O estado da nação: gasoso

Decorreu ontem, na Assembleia da República, o debate sobre aquilo a que se convencionou chamar “o estado da nação”.

Para os órgãos de comunicação social, o único interesse da coisa era ver como corria o primeiro duelo entre Sócrates e o novo líder da bancada do PSD (o terceiro, em três anos), Paulo Rangel.

Para mim, Paulo Rangel faz-me lembrar os putos gordinhos dos meus tempos de liceu, que estavam sempre a levar umas amonas do resto da malta. Provavelmente, é um gajo porreiro mas, como político parlamentar, ainda tem muito que aprender e foi trucidado por Sócrates, que parece ter nascido para aquilo.

E assim, Sócrates, Portas e Louçã foram os protagonistas daquela coisa que pode ser tudo, menos o “estado da nação”.

Louçã diz que a “taxa Robin dos Bosques” não é roubar aos ricos para dar aos pobres, mas uma espécie de conluio entre os ladrões. Sócrates fica escandalizado e diz a Louçã que não lhe admite que insinue que o governo é ladrão.

Portas acusa o governo de lucrar ainda mais com a descida do IVA e mostra-se indignado com o alcance demasiado curto das reformas sociais, como se o CDS fosse, agora, assim de repente, o partido defensor dos oprimidos e Sócrates responde com qualquer coisa de que já não me lembro nem interessa nada.

Em resumo: a nação ficou a saber que o seu estado é o gasoso – já que o debate não passou de um traque mal dado…

Terroristas e revolucionários

Nelson Mandela era terrorista?

Para os Estados Unidos era, até í  semana passada.

A Frente Armada Revolucionária da Colí´mbia (FARC) é uma organização revolucionária?

Para o Partido Comunista Português, continua a ser.

Dito isto, que é absurdo, passo a explicar:

Nelson Mandela era o líder do ANC (Congresso Nacional Africano) que, durante anos, lutou contra o apartheid, na ífrica do Sul. Essa luta não se fez só a nível político; teve, também, uma vertente de luta armada, de atentados bombistas, de assassinatos. Foi numa acção armada que Mandela foi preso e condenado a prisão perpétua. Por esse motivo, o Pentágono colocou o ANC na lista das organizações terroristas.

O resto da história é conhecido. O apartheid acabou, Mandela foi libertado e eleito presidente da ífrica do Sul, o ANC também ganhou as eleições. Mas, para os Estados Unidos, o ANC continuou a ser uma organização terrorista e Mandela, um perigoso terrorista. Sempre que um ministro ou qualquer outro representante do governo sul africano pretendia deslocar-se aos States, só o podia fazer se fosse a alguma reunião da ONU porque se quisesse, por exemplo, ir í  Disneylândia com os filhos, era muito provável que não conseguisse o visto de entrada nos EUA.

Esta semana, o assunto foi resolvido. O Congresso, finalmente, aprovou, por unanimidade (também era melhor…) a retirada do ANC da lista de organizações terroristas.

Mais vale tarde do que nunca.

Quanto í s FARC, toda a gente sabe que pouco têm a ver com as organizações revolucionárias dos anos 60, tão características da América Latina, de inspiração Guevariana: Tupamaros, Sandinistas, Sendero Luminoso…

Há muito tempo que as FARC são um exército ao serviço do narcotráfico e pouco ou nada têm a ver com ideologias revolucionárias (a menos que se considere revolucionário distribuir coca pelos filhos dos capitalistas, para assim acabar com essa praga que esmaga a classe operária, os soldados e os marinheiros, os pescadores e os camponeses…).

Quem não ficou satisfeito com a libertação de Ingrid Betencourt? Foi com a ajuda dos serviços secretos israelitas e norte-americanos? E qual é o problema?

Na Assembleia da República, todos os partidos votaram a favor de uma moção que felicitava a libertação de Ingrid Betencourt. O PCP votou contra.

Os funcionários do PCP, que continuam a classificar as FARC como revolucionárias, deviam juntar-se aos congressistas norte-americanos que, durante todos estes anos, consideraram Mandela um terrorista.

Depois, todos juntos, podiam ir í  merda.

Vasco Pulido Valente está velho

É pena…

Há anos que leio as suas crónicas. í€s sextas, sábados e domingos, assim que compro o Público, vou í  última página, ler a crónica do VPV.

Claro que nem sempre estou de acordo com ele. O seu pessimismo, por vezes, parece síndroma depressivo não tratado, mas a sua lucidez e a sua capacidade em dizer muito em poucas linhas, compensavam o resto. A sua independência, também.

Claro que, na sua história, havia aquela mancha de ter sido deputado do PSD – como é que alguém que foi membro de um órgão do Poder poderia ser independente em relação a esse mesmo Poder?

Mas VPV penitenciava-se, muitas vezes, desse seu “erro”, e zurzia, í  direita e í  esquerda, embora sempre um pouco mais í  esquerda do que í  direita (algo que, talvez, Freud pudesse explicar, se VPV o deixasse falar…)

Agora, VPV acabou.

Primeiro, aceitou ser comentador da TVI, o canal que pior televisão faz em Portugal, o canal do lixo televisivo.

Precisava de dinheiro? Tinha pedido, que eu emprestava.

Tudo, menos colaborar com aquele nojo de televisão.

Depois, para dar cabo do resto, parece estar apaixonado por Manuela Ferreira Leite!

Hoje, na sua crónica (que foi a última das suas crónicas que alguma vez mais lerei), diz, entre outras barbaridades: «Portugal já saiu com Cavaco da cauda da “Europa”; já passou com Guterres pelas maravilhas do diálogo e da igualdade social; já esperou pelo “choque fiscal” de Barroso; e já assistiu, abismado, í s “reformas” de Sócrates. O que faltou desde o princípio foi uma visão fria e sem retórica de um país, que largamente falhou a oportunidade da “Europa” e continua pobre e atrasado»

E, até aqui, tudo bem. VPV faz, como é costume, a sua avaliação pessimista, ignorando, por exemplo, os bons indicadores na área da saúde, os apoios sociais, cada vez maiores, o desenvolvimento que nos tem feito, apesar de tudo, aproximar da tal “Europa”. Mas, enfim, ele tem razão, continuamos pobres e atrasados e perdemos várias oportunidades.

O problema, é o que ele diz a seguir:

«Suspeito (e, por enquanto, só suspeito) que Manuela Ferreira Leite não partilha o sentimentalismo indígena e nos tratará como merecemos: isto é, sem fabricar, nem espalhar ilusões.»

Por outras palavras, a jovem política, que nunca teve responsabilidade nenhuma na política nacional, vai, finalmente, fazer-nos “cair na real” e tratar de nós como nós merecemos – isto é, como completos patetas, que necessitamos de alguém que olhe por nós, alguém que cuide das nossas finanças, alguém que endireite o país, como fez o Dr. Salazar – alguém que, certamente, não deixará de nomear Vasco Pulido Valente como ministro da Cultura a Sério.

Tenho pena…

Final do Euro 2008 – torcer por quem?

Não gosto de espanhóis, por razões tão óbvias que nem me dou ao trabalho de enumerar. Pela mesma razão e mais pelo Adolfo, também não gosto de alemães.

Sendo assim, por quem vou torcer hoje, na final do Euro 2008?

É verdade que a Alemanha derrotou Portugal por um tangencial 3-2 e se viu aflita para vencer a Turquia, pelos mesmos 3-2, Turquia que Portugal derrotou, com alguma facilidade, por 2-0. Essa mesma Turquia conseguiu eliminar a Croácia, embora só nos penáltis, Croácia que, como se lembram, venceu a Alemanha.

Pelo seu lado, os espanhóis derrotaram a Rússia por duas vezes, por 4-1 e por 3-0, mas só nos penáltis conseguiram ultrapassar a Itália, que foi humilhada pela Holanda, por 3-0, ao passo que a Holanda foi derrotada pela Rússia, por 3-1, a mesma Rússia que, como se viu, foi derrotada pela Espanha.

Em resumo: vou torcer pela equipa de arbitragem.

O imposto “xerife de Notingham”

Agora inventaram uma coisa chamada “imposto Robin dos Bosques” e que é assim: o Estado aumenta os impostos aplicados aos lucros das petrolíferas e, com o dinheiro arrecadado, ajuda os mais necessitados a pagar os combustíveis (as pequenas e médias empresas, os agricultores, os pescadores, etc).

Tirar aos ricos para dar aos pobres – daí o Robin dos Bosques.

Em Itália, o governo já pratica este tipo de imposto.

Por cá, Sócrates está a pensar nisso.

Pelo contrário, o presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), Vítor Santos, propí´s que os consumidores bem comportados da EDP, aqueles que pagam as facturinhas todas a tempo e horas, passassem a pagar as contas dos caloteiros. Explicado melhor: o Vítor Santos pegava nas facturas que não tinham sido pagas e dividia-as por todos nós, os que cumprimos.

Pagava o justo pelo pecador.

A isto, eu chamaria o imposto “xerife de Notingham.”

Melhor: eu chamaria a isto uma lata do caraças e faria a Vítor Santos o que Robin dos Bosques fez ao xerife de Notingham (empalou-o, não foi?…)

Aristides, o bloqueador

Alguém sabe quem é Aristides Teixeira?

Daniela Gouveia, do Público e Roberto Dores, do Diário de Notícias, sabem.

E eu também.

Aristides Teixeira é o pomposo líder da Associação de Utentes da Ponte 25 de Abril (ADUP).

Em Junho de 1994, era Cavaco primeiro-ministro, a ADUP e milhares de anónimos, incluindo dois camionistas, mais tarde implicados em negócios menos claros, decidiram bloquear a Ponte 25 de Abril e, perante a benevolência das forças policiais, fazer de conta que estavam a fazer uma revolução.

Agora, 14 anos depois, Aristides decidiu comemorar a data e organizou um jantar no Café Império.

Os membros da ADUP compareceram em peso. Segundo Daniela Gouveia, do Público, o jantar «teve apenas seis lugares ocupados». Segundo Roberto Dores, do DN, o jantar «juntou uma dezena de membros da ADUP».

Das duas, uma: ou Daniela não pí´s os pés no Café Império e calculou que só lá fossem meia dúzia de insurrectos, ou Roberto Dores não sabe contar.

Para o caso, pouco importa. Segundo Dores, Aristides disse «o engenheiro Sócrates que se cuide… o governo teve a lata de dizer que os combustíveis só afectam quem tem carro, mas nós avisamos que toda a economia está a ser afectada e que corremos o risco de ter aqui a Argentina».

Aristides é pateta! Quem me dera ter aqui a Argentina, para poder visitar os glaciares e a península Valdez sempre que me apetecesse!

Sócrates – cuida-te! Se não te pões a pau, vem aí o Aristides e os seus 5 acólitos (9, segundo o DN) e ainda te dão uma tareia, pá!

A reforma de miséria de Salter Cid

Salter Cid é, actualmente, vereador da Câmara de Lisboa, pelo PSD.

Em 1990, entrou para a Marconi, exercendo funções de marketing e comunicação. Logo nesse ano e no seguinte, foi requisitado por Cavaco Silva para secretário de Estado das Comunicações. Voltou para a Marconi e, em 1994/95, Cavaco chamou-o, novamente, desta vez para secretário de Estado da Segurança Social. Foi nessa qualidade que aprovou o regulamento do Fundo Especial de Melhoria de Segurança Social do Pessoal da Marconi. Uma das benesses desse Fundo permite, aos pensionistas da Marconi aplicar, como suplemento extra, uma taxa de 15% sobre o valor da pensão estatutária calculada na data da passagem í  situação de pensionista. O referido Fundo tinha, no ano passado, um passivo de mais de 12 milhões de euros.

Durante o governo de Durão Barroso, Cid foi requisitado novamente, desta vez para presidir í  Companhia das Lezírias. Levou consigo, da PT, a secretária (3.500 euros/mês) e o motorista (3.300 eurpos/mês). O Tribunal de Contas desconfiou do salário que Cid auferia na Companhia das Lezírias (27.500 euros/mês). O contrato entre a Companhia e Cid foi celebrado um ano depois de Cid ter iniciado funções e o próprio Cid assinou o contrato, em nome da Companhia.

Em 2007, com 17 anos de casa (Marconi/PT), embora só 6 de actividade, Cid solicitou a passagem í  pré-reforma, que lhe foi concedida. Ganha 17.900 euros/mês pelos 6 anos efectivos que trabalhou para a Marconi/PT.

Cid acha pouco. Acha que tem direito ao mesmo vencimento que o funcionário da PT, no activo, com a sua categoria. Meteu a PT em Tribunal.

Não foi preso.

Moiros de trabalho

Gosto muito do que faço e só trocava isto por fazer coisa nenhuma.

É um sonho antigo: ser pago para não fazer nada ou, melhor ainda, ser pago por não fazer nada.

Mas enquanto esse sonho não se concretiza, tenho que trabalhar.

Em média, são 45 horas por semana, mas há semanas piores, em que posso chegar í s 62 horas semanais.

Cada vez que isso me acontecia, ficava ligeiramente preocupado. Trabalhar mais de 48 horas por semana é ilegal e não me apetecia nada, depois de tanto trabalho, ainda levar com uma multa em cima.

Agora, estou mais descansado.

O Conselho Europeu dos ministros do Trabalho e dos Assuntos Sociais aprovou uma directiva que permite aos estados membros alargar o limite do horário semanal de trabalho até í s 65 horas!

A luta de gerações de trabalhadores, que pugnaram pelo fim do trabalho escravo do sol-a-sol, foi toda por água abaixo.

A partir de agora, nada pode impedir os patrões de exigirem serões aos seus trabalhadores.

No tempo da ditadura, a propaganda do regime inventou uma coisa chamada Serões para Trabalhadores, que era assim uma espécie de espectáculos de variedades, organizado pela FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho) e que se destinavam a entreter as famílias (já repararam como as coisas tinham nomes sinistros, no tempo da Outra Senhora?…)

Agora, com 65 horas semanais de trabalho, os serões para trabalhadores transformar-se-ão em outra variedade de espectáculo: trabalhar mais pelo mesmo ordenado.

Obrigado, União Europeia!

Portugal desiste do Euro 2008

Foi pena. A selecção estava a jogar tão bem, ganhou com tanta limpeza, quer í  Turquia, quer í  República Checa, que foi uma desilusão ter que desistir.

Bem, eu não tenho a certeza se foi isso que aconteceu, mas deduzo que tenha sido por causa da saída de Scolari para o Chelsea.

Ontem í  noite, quando liguei a televisão, o canal 1 estava a transmitir, em directo, uma conferência de imprensa em que Scolari explicava que tinha que ir trabalhar para o Chelsea porque o Abramovich tinha mais dinheiro que o Madaíl. Como não tenho nada a ver com isso, mudei para a Sic, mas também esse canal transmitia, em directo, a mesma conferência de imprensa. Em desespero de causa, mudei para a TVI – coisa que só costumo fazer quando eles transmitem um jogo do Benfica – e lá estava, em directo, a mesma conferência de imprensa!

Ora, eu não me lembro de os três canais estarem a transmitir a mesma coisa desde que… desde que… Acho mesmo que nunca transmitiram nada em simultâneo, nem as comunicações ao país do primeiro-ministro ou do Presidente da República.

Logicamente, deduzi que, para a RTP, a SIC e a TVI estarem a transmitir, em directo e em simultâneo, a conferência de imprensa de um treinador de futebol, só poderia ser por três razões:

1º Scolari tinha assassinado Cavaco Silva e estava a confessar o crime, em directo;

2º Scolari tinha sido apanhado a roubar uma caixa registadora num supermercado suíço e ia ser preso;

3º Scolari ia treinar o Chelsea já amanhã, deixava a selecção portuguesa órfã e, por essa razão, a «equipa de todos nós» ia desistir do Euro 2008.

Deduzi que esta hipótese era a mais provável e fiquei triste.

Agora a sério: os responsáveis pelas três televisões não têm vergonha na cara?! Acham sinceramente que é notícia nacional o facto de um brasileiro ir treinar uma equipa inglesa e pensam que essa notícia mereça a transmissão em directo de um conferência de imprensa, em que jornalistas ingleses fazem perguntas sobre o futuro de um treinador de futebol?

Vão dar banho ao cão!

Que banho (checo) de bola!

Os que sabem o significado de “banho checo”, perceberão o que quero dizer.

O banho checo é mais ordinarote que o banho turco.

E foi isso que aconteceu. A selecção não jogou tão bem, o Ricardo e os centrais andaram um bocado aos papéis nos cantos e nos cruzamentos, mas a vitória acabou por ser mais dilatada do que contra a Turquia e, aparentemente, foi mais fácil vencer os checos.

Scolari fez um bom trabalho, nestas duas semanas e, também por isso, conseguiu um belo contrato com o Chelsea. Não há dúvida que conseguiu formar uma equipa – e a prova disso foi o terceiro golo contra a República Checa, um golo que só se consegue quando existe equipa.

Venha de lá a Suíça!