Mistérios portugueses

Primeiro: a crise está aí. Ataca em todas as frentes. Os comerciantes, por exemplo, queixam-se. Muito.

O Expresso diz que, durante 2008 fecharam, pelo menos, 11 mil estabelecimentos comerciais. E o negócio vai mal. Muito mal. Apesar do Natal.

Então, pergunto: para onde foram os 4,3 milhões de euros que os portugueses movimentaram com os seus cartões multibanco, entre 1 e 25 de Dezembro?

Segundo: a Direcção-Geral da Saúde diz que, na passada quarta-feira, foram registadas 20.863 consultas de urgência, das quais 11.899 nos centros de saúde e 8.964 nos hospitais. No dia 1 de Janeiro, esse número aumentou para 22.761 (11.063 nos hospitais e 11.698 nos centros de saúde).

E eu pergunto: o que tem isto a ver com a “epidemia” de gripe?

Será que todos os doentes que recorrem as urgências têm gripe?

E por que razão, no centro de saúde onde trabalho, o número de consultas diminuiu consideravelmente nos ultimos dias?

Será que os nossos utentes são menos doentes do que os de outras regiões do país?

A crise e a gripe – eis mais dois grandes mistérios portugueses…

2009 – Um ano cheio de dias

Os meus desejos para 2009 são formidáveis e muito oriundos, como dizia o outro, que já cá não está.

Poder levantar-me e dizer, poder movimentar-me e crescer, poder poder.

Saber calar-me e poupar afirmações, guardar as pérolas, afastar-me dos porcos.

Avançar sem me mexer, manter-me atento e ponderado e não demasiado. Em nada.

Escutar, mais do que falar.

Observar, mais do que ser observado.

Decidir, não adiar.

Fruir e ser fruído.

E não acreditar em nada disto.

Aldragripe

Não é meu hábito comentar assuntos relacionados com a minha área profissional.

Penso que estou demasiado envolvido para ter uma opinião isenta.

Mas esta história do surto da gripe, merece algumas palavras e muita reflexão.

Ontem, prolonguei o meu horário. Estive no Centro de Saúde das 8 da manhã í s 22 horas. Fiz as minhas consultas programadas até í s 16 horas e, depois, fiz a consulta aberta a todos os utentes que solicitam consulta no próprio dia, pertençam, ou não, í  minha lista de utentes. Esta consulta – direccionada para os utentes que não puderam ser consultados pelo seu médico de família ou para situações agudas que surgem em horário post-laboral, funciona das 16 í s 20 horas, com dois médicos.

No dia 16 de Dezembro – ainda a gripe não existia… – eu a e a minha colega Emília, atendemos 82 pessoas, nesse período de 4 horas.

Ontem, por determinação superior, prolongámos o horário até í s 22 horas, devido ao surto de gripe.

Consultámos 56 utentes. Nenhum, entre as 20 e as 22 horas!

Dois médicos, duas enfermeiras, uma administrativa e um segurança, cobraram mais 2 horas extraordinárias ao SNS para satisfazer as paranóias dos jornalistas, que inventaram uma epidemia de gripe.

Dizia-me, ontem um dos doentes que consultei: “É pá! Isto hoje ainda está melhor do que é costume! O doutor chamou-me tão depressa que nem tive tempo para me sentar! Gripe?! Os gajos querem é vender as vacinas que ainda estão em stock! Dizem que ainda há 96 mil vacinas nas farmácias – deviam eram dá-las í quele tipo com risco ao meio, da Direcção-Geral. Todas!”

Quanto a mim, enquanto bocejava í  espera dos doentes que nunca apareceram, pensei por que razão os jornalistas foram, a correr, ao Amadora-Sintra, na sexta-feira passada, para filmar a sala de espera cheia de doentes e nenhum apareceu ontem, no meu Centro de Saúde, para filmar a sala cheia… de moscas…

Viagra para os talibans

Segundo o Washington Post, os agentes secretos norte-americanos estão a oferecer comprimidos de Viagra aos chefes tribais afegãos, em troca de informações sobre os taliban.

De repente, fez-se luz no espírito da CIA!

O que os afegãos precisam não é de bombas, porrada e mau viver!

Do que eles precisam é de drogas da felicidade: fluoxetina (Prozac), para se sentirem felizes e Viagra, para manterem o pau feito e poderem comer as virgens, antes de chegarem ao paraíso.

Mas há aqui algo que não bate certo: quem precisa de Viagra tendo tanta papoila mesmo í  mão?…

írbitros e anestesistas

A partir do próximo dia 1 de Janeiro, os hospitais públicos vão ter que cumprir a determinação do ministério da Saúde: médico contratado só pode ganhar 35 euros por hora.

Os “media” chamaram a atenção para o facto de existirem médicos a ganharem 100 euros í  hora, nomeadamente, anestesistas que, nesse caso, num banco de 12 horas, poderiam ganhar 1200 euros.

Ora bem: segundo o Diário de Notícias, um árbitro da Primeira Liga de futebol, pode ganhar, por jogo, 1090 euros, o que representa um aumento de cerca de 10%, em relação ao que se pagava no ano passado.

Não há dúvida que decidir se a mão do Miguel Vitor foi, ou não, decisiva para invalidar o golo do Benfica, é muito mais importante do que anestesiar uma vítima de um acidente de viação, para que possa ser operada de emergência.

O mais engraçado de tudo isto é que os jornalistas ficam mais incomodados com os 1200 euros ganhos pelo anestesista do que pelos 1090 ganhos pelo árbitro…

Que desperdício, al-Zaidi

Ouve o que eu te digo, Muntadar al-Zaidi: aceito que te tenhas tornado uma estrela mundial graças ao teu gesto, que pode ser visto e revisto aqui.

Mas sinceramente: George Bush não vale um par de sapatos!

Vê bem que, agora, até há um professor saudita, Mohamed Makhafa, que quer comprar os sapatos que atiraste ao cão infiel por quase 7 milhões de euros.

Se o governo iraquiano lhe vender os sapatos, o professor vai colocá-los numa vitrina, com a seguinte inscrição em baixo: “estes foram os sapatos que al-Zaidi atirou ao Presidente dos Estados Unidos, o cão George Bush”

E, assim, Bush ficará para a História.

Ainda por cima, al-Zaidi, meu zarolho, não lhe acertaste, pá!

Estrabismo de esquerda

Manuel Alegre, como poeta, é um mau político.

Os jornalistas adjectivam-no como “histórico deputado socialista”, mas devem usar o adjectivo “histórico”, no sentido de “dinossáurio”.

Alegre defendeu a convergência das esquerdas, que é como diz, o estrabismo de esquerda.

Todos os esquerdistas a olhar para si próprios – um olho na merda, outro no infinito.

Marcelo Rebelo de Sousa, na sua homilia, esfregou logo as mãos de contente, dizendo que com um novo partido, liderado pelo Alegre, talvez o PSD, mesmo esfrangalhado, conseguisse mais votos que o PS.

Tinha a sua graça: o PS e o PSD empatarem nas eleições e ficarmos sem governo por causa de um novo partido de esquerda, lançado por um poeta serí´dio. Como se a esquerda precisasse de mais partidos. Como se a esquerda não estivesse já suficientemente fragmentada e enfraquecida.

De cachecol branco em redor do pescoço e casaco de pele de antílope, quiçá caçado por ele próprio, Alegre disse outras coisas lindas, como esta: “esta é a nova coragem que é preciso ter”!

E mais esta: “Dante reservou os lugares mais quentes do Inferno para aqueles que em tempo de crise moral se mantivessem neutros”.

E ainda esta: “Ninguém é proprietário da esquerda, ninguém tem o monopólio da verdade, ninguém é dono do futuro.”

A mim ninguém me cala!

Manuel Alegre, como político, é um mau poeta…

Que bom que é ser católico!

Ser católico deve ser muito fixe.

Todas as questões difíceis estão resolvidas para os católicos: é pecado.

Agora, uma nova mensagem do Vaticano dissipa todas as dúvidas: a religião católica mantém-se afastada da ciência.

A mensagem diz que os fiéis se devem opor í  procriação medicamente assistida, í  clonagem humana, í  investigação sobre células estaminais embrionárias, í  pílula do dia seguinte, í  criopreservação de ovócitos e embriões e ao diagnóstico genético pré-implantatório para evitar defeitos genéticos nos embriões.

No que respeita í  procriação medicamente assistida, diz a mensagem que é moralmente ilícito usar uma técnica que “se realiza fora do corpo dos cí´njuges, mediante gestos de terceiros”.

Por outras palavras, meter a pilinha no pipi da católica e depositar lá o esperma do católico, é aceitável, mesmo sabendo, de antemão, que isso não vai resultar em gravidez.

No entanto, tirar o esperma ao católico e depois injectá-lo no citoplasma da católica, é pecado.

Vão dar banho ao cão!