O tique de Quique

Quique Flores está mais magro.

Um ano a treinar o Benfica deixou-o macilento, olhos encovados, mal-encarado, cheio de olheiras, maçãs do rosto salientes. Claro que o facto de ter patilhas compridas, ser moreno e incompetente, também não ajuda…

E ganhou aquele tique de abanar a cabeça e pregar os olhos no chão, passando a mão pelo rosto, como quem diz: “onde é que eu me vim meter! Um clube como este que, em 15 anos, teve 17 treinadores e eu caí na esparrela de vir aqui perder um ano da minha vida!”

É este o tique de Quique.

Por mim, pode ir í  sua vida, sem rancores.

Mas só te peço um favor, Quique: leva o Luis Filipe Vieira contigo, pá!

A bela vista de um bispo

A comunicação social está, mais uma vez, muito contente: houve alguns distúrbios no Bairro da Bela Vista, em Setúbal.

Em traços largos: um jovem habitante desse bairro, fazia parte de um gang que assaltou a caixa multibanco do Hospital Particular do Alvor. Durante a fuga, a polícia atingiu-o a tiro e o jovem morreu.

Depois do funeral, familiares e amigos do jovem, manifestaram-se contra a polícia e houve uma troca de pedras e outros mimos.

História habitual.

No entanto, logo as televisões enviaram repórteres para o local, que transmitiram, em directo, para os três telejornais. E, assim que se acendem os holofotes televisivos, há sempre aquela tendência para as vozes se elevarem.

Seguiram-se dois ou três carros incendiados, meia dúzia de tiros para o ar e a festa vai continuar durante mais alguns dias.

Aposto que a coisa acaba assim que a comunicação social desmobilizar e passar a outro assunto.

Claro que a tensão entre os habitantes deste, e de outros bairros sociais, e a polícia, existe sempre. Por definição.

Claro que alguns desses habitantes estão envolvidos em negócios ilícitos.

Claro que, por vezes, a polícia exagera.

Claro que todos os habitantes desses bairros, entrevistados pelas televisões, precisavam de arranjar os dentes.

Claro que a culpa de tudo isto é do Sócrates, que só arranja cheques-dentista para grávidas, idosos e crianças, deixando de fora meliantes, traficantes, e outros vencidos da vida.

Claro que a comunicação social rejubilaria com confrontos a sério, assim como aconteceu nos bairros da periferia de Paris, ou com os ocupas da Dinamarca, ou nas ruas de Atenas.

Mas nós somos um país de brandos costumes, mesmo nos bairros sociais.

Por isso me espantaram as declarações do bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, também conhecido por Bispo Vermelho, provavelmente porque tem a pele muito sensível ao sol.

A propósito dos confrontos no bairro da Bela Vista, que ele tem a obrigação de conhecer bem, disse o Sr. Bispo – e quando um bispo fala, os outros baixam as orelhas – que “o que eu receio, e tenho repetido muitas vezes, é que nestas situações possamos encontrar, num futuro próximo ou remoto, já uma fogueira preparada para incendiar o país”.

Simpático, o Sr. Bispo. E optimista. A polícia mata um tipo que está a assaltar uma caixa multibanco, os habitantes do bairro onde ele vive, revoltam-se e, em questão de segundos, o país está a arder.

E, se isto não acontecer agora, vai acontecer num “futuro próximo ou remoto”. Bispo dixit!

Gostava de saber o que andou o Sr. Bispo, durante 20 anos, a fazer em Setúbal. Não criou estruturas que apoiassem os jovens destes bairros problemáticos, ensinando-lhes o catecismo e todas as coisas boas que a religião católica tem para oferecer, como seja, por exemplo, a vida eterna – desde que não cometas um dos pecados mortais.

Ora, o próprio bispo afirma: “se não tiver pão, ou mato-me ou mato, porque sem comer não se pode viver”.

Ou mato-me ou mato, Sr. Bispo?

Então e aquela coisa do “não matarás”? E aquela outra “felizes os pobres, pois deles será o reino de Deus”?

Com bispos destes, temos os católicos que merecemos…

Esbofetear o candidato

A CGTP inventou, ontem, uma nova actividade política: esbofetear o candidato.

Para estreia, decidiram esbofetear o Vital Moreira.

O candidato teve, em tempos, uma determinada posição política mas, agora, tem outra diferente?

Esbofeteia-se o gajo!

O candidato tem uma grande cabeleira, que é um verdadeiro insulto a todos os desempregados carecas?

Esbofeteia-se o energúmeno!

O candidato é professor universitário e tem a mania que percebe de tudo, parecendo estar a gozar com os desempregados analfabetos?

Esbofeteia-se o sevandija!

O candidato tem uma vozinha irritante, que é uma verdadeira provocação para todos os desempregados com defeitos na voz?

Esbofeteia-se o safardana!

É uma boa opção.

Para quê discutir ideias, trocar opiniões, debater ideologias?

Esbofeteia-se o socialista Vital Moreira.

Dar-se um par de estalos na comunista Ilda Figueiredo.

Aplicam-se umas boas galhetas ao social-democrata Paulo Rangel.

Afinfam-se duas berlaitadas nas trombas do  bloquista Portas.

Pregam-se duas valentes chapadas nas fuças do  pêpê Nuno Melo.

E ainda restam forças para proporcionar um par de tabefes í  Laurinda Alves, que é a candidata do Esperança Portugal, que é uma coisa que ninguém sabe o que é.

Obrigado, Carvalho da Silva!

50 anos í  frente da CGTP deu nisto, pá!

Que tal um par de estaladonas e a discussão fica por aqui?

A epidemia! Finalmente, a epidemia!

A gripe das aves passou-nos a perna. Armazenámos tamiflu í s toneladas, reunimos as mais altas instâncias da OMS, enviámos repórteres aos hospitais dotados de quartos especialmente preparados para receber os infectados – e, da gripe, nem rasto.

O tamiflu ficou a ganhar bolor nas caves da Direcção Geral da Saúde.

Mas eis que os porcos dão uma ajuda: aí está a gripe suína!

Hoje, 6 dias depois de dado o alerta, já se fizeram, em Portuga, 10 análises 10 para tentar detectar o vírus H1N1, o que dá uma estonteante média de menos de duas análises por dia!

Hoje, 6 dias depois do alerta, não há um único caso confirmado, nem sequer um caso suspeito para amostra, mas já se põe em causa a capacidade de resposta das autoridades de saúde, nomeadamente da linha de Saúde 24.

Quem ouvir as notícias das televisões portuguesas, pensa que está no México e que há pessoas a morrer de gripe suína em cada esquina.

Mesmo no México, parece que o número de mortes que podem, comprovadamente ser atribuídas ao H1N1, são apenas sete.

Exagero, como de costume.

Nesse caso, não se deve informar? não se deve prevenir?

Claro que sim, mas sejam um pouco menos histéricos, por favor!

Ontem, no telejornal da RTP-1, uma jornalista que tem a mania que é engraçadinha, andou pela rua, em reportagem para conhecer a reacção das pessoas í  gripe suína.

E, apesar de ter a obrigação de informar correctamente, a jornalista perguntou a um homem, qualquer coisa como isto: “então vai comprar carne de porco? Não tem medo?”

Ela estava a brincar… claro que a carne de porco não tem nada a ver com a gripe suína – ou terá?

Aguardemos os próximos desenvolvimentos da coisa, mas cheira-me que estamos perante mais uma coisa semelhante í  da pneumonia atípica que, em 2003 ia matando milhões de pessoas em todo o mundo. E quem já não se lembra dessa epidemia brutal, pode clicar aqui, por exemplo.

Mais patetices jornalísticas

Os jornalistas não deixam de nos surpreender.

A leitura dos jornais de fim-de-semana permite ficar com uma ideia do grau de hipocrisia, idiotice e ignorância dos órgãos de comunicação social em geral.

Primeiro exemplo:

Ouvi ontem, no jornal da Sic e li, hoje, no Sol: os portugueses “estão a comer pior, por causa da crise”, optando por comprar “massas, arroz e atum”.

Ora, acontece que o atum é um óptimo peixe, no que respeita ao colesterol e as massas e o arroz são hidratos de carbono de absorção lenta, portanto, mais saudáveis. Por outras palavras, se os portugueses estão a comprar mais estes produtos, por causa da crise, há males que vêm por bem – aplausos para a crise!

Segundo exemplo:

O Correio da Manhã e os telejornais de hoje fazem eco de um conjunto de regras que terão sido impostas í s funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, nomeadamente, não usarem mini-saias ou decotes acentuados, camisas transparentes com roupa interior provocante, chinelas de praia e coisas deste género.

O Correio da Manhã diz que “Estado proíbe mini-saias e decotes”, tentando confundir o leitor. Quem é o Estado? Não é verdade que o Estado, no fundo, somos todos nós?

A Loja do Cidadão de Faro confunde-se com o Estado?

Vai passar a ser proibido andar de mini-saia, em Portugal?

Nunca mais será possível ver o sulco inter-mamário de uma portuguesa, a não ser na intimidade do lar?

Os telejornais, quer da RTP quer da Sic, ilustram a notícia com imagens de Sócrates a inaugurar a Loja do Cidadão de Faro, o que leva o espectador a relacionar a decisão daquelas proibições com o primeiro-ministro.

Vejam lá bem esta aventesma: não satisfeito com o facto de estar a governar ditatorialmente o nosso país, de ser um falso engenheiro, um falso homossexual, um falso amigo do ambiente, que recebe 4 milhões de euros para licenciar um empreendimento que matou milhares de flamingos no estuário do Tejo, não satisfeito com isso, o ditador ainda proíbe, agora, as pobres funcionárias algarvias de andarem a mostrar o pernão e as mamocas!

Suprema hipocrisia!

Será que alguma vez vi a jeitosa Judite de Sousa a apresentar o Telejornal com as mamas í  mostra? Ou o apessoado Rodrigues Guedes de Carvalho, com uma t-shirt que lhe definisse os bícipetes e os peitorais e deixasse entrever os pêlos do peito?

Cada país tem os jornalistas que merece e Portugal merece cada vez menos, pelos vistos…

Sobe, Taepodong, sobe!

Eu sou do tempo em que a Albânia, liderada pelo grande Enver Hodja, era o farol do socialismo na Europa e em que a Coreia do Norte, governada pelo Grande Líder, Kim Il-sung era o paradigma da democracia popular.

Sou do tempo em que pessoas hoje respeitáveis, como Durão Barroso, Ana Gomes, Pacheco Pereira ou Maria José Morgado, militavam no Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP) e acreditavam na vitória do maoismo.

Entretanto, muita coisa mudou: o farol da Albânia fundiu-se, Durão Barroso é o chefe da União Europeia, eu sou médico de família, mas a Coreia do Norte continua lá, firme, no seu delírio de grandeza.

O Grande Líder, Kim Il-sung morreu e deu lugar ao seu filho, o Querido Líder, Kim Jong-il. As paradas militares continuam a ter a mesma grandiosidade e ar ameaçador, como se ainda estivéssemos no tempo da Guerra Fria. Dizem que se continua a morrer de fome.

Mas os norte-coreanos devem estar orgulhosos: o seu governo diz que, no passado domingo, lançou para o espaço o seu primeiro satélite de comunicações, o Taepodong-2.

E o que é que o Taepodong vai comunicar?

Segundo os responsáveis norte-coreanos, o satélite está a emitir canções revolucionárias de louvor ao Grande Líder e ao Querido Líder.

Por favor: uma chuva de anti-psicóticos sobre Pyongyang. Já!

Não quero ser uma Carla Rocha

carlarochaAlguém sabe quem é a Carla Rocha?

Foi hoje que vi, pela primeira vez, o seu nome, num anúncio de página inteira, no DN.

O anúncio convida: “Venha ser uma Carla Rocha”.

E por que não uma Sónia Penedo ou uma Tatiana Pedregulho?

Como se consegue ser uma Carla Rocha, afinal?

Pois frequentando um curso, justamente chamado “Curso de Carla Rocha”.

Confesso que gosto razoavelmente de ser quem sou mas se, por acaso, quisesse ser outra pessoa, duvido que escolhesse ser uma Carla Rocha.

Não haverá, por exemplo, cursos de Barack Obama. Agora, o homem está tão na moda, que talvez não me importasse e ser um Barack Obama – uma Carla Rocha é que não. Definitivamente.

Só mais uma coisa: para aqueles – e serão muitos – que não sabem quem é a Carla Rocha, uma última revelação – eu também não sei quem é…

10 anos de Macacos

Macacos sem galho faz hoje 10 anos!

Não sei se sabem, mas o Macaco-Mor do Macacos é o meu filho Pedro!

Claro que foi ele que me empurrou para o Coiso na net.

E em novembro de 1999, quando comecei a meter o Coiso na net, foi a minha nora, Dalila, que desenhou o site.

Há uns anos que deixei de publicar textos de carácter pessoal, porque sim.

Mas não posso deixar de vos convidar a ler a entrevista que o Pedro deu, a propósito dos 10 anos do Macacos.

E, enfim, não quero deixar de vos recordar, mais uma vez, que o Pedro é meu filho: qualquer reclamação, é comigo que falam – qualquer elogio, é com ele que devem falar…

Playboy portuguesa desilude

Apesar da crise, sai amanhã o primeiro número da edição portuguesa da revista Playboy, com uma tiragem de 100 mil exemplares.

Penso que vai ser um fracasso.

Os responsáveis escolheram, para capa do primeiro número, uma tal Mónica Sofia (quem?!).

Eu estaria í  espera de uma Manuela Ferreira Leite, uma Maria de Belém, uma Helena Roseta, ou até um Paulo Portas.

Nus, claro.

Agora, uma desconhecida, que fez parte de uma banda chamada Delírium, é uma desilusão.

Não vou comprar.