Morrer no caminho

Um grupo de trabalho, contratado pelo Ministério da Saúde, propõe o fecho de diversas urgências e a abertura de outras.

Reportagens da RTP, de norte a sul do país, mostraram testemunhos de velhotes, dizendo, a propósito do fecho do SAP lá da terra: “vamos morrer no caminho”.

Os portugueses são mestres na criação de frases deste tipo.

Em http://bompovo.spreadshirt.net, encontramos t-shirts com algumas dessas frases. Mas faltam lá muitas.

São frases que mostram a pequenez do povinho.

Trabalhando na Saúde há 30 anos, já ouvi muitas frases destas.

Uma das que mais me irrita é “bem se pode morrer”, proferida por uma utente do SNS, com dores nas costas, que está í  espera da sua consulta há quase uma hora. Ainda na semana passada, no serviço de Atendimento Complementar, passavam uns minutos das 21 horas, a TV transmitia o jogo do Sporting e, como é habitual quando há jogos na televisão, não havia doentes. Uma utente inscreveu-se e, logo a seguir, interpelou a administrativa: “então, não há médicos?”

Foi atendida quatro minutos depois de se ter inscrito!

Quatro minutos – e mesmo assim protestou!

Só lhe faltou dizer “bem se pode morrer”.

Algo de parecido se passa com esta história das urgências.

Claro que não confio muito nos tecnocratas da saúde.

É evidente que o que o ministro quer é poupar dinheiro, fechando serviços.

Mas também é verdade que os SAP que foram abrindo por esse país fora, dão, í s pessoas, uma falsa sensação de segurança, já que não estão equipados para salvar a vida de ninguém.

Se um velhote tiver um AVC a meio da noite, o melhor é ir directamente para o Hospital mais próximo, mesmo que fique a uma hora de caminho. Se, antes disso, passar pelo SAP lá da terra, só vai atrasar o início da terapêutica porque, o máximo que o médico de serviço lhe vai fazer, é escrever uma carta e enviá-lo para o hospital. Entretanto, já passou mais meia hora. E talvez, desse modo, acabe por morrer no caminho.

Também já trabalhei num SAP que estava aberto 24 horas.

Durante a noite, os únicos doentes que me apareciam eram, quase sempre, os doentes com dores de dentes ou com dores de ouvidos. São dores tramadas. Um tipo toma uma aspirina ou um dois ben-u-rons, a dor não passa, mas vai-se aguardando… pode ser que passe com uma noite bem dormida. Só que ninguém consegue dormir com uma dor de dentes e, aí por volta das 5 da manhã, um tipo já não aguenta mais e vai ao SAP, na esperança de que o médico lhe tire a dor.

Convenhamos que ter SAPs abertos toda a noite, para resolver odontalgias e otalgias, é capaz de ser desperdício.

O problema é que, no meio desta polémica, ninguém fala claro.

O ministro devia dizer, claramente: tenho que cortar nas despesas; os SAP que estão abertos durante a noite são falsos serviços de urgência; não estão equipados para resolver problemas verdadeiramente urgentes; sucessivos governos andaram a enganar a malta; ir a um SAP com uma dor no peito, podendo ser um enfarto, é puro desperdício; o médico que lá está de serviço não vai fazer nada; mais vale ir directamente para o hospital de referência; portanto, vamos fechar alguns SAP – poupamos dinheiro e, assim como assim, os casos verdadeiramente urgentes serão tratados onde devem ser: nos hospitais.

A oposição devia dizer: o que o ministro quer é poupar dinheiro; ao fechar os SAP, está a tirar aos cidadãos os serviços de proximidade que foram sendo criados ao longo dos últimos anos; nós, se estivéssemos no governo e tivéssemos coragem, faríamos o mesmo.

De qualquer modo, o povinho continuará a dizer: bem se pode morrer!…

Por que não posso levar pistolas de abate de gado no avião?

Aproxima-se o meu segundo período de férias. Planeei um fim-de-semana em Praga, com a malta toda. Quero rever essa cidade por onde passei, í  pressa, há cerca de 6 anos.

Com toda esta história dos possíveis atentados, estava na dúvida do que poderia levar comigo, a bordo do avião, na cabina. Confesso que estava preocupado, sobretudo, com a possibilidade de não me deixarem levar, por exemplo, um livrinho, para ler na viagem. Imaginem que ando a ler um livro chamado “Como fazer uma bomba a bordo de um avião e como fazê-la explodir, nas barbas do piloto”. Será que poderia levar um item como este?

E o maço de cigarros, para matar o vício, mal aterrasse em Praga – será que me seria permitido levar o maço de cigarros comigo? É que o tabaco mata, como todos os maços anunciam! E o isqueiro? E o telemóvel? E um pacote de excelentes bolachas torradas Triunfo?

Decidi ir verificar. Fui ao site da TAP e, no endereço http://www.inac.pt/hthttm/art_proib_transp.asp

descobri que não posso levar comigo, por exemplo, pistolas de abate de gado! Francamente! Quem é que pode viajar para Praga sem uma simples pistola de abate de gado?

Para quem não sabe o não pode levar consigo, na cabina do avião, aqui fica a lista:

a) Armas de fogo e outras

Qualquer objecto que possa, ou aparente poder, disparar um projéctil ou causar ferimentos, nomeadamente: armas de fogo de qualquer tipo (pistolas, revólveres, espingardas, caçadeiras, etc.); réplicas ou imitações de armas de fogo; componentes de armas de fogo (excluindo miras telescópicas e óculos); pistolas e espingardas de ar comprimido; pistolas de sinais; pistolas de alarme; armas de brinquedo, de qualquer tipo; armas de zagalotes; pistolas de pregos e pistolas de cavilhas, industriais; bestas; fisgas e fundas; armas de caça submarina; pistolas de abate de gado; dispositivos de atordoamento ou electrochoque, e.g. pistoletes para gado, armas de dardos eléctricos (tasers); isqueiros com forma de arma de fogo.

b) Armas pontiagudas e objectos cortantes

Artigos com pontas aguçadas ou lâminas susceptíveis de causar ferimentos, nomeadamente: machados; flechas e dardos; crampons; arpões e setas; piolets e picadores de gelo; patins de gelo; navalhas de tranca e navalhas de ponta e mola, com lâminas de qualquer comprimento; facas, incluindo facas cerimoniais, com lâminas de comprimento superior a 6 cm, de metal ou outro material suficientemente forte para ser usado como arma; cutelos; machetes; navalhas e lâminas de barbear (excluindo as giletes de recarregar e as giletes descartáveis, com lâminas encapsuladas); sabres, espadas e bengalas de estoque; escalpelos; tesouras com lâminas de comprimento superior a 6 cm; bastões de esqui e de marcha; rosetas de arremesso (shurikens); ferramentas com potencial para serem usadas como arma, e.g. berbequins e pontas de broca, facas tipo x-acto, facas multiusos, serras de todos os tipos, chaves de parafusos, pés de cabra, martelos, alicates, chaves de porcas/fendas, maçaricos.

c) Objectos contundentes

Qualquer objecto contundente susceptível de causar ferimentos, nomeadamente: tacos de baseball e softball; tacos ou bastões, rígidos ou flexíveis, e.g. matracas, mocas, cassetetes; tacos de críquete; tacos de golfe; sticks de hóquei; sticks de lacrosse; pagaias de caiaque e canoa; skates; tacos de bilhar; canas de pesca; equipamento de artes marciais, e.g. soqueiras, bastões, mocas, nunchakus, kubatons, kubasaunts

d) Explosivos e substâncias inflamáveis

Qualquer substância explosiva ou altamente combustível que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: munições; cartuchos explosivos; detonadores e espoletas; explosivos e engenhos explosivos; réplicas ou imitações de material ou engenhos ; explosivos; minas e outros explosivos militares; granadas de todos os tipos; gases e contentores de gás, e.g. butano, propano, acetileno, oxigénio, em grande volume; fogo de artifício, archotes de qualquer tipo e outros artigos pirotécnicos, incluindo poppers e fulminantes de diversão; fósforos não amorfos; geradores de fumo; combustíveis líquidos inflamáveis, e.g. gasolina, gasóleo, fluido de isqueiro, álcool, etanol; tintas pulverizáveis; terebentina e diluentes; bebidas alcoólicas de teor alcoólico superior a 70% em volume (140% proof);

e) Substâncias químicas e tóxicas

Qualquer substância química ou tóxica que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: ácidos e bases, e.g. pilhas e baterias com risco de derrame; substâncias corrosivas ou descolorantes, e.g. mercúrio, cloro; aerossóis neutralizantes ou incapacitantes, e.g. mace, gás lacrimogéneo; matérias radioactivas, e.g. isótopos medicinais ou comerciais; venenos; matérias infecciosas e agentes biológicos perigosos, e.g. sangue contaminado, bactérias e vírus; matérias susceptíveis de ignição ou combustão espontâneas; extintores de incêndio.

A lista é longa e fastidiosa e existem alguns itens que são incompreensíveis. Pergunto-me: quem iria viajar, seja para onde for, levando consigo “minas e armadilhas militares”?

Por outro lado, por que carga de água, não poderei viajar, transportando, comigo “bactérias e vírus”? O que vou eu fazer í  minha querida sinusite?

Será que tenho que a deixar em casa?

Os ilegais do Ginjal

Passear í  beira-rio, no Ginjal, é um privilégio, repito.

Nestes primeiros dias de Outono, com aquela luz especial a derramar-se sobre o casario de Lisboa, caminhar ao longo do Tejo, por volta das 6 da tarde, faz-me sentir muito bem.

São cerca de 5 km, ida e volta, passando pelos restaurantes desactivados do Ginjal, as fábricas de conservas de peixe abandonadas, o Atira-te ao Rio e o Ponto de Encontro, o elevador da Boca do Vento (avariado), e continuando por ali fora, mesmo até ao fim do cais.

A paisagem é sempre a mesma, mas sempre diferente, conforme a hora do dia, a estação do ano, a intensidade da luz: muda o céu, muda a cor do Tejo. Na outra margem, também Lisboa parece uma cidade diferente, de cada vez que percorremos aquele caminho.

Os habitantes do Ginjal devem ser meia dúzia de idosos, que resistem em casas a prometer derrocada para breve.

Mas a população do Ginjal aumentou recentemente. Famílias de emigrantes ilegais (romenos?), instalaram-se nas ruínas de uma das fábricas de conservas.

Aqui mesmo.

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Por entre montes de lixo. O cheiro é nauseabundo. Ao cheiro do lixo acumulado, junta-se, agora, o aroma peculiar de urina e fezes humanas.

A Câmara e a Junta de Freguesia já têm conhecimento do que se passa. Um jornal local disse, até, que alguns destes emigrantes se entretêm a assaltar os passeantes. Nunca vi tal coisa. No entanto, não deixa de ser anacrónico. O tempo vai passando e a densidade populacional deste local vai aumentando.

Custa a crer que se consiga viver no meio de tanto lixo, sem um tecto digno desse nome. Como será quando começar o Inverno?

Mas há compensações.

É isto que estes emigrantes ilegais vêem, todas as manhãs, quando acordam!

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Ferenc – o aprendiz de democrata

O primeiro-ministro húngaro foi apanhado a dizer que o governo tinha que mentir ao povo, de manhã í  noite, para justificar as medidas de austeridade económica, impostas para que o país possa aderir í  União Euroipeia. Uma inconfidência que alguém gravou e passou í  comunicação social.

Os húngaros vieram para a rua, exigiram a demissão do governo, deitaram fogo a carros, apedrejaram a polícia e provocaram o caos em Budapeste. Dizem que tudo foi orquestrado pela a extrema-direita, mas o que é certo é que mesmo os apoiantes do primeiro-ministro ficaram muito desiludidos com a performance de Ferenc Gyurcsany.

Não se mente assim ao povo.

Aliás, não se diz, em voz alta, que se mente assim ao povo.

A Hungria ainda é uma jovem democracia. Ainda tem muito que aprender.

Portugal podia dar-lhe uma ajuda, não?…

Gordon ou Magron?

Vinha aí um furacão, ia atingir os Açores e foi uma festa na comunicação social. Chamava-se Gordon e ia arrasar árvores, arrancar telhas, esbarrondar casebres, estilhaçar vidraças, afundar barcos. Haveria vários motivos de reportagem: mulheres a chorar, homens lamentando-se, todos pedindo subsídios ao governo.

Os telejornais entraram num frenesim de directos.

Em directo do Faial, em directo do Pico, em directo da Terceira.

Em todos eles, um repórter nervoso, relatava banalidades. Ao fundo, um oceano plácido, lambia os Açores calmamente.

A Protecção Civil fez o que lhe competia: mandou amarrar embarcações, fechar escolas, arregimentar funcionários, que passaram a noite em claro, í  espera da catástrofe.

Mas o tal Gordon, assim que se apercebeu que tinha errado o caminho e que ia passar por território nacional, rapidamente se transformou numa tempestade de trazer por casa.

Foi um flop.

Até os furacões nos ignoram, caraças!

Equipamentos alternativos

Ontem í  noite, ao fazer zaping ao acaso, reparei que, na Sport TV, estava a dar um jogo de futebol entre uma equipa de amarelo e outra de grená.

Como o aparelho estava com o pio cortado, demorei algum tempo até conseguir perceber quem estava a jogar.

Pois eram o Braga e o Leiria!

Desde quando é que o Braga abandonou o seu equipamento igual ao do Arsenal de Londres (camisola vermelha, com mangas e colarinho brancos) e passou a jogar de amarelo? E desde quando é que o União de Leiria deixou de equipar de branco e optou pelo grená?

Aliás, no outro dia, vi o Sporting jogar com camisolas cor de fezes de bebé e o Benfica, quando jogou contra o Copenhaga (que equipava de branco) vestia-se de laranja!

Eu sou do tempo em que um clube só mudava de equipamento quando as camisolas se podiam confundir com as do adversário. Por exemplo, o Benfica, quando recebia o Braga, fazia o favor de jogar de branco, para não haver confusões.

Agora, é o que se vê!

Não há dúvida: no futebol, deixou de haver amor í  camisola!

“Sol” – um jornal novo, mas…

Saiu o novo semanário dirigido por José António Saraiva. Chama-se Sol e está a ser levado ao colo pela comunicação social em geral, com referências em todos os telejornais, entrevistas ao director, publicidade agressiva.

Sou um dependente de jornais. Aliás, sou a única pessoa que eu conheço que compra jornais todos os dias desde, pelo menos, há cerca de 30 anos. E sublinho que conheço muitas pessoas.

Já li o primeiro número do Sol e digo, está bem, saúdo o nascimento de um novo semanário que compita com o Expresso, mas

Mas“, aliás, devia ser o nome do novo semanário.

Era um bom título.

A conjunção adversativa “mas” define o espírito português.

“A vida corre-me bem, mas podia ser melhor”, “o tempo está bom, mas aposto que vai chover amanhã”, “a comida está boa, mas falta-lhe um pouco de sal”, “o colesterol baixou, mas os triglicéridos estão altos”, “o puto teve boas notas, mas ainda não sabe que curso vai seguir”…

Há sempre um mas

E o Sol publica, logo na primeira página, um Manifesto cheio de mas.

Vinte e seis mas!

Diz que é “apartidário mas não apolítico, isento mas não indiferente, rigoroso mas não burocrático, sereno mas não amorfo, ponderado mas não indeciso, responsável mas não previsível”, etc, etc.

Parece que, afinal, os adjectivos, em português, têm pouco significado.

Não é suficiente, por exemplo, dizer que o jornal é claro – é preciso acrescentar: mas não superficial”.

Não é suficiente afirmar que o jornal é directo – cumpre sublinhar: mas não simplista”.

Afinal, dizer que o Sol é um jornal “irreverente” obriga í  frase seguinte: mas não inconsciente”.

Não me agrada muito um jornal com tantos mas.

Mas, afinal, que tipo de jornal é este?

Desfolhei as suas 96 páginas e quase nada me surpreendeu: as mesmas notícias sobre a paupérrima politiquice nacional, uma sondagem irrelevante sobre quem foi o melhor presidente da república, um aspecto gráfico de gosto muito duvidoso, uma tentativa de agradar a gregos e a troianos, com assuntos muito sérios e trivialidades de revista cor-de-rosa, um espaço preenchido por Margarida Rebelo Pinto (o que raio terá esta senhora para nos dizer?), uma página verdadeiramente decepcionante de Marcelo Rebelo de Sousa, escrita como se fosse um blogue (que me interessa a mim o que o Marcelo faz, dia a dia?) – e a primeira página, então, é mesmo pobre. Como título-choque, os responsáveis do Sol escolheram o título: “Isaltino tem casa apreendida”. Quem é o Isaltino? Que me interessa a mim que um obscuro presidente da Câmara de um concelho minúsculo como Oeiras, tenha uma casa apreendida? É isto que os responsáveis do jornal consideram como notícia que mereça a primeira página do primeiro número de um novo semanário que se pretende “surpreendente mas não sensacionalista”.

Depois de ter ouvido, na RTP, Marcelo Rebelo de Sousa dizer, no seu comentário semanal, dizer que o objectivo do Semanário era levar Cavaco a primeiro-ministro e ter ouvido, hoje, no Telejornal, o tal Isaltino, dizer que o Sol tem como objectivo levar Marques Mendes a primeiro-ministro, começo a desconfiar do nobre intuito de A.J. Saraiva de fundar um jornal que seja uma alternativa ao Expresso. Aliás, no seu primeiro editorial, Saraiva ataca a decisão do governo de fechar maternidades, dizendo que foi um erro porque o interior vai ficar ainda mais desertificado. Nem uma palavra para o facto de essas maternidades, de facto, não terem as condições mínimas de segurança, nem uma palavra para o facto de não fazer sentido existirem maternidades a distarem 30 ou 50 km, ambas com pouco pessoal, ambas mal equipadas e que é muito mais seguro ter apenas uma maternidade bem equipada e com pessoal suficiente. Saraiva não tem autoridade para dar opiniões sobre uma coisa que desconhece em absoluto!

Será que Saraiva sabe que, se a maternidade não estiver devidamente equipada, aumenta o risco de morte neo-natal e de complicações graves para a mãe? Que é mais seguro transportar a grávida para um centro devidamente equipado, mesmo que este fique a 50 km do local de residência da futura mãe? Ou será que Saraiva pensa, como muitos portugueses, que deve existir uma maternidade em cada aldeia que, como não há obstetras em número suficiente (nem nunca haverá), poderá ter, ao serviço, uma senhora curiosa, que ajuda ao parto, como também ajuda nos abortos?

Basta que Saraiva imagine uma grávida que viva na Fonte da Telha e que comece com dores de parto a meio de uma manhã de domingo, em Agosto. Será que ele sabe quanto tempo é que essa grávida demorará a chegar ao Hospital Garcia de Orta, em Almada, tendo que percorrer a estrada até í  Costa da Caparica, cheia de veraneantes, com carros parados nas bermas, tudo entupido. Essa grávida, demorará mais tempo a chegar a Almada do que uma grávida de Elvas demorará a chegar a Badajoz, para parir o seu bebé. A solução será construir uma maternidade na Fonte da Telha?

Em resumo, para primeiro número, o Sol desiludiu-me. Claro que, como é a primeira vez, pode ser que a coisa melhor. A nossa primeira queca é, habitualmente, um fracasso e, depois, a gente vai melhorando. O problema é que os fundadores deste jornal são já homens batidos. Tinham obrigação de fazer melhor.

Enfim… um novo semanário que, de certo modo, não me entusiasmou… mas, para a semana, pode ser que seja melhor…

Luis F… Vieira

Não faço comentários í  transcrição das escutas telefónicas entre o major Valentim Loureiro e o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira.

Não vou dizer que, afinal, LFV também teve uma palavra a dizer na escolha dos árbitros para determinados jogos. Não vou espantar-me por, mais uma vez, as transcrições das escutas, que deviam ser sigilosas, aparecem estampadas nos jornais.

Apenas quero chamar a atenção para o facto do presidente do Benfica ter sido um pouco malcriado.

Exemplo:

“Valentim Loureiro – Eu penso que ou o Lucílio… o António Costa, esse Costa não lhe dá… não lhe dá nenhuma garantia?

Luis Filipe Vieira – A mim?! Foda-se, o António Costa? Foda-se!… Isso é tudo Porto!

VL – E o Proença?

LFV – O Proença também não quero! Ouça, é tudo para nos foder!” 

Não me parece bem que um presidente de um clube de tão alto gabarito use termos destes, ainda por cima, estando ao telefone com uma pessoa tão educada e polida como o major Valentim Loureiro.

Por favor, Sr. Vieira, tenha tento na língua! Imagine que havia crianças a ouvir este telefonema?…

Uma boa ideia do Hospital Sobral Cid

Dois membros do conselho de administração do Hospital Psiquiátrico Sobral Cid, de Coimbra, foram exonerados.

Um dos motivos: o Hospital financiou a Académica de Coimbra.

Acho mal que tenham sido exonerados, se foi só por isso.

Parece-me uma excelente ideia.

Seguindo este exemplo, o Benfica podia passar a ser patrocinado pelo Hospital Miguel Bombarda e o Sporting pelo Hospital Júlio de Matos.

Assim, nas camisolas dos jogadores, em vez daquele incompreensível “Espírito Santo Mantorras”, ou “Espírito Santo Liedson”, poderíamos ver, por exemplo, “Simão Miguel Bombarda” ou “Ricardo Júlio de Matos”.

Digam lá se não tinha mais graça?

Abaixo as baixas!

Os jornais deram conta de uma investigação da Inspecção Geral de Saúde, segundo a qual, mais de metade das baixas médicas que os inspectores analisaram, não seriam justificadas. O ladino Macário Correia, presidente da Câmara de Tavira, veio a público insurgir-se contra este regabofe, contra esta espécie de aliança entre os médicos e os trabalhadores que não querem trabalhar. O especialista Vital Moreira, no seu artigo do Público, criticou o presidente da Ordem dos Médicos, por este ter afirmado que os médicos não são polícias, e propõe que se extinga a Ordem.

Ora bem, como médico, custa-me um pouco escrever sobre este assunto, já que estou directamente e diariamente envolvido nele.

No entanto, quero deixar aqui, apenas, alguns exemplos correntes:

1. Um doente vem í  consulta na quarta-feira, dizendo que tem estado há dois dias com vómitos e diarreia. Ficou de cama na segunda e na terça, porque, diz ele, nem tinha forças para se levantar. Não veio ao médico porque decidiu tratar-se com as mesinhas caseiras, o caldo de galinha, o arroz branco; os vómitos melhoraram, mas continua com diarreia. Que faço? Acredito no que ele me está a dizer e dou-lhe baixa desde segunda-feira, ou não colaboro com o regabofe e passo-lhe, apenas, uma declaração em como ele compareceu na consulta na quarta-feira, sabendo que eles ficará com dois dias de faltas injustificadas?

2. Uma doente refere que tem lombalgias intensas, que mal pode andar, razão pela qual já não vai trabalhar há três dias. Entretanto, foi tomando uns Trifenes e fazendo umas massagens com Reumon gel, mas a coisa não melhora. Observo-a. Custa-lhe fazer extensão e flexão da coluna, que também lhe dói a palpação. Medico-a em conformidade e passo-lhe cinco dias de baixa.

Volta í  consulta no fim da baixa, dizendo que a medicação não está a resultar e que a dor já se reflecte num dos membros inferiores. Prolongo-lhe a baixa, modifico a terapêutica e peço-lhe uma radiografia da coluna lombo-sagrada.

Regressa no fim da nova baixa, dizendo que a radiografia só estará pronta dali a 5 dias e que ainda não está melhor.

Que faço? Prolongo-lhe a baixa ou deixo de colaborar no regabofe?

3. Uma mulher de 80 anos vive sozinha com o filho. Ela recebe a reforma mínima, ele tem um trabalho indiferenciado, ganhando o ordenado mínimo. A velhota sofre um AVC e fica temporariamente acamada. O filho tem que cuidar da mãe, já que não tem mais ninguém. Para isso, terá que ter baixa. Só que a baixa para assistência í  família não é remunerada.

Que faço? Passo-lhe baixa por doença, a ele, para que ele possa cuidar da mãe, enquanto não se consegue arranjar um lar da Segurança Social, ou não colaboro com o regabofe e quero que eles, velhota e filho, se lixem, já que não tenho culpa nenhuma que ele só ganhe o ordenado mínimo?

4. Uma costureira de 55 anos ficou desempregada porque a fábrica foi í  falência. Está no Fundo de Desemprego, onde alguém a informa que o melhor é pedir baixa ao médico, caso contrário, corre o risco de ser chamada para empregada de limpeza ou outro trabalho qualquer pesado, e ela já não pode, porque está cheia de artroses.

Que faço? Colaboro com o regabofe ou mando-a dar uma curva?

Exemplos como estes são quase diários.

Os jornais, os inspectores da IGS, Macário Correia, Vital Moreira e muitos outros, parece que não fazem ideia do país em que vivemos, das situações sociais que, todos os dias, entram nos consultórios dos médicos do Serviço Nacional de Saúde.

Tenho a noção de que alguns dos meus doentes que estão de baixa talvez me estejam a enganar; se calhar, as costas não lhes doem tanto como dizem; se calhar, eles não gostam é de trabalhar; se calhar, aproveitam a baixa para fazer um biscate e arredondar o ordenado.

Se calhar…

Mas, sinceramente, não me sinto capaz de arcar com mais esta responsabilidade. A relação médico-doente é uma relação de confiança mútua e, se o doente me diz que se sente deprimido, que não dorme í  noite, que chora por tudo e por nada, que se sente ansioso, que está sem energia e que não consegue trabalhar, eu não hesito em fazer o diagnóstico de sindroma depressivo e dou-lhe baixa.

Não sei como se resolve este problema. Neste caso, estou sem ideias. Mas tenho a certeza de que não se resolve pedindo ao médico que, sempre que esteja perante um doente que diz que não consegue trabalhar, parta do princípio que o doente o está a enganar.