Acontecimento do ano: a porra do Soriano

ATENí‡íƒO: Este texto não deve ser lido por jovens efebos, virgens indefesas e pupilos do exército.

Não, o acontecimento do ano não foi a prisão do Sócrates, o estoiro do BES, a condenação de Duarte Lima ou a detenção de Paulo Portas, perdão, Paulo Portas não é para aqui chamado porque, na verdade, ele nem sabe bem o que é um submarino…

E também não, o homem do ano não é Cristiano Ronaldo, nem o Papa Francisco, nem Carlos do Carmo, muito menos o vírus ébola.

O acontecimento do ano e o homem do ano são, simultaneamente, o espião cubano Gerardo Hernandez e o facto de ele ter engravidado a sua mulher, Adriana, que vive em Havana, apesar de estar preso e condenado a prisão perpétua, nos Estados Unidos!

Podem verificar a notícia aqui: http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2014-12-23/gravidez-de-cubana-foi-uma-das-condicoes-para-acordo-historico.html

poesiaO facto de Gerardo, nos EUA, ter conseguido engravidar a mulher, em Havana, trouxe-me í  memória um poema de Guerra Junqueiro (1850-1923), que faz parte da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção de Natália Correia; este notável livro saiu, pela primeira vez, em 1965, mas foi logo apreendido pela PIDE – como era possível que escritores tão importantes como Guerra Junqueiro, Almeida Garrett, até Camões, tivessem escrito estas ordinarices!

Consegui, em 1973, um fac smile desse livro e passei algumas horas a copiá-lo, transcrevendo na minha velha e saudosa Olivetti…

Finalmente, em 1999, a editora Antígona-Frenesi teve a boa ideia de reeditar o livro.

Resumindo: a história do espião cubano fez-me lembrar o poemas A porra do Soriano, de Guerra Junqueiro, que é assim:

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
       Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava de viver como Matusálem
        Dez séculos!

                               Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
          Mastro do Leviathan! Eminência revel!
          Estando murcho foi a torre de Babel!
          Caralho singular! É contemplá-lo!
                                                                        Â É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
                                             O Sete-estrelo?
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!

          É uma porra, arquiporra!
                                                        Â É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso!

Assim deve ser o do Gerardo que, dos States, engravidou Adriana, em Havana.

Abençoado!

“500 Frases Que Mudaram a Nossa História”, de João Ferreira

big500-Frases-que-Mudaram-a-nossa-HistoriaOra aqui está um livro curioso, para estar sempre í  mão de semear, para consulta.

O jornalista João Ferreira coleccionou 500 frases mais ou menos célebres que, de um modo ou outro, marcaram a História – e escrevo História com agá maísculo, uma vez que o livro cita frases proferidas desde a chamada Antiguidade Clássica até aos nossos dias.

Mas o autor não se limitou a coleccionar as ditas frases célebres; cada uma delas está devidamente contextualizada,  o que nos permite melhor perceber o impacto da frase.

Tomem lá algumas dessas frases:

«A longo prazo estaremos todos mortos» – John Maynard Keynes

«Quarenta anos é uma idade terrível… porque é a idade em que nos tornamos aquilo que somos» – Charles Péguy

«Não posso ouvir tanto Wagner. Começa a dar-me vontade de invadir a Polónia» – Woody Allen

«Houve alturas em que ponderei o suicídio, mas com a sorte que tenho seria provavelmente uma solução temporária» – Woody Allen

«Não quero conquistar a imortalidade pela minha obra, quero conquistar a imortalidade por não morrer» – Woody Allen

«O estúpido é mais perigoso que o bandido» – Carlo M. Cippola

«Se você deve 100 libras ao seu banco, você tem um problema. Mas se deve um milhão, ele é que tem» – John Maynard Keynes.

O facto de ter escolhido três frases do Woody Allen, não quer dizer que o humor predomine nestas 500 frases – é apenas uma preferência pessoal.

“Quando a Tua Ira Passar”, de Asa Larsson (2009)

De vez em quando, apetece-me ler um policial, para matar saudades dos livrinhos da colecção Vampiro, de Dashiel Hammet, Rex Stout, Mickey Spillane, Raymond Chandler e quejandos.

E, hoje em dia, diz-se que os melhores escritores policiais estão nos países do norte da Europa, nomeadamente na Suécia.

Já tinha lido um livrinho de Henning Mankel e do seu inspector Wallander (Um Homem Inquieto) e decidi experimentar agora Asa Larsson.

asa_larssonNascida em Upsala, em 1966, Larsson já publicou 5 romances policiais, tendo começado em 2003, com apenas 37 anos.

Este Quando a Tua Ira Passar é considerado o seu melhor livro, mas não me deslumbrou.

Trata-se da história de dois jovens que são assassinados para que um antigo segredo, relacionado com colaboracionistas pró-nazis, não seja desvendado.

iraTudo se passa no norte da Suécia, com muita neve, muito frio e muito gelo, mas há alguns pormenores que me desagradaram.

Por um lado, um dos jovens assassinados surge, de vez em quando, mesmo depois de morto, como se fosse um segundo narrador da história e, por outro, os nomes dos personagens e dos locais são tão arrevesados que só, mais ou menos, a meio do livro consegui começar a identificar cada um deles, sem confundir o Sven-Erik Stalnacke com o Airi Bylund, ou o Tore com o Hjalmar…

A cena final, no entanto, está bem esgalhada e é capaz de dar um bom filme.

“Os Factos”, de Philip Roth (1988)

os factosPara quem, como eu, já leu 15 livros de Philip Roth, este autobiográfico Os Factos, ajuda a perceber a escrita do autor norte-americano.

Nascido no seio de uma família judaica humilde, Roth não renega as suas origens mas revela-se ateu, o que faz com que as suas primeiras obras sejam muito mal recebidas pela comunidade judaica.

Em Os Factos, o autor fala detalhadamente dos seus pais e irmão, de como foi a sua infância no ambiente de um bairro judaico e descreve, também em pormenor, o seu primeiro casamento, que o marcou profundamente – aliás, a sua primeira mulher, que haveria de falecer num acidente de automóvel, serve de inspiração para as personagens perturbadas de alguns dos seus romances.

Em alguns dos seus romances, Zuckerman é a personagem central e este Zuckerman, no fundo, é um alter ego de Roth.

No final de Os Factos, Zuckerman escreve uma carta a Roth, criticando o livro, pondo em causa algumas atitudes do autor, o que mantém o jogo entre as duas personagens. Além disso, consultando a biografia de Roth, verificamos que mesmo alguns episódios contados em Os Factos, que deveriam ser autobiográficos, são romanceados…

Um livro interessante para quem conhece a obra de Roth.

“A Rainha da Neve”, de Michael Cunningham (2014)

Parece-me que Michael Cunninham perdeu o “magic touch” que o fez ganhar o Pulitzer com o romance As Horas (1998), e que o fez escrever outros dois grandes romances: Sangue do meu Sangue (1995) e Uma Casa no Fim do Mundo (2001).

Já o anterior Ao Cair da Noite  (2010) me pareceu maçador, bem como Dias Exemplares (2005).

rainha da neveEste novo romance de Cunningham tem o cenário habitual: uptown Manhattan, personagens ligeiramente marginais, artistas, famílias diferentes.

A história desenrola-se em volta de um compositor (pop? rock? folk? não se percebe…), Tyler, da sua companheira Beth, que sofre de cancro terminal, do seu irmão homossexual Barrett e de alguns amigos. Todos têm muitas dúvidas quanto ao sentido da vida, todos snifam coca, Barrett viu uma luz no céu do Central Park e acha que aquilo é um presságio, Tyler casa-se com Beth um pouco antes dela morrer, mas também se sente atraído por Liza, uma cinquentenária que só namora com rapazes muito mais novos e tudo isto é muito pouco consistente.

Pelos vistos, o êxito dos três primeiros romances não foram um bom augúrio.

“Canadá”, de Richard Ford (2012)

canadaDell Parsons é um jovem de 15 anos que tem uma irmã gémea, Berner. Vivem com os pais numa terreola de Montana. O pai pertencia í  Força Aérea, mas está na reserva; é um tipo estranho, distante e que se dedica a alguns negócios menos limpos, como traficar carne de vaca. A mãe, é uma pequena judia que, aparentemente, tem pouco em comum com o pai.

A história é-nos contada por Dell, 50 anos depois dos acontecimentos narrados.

Os negócios estranhos do pai de Dell correm mal e ele fica a dever dinheiro a um grupo de índios violentos. Para resolver o problema, o pai decide assaltar um Banco, com a ajuda da mãe, mas a coisa corre mal.

Depois da prisão dos pais, Berner foge porque não quer ir parar a alguma família de acolhimento, enquanto Dell é levado para o Canadá, por uma amiga da mãe. E é numa pequena cidade do Canadá que Dell vai conhecer e involuntariamente colaborar com um assassino.

richard-fordRichard Ford (Jackson, Mississipi, 1944) é um romancista norte-americano que já ganhou um Pulitzer, mas do qual nunca tinha lido nada.

Canadá é uma daquelas histórias que nos agarram desde o princípio.

Será que todos somos vítimas das circunstâncias?

Gostei.

“Palavras que Falam por Nós”, de Pedro Braga Falcão (2014)

Para quem gosta de palavras, este livro do Professor de Latim e Grego, Pedro Braga Falcão é algo a não perder.

palavras que falamAo longo de cerca de 250 páginas, e numa linguagem acessível, o autor disseca algumas palavras, explicando a sua origem.

Ficamos assim a saber, por exemplo, que “badameco deriva do latim vade mecum, uma expressão que literalmente se traduz por «vem comigo» e se aplicava a um livro ou manual apropriado para ser levado em qualquer circunstância, uma espécie de «livro de bolso»; a expressão ainda hoje se usa, em particular em relação aos roteiros turísticos. Como ganhou o sentido pejorativo que tem hoje? Suspeitamos que vem de um dos sentidos metafóricos da expressão, que também se aplicava, não a um livro, mas a uma pessoa que acompanhava sempre outra, de um lado para outro, uma espécie de «pau para toda a obra».”

Ficamos também a saber que há palavras com animais escondidos, como capricho, que tem na sua origem ouriço e cabra.

E ficamos ainda a saber que candidato era aquele que se vestia de branco, portanto, era cândido, que quer dizer branco, puro. Pois…

No final do livro, um índice permite-nos procurar o vocábulo cuja origem queremos conhecer.

Gostei.

“Verão” (2009), de J. M. Coetzee

veraoJ. M. Coetzee (Cidade do Cabo, 1940) é um dos meus escritores preferidos e este Summertime é mais um bom texto com uma ideia notável.

Um biógrafo inglês está a escrever um livro sobre o falecido escritor John Coetzee, centrando-se nos anos 1972-77, altura em que o escritor tinha í  volta de 30 anos e ainda não tinha publicado nada de importante.

Nesse sentido, entrevista uma mulher casada com quem Coetzee teve um caso amoroso, a sua prima Margot, uma bailarina brasileira, cuja filha foi aluna de inglês do escritor e alguns ex-colegas professores.

Graças a essas entrevistas, conhecemos o jovem Coetzee, um homem solitário, desajustado, que vivia com o seu velho pai viúvo e que ganhava a vida com trabalhos temporários de professor.

Recomendo.

Outras obras de Coetzee: No Coração desta Terra (1976), O Homem Lento (2005), A Vida e o Tempo de Michael K. (1983), Diário de um Ano Mau (2007), A Infância de Jesus (2013), Desgraça (1999).

“O Assédio”, de Arturo Pérez-Reverte (2010)

assedioFoi com alguma dificuldade que li este romance histórico de Pérez-Reverte. São mais de 650 páginas de escrita densa e, por vezes, difícil de desbravar, sobretudo quando o autor decide inundar-nos de termos náuticos.

Exemplo (pág. 204):

“A enorme vela carangueja embate contra o mastro, dando balanços na marejada, com fortes puxões que fazem estremecer o pau e o casco preto da balandra. í€ popa, junto dos dois timoneiros que dirigem a cana de ferro forrado de couro, Pepe Lobo mantém a embarcação de capa, com o vento de proa a fazer ondular a bujarrona solta e com a longa retranca a oscilar sobre a sua cabeça. Até ele chega o cheiro dos bota-fogos que fumegam no costado de estibordo, junto dos quatro canhões de 6 libras que, por essa banda e sob supervisão do contramestre Brasero, apontam para a tartana imobilizada muito perto, a tiro de pistola, com as duas velas triangulares a ondular e com as escotas soltas.”

E trechos como este não faltam, ao longo do livro.

O Assédio passa-se em 1811, na cidade espanhola de Cádis, cercada pelas tropas de Napoleão. Cercada não será o termo certo, porque a cidade mantém a saída para o mar, o que lhe permite resistir por mais de três meses.

Nessa cidade sitiada, um assassino está a matar jovens mulheres, chicoteando-as até í  morte e os corpos vão aparecendo onde, momentos depois, há-de cair uma bomba francesa.

Um comissário de polícia muito pouco escrupuloso, persegue o assassino, acabando por conseguir apanhá-lo com a ajuda de um oficial inimigo.

Paralelamente, vamos conhecendo a história de Lolita Palma, dona de um empresa de exportação e do corsário Pepe Lobo, que quase vai para a cama com ela – e outras pequenas histórias laterais.

Pérez-Reverte documentou-se a valer e descreve, ao pormenor, hábitos, costumes, indumentária, móveis, publicações, e muito mais da Cádis do século 19 e, por vezes, a narrativa tem o tom de uma grande reportagem (o autor foi jornalista, nomeadamente repórter de guerra).

O Assédio é um bom romance histórico, embora pudesse ganhar mais ritmo se não fosse tão longo.

Outras obras do mesmo autor: O Pintor de Batalhas, O Hussardo, O Cemitério dos Barcos Sem Nome e A Rainha do Sul.

“A Liberdade de Pátio”, de Mário de Carvalho (2013)

Depois de ter lido Os Alferes, li agora este A Liberdade de Pátio, mais um livro de contos do Mário de Carvalho.

liberdadedepatioO livro tem três partes: Névoas, que inclui os contos A Cabeça de Mânlio e A Liberdade de Pátio; Esgares, que inclui Os caminhos do Sucesso, A Força do Destino e O Passe Social; e Vincos, que inclui Vacilação e As Estátuas de Sal.

Todas as histórias merecem uma leitura atenta, sobretudo as da série Esgares.

Mário de Carvalho possui um humor fino e uma escrita rica e variada, utilizando muitas vezes vocábulos pouco usuais, como neste exemplo:

«Exíguas sevandijas nocturnas varejavam as sombras e refastelavam-se no seu corpo fatigado.»

Os Caminhos do Sucesso é uma história muito bem esgalhada, contada por um juiz numa roda de amigos e, í s tantas, estamos tão embrenhados na história como se fizéssemos parte dessa roda.

Os amigos vieram visitar o juiz, que estava enfermo e «viera um médico, fizeram observações carrancudas, ordenara resmas de análises e exames, escriturara rores e rores de remédios, com palestras miudinhas a cada um, e deixara o juiz muito satisfeito e aliviado por se ter, enfim, ido embora.»

Mais í  frente, referindo-se ao povo inglês, o juiz há-de dizer:

«Como é que um povo que conheceu tardiamente o chá e o garfo, que bebe vinho do Porto fora do Natal, que tem o palato habituado ao rosbife, que ainda não se reconciliou com o alho e tolera os kebabs, arriscando sérias degenerescências das glândulas pitutitárias, haveria de acostumar ao caldo verde?»

Muito bom!