“A Questão Finkler”, de Howard Jacobson (2010)

—Vencedor do Man Booker Prize de 2010, aqui está um romance que me diz pouco.

O The Times fala na musicalidade da linguagem de Jacobson. Talvez no original inglês isso se note – em português, não dei por nada de especial.

O romance conta-nos a história de Julian Treslove, um tipo banal, que, depois de ter sido assaltado, na rua, por uma carteirista, que o insulta, chamando-lhe judeu, decide transformar-se num verdadeiro judeu.

Treslove tem dois grandes amigos, Libor e Finkler, ambos viúvos e ambos judeus, mas não muito praticantes. Libor, o mais idoso, é mais ou menos indiferente e Finkler, assume-se como judeu envergonhado, por causa do conflito israelo-árabe.

O livro está cheio de piadas sobre os judeus. Os filmes do Woody Allen também e, na minha opinião, têm mais piada.

Não me convenceu.

O estranho caso do chifre de Singeverga

Confesso que nunca tinha ouvido falar do mosteiro beneditino de Singeverga, em Santo Tirso.

Mas foi lá, segundo o Diário de Notícias, que ocorreu este “invulgar roubo”.

Diz a notícia, publicada hoje:

«Dois homens, que fingiram querer fazer uma visita ao convento, manietaram o padre Adriano, de 82 anos, e levaram um chifre (avaliado em cerca de vinte mil euros) e um banco de madeira africano, que pertenciam í  colecção do Museu de Etnografia e Zoologia de Angola».

Ao que um homem chega – roubar chifres!

É a crise…

A notícia é chocante, assim mesmo. Mas há mais pormenores:

«”Telefonaram a dizer que eram um grupo de universitários de Lisboa. A ideia era verem a igreja, o pequeno museu e a sala do capítulo”, contou ao DN o subprior Lino Moreira. Quando chegaram, eram apenas dois. Acabaram por dominar o padre que tencionava guiá-los e levaram o saque, fugindo a correr.»

Malandros!

Fizeram-se passar por universitários de Lisboa, que é uma categoria muito importante, e fanaram o banco e o chifre!

E depois, nem se meteram num BMW roubado, nem saltaram para cima de uma mota de alta cilindrada, nem montaram um cavalo, nem sequer uma reles bicicleta – fugiram a correr!

Portanto, malta, se virem dois gajos a correr, um com um banco, outro com um chifre na mão, chamem a GNR! Ajudem os monges de Singeverga!

Convite ao Prof. Abreu Amorim

Pior que líderes medíocres só os seus seguidores fervorosos.

Passos Coelho é um líder medíocre.

A sua última mediocridade foi dizer «estar desempregado pode não ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida».

Pausa para absorver esta enormidade.

Já estou a ver o funcionário a correr atrás o patrão, choramingando: “patrãozinho! ajude-me a mudar de vida! despeça-me por favor!”

Claro que Coelho já veio dizer que as suas palavras foram mal interpretadas. Como sempre.

As suas palavras foram mal interpretadas quando disse que tirar os subsídios de natal e de férias eram um disparate, bem como quando sugeriu que os nossos jovens qualificados deviam emigrar.

O homem nunca diz o que quer dizer – ou então, nós nunca entendemos o que ele, verdadeiramente, quer dizer.

Quem o entende na perfeição é Carlos Abreu Amorim, aquele professor da Universidade do Minho com excesso de peso, que já foi um liberal com muita dificuldade e que agora é deputado do PSD.

Ouvi-o dizer que o que Passos Coelho pretendia era dar ânimo aos desempregados. Quando Coelho falava em mudar de vida quando se é despedido, estava a pensar, por exemplo, no caso do João Ricardo Pedro, aquele engenheiro electrotécnico que aproveitou o facto de estar desempregado para escrever um livro, “O Teu Rosto Será o íšltimo”, que acabou por vencer o Prémio Leya deste ano.

Isto foi o que disse o Sr. Professor.

Pois eu trabalho no Centro de Saúde do Monte de Caparica há quase 30 anos. Nas traseiras do Centro fica o famoso Bairro do Picapau Amarelo.

Tenho, assim, o maior prazer em convidar o Sr. Professor a vir visitar o Bairro e sugerir í s centenas de desempregados que ali vivem que aproveitem esse facto para mudarem de vida e escreverem um livro.

De certeza que o Sr. Professor Amorim perdia peso.

No mínimo.

Como a Grécia escolhe os governos

Vamos lá ver como é que a Grécia escolhe os governos.

Primeiro, fazem-se eleições.

Depois, o Presidente grego convida o líder do partido mais votado a formar governo.

Se ele não conseguir, o Presidente convida o líder do segundo partido mais votado a formar governo.

Se ele também não conseguir, o Presidente convida o líder do terceiro partido mais votado a formar governo.

E assim sucessivamente, até ao líder do partido menos votado.

Se ninguém conseguir formar governo, o Presidente vai í  janela e grita para o primeiro grego que passar na rua:

– É pá! Sim, tu! Foste escolhido para formar governo! Despacha-te!

Que fazes, afinal, Gaspar?…

Confrontado com o facto de ter chamado Documento de Estratégia Orçamental a um PEC, só para não lhe chamar PEC, Vitor Gaspar disse que «não minto, não engano e não ludibrio” os portugueses.

Ora, se um ministro das Finanças não mente.

Se um ministro das Finanças não engana.

Se um ministro das Finanças não ludibria.

Que raio faz este ministro das Finanças?

Para que queremos nós um ministro das Finanças que não mente?

Que não engana?

Que não ludibria?

Será que queremos um ministro das Finanças para falar verdade?

Apenas a verdade?

Nem uma mentirinha piedosa?

Nem uma falsa verdade?

Ora abóbora!

Para isso, já temos o ministro da Economia, porra!

Há feriados e feriados…

O Estado português e a Santa Sé chegaram finalmente a acordo: dois feriados religiosos ficarão suspensos até 2018.

Quer dizer que, durante 5 anos, ficaremos sem todos os Santos e Deus ficará sem Corpo.

Em 2018, os Santos regressarão.

Todos.

E Deus recuperará o seu corpo.

Quanto í  República e í  Restauração da Independência, perdem definitivamente o direito aos respectivos feriados.

Os feriados civis perdem em relação aos religiosos.

Não admira – os Santos e Deus tiveram a ajuda do Papa…

Os gregos são como a pescada

Numa altura em que era preciso uma atitude firme e decidida, os gregos pulverizaram as suas opções eleitorais: 110 deputados da Nova Democracia, 50 do Syriza (extrema-esquerda), 42 do Pasok (socialistas), 32 dos Gregos Independentes (seja lá o que isso for), 26 do KKE (juro que não sei o que é) , 21 da Aurora Dourada (nome lindo para um partido nazi) e 19 da Esquerda Democrática.

Há que assinalar o bom gosto de alguns partidos gregos: é mais elegante dizer Syriza do que Bloco de Esquerda; é mais bonito (e mais enganador), dizer Aurora Dourada do que Partido Nacional-Socialista.

A pescada, antes de o ser, já o era.

Pescada.

Os gregos antes de se verem, já se viram.

Gregos.

O povo, o povo e o povo

O povo andou í  porrada nas lojas do Pingo Doce.

Diz Pacheco Pereira, no seu texto “Humilhação”, publicado hoje no Público:

«Procedeu-se como se no meio de um ajuntamento qualquer, de “manifestação”, seja ela pelo que for, atirasse um molho de moedas para mostrar que era fácil levar as pessoas a andar pelo chão a apanhá-las, quebrando o ajuntamento. As pessoas ficam melhor com o dinheiro que apanharam, mas sabem muito bem que isso significou andar de gatas pelo chão e isto humilha-as. O modo como se escolheu o 1º de maio, o mais politizado dos feriados portugueses, também o mais “social” dos feriados portugueses, o único que está associado a uma simbologia de luta e de reivindicação dos trabalhadores, para fazer isto, tem um significado que não pode ser ignorado. O modo como as coisas correram não foi muito diferente de abrir promoções de 50% na carne na sexta-feira santa, o que naturalmente seria visto como uma provocação desnecessária aos crentes que aceitam as obrigações dietéticas da sua religião.»

E diz Miguel Sousa Tavares, na sua crónica de hoje, no Expresso:

«A direita acredita na caridade, a esquerda acredita na justiça social. (…) Terça-feira passada, o que a Jerónimo Martins fez foi um gesto de pura arrogância empresarial, uma operação reveladora de profundo desprezo e desrespeito pelos seus clientes, disfarçada de caridadezinha social. E não apenas por o fazer sem aviso num primeiro de maio – o que, já de si e para mais na situação actual, revela uma profunda ignorância histórica e uma atitude de ‘vale tudo’. Mas atirar descontos de 50% aos pobres, como outrora os senhores ricos atiravam moedas aos pedintes í  porta das igrejas e ficar a gozar o espectáculo da multidão a disputar a esmola, é a direita novecentista no seu pior, é juntar o insulto í  pobreza.»

Pacheco e Sousa Tavares estão enganados.

Aquela maltósia que andou í  chapada para comprar 250 rolos de papel higiénico a metade do preço, não era o povo.

O povo estava a descer a Avenida da Liberdade, com o Proença da UGT í  frente, dando vivas ao 1º de Maio.

Ou talvez eu esteja enganado e o povo estivesse, isso sim, em frente í  Fonte Luminosa, de punho erguido, gritando palavras de ordem ensinadas pelo Arménio da CGTP.

E daí, se formos a ver bem, o povo, aquilo a que se chama povo, estava em casa, calmamente a ver um daqueles programas televisivos idiotas.

Porque essa do “povo unido”, aconteceu uma vez, ali para o Largo do Carmo – e correu bem porque o Jerónimo Martins, o verdadeiro, não se lembrou de, nesse dia, vender tudo com 50% de desconto.