães, que ficaria muito bem como ministro da Saúde do PSD, que, ao longo destes meses, tem criticado as decisões da DGS e do governo, sem apresentar alternativas, foi acompanhado pelos ex-bastonários, quase todos anciãos curvados sobre si próprios ““ um clube de senadores que quer sopas e descanso e que, muito provavelmente, tem apenas uma vaga ideia do que são os serviços de saúde actualmente em Portugal. Gentil Martins, com 90 anos e Carlos Ribeiro, com 94, ambos ex-bastonários, não fazem ideia do que é ser médico na comunidade. nos dias que correm, sobretudo junto dos bairros sociais construídos quando eles já se estavam a reformar.

Depois de ouvir as doutas opiniões destes anciãos, Marcelo ouviu, também, a bastonária dos enfermeiros, aquela senhora que usa apenas um brinco e que gosta de dar beijos ao líder do Chega, e a bastonária dos farmacêuticos.

Mas Marcelo esqueceu-se de um bastonário, quiçá o mais importante: o bastonário dos auxiliares, daqueles que dão a comida í  boca dos acamados, dos que despejam as arrastadeiras, dos que levam para o lixo as algálias.

Qual será a opinião dessa malta sobre a pandemia?

Estou a brincar?

Não me parece.

Se tiveres algum familiar internado e quiseres saber informações sobre o seu estado clínico, a quem pedes informações?

Se falares com um médico ou uma enfermeira, vão responder-te que não podem dar informações sobre doentes internados.

No entanto, se falares com a porteira do teu prédio, que é prima de uma moça que é auxiliar no hospital, posso garantir que vais ter informações sobre o teu familiar.

Marcelo devia ter falado com o bastonário dos auxiliares.

Só assim seria verdadeiramente democrático…

“Os Três Irmãos Que Nunca Dormiam”, de Giuseppe Plazzi (2019)

Giuseppe Plazzi (Ravena, 1959) é um Neurologista italiano, responsável pelo Centro para o Estudo e Cura dos Distúrbios do Sono, além de professor na Universidade de Bolonha.

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Tal como o também neurologistas norte-americano, Oliver Sacks, Plazzi escreveu este pequeno livro contando-nos histórias de alguns dos seus doentes com distúrbios do sono: sonambulismo, terrores nocturnos, sexsónia, perturbação do sono REM, narcolepsia, parasónia.

Cada capítulo é dedicado a uma destas patologias e, a propósito, Plazzi conta-nos o caso de um dos seus doentes.

A linguagem é simples e o livro tem, também, intuito pedagógico e confesso que aprendi muito com ele ““ até porque muitos dos distúrbios do sono só começaram a ser estudados verdadeiramente muito depois de terminarmos os nossos cursos.

“A Vida Mentirosa dos Adultos”, de Elena Ferrante (2020)

Esta misteriosa escritora italiana consegue-nos agarrar desde a primeira í  última página.

Foi assim com os quatro livros da Amiga Genial, e aconteceu o mesmo com este novo livro.

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Nesta nova história napolitana, a narradora e protagonista é uma miúda de 15-16 anos, Giovanna, filha de dois professores e, como tal, vivendo na zona de Nápoles onde predomina a classe média.

O pai de Giovanna é um professor bem-sucedido, mas vem de uma família pobre, da zona mais básica da cidade, onde ainda reside uma sua irmã, Vitória.

Giovanna acha-se feia, como a tia e sente curiosidade em contactar com ela, já que o seu pai cortou relações com as suas raízes.

Os pais de Giovanna convivem com outro casal, também da classe média, e que têm duas filhas, sendo que a mais velha é da idade da narradora.

A tia Vitória, que vive num bairro social, foi amante de um polícia, que, entretanto, morreu, e convive com a viúva e os seus três filhos. Giuliana é a única rapariga desses três, e tem um namorado que é um destacado professor em Milão.

Com estas personagens, Elena Ferrante constrói uma história que nos prende; vamos convivendo com todas as dúvidas próprias dos adolescentes: as dúvidas sexuais ou religiosas, as dúvidas sobre o corpo, as relações entre as pessoas, a revolta em relação aos pais e í  escola.

É mais uma história banal e Ferrante consegue ir descrevendo os vários episódios, numa linguagem fluida, cirando expectativa no leitor, sem necessidade de recorrer a tragédias, crimes ou quaisquer artifícios para criar suspense.

Pelos vistos, a vida banal de uma adolescente é suficientemente interessante para prender a nossa atenção.

Aconselho.

Melania infectou Trump

Foi ela, sem dúvida!…

Basta olhar para o seu sorriso sardónico, qual Gioconda esloveno-americana.

Esta manhã, soubemos que Trump e Melania estão infectados pelo Sars-Cov-2.

Foi uma surpresa, na medida em que Trump se porta sempre tão bem, anda sempre com aquela máscara de palhaço e, graças ao tempo que passa no solário, deveria matar todos os vírus que o atacassem.

Além disso, ainda ontem teve um desempenho agressivo no primeiro debate contra Biden; não parecia estar com nenhum sintoma de Covid, apenas com os sintomas habituais de brutalidade e de radicalismo de Direita, mas isso, são doenças conhecidas há muito tempo.

Sabe-se agora que Melania, sabendo que havia uma assessora do marido infectada com o coronavírus, beijou-a e abraçou-a longamente, com a única intenção de, também ela, ficar infectada ““ o que conseguiu.

Depois, avançou para a parte mais difícil do plano: encostar-se ao marido durante o tempo suficiente para lhe passar o vírus.

Agora, estão ambos em quarentena, na Casa Branca, mas em alas diferentes.

Claro que estas informações são absolutamente fidedignas e foram fornecidas por fontes bem colocadas em Washington.

Essas mesmas fontes também nos garantiram que Joe Biden, afinal, é um super-herói disfarçado, com alguns superpoderes interessantes, como visão de raio xis e capacidade para atravessar paredes de betão.

É por estas e por outras que a América continua a ser o líder do Mundo Livre!…

“A Propósito de Nada”, de Woody Allen (2020)

Sou um admirador de Woody Allen e não podia deixar de ler esta sua autobiografia, que não me decepcionou.

Claro que Allen aproveita a oportunidade para fazer a sua defesa, no que respeita í s acusações de Mia Farrow, de que terá abusado sexualmente de Dylan, a filha adoptada por ambos. Gasta várias páginas descrevendo pormenores das investigações levadas a cabo por equipas independentes e que chegaram í  conclusão de que não teria havido nenhuma violação; mostra-se triste e revoltado por continuar a ser considerado culpado, embora nunca o tenha sido em tribunal e, com esse facto, ter sido prejudicado na sua carreira como realizador. Fala, também, dos muitos actores que, temendo não conseguir trabalho, renegaram os filmes que com ele fizeram. Fala também dos que o apoiaram e continuam a apoiar.

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Mas deixando este triste episódio para trás, o livro é divertido, como não podia deixar de ser.

Allen conta algumas coisas da sua família, fala-nos de como começou a sua carreira como inventor de piadas para outros, depois, como passou a ser ele a interpretar o seu próprio material e, finalmente, como deu o salto para o cinema.

Descreve, com algum pormenor, todos os seus filmes, desde o horrível What”™s New Pussycat, que ele abomina, até ao mais recente A Rainy Day in New York.

Ficamos a saber que do que ele mais gosta é de escrever, porque, no que respeita a cinematografia, parece não perceber nada de fotografia, enquadramentos, luz, etc, limitando-se a saber que é preciso tirar a tampa da objectiva e depois, filmar. Detesta ensaios, repetições de cenas e gosta de acabar as filmagens cedo, para poder regressar a casa, que é onde ele gosta de estar.

Ao longo das quase 450 páginas, Allen desvaloriza-se; não é nenhum intelectual, muito menos um génio, e não se considera um bom realizador.

Fala longamente das suas mulheres, desde a jovem Harlene, passando pela instável e divertida Louise Lasser, Diane Keaton e Mia Farrow e, finalmente, Soon-Yi, filha adoptiva de Mia e com quem está casado há mais de 20 anos. Allen tinha 58 anos e Soon-Yi tinha 21 quando casaram, e o realizador dedica-lhe o livro e enche muitas páginas elogiando-a.

A melhor piada do livro, na minha opinião: quando morrer, Allen quer que as suas cinzas sejam espalhadas junto a uma farmácia.

Abaixo as normas de aprumo da PSP!

Em nome da ALAABOC (Associação de Larápios, Arrombadores, Assaltantes, Bandidos e Ofícios Correlativos), venho manifestar a minha revolta contra as novas normas de aprumo impostas aos agentes da polícia.

Como é possível a malta agarrar na barba dos chuis e torcê-la, se é proibido os gajos usarem barbas compridas?

Quando os polícias nos apanham, como é que vamos conseguir arrancar-lhes os piercings, puxarmos os brincos e os colares, se eles estão proibidos de usarem tudo isso?

E quanto í s tatuagens?

Era uma maneira que nós tínhamos para identificar tipos da bófia, quando estavam de folga ““ olha, ali vai aquele chui com a tatuagem da cruz suástica na nuca! E pumba, saltávamos em cima do sacana e partíamos-lhe os cornos.

Agora, tudo isso nos é vedado porque as tatuagens estão proibidas aos polícias, pelo menos aquelas mais giras, tipo as racistas e as nazis!

A ALAABOC está a organizar uma megamanifestação, juntamente com alguns dos 150 sindicatos da polícia, para exigir, junto do Governo, o fim destas normas de aprumo.

Abaixo o aprumo na PSP!

Viva a bandalheira!

“Ressurgir”, de Margaret Atwood (1972)

É o segundo romance desta escritora canadiana, bem diferente das distopias que escreveu posteriormente.

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A narradora é uma jovem que se desloca, com o namorado e um casal amigo, í  ilha onde viveu com os pais, durante a infância. O seu pai desapareceu e o seu objectivo é encontrá-lo.

No entanto, ao chegar í  ilha e í  velha casa de madeira, antigas memórias vêm í  superfície, bem como dúvidas sobre a sua relação com o actual namorado, com o irmão distante, com os pais.

A pouco e pouco, a protagonista vai-se identificando com a natureza selvagem da ilha, com o lago, a floresta e, no fim, quase questiona a sua espécie.

Livro curioso, cuja atmosfera me fez lembrar alguns romances de Patricia Highsmith, porque estamos sempre í  espera que qualquer coisa de muito trágico aconteça.

“Amália – Ditadura e Revolução”, de Miguel Carvalho (2020)

Ora aqui está um calhamaço que excedeu as minhas expectativas.

Miguel Carvalho, jornalista e repórter da Visão, escreveu uma longa reportagem sobre Amália Rodrigues e o modo como ela se relacionou com a Ditadura e, depois, com a Revolução.

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Amália Rodrigues atingiu o topo graças ao regime fascista? Pelo contrário, Amália subiu por mérito próprio e, í s escondidas, apoiava as famílias dos antifascistas presos pela ditadura? Após o 25 de Abril, a sua demonização pela esquerda foi injusta?

Isto podia ser um assunto a provocar bocejos, mas Miguel Carvalho torna-o interessante, vivo, graças a um trabalho ciclópico de pesquisa, com recolha de entrevistas publicadas em inúmeros jornais e revistas, para além de outras fontes (programas de rádio e televisão, por exemplo).

A lista de entrevistados pelo autor (da qual eu, orgulhosamente, faço parte) inclui mais de 90 nomes.

O índice onomástico, ocupa 27 páginas, incluindo nomes que eu conheci muito bem, como ílvaro Belo Marques, Raul Solnado, Júlio Isidro, Fialho Gouveia, etc.

A bibliografia consultada ultrapassa as 15 páginas.

Estes números servem apenas para mostrar o trabalho hercúleo que Miguel Carvalho desenvolveu para escrever este livro.

A minha modesta contribuição, relacionada com a rubrica Os Intocáveis, está na página 257.

Na página 456, está uma frase excelente de Zeca Afonso: “Não se mata um governante em Portugal, há 75 anos”. E eu actualizo: há 120 anos que não se mata um governante em Portugal!..

Claro que o livro de Miguel Carvalho é sobre Amália, mas, no fundo, é um retrato de Portugal, desde os anos 40, até aos nossos dias.

Recomendo e aconselho.

“Outrora e Outros Tempos”, de Olga Tokarczuk (1992)

Foi o primeiro grande sucesso desta escritora polaca que, no ano passado, foi galardoada com o Nobel.

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Depois de ter lido Viagens (2007) e Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos (2009), estava com curiosidade em ler este livro, escrito mais de dez anos antes – e verifiquei que Tokarczuk encontrou mesmo uma nova maneira de escrever romances.

Este Outrora e Outros Tempos podia ser um calhamaço de 600 páginas, já que a acção decorre numa aldeia polaca, e percorre a Grande Guerra, a crise que se lhe seguiu, a Segunda Grande Guerra, a ocupação nazi, a ocupação soviética, o regime comunista, a passagem para a democracia liberal.

No entanto, Tokarczuk resolve este “problema” com textos curtos, cada um deles dedicado a um dos habitantes da aldeia. É o exemplo de Mísia; assistimos ao seu nascimento, í  sua infância, ao seu casamento, ao nascimento dos seus filhos, í  sua velhice e í  sua morte.

E o mesmo se passa com as restantes personagens, nas quais, a escritora inclui objectos, casas, móveis, árvores, porque todas elas fazem parte da aldeia.

Gostei.