Deus não existe (facto)

Em 17 de Novembro do ano passado, escrevi um texto (A cura para a Sida), em que me insurgia contra os panfletos da igreja Maná (e semelhantes), que reclamam ter a cura para todas as doenças, males do mundo, dívidas da família, ódios, maleitas, aleijões e tudo e tudo. Basta crer em Deus, rezar muito e deixar que Ele faça o resto.

Um tal JG (cujo mail mantenho em segredo porque sou bom rapaz), fez alguns comentários ao texto, no último dos quais dizia, nomeadamente: «E se duvidam dos panfletos, confrontem as pessoas, peçam relatórios médicos, agora falar só para usar o latim… Factos amigos; ao menos contra factos não há argumentos…»

Perguntei, então, a JG, por que razão Deus deixaria que morressem tantas crianças, em ífrica, vítimas de Sida, se a igreja Maná tem a cura?

E JG teve a desfaçatez de responder desta maneira inacreditável:

«Em relação í  sua pergunta, posso dar uma das muitas possíveis explicações…
Na bíblia (facto) está lá escrito que Deus abomina a feitiçaria e os que a praticam até í  3ª e 4ª geração.
Todos sabemos que ífrica é um dos centros onde há muito VUDU, Macumbeira, Feitiçaria, Magia, etc, etc…
Se as pessoas escolhem desagradar a Deus, temos que aceitar que Deus não as pode proteger do Mal…
Vou dar um paralelo….
Se roubares alguém e a pessoa fizer queixa de ti, por mais que depois se desculpe a transgressão, tens que enfrentar as consequências na justiça…

Há muitas explicações possíveis… esta é uma delas.»

COMO DIZ?!

Deus condena até í  3ª e 4ª geração? Isto é: se o tetraví´ do Youssuf Adu praticou feitiçaria, o pobre do puto tem que morrer de Sida, para espiar os pecados do aví´?

Então, Deus não é misericordioso?

Então Deus não enviou í  Terra o seu filho para que ele expiasse os pecados do mundo?

í“ JG – tens faltado í s sessões de propaganda, lá na tua igreja?

Está provado que JG é um imbecil (facto).

E que Deus não existe (facto).

Cuidado com os títulos

Título da edição on-line do Público (o meu fornecedor de jornais está de férias!):

Gil Vicente punido com três pontos por aliciamento a jogadores da Olhanense

Pergunta-se:

É punição, dar três pontos ao Gil Vicente?

Claro que não: o Gil Vicente foi punido com a perda de três pontos. O título é enganador.

E, já agora, outra pergunta: o que levaria Gil Vicente a aliciar jogadores da Olhanense? Estaria aborrecido com a Mofina Mendes?

E foi punido com três pontos em que sítio do corpo?

E, no caso de ser Almeida Garrett, quantos pontos seriam?

Portugueses passam férias na estrada

Notícia do Diário de Notícias de hoje: «a ida para férias dos portugueses que procuraram o Algarve entupiu ontem a A2. a BT da GNR dava conta de trânsito muito congestionado após a hora de almoço, quase a passo, entre Marateca e Alcácer do Sal»

Primeira página do Diário de Notícias, também de hoje: «Algarve em crise – nem os parques de campismo resistem í  quebra de turistas».

E, lá dentro, na página 38: «Campismo com quebras de ocupação superiores a 10%», e ainda, no que respeita a hotéis e empreendimentos turísticos: «Quebra é inferior a 10% e há hotéis a mudar preços várias vezes ao dia».

Em resumo: se os parques de campismo, hotéis e empreendimentos turísticos algarvios estão quase í s moscas e a auto-estrada para o Algarve estava, ontem, a abarrotar, temos que chegar í  conclusão que os portugueses estão a passar as férias na estrada.

País de opereta

Ontem, um doente meu, que faz o milagre de estar vivo, apesar de ter todos os factores de risco (é gordo, fuma, tem o colesterol alto, é hipertenso e diabético e não toma a medicação nem faz exercício físico, não faz qualquer tipo de restrição alimentar e tem uma profissão de stress), deu-me uma verdadeira lição sobre o modo como o jornalismo sensacionalista conseguiu tomar conta da vida das pessoas.

Perguntei-lhe eu: mas diga-me lá, ó Fulano, por que razão é que você não toma os comprimidos para a tensão? São genéricos! Uma caixa de 60 custa cerca de 2 euros! E os dos diabetes são í  borla!

Responde-me o Fulano: ó doutor, 60%  do meu ordenado vai para pagar dívidas; nem tenho cabeça para pensar em comprimidos e doenças! Aliás, o Cavaco Silva vai hoje falar ao país!… Bom… eu acho que ele não deve demitir o governo mas até o chefe da casa civil disse que, se ele interrompe as férias para falar ao país, é porque é uma coisa muito importante! É que cada vez vemos mais pobreza envergonhada! Vivem melhor esses tipos que recebem o rendimento mínimo que as pessoas que têm cursos! Muitos dos sem abrigo que dormem na rua, têm cursos superiores e andam lá artistas e pessoas como o senhor doutor a dar-lhes comida! É a nova pobreza!

Depois, í  noite, o Cavaco foi í  televisão falar sobre o estatuto dos Açores!…

E os sem abrigo com cursos superiores não perceberam por que razão o Presidente da República não quer saber deles para nada!

Quanto ao meu doente, há-de continuar a desafiar as estatísticas dos acidentes cardiovasculares e a fazer parte daquela vasta maioria de portugueses que continuam í  espera que alguém faça algo por eles.

Impunes, os jornalistas continuam a alimentar sensações.

Ser do Benfica…

É cada vez mais difícil!

Afinal, de que Benfica é que eu sou? Do que jogou ontem a primeira parte, do que jogou a segunda parte ou do que ficou no banco?

Sou do Benfica do Quim, Luisão, Petit e Nuno Gomes, ou do Benfica do Aimar, Yebda, Balboa e Urreta, ou do Benfica do Maxi Pereira, DiMaria, Cardoso e Binya?

Mais de 40 jogadores – para quê?!

Quem lucra com isso?!

O que vale é que temos, agora, um director desportivo que percebe da poda…

E um treinador que quer fazer flores…

Já não tenho idade para isto!…

De Carla Bruni a Louise Brown e a Mick Jagger

O terceiro disco de Carla Bruni está a ser um sucesso de vendas. Parece que, afinal, o facto de ser casada com o Presidente francês foi benéfico para a sua carreira. Este facto deixa-me confuso. Eu, por exemplo, seria incapaz de comprar um disco de Maria Cavaco Silva. E não seria pelo facto da senhora cantar bem ou mal; seria apenas por coerência política. Seguindo o mesmo raciocínio, seria de esperar que Bruni fosse prejudicada pelo facto de ser casada com Sarkozy, mas parece que não.

Sendo assim, não sei de que é que a Ana Malhoa, por exemplo, está í  espera! O Sócrates está solteiro e tem futuro na política…

Quem não terá grande futuro será Karadzic, que foi capturado esta semana, mascarado de especialista em terapia quântica. Que coincidência! E eu que escrevi um texto sobre essa treta (ver ASAE – onde estás tu?) na passada semana! Pois o ex-general sérvio, que foi responsável por milhares de mortos nos anos 90, dedicava-se, agora, a curar pessoas com ajuda da terapia quântica. Se eu ainda tivesse alguma dúvida quanto í  charlatanice da coisa…

Agora, muito provavelmente, Karadzic vai passar o resto da vida na prisão. Terá muito tempo para escrever um livro sobre a sua experiência de vida. Que digo eu? Um livro? Uma colecção inteira, com dezenas de volumes!

Basta comparar com aquele senhor inspector, que usa casacos um número acima, e que se chama Gonçalo Amaral. Reformado aos 49 anos (que inveja!), o Sr. Amaral acaba de lançar um livro sobre o “caso Maddie”, depois de o ter investigado durante meia dúzia de meses, sem ter chegado a nenhuma conclusão válida. Imaginem quantos livros o ex-general sérvio não poderá escrever!

Esta mania de escrever e publicar livros está a alastrar. Todos nos recordamos dos excelentes livros escritos por Mourinho, Deco ou Mantorras ou do pungente livro do sargento Gomes sobre a “pequena Esmeralda”. Agora, até Freitas do Amaral publicou, em livro, o parecer que elaborou sobre a descida de divisão do Boavista e a suspensão de Pinto da Costa!

Acho que Sócrates, por exemplo, está a perder oportunidades, umas atrás das outras. Só esta semana podia ter escrito três livritos: “Os Josés: o meu encontro com Eduardo dos Santos”, “Um dia na tenda de Kadhaffi” e “Hugo Chavez, esse grande humorista”. E poderia ter acrescentado um opúsculo sobre o presidente da Guiné Equatorial. Em alternativa, poderia juntar tudo num único volume intitulado “É o petróleo, bruto!”

Quem não está a ser nada bruto é Barak Obama. Se as eleições norte-americanas fossem na Europa, o gajo já tinha ganho!

Obama juntou quase tantas pessoas em Berlim como professores portugueses que desfilaram contra Sócrates. Enfim, como sabemos, isto não quer dizer nada, com a agravante de praticamente nenhum dos manifestantes que aclamaram Obama em Berlim ir votar nele, em Novembro, enquanto muitos dos que desfilaram em Lisboa, votarão a favor do Sócrates nas próximas eleições.

Os sonsos dos dirigentes europeus receberam Obama como se ele já fosse presidente dos EUA. E só porque ele é preto, coitadinho… e os europeus têm problemas de consciência. Com tantas ex-colónias e tantos emigrantes africanos, das índias e das Antilhas, não há um único país europeu que tenha alguma vez tido um candidato de pele mais escura.

—Pele bem branca é a de Louise Brown – a primeira bebé-proveta, que acaba de fazer 30 anos.

Quem diria que esta Louise Brown já coube, em tempos, numa proveta! Olhem bem para ela! É a de cabelo comprido, claro!

Há 30 anos, estavam os Rolling Stones a lançar o seu 20º disco (“Some Girls”) e, depois disso, ainda lançaram mais 14!

Ontem, Mick Jagger completou 65 anos e confirmou aquilo que já todos tínhamos obrigação de saber: a terceira idade só começa lá para os 80!

E o resto, é música!

Afinal, não estamos assim tão mal!…

O presidente do Banco Central do Zimbabwe anunciou que amanhã entrará em circulação a nova nota de 100 mil milhões de dólares zimbabueanos.

Isso mesmo: uma nota que vale 10 mil milhões.

É que a inflação, no Zimbabwe é de 2,2 milhões por cento ao ano.

E a malta ainda se queixa do Teixeira dos Santos!…

Vamos eleger os juízes?

Provavelmente, a vacina contra o cancro do colo do útero já não vai começar a ser administrada em Setembro/Outubro, como estava previsto.

Duas vacinas concorreram ao concurso público: uma, da Smith/Kline, é activa contra as duas estirpes mais frequentes do vírus do papiloma e é mais barata; a outra, da Sanofi/Pasteur, é activa contra 4 estirpes e é mais cara. O júri do concurso público escolheu a mais barata. A Sanofi/Pasteur apresentou uma providência cautelar e a decisão do concurso ficou suspensa.

Quer dizer: até que os tribunais decidam, nenhuma miúda pode ser vacinada contra o vírus do papiloma humano, em Portugal.

Não estás de acordo com as aulas de substituição? Providência cautelar.

És contra o túnel do Marquês? Providência cautelar.

Não aceitas a co-inceneração? Providência cautelar.

Não aceitas que te desçam de divisão porque és acusado de influenciar árbitros? Providência cautelar.

Não gostas do prédio que estão a construir em frente í  tua casa? Providência cautelar.

Os juízes conseguem influenciar a política de saúde, de educação, de obras públicas, do desporto…

Eleger deputados, para quê?!

Não seria mais democraticamente importante eleger os juízes?

Jornalismo mentiroso

O Diário de Notícias de hoje publica, na primeira página, uma manchete vergonhosa: “Classe média já pede comida por ‘e-mail’ í s misericórdias”

E há um subtítulo ainda mais vergonhoso: “crise bate í  porta mas não deixam de pagar Net e viajar”.

Na página 13, Rita Carvalho, a autora da notícia mostra-nos como não se deve fazer jornalismo, como é que uma notícia cheia de inexactidões contribui para fazer crescer o mito da crise e como é que alguns jornalistas, por muito que apregoem o contrário, querem tornar-se, eles próprios, os fazedores das notícias, em vez de serem os transmissores (que é a sua missão).

Rita Carvalho começa por escrever:

“Aos emails da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) chegam todas as semanas dezenas de pedidos de ajuda alimentar. Pessoas que evitam revelar o menos possível sobre si próprios e pedem ajuda para atravessar o período difícil que se vive e matar a fome.

Quem o diz é Manuel de Lemos, presidente da UMP, que alerta para este novo padrão de pobreza que foge ao típico retrato dos pobres conhecido em Portugal. «São pessoas com um perfil diferente, que não vivem na miséria, mas estão í  beira de entrar na pobreza», explicou ao DN, acrescentando que este é um fenómeno que se veio a sentir desde o início do ano, quando se intensificaram os problemas económicos.”

Deixando de lado a má construção das frases (não se deve dizer “um fenómeno que se veio”, mas sim “um fenómeno que se tem vindo a sentir”), a notícia falha quase todos os pontos essenciais de uma notícia (onde, quando, como, etc).

Quantos emails recebe, semanalmente a Misericórdia e quantos desses emails pertencem í  classe média? A percentagem é significativa? Era costume receber emails a pedir ajuda alimentar? E esses emails serão de pessoas diferentes? Quantas? Quantas famílias representarão? Não estaremos a falar de meia dúzia de xicos-espertos que se querem aproveitar da “crise” para sacar alimentos í  borla? Não será um pouco abusivo intitular “Classe média está a pedir comida por ‘e-mail’ í s misericórdias”?

Como é que o presidente da UMP sabe que determinados emails são da classe média se “as pessoas evitam revelar o menos possível sobre si próprios”?

Adiante.

“Não estamos a falar de idosos, dos típicos desempregados, mas de pessoas com menos de 40 ou 45 anos que se calhar não deixam de pagar netcabo nem desmarcam as férias na agência de viagens mas passam fome”, conta Manuel de Lemos, que diz que ao seu próprio email já chegaram dezenas de pedido de ajuda.”

Claro que não é a jornalista a dizer isto, mas é ela que tira a conclusão. O Sr. Lemos – que devia ter mais tento na língua – diz que quem pede comida por email “se calhar não desmarca as férias nas agências de viagens”. Se calhar? Em que é que ficamos: desmarcam ou não desmarcam as férias? E continuam a pagar a netcabo? Como é que ele sabe? E quem lhe disse que essas pessoas têm entre 40 a 45 anos, se, como diz a Rita, as “pessoas evitam revelar o menos possível sobre si próprias”? É que, afinal, já sabemos a que grupo etário pertencem, que são da classe média, que continuam a pagar a Net e as viagens, mas que estão cheias de fome, coitadinhas…

Mais í  frente, Manuel de Lemos diz que o número de pessoas que vão comer í s Misericórdias também aumentou. Escreve a jornalista (mal, mais uma vez): “Idosos que vinham almoçar uma vez por semana e agora aparecem todos os dias, crianças e jovens”. Diz o Sr. Lemos: “estas pessoas novas quando chegam para comer, põem-se a um canto, comem rápido e vão-se embora, pois sentem alguma vergonha.”

Quem serão estas pessoas novas? Jovens e crianças? Será que vão comer sozinhos? Quantos são?

Se calhar, estou a ser demasiado picuinhas com a notícia, mas é assim que se criam os mitos.

“Sabes que a classe média já está a pedir ajuda í  Misericórdia para comer?”

“Não me digas!…”

“É verdade! Li no Diário de Notícias!…”

“É a crise…”

Trabalho há mais de duas décadas junto a quatro bairros sociais. As instituições de solidariedade social quase que se acotovelam para apoiar os moradores desses bairros. Conheço vários casos de idosos que recebem tantos produtos alimentares que os deixam a apodrecer na dispensa, sem nunca os utilizarem. Em alternativa, distribuem as embalagens de farinha e de arroz, as garrafas de azeite e os pacotes de bolachas, pelos vários membros da família, alguns deles pertencentes í  perigosa classe média que, assim, estão a utilizar a ajuda das instituições de solidariedade social para enfrentar a crise…

Ainda hoje, ao ver as reportagens dos milhares de pessoas na concentração de motards de Faro, na reunião de adeptos de tuning, no Fundão, nos concertos de Lou Reed, Leonard Cohen e no Festival das Marés, me apeteceu perguntar: quantos desses palermas da classe média terão já enviado um email para a Misericórdia, a pedir um naco de pão?…