O antigo ditador chileno, responsável por milhares de mortos, morreu esta semana, aos 91 anos.
Morreu 91 anos atrasado.
Não faz cá falta nenhuma.

aqui desde 1999
O antigo ditador chileno, responsável por milhares de mortos, morreu esta semana, aos 91 anos.
Morreu 91 anos atrasado.
Não faz cá falta nenhuma.

Soube, há alguns dias, que o Rui Lemos, um dos fundadores do semanário “O Coiso”, morreu há uns meses.
Já não via o Rui há alguns anos e a notícia foi um choque.
Fomos companheiros de escrita durante vários anos, no República, antes do 25 de Abril e, depois, no Pé de Cabra, no Coiso e em alguns programas de rádio e TV.
Passámos momentos muito divertidos das nossas vidas, com o Mário-Henrique Leiria, o José António Pinheiro, o Carlos Barradas e o ílvaro Belo Marques, naquele curto e glorioso período, entre 1973 e 1975.
O Rui tinha um humor amargo e desdenhava a mediocridade desta Pátria de poetas e patetas.
Aqui fica um texto do Rui, publicado no semanário Pé de Cabra, em 29 de Novembro de 1974 e que é bem ilustrativo do que ele pensava do Portugal bafiento do “antes do 25”. O pior é que muito do que eles escreveu então, continua bem actual!
Um abraço para o Rui.
Lusolândia – síntese reminisciativa
Génese
Os Lusíadas, nascidos entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974, eram lindos. (Eu sou lindo). Quando nasciam, as opiniões eram unânimes: «mas que lindo bebé!». E, se era menino, era igualzinho ao papá. Marialvismo? Aval da seriedade da senhora sua mãe? Inextricáveis meandros da língua portuguesa? Sigamos. Os historiadores que deslindem a questão.
Geografia
Pois então, a escola ensinava-nos que nascéramos num país cheio de tradição, que se chamava Pátria. A Pátria era casada com o Senhor Governo, e tinham uma criança chamada Nação. Viviam então num país chamado Estado, que tinha filiais em vários continentes. Dizia-se, então, que Portugal havia dado novos mundos ao mundo. Era porreiro ser português. Mas – era preciso merecê-lo! E como, como se merecia tão inesperada honra?
História
Para ser português, não bastava ter nascido na Pátria. Que os portugueses tinham uma segunda nacionalidade – eram patriotas (não confundir com cipriotas). E os portugueses eram ainda mais patriotas se fossem portugueses e tivessem uma grande peitaça. Eram peitotas e patriotas. Os portugueses eram portugueses até ao quinto dos liceus, altura em que passavam a lusíadas. Havia ainda os pretiotas, que viviam numa coisa chamada ultramar. Vários historiadores reclamam outra versão, que dividia lógica e etariamente os portugueses em lusitos, vanguardistas, cadetes e legionários, consoante usassem calções, calças í golfe, botas de montar ou ladrilho.
Economia
Era excelente. Era cá uma economia… De alimento, de palavra, de tudo. E estava indissoluvelmente ligada ao patriotismo e í precocidade. Uma criança de mama, após ingurgitar os primeiros golinhos de leite materno, tinha observações do género desta: «o leite português é o melhor, o mais puro!» Depois, mais uma mamada e outra asserção: «a teta portuguesa é a maior, a mais úbere, a mais tenra!»
Se, inversamente, a criança cuspia, é porque começava a manifestar, de pequenino, tendência para a independência. E era assim que se tornava duro, castigador e castiço.
Arte
Nessa época havia várias manifestações artísticas. Em cada sala de aula, o professor era enquadrado pelas fotografias de dois gajos muito graves, que eram um tal Salazar e outro que nem sei se tinha nome, ou que acabava em mona. Tanto faz. Era essa uma das manifestações artísticas. Outra, era um S que havia no cinto que os meninos eram obrigados a comprar voluntariamente.
No campo da música, existia uma notável composição chamada «Já vamos», que devia ter sido o hino dos guardas-nocturnos. Ou era «Lá vamos»? Era qualquer coisa do género. Só sei que tinha que ser cantada com o braço estendido, como quem vê se chove.
Clima
Era tépido e ideal. Privilegiado. O clima nacional era o melhor do mundo. Fresco no verão, morno no inverno. Era cá um tempo! E não eram pobrezinhos, aqueles que andavam sem roupa, não senhores. Era do clima. Andavam í fresca. Só.
Política
Era notável. Sã. Cheia de princípios. Exercida por verdadeiros patriotas.
Desempregados? Não senhor – turismo interno.
Famintos? Torpe insinuação. Elegantes, é que eram. Da alimentação racional.
Todos muito unidos, muito amigos, muito graves, muito solenes, muito clementes. E as esposas, tão benfeitoras! Até fazia um nó na garganta, vê-las, no Natal, a visitar os bairros de lata, em risco de sujarem os sapatinhos de cetim e os casacos de pele, só para reconfortarem os desamparados da fortuna!
Estava tudo certo: os maridos faziam os pobres, para que as esposas se ocupassem a dar-lhes bolos-reis e broas. Muito racional.
í€ parte isso, havia um partido político que congregava os 8 milhões de sobreviventes (perdão, de habitantes) do continente (ou metrópole). Era a União Nacional.
Agricultura
A mais abundante. Couves, azeitonas, bolota, cortiças, alfaces, tudo, mas tudo, se dava nesta bendita e santa terrinha. E tudo saudável!
Batatas também havia algumas, e vinho, era em cataratas. Les portugais son toujours gais.
Portugal também produzia um subproduto degenerado, chamado «exilados». Mas estavam condenados í extinção e o glorioso futuro da Pátria se encarregaria de provar que eram uns trasfegas, um rebotalho sem significado.
Folclore
Havia o futebol, Fátima, as toiradas e o fado.
E quem não fosse do Benfica, era do Sporting e vice-versa. E quem não fosse católico, era ateu.
E quem não gostasse do Diamantino Viseu, gostava do Manuel dos Santos. E quem não fosse pela Amália, era pela Hermínia.
E ainda havia quem dissesse que não havia pluralismo…
Língua
A mais pura, a única que conservou as autênticas raízes latinas.
A mais indicada para cantar o fado.
Inspiradora de autênticas obras de filigrana oratória, tendo por cenário esse magnífico anfiteatro do espírito nacional – a Assembleia.
Exemplo de pequenas pedras preciosas:
«…os valores imparáveis da pátria lusitana…»
«…os inequívocos sacrifícios patrióticos do nosso querido Presidente…»
«…a inalienabilidade do solo pátrio…»
«… a indissolubilidade da identidade e comunhão de sentimentos…»
Literatura
Exemplos da ínclita literatura lusíada: «Oh glória de mandar, oh vã cobiça! Alça a perna e coça a pica!»
Ou: «oh tu que tens do humano o gesto e o peito, vira o cu para lá e põe-te a jeito!»
E ainda. «as aguardentes e os vinhos gaseificados/ que da taberna sórdida ou bela garrafeira/ por goelas e goelas de esfaimados/ passaram inda além da borracheira»
E exemplos não faltam. Faltou foi gente para os seguir.
Há já alguns dias que estava com vontade de escrever umas coisas sobre a actualidade política portuguesa, a saber:
a) sobre o Orçamento Geral do Estado, que foi aprovado só pelos deputados do PS, com críticas de toda a Oposição. Neste caso, toda a Oposição parece ter estado í esquerda do PS, incluindo o CDS e o PSD. Notável!
b) sobre a Lei das Finanças Locais e Regionais, que fez com que o Jardim ameaçasse o Governo central, insultasse o primeiro-ministro e o das Finanças e sugerisse que ia provocar eleições antecipadas na Madeira. O Alberto João pode dizer o que lhe apetece, que nada lhe acontece. Um bom exemplo para a democracia. Nunca me preocupei com “o povo da Madeira”. E cada vez menos… tem o que merece…
 c) sobre o caso dos terrenos de Marvila, por onde vai passar o TGV, que foram licenciados pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, sabendo, antecipadamente, que o comboio ia passar por ali. Agora, o Estado vai ter que pagar uma indemnização aos promotores imobiliários que, assim, vão ficar com os bolsos cheios, sem terem mexido uma palha. Ao Carmona, nada lhe acontece – a menos que seja nomeado administrador da empresa imobiliária, quando for apeado da Câmara.
d) sobre as manifestações dos estudantes do secundário, contra as aulas de instersubstituição, onde jogam dominó e cortam as unhas. Os professores rejubilam e não se importam com o facto de esta atitude dos alunos só demonstrar a incapacidade dos professores. Não são capazes de fazer mais nada senão pí´r os miúdos a jogar dominó? É como se eu, médico, quando substituo um colega, dissesse ao doente: “desculpe, mas vai ter que ser o senhor a auto-medicar-se, porque o seu médico faltou”.
e) sobre a palhaçada do José Veiga e do João Pinto e de toda a comunicação social ter dado tanta ênfase ao caso e ninguém se questionar: como é que os direitos desportivos de um jogador medíocre como o João Pinto, valem 4,6 milhões de euros?!
f) sobre o facto do CEMFA, Mendes Cabeçadas, dizer que acha que o Governo deve revogar a lei que o Paulo Portas inventou para dar umas coroas a todos os ex-combatentes da guerra colonial – lei que foi aprovada por unanimidade, no Parlamento. Não há dinheiro para toda essa malta que andou os tiros no Ultramar, mais os que andaram a beber cervejolas em Luanda. Por que não indemnizar as famílias dos soldados que foram í 1ª Guerra Colonial? E quanto aos descendentes dos falecidos na batalha de Aljubarrota?
g) sobre os polícias que deram uma conferência de imprensa encapuçados, e os militares que andaram a passear no Rossio, e os gênêrrês que querem os mesmo direitos que os militares, e mais os nosso garbosos militares de engenharia, que vão para o Líbano, como se fossem heróis! Limitam-se a fazer o trabalho deles! Juro que não me importava de trocar: eles vêm até ao Monte de Caparica fazer umas urgências e eu vou passar uns dias a Tiro! Por que raio só eles é que aparecem na televisão?!
h) sobre o estúpido anúncio da TV Cabo: um homem chega a casa e a mulher, depois o filho, depois a filha, depois a criada, todos o deixaram porque ele não aderiu í TV Cabo! Deviam felicitá-lo! A TV Cabo é a maior aldrabice desde que a televisão por cabo foi inventada!
i) sobre a idiotice de se querer inundar a selecção nacional de futebol com luso-brasileiros. O Deco foi um precedente idiota. Agora, qualquer jogador brasileiro medíocre, que não tem lugar na selecção do seu país, quer integrar a selecção portuguesa, adquirindo a nacionalidade portuguesa. Ele é o Pepe, o João Paulo, o Liedson…
Valerá a pena perder tempo com estas merdas?
Meus amigos, a mediocridade desta malta é tão grande, que até dói!
O país é bonito, mas o povo não presta!
Vão-se catar!
Nunca gostei de militares.
O pior período da minha vida passei-o na tropa. Nos anos 80, já com três anos de licenciatura, 28 de idade e dois filhos pequenos, fui arrancado do Serviço Médico í Periferia, para prestar o Serviço Militar Obrigatório.
Deixei de prestar cuidados médicos í população do concelho de Mourão, para ir fazer consulta de Clínica Geral no Hospital Militar de Évora. Mas não fui consultar os soldados, não senhor! Fui consultar os familiares dos senhores oficiais.
Mas antes, tive que passar seis semanas de humilhação, na recruta, nas Caldas da Rainha. Imaginem um pelotão de médicos, todos com 28 anos e mais, alguns deles já especialistas, sentados, a meio da noite, nas matas da Foz do Arelho, a tentarem identificar sons: uma lata que caía, uma bota que pisava caruma e – suprema imbecilidade! – um alferes a mijar!
Nunca mais me esqueci deste episódio. Ainda hoje, não consigo entender a importância que teve, para mim, médico de família, conseguir identificar, no escuro, o som de um alferes a mijar!
Mas foi isto que fui aprender na recruta. Isto, e também, a montar e a desmontar uma G-3, a marchar na parada e a fazer funeral arma.
Terminada a recruta, fui então para o Hospital Militar de Évora, mas a palhaçada continuou. Como éramos quatro médicos a prestar serviço militar obrigatório (quatro! em Mourão, para todo o concelho, foram colocados três médicos, no Serviço Médico í Periferia, e só lá ficaram dois, quando eu fui para a tropa!) – como éramos quatro médicos, decidimos dividir o serviço e cada um de nós, só ia ao Hospital uma semana por mês.
Uma tropa fandanga!
Por isso, faz-me muita confusão ver os militares a protestarem contra os privilégios que o Governo agora lhes retira, nomeadamente no sector da saúde – Â privilégios a que eles chamam direitos.
Faz-me ainda mais confusão ver militares tentarem ludibriar a lei, armados em chicos-espertos, chamando “passeio do descontentamento” í manifestação.
E ainda mais confusão me faz saber que esses militares organizaram o tal “passeio”, contra a opinião do Chefe de Estado Maior, do Ministro da Defesa e da Governadora Civil de Lisboa.
Um militar não pode ir contra as ordens da hierarquia. Por definição. Assim como um médico não pode ignorar um homem caído, no meio da rua.
O líder do tal “passeio”, disse, por exemplo: “não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril”.
Como diz o Vasco Pulido Valente, também foram os militares que fizeram o 28 de Maio. E acrescento eu: também foram os militares que fizeram a guerra colonial, que sustentaram Salazar durante quatro décadas e que me obrigaram a ouvir um alferes a mijar!
Portanto, façam o favor de se deixarem de merdas!
* Segundo o primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, o ataque que matou 18 civis palestinianos, em Gaza, foi “um erro”, uma “falha técnica”.
A intenção seria matar muitos mais?
* O ministro da saúde, Correia de Campos, afirmou que quer que, em 2010, todas as crianças tenham dentista.
O Fábio Micael, de 14 anos, com os dentes todos podres, está com azar. Em 2010, já não será nenhuma criança…
* A Alitalia acabou com uma tradição de 50 anos. A partir de agora, as hospedeiras daquela companhia aérea italiana, já podem usar calças.
Acabaram os bons tempos em que as hospedeiras só usavam cuecas!
* Título do Público: “Tigres tamil perdem 22 barcos em batalha naval”.
É sabido que os tigres sempre preferiram o xadrez í batalha naval…
* O porta-voz do presidente Hamid Karzai, do Afeganistão, homenageou o ex-secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld. Disse: “estamos reconhecidos pelo que Rumsfeld fez para apoiar o Afeganistão desde há cinco anos”.
Ainda há gente boa no mundo…
Uma sugestão: por que razão o Donald não vai viver para o Afeganistão?
* Um juiz norte-americano condenou um homem a usar, durante 22 meses, no local de trabalho, uma t-shirt com a inscrição: “sou um agressor sexual”.
Sugestão: obrigar José Sócrates a usar, até ao fim do mandato, uma t-shirt com a inscrição: “sou um gajo de esquerda”.
* O Benfica entrou no Guiness Book of Records. É, de todo o mundo, o clube com mais sócios. Tudo graças ao “kit de sócio”, inventado por Luís Filipe Vieira.
Os portugueses não são capazes de resistir a promoções.
* Os portugueses são dos povos mais baixos da Europa, com uma média de 1 metro e 65 e meio. Abaixo de nós, só Malta.
Mas a malta somos nós, não é?…
* Santana Lopes publicou hoje, no DN, um artigo com as suas ideias sobre a Baixa de Lisboa.
Sempre é mais fácil publicar um artigo do que concretizar uma única das suas ideias. Lembram-se que ele já foi presidente da Câmara de Lisboa?
* Dezenas de portugueses passam fome, na Holanda, há vários dias, segundo noticia o Público, hoje.
É a habitual mania das grandezas. Por que carga de água tinham que ir para a Holanda passar fome? Não lhes bastava passar fome em Portugal?
Primeira notícia boa:
Um estudo publicado na revista Science, revela que, se a pesca intensiva, a poluição marinha e a destruição dos ecossistemas prosseguir, em 2050, a totalidade das espécies de peixes estará esgotada.
Quer isto dizer que, quando eu tiver 103 anos, não mais me sentirei obrigado a comer peixe porque faz bem í saúde!
Segunda notícia boa (aliás, muito melhor que a anterior):
Segundo um estudo da Universidade de Oklahoma, os medicamentos anti-colesterol podem proteger os fumadores das lesões pulmonares.
Há cerca de um ano que tomo, todos os dias, um comprimido de 10 miligramas de Rosuvastatina. O meu colesterol está num nível patético: 143 mg por decilitro, segundo as análises da semana passada.
E agora, ainda por cima, ao tomar esse comprimido mágico, posso estar descansado, sempre que acendo mais um cigarro, porque ele também protege os meus pulmões!
Obrigado, Rosuvastatina!
Foi inaugurada em 1993 e só ontem a visitámos. Imperdoável viver em Almada e nunca ter ido í Casa da Cerca!
Arquitectura setecentista, jardins bem cuidados (embora em renovação, neste momento) e panorama soberbo sobre o Tejo e Lisboa.
É para voltar vezes sem conta.

Lobo Antunes fala pouco. Quando fala, refere-se, quase exclusivamente, aos seus livros. É raro ouvir, da sua boca, uma opinião sobre o mundo que o rodeia. Aliás, ele próprio diz que está a ficar cada vez mais autista.
Neste contexto, a importância desta sua afirmação, na entrevista í Pública, é de salientar:
“(…) descobri – parece-me, é cada vez mais claro – que a escolha política é a mesma coisa que a escolha de um clube, é muito mais afectiva que racional. Se fosse racional, toda a gente pensava da mesma maneira politicamente. Da mesma maneira que se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente era de um clube – na minha opinião, obviamente, toda a gente era do Benfica.”
Não posso estar mais de acordo!
Se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente seria do Benfica!
Está dito!
Estou de férias. Fui passear até Praga, na passada semana. Estive lá quatro dias. Esta semana, estive entretido a fazer bricolage. Não li jornais, nem vi telejornais.
Senti-me muito bem.
Mas hoje, não resisti mais. Comprei o Público e o Diário de Notícias e vi o telejornal í hora do almoço.
Senti-me logo mal. Muito mal.
O chefe dos bombeiros disse que o Estado investe tudo nos incêndios e não quer saber das inundações. Talvez fosse melhor deixar arder mais um bocadinho e, com o dinheiro que sobrasse, limpar melhor as sarjetas.
Acho uma injustiça o ministro que se ocupa dos incêndios ser o mesmo que tem a seu cargo as inundações. Devia ser um ministro para cada tipo de catástrofe. O António Costa pode ter as costas largas, mas deve ser difícil estar praticamente a apagar as últimas labaredas, quando já tem que ir a correr, escoar as águas.
Li também, no Público, que “o TGV vai entrar em Lisboa pela margem direita do Tejo”. Fiquei estupefacto. Ora, se Lisboa fica na margem direita do Tejo, por onde raio poderia o TGV entrar?
Só que, mais í frente, o jornal publica um mapa, segundo o qual, o comboio rápido vem do Porto, chega a Lisboa, passa para o Barreiro e, depois, vai por Évora, em direcção a Espanha. Ou será que ele vem de Espanha, passa por Évora, entra em Lisboa (pela margem esquerda do Tejo, que é onde fica o Barreiro), e depois é que vai para o Porto?
Muito provavelmente, como se trata de um comboio de alta velocidade, nós nunca saberemos por onde é que ele entra em Lisboa. Vai ser tão rápido que, quando a gente se põe a pensar se ele vem da direita ou da esquerda, o tipo já passou.
Aliás, hoje em dia, estes conceitos de direita e de esquerda estão cada vez mais baralhados.
Veja-se o Sócrates, que continua a malhar nos funcionários públicos, e o Marques Mendes, sempre a defendê-los. Afinal, quem é de esquerda: o dito socialista Sócrates ou esse grande defensor dos operários e camponeses, soldados e marinheiros, chamado Marques Mendes?
Ainda hoje, o Benfica foi a votos. Esse grande clube, que conta com 6 milhões de adeptos e cerca de cem mil sócios, escolhe o seu novo presidente. A escolha é entre Luís Filipe Vieira e Luís Filipe Vieira. Os sócios poderão ainda escolher Luís Filipe Vieira, caso não engracem com os outros dois.
Mais de metade do telejornal foi dedicado ao facto de Luís Filipe Vieira ter afirmado que vai assistir ao Porto-Benfica, sentado no camarote presidencial do estádio do Dragão.
Que grande notícia!
Ora tomem lá mais esta notícia: eu não vou ao estádio do Dragão! Vou ver o jogo sentadinho no meu sofá, na companhia dos meus irmãos e cunhados.
Isto é que é uma grande notícia!
Outro título do Público: “Gago diz que superior pode beneficiar de verbas para a ciência”. E como será que Gago dirá isso? Assim: “su-superior po-pode benefi-ficiar de ver-bas-bas para a ci-ciên-cia”. A menos que o diga a cantar.
Fechei os jornais. Enjoado.
Quero voltar para Praga.
Só mais três ou quatro dias, por favor!
De cigarrinho na mão e olhar atrevido, Mário Cesariny concedeu uma entrevista ao Sol.
Já passou dos 80, mas continua o mesmo provocador.
Apenas algumas citações:
Sobre os ingleses e os americanos:
“Estava farto de latinos e fiquei a gostar dos anglo-saxónicos. Chamam-lhes hipócritas, mas eles não são. São actores. Estão sempre a representar Shakespeare. Um vagabundo chega í tabacaria e pede “May I have a box of matches, please?” Isto é linguagem de príncipe. “may I have”… “poderei eu ter… uma caixa de fósforos”. Um vagabundo. Já os americanos são uma espécie de ingleses a quem tiraram a inquietação, a metafísica. De maneira que eles andam muito contentes, “How are you?”, “Fine thank you”. Com imensas dores de estí´mago porque a comida é muito má.”
Sobre Vieira da Silva:
“Escrevi um artigo a falar nela, porque ela era desconhecida por cá. Aconselhava-a a não se demorar muito, porque ainda ficava estragada.”
Sobre os surrealistas, os neo-realistas e o Estado Novo:
“Também não era tempo de andar a falar alto. Íamos para a choça, o que não nos agradava muito. Os neo-realistas ficavam muito honrados quando iam presos. Nós não achávamos graça nenhuma.”
Sobre os homossexuais e a Marinha:
“Portugal era o país mais homossexual do mundo. E não era só a Marinha. O 25 de Abril, com a libertação dos homossexuais, também libertou a Marinha desse hábito. Passaram a considerar-se uns homenzinhos que não fazem essas coisas. Agora fazem entre eles ou com um tenente qualquer.”
Sobre as manifestações de orgulho gay:
“Acho feio, porque em vez de aparecerem como pessoas normais, põem umas mamas, pintam-se, ficam uns verdadeiros abortos. Eu, que sou homossexual, se encontrasse aquilo na rua, passava para o outro passeio, porque em vez de angariarem simpatia, ofendem.”
Sobre a pintura e a poesia:
“A poesia morde mais o fígado: se odeia, odeia, se não odeia, não odeia. A pintura parece uma coisa mais objectiva, fora de nós. Suja as mãos, limpa-se o pincel, há o cavalete e a tela. A poesia não. É apenas entre a nossa cabeça e o papel.”
Sobre a morte:
“Não (penso) muito (na morte). Penso mais nas doenças.”
Vale a pena ler.