“Perdeu-se Relógio de Senhora”, de Alice Brito (2026)

Alice Brito, advogada e escritora, nascida em Setúbal, em 1954, conta-nos a história de três mulheres cujas vidas se vão entrecruzar perto do 25 de Abril.

O livro tocou-nos muito porque a autora tem praticamente a nossa idade e conta coisas que nós também vivemos, os anos do salazarismo, o medo da Pide, a euforia do 25 de Abril, as contradições da esquerda – e os tiques da sociedade fechada de Portugal, antes da democracia, o papel secundário das mulheres, a maneira como os poderosos mandavam na sociedade, os costumes retrógrados, o medo e a vergonha de se perder a virgindade antes do casamento, a recusa da homossexualidade, etc.

E depois, Alice Brito tem expressões que podiam muito bem ser minhas, caramba! Eu costumo dizer que, para mim, o melhor da tropa foram as lições de dança, e ela diz, na página 34:

“O outro chegou e fez continência. Os dedos espetados em direcção à sobrancelha, muito hirto, a cumprir a coreografia própria do baile militar”

E quanto à culpa que nos é inculcada desde crianças:

“A culpa faz mesmo parte deste sangue judaico-cristão que nos corre nas veias. Do sangue na da cabeça a abarrotar de moral e outras coisas sem préstimo”

Alice Brito vai conta as suas histórias como se tivesse a conversar connosco, por isso, o texto tem muito de oralidade:

“Se um martelo pisar o dedo a uma criatura nortenha, se ela estiver sozinha, poderá balbuciar um foda-se, e fica por aí. Mas, se estiver acompanhada, é provável que a dita criatura nortenha grite foda-se caralho, e atire o martelo com força para qualquer lado, num gesto quase mecânico de exteriorização da dor.”

O ódio ao Salazar é óbvio e apoiamo-lo:

“Tinham cantado na escola o Parabéns a você a Salazar, que fazia anos num dos primeiros dias de maio, ou num dos últimos de abril, não sei nem me apetece ir ver, que se foda o ditador”

Estas três citações poderão ser redutoras e muitas outras poderia fazer, mas penso que estas mostram bem o estilo divertido, embora o assunto seja muito sério.

Ao longo da narrativa, a autora fala de muitas coisas de que nos lembramos muito bem porque também as vivemos, e talvez tenha sido também isso que nos fez gostar muito deste livro que, de uma maneira simples, nos conta como foi a vida em Portugal antes do 25 de abril, sobretudo para os que sempre ansiaram por liberdade.