Author: Artur
Colaboracionismos
Pescadores, estripadores e outras dores
Por estes dias, quem se der ao trabalho de ver os telejornais dos canais generalistas, leva com duas injecções: o salvamento dos seis pescadores de Vila do Conde e a confissão do tipo que diz ter assassinado três prostitutas no século passado.
A história dos pescadores conta-se em duas linhas: um barco de pesca foi ao fundo, os seis pescadores conseguiram passar-se para uma balsa e andaram í deriva durante quase três dias, até que um helicóptero da Força Aérea os avistou e os resgatou.
Boa notícia.
Mas as televisões têm a arte de estragar mesmo as coisas melhores: e foi assim que vimos reportagens em directo do autocarro que transportou os pescadores de volta a Vila do Conde, entrevistas com o mestre do barco, com o militar que fez o salvamento, com um especialista em balsas, com as mulheres dos pescadores, ficamos a saber as características técnicas das balsas, o que elas contêm, mais a história do terço que os pescadores rezaram, uns em voz alta, outros em silêncio, e mais o outro que entrou em pânico e teve que levar dois socos e ser amarrado para não se atirar ao mar…
E, no fim, um tipo até já nem pode olhar para a cara dos pescadores!
A segunda história é mesmo isso: uma história, porque, provavelmente, não passa de ficção. O jornal Sol, através da conhecida Felícia Cabrita, foi descobrir um tipo que diz ser o estripador de Lisboa, um fulano que, nos anos 90 do século passado, assassinou três prostitutas na região de Lisboa.
E toma lá com a descrição pormenorizada de como o homem estripou as mulheres, que instrumentos usou, como é que puxou os intestinos cá para fora e até a motivação freudiana, a procura do útero, a procura da mãe!
Claro que a Cabrita foi í s televisões explicar como investigou este furo jornalístico, vimos imagens da entrevista que o presumível assassino deu í jornalista, explicações de juristas sobre prescrições de crimes, declarações de antigos inspectores da judiciária, incluindo o inevitável Moita Flores…
E com estes dois assuntos, os telejornais gastam mais de meia-hora!
Será que não se passa mais nada neste mundo?
E depois do fado?…
Depois do fado, que tal propor a União Europeia para Património Imaterial da Humanidade?
Da lambreta ao Audi
O ministro Mota Soares deu nas vistas quando chegou í tomada de posse deste governo, conduzindo uma lambreta.
Quis dar o exemplo. Estamos em crise, temos que poupar combustíveis – e Mota foi de mota.
Mas a poupança passou-lhe depressa.
Agora, o Mota anda de Audi.
Segundo o Correio da Manhã, Mota Soares faz-se transportar num Audi de 86 mil euros.
Suspeito que foi a Angela Merkel que telefonou ao Paulo Portas e lhe disse, em tom áspero: “Mas que merda é essa? Então o teu subordinado anda de mota em vez de usar um dos nossos carros? O gajo não tem um Mercedes, um BMW, um Audi?!
E Portas obrigou Mota a trocar a mota pelo Audi.
Isto é a nova União Europeia…
IVA (cada vez mais) terrível
A Assembleia da República aprovou as novas taxas de IVA para alguns espectáculos.
Por exemplo: espectáculos musicais vão pagar 13%, enquanto jogos de futebol pagarão 23%.
Acho mal.
O IVA é o imposto mais injusto que existe.
O rico e o pobre pagam o mesmo IVA pelo pão.
Do mesmo modo, não é justo que eu pague 23% para ir ver o Benfica jogar e, se me der um amoke, for ver o Porto jogar, pago os mesmo 23%. Claro que, se eu for ver um jogo do Porto, por qualquer doença neurológica degenerativa de início súbito, devia pagar 50% de IVA.
Pior ainda: pagar 13% para ver o Tony Carreira e 23% para ir ver o Benfica?
Onde está a justiça?
Quem é o amigo?
O Expresso de hoje publica, na segunda página, esta foto (não com estas legendas, claro!)…
A legenda que o Expresso publica diz assim: “PAULO E O MESTRE – Foi um almoço agendado a rigor, patrocinado por um amigo de ambos, na terça-feira passada, em Nova Iorque, no seleto Brook Club. í€ mesa, Paulo Portas e Henry Kissinger, o secretário de Estado (e conselheiro político e confidente) do antigo Presidente americano Richard Nixon e sobretudo expoente máximo da escola realista em matérias internacionais”
Pergunto:
Quem é que, no seu juízo perfeito, consegue ser amigo destes dois?!
Europa unida! Jamais será vencida!
Madeira – farol da Democracia
Na véspera de uma Greve Geral, em que milhares de portugueses irão mostrar a sua indignação perante as medidas de austeridade que nos estão a atirar para a recessão, num momento em que muitos se interrogam sobre o destino da Democracia, numa altura em que o capitalismo selvagem parece estar a tomar conta das nossas vidas – eis que a Madeira, a Pérola do Atlântico, nos mostra o caminho.
Como?
Simples!
Os deputados do PSD na Assembleia madeirense decidiram que um único deputado pode votar pelos restantes 25.
De facto, por que raio é que 25 deputados se hão-de deslocar í Assembleia, quando um único pode fazer o trabalho de todos?
O PSD continua com a maioria absoluta, mas mais curta do antes; com efeito, o PSD tem apenas mais dois deputados do que a soma dos deputados da Oposição. Imagine que, por exemplo, dois ou três deputados do PSD têm outra coisa mais importante para fazer do que ir apanhar secas na Assembleia. O partido fica em minoria e pode perder votações.
Nada disso.
O líder da bancada do PSD vota e o seu voto vale pelos 25 deputados!
É assim mesmo!
Obrigado, Alberto João, pelo exemplo que continuas a dar!
E obrigado pelos 3 milhões que vais gastar no fogo de artifício!
Eu próprio já contribuí para os teus foguetes, com metade do meu subsídio de Natal!
Espero que te rebentem na peida, pá!
“Némesis”, de Philip Roth (2010)
Roth anda obcecado com o acaso, com as circunstâncias da vida que podem mudar todo um plano laboriosamente construído, com a impotência dos seres perante a força dos acontecimentos inesperados e imprevisíveis.
Acaba por ser esse o tema dos seus últimos livros, Todo-o-mundo (2006), Indignação (2008) e A Humilhação (2009).
Em Némesis, a força das circunstâncias é representada pela poliomielite. A acção decorre em Newark, nos anos 40. Um jovem judeu, Bucky Cantor, fica livre da tropa e, portanto de participar na 2ª Grande Guerra, devido a sofrer de alta miopia. Frustrado por não poder combater ao lado dos seus amigos, dedica-se ao desporto e dá aulas a miúdos do bairro judeu. Cantor é um modelo de jovem, amado por novos e velhos. Tem uma jovem namorada e pensa em casar e constituir uma família. Mas, com o Verão, vem uma nova epidemia de poliomielite que, naqueles tempos pré-vacina, é devastadora.
E contra essa força do acaso, não é possível lutar. Podes ser muito bem comportado, educado, grande atleta, cuidadoso – podes ser tudo o que há de bom, que nada disso te vai salvar da morte ou de uma paralisia deformante e incapacitante.
Tal como nos outro livros, Deus está ausente, ou melhor, está presente mas nada faz. A propósito do velório de um jovem de 12 anos, morto pela polio, Roth escreve:
«O Sr. Cantor teria achado uma afronta muito menor se as pessoas ali reunidas pelo luto se declarassem oficiantes da majestade solar, filhas de uma divindade solar justa, e, í maneira fervorosa das antigas civilizações pagãs do nosso hemisfério, se entregassem a uma dança ritual do sol í volta da campa do rapaz morto (…) – muito melhor honrar com as nossas orações o encontro diário e tangível com esse ubíquo olho de ouro isolado no corpo azul do céu e o seu poder imanente de incinerar a terra – do que engolir a mentira oficial segundo a qual Deus é bom e dobrar a cerviz perante um assassino de crianças a sangue frio.»
Afinal, aquilo a que chamamos Deus talvez não passe do Acaso, e pode, ou não, ser bom. Como refere Roth: «Umas vezes temos sorte, outras não. Toda a biografia é acaso e, a começar pela concepção, o acaso – a tirania da contingência – é tudo.»
Apenas uma curiosidade: no fim do livro, um dos jovens reinado por Bucky Cantor, reencontra o seu antigo treinado, muitos anos depois e pergunta-lhe como é a sua vida agora. Cantor responde: «Eu não sou pessoa de grandes convivências, Arnie. Vou ao cinema. Aos domingos desço até ao Ironbound e como um bom jantar português. Gosto de me sentar no parque quando o tempo está bom. Vejo TV. Vejo os noticiários.» (sublinhado meu)
Bucky Cantor, judeu de Newark, gosta de comer um bom jantar português.
Tem bom gosto.
Roth também.



