“A Península das casas Vazias”, de David Uclés (2024)

Este é que foi um empreendimento: ler este tijolo de 686 páginas deste escritor espanhol, nascido em 1990. O livro mereceu diversos prémios, incluindo Prémio Cálamo de melhor livro de 2024.

Como estávamos a ver a série colombiana da adaptação do excelente “Cem Anos de Solidão”, não consegui deixar de encontrar semelhanças com a escrita de Gabriel Garcia Marquez, embora, sejamos francos, com enorme vantagem para o autor sul-americano.

Este livro também aborda a realidade com as técnicas do chamado realismo fantástico, tendo como pano de fundo a guerra civil espanhola. A narrativa avança, tendo como base a família de Odisto, mas diverge para muitas direcções, baseando-se em crendices populares e em realidades fantásticas que não passam de excessos de narrativa.

“O médico da vila, Fernando, verificara antes que ambos os sangues eram compatíveis. Se os líquidos tivessem a mesma cor, o dador podia ligar-se ao paciente. Havia oito tons diferentes: almagre, carmim, vermelhão, lacre, castanho-avermelhado, escarlate, carmesim e grená. Acontece que os sangues eram almagre. Leo ganhou mais alguns meses de vida”.

O livro está cheio de citações, algumas muitos impressivas, como esta, de Gonzalo de Aguilera, assessor de imprensa de Franco>:

“Há que matar, matar e matar todos os vermelhos; exterminar um terço da população masculina e limpar o país de proletários”

Às tantas, Uclés adopta a ideia de Saramago e a península começa a afastar-se do resto da Europa, transformando-se, no fundo, em uma jangada de pedra, mas Uclés inventas uns agrafos que continuam a ligar a península a França. Talvez seja demasiado realismo fantástico.

Para o fim, a história arrasta-se um pouco. A guerra civil termina, Franco e os nacionalistas vencem, mas ficamos sem saber muito bem qual é a posição do autor perante aquilo. O povo ficou satisfeito? E o autor?

Penso que faltou aqui qualquer coisa…