Vão-se catar!

Há já alguns dias que estava com vontade de escrever umas coisas sobre a actualidade política portuguesa, a saber:

a) sobre o Orçamento Geral do Estado, que foi aprovado só pelos deputados do PS, com críticas de toda a Oposição. Neste caso, toda a Oposição parece ter estado í  esquerda do PS, incluindo o CDS e o PSD. Notável!

b) sobre a Lei das Finanças Locais e Regionais, que fez com que o Jardim ameaçasse o Governo central, insultasse o primeiro-ministro e o das Finanças e sugerisse que ia provocar eleições antecipadas na Madeira. O Alberto João pode dizer o que lhe apetece, que nada lhe acontece. Um bom exemplo para a democracia. Nunca me preocupei com “o povo da Madeira”. E cada vez menos… tem o que merece…

 c) sobre o caso dos terrenos de Marvila, por onde vai passar o TGV, que foram licenciados pelo presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, sabendo, antecipadamente, que o comboio ia passar por ali. Agora, o Estado vai ter que pagar uma indemnização aos promotores imobiliários que, assim, vão ficar com os bolsos cheios, sem terem mexido uma palha. Ao Carmona, nada lhe acontece – a menos que seja nomeado administrador da empresa imobiliária, quando for apeado da Câmara.

d) sobre as manifestações dos estudantes do secundário, contra as aulas de instersubstituição, onde jogam dominó e cortam as unhas. Os professores rejubilam e não se importam com o facto de esta atitude dos alunos só demonstrar a incapacidade dos professores. Não são capazes de fazer mais nada senão pí´r os miúdos a jogar dominó? É como se eu, médico, quando substituo um colega, dissesse ao doente: “desculpe, mas vai ter que ser o senhor a auto-medicar-se, porque o seu médico faltou”.

e) sobre a palhaçada do José Veiga e do João Pinto e de toda a comunicação social ter dado tanta ênfase ao caso e ninguém se questionar: como é que os direitos desportivos de um jogador medíocre como o João Pinto, valem 4,6 milhões de euros?!

f) sobre o facto do CEMFA, Mendes Cabeçadas, dizer que acha que o Governo deve revogar a lei que o Paulo Portas inventou para dar umas coroas a todos os ex-combatentes da guerra colonial – lei que foi aprovada por unanimidade, no Parlamento. Não há dinheiro para toda essa malta que andou os tiros no Ultramar, mais os que andaram a beber cervejolas em Luanda. Por que não indemnizar as famílias dos soldados que foram í  1ª Guerra Colonial? E quanto aos descendentes dos falecidos na batalha de Aljubarrota?

g) sobre os polícias que deram uma conferência de imprensa encapuçados, e os militares que andaram a passear no Rossio, e os gênêrrês que querem os mesmo direitos que os militares, e mais os nosso garbosos militares de engenharia, que vão para o Líbano, como se fossem heróis! Limitam-se a fazer o trabalho deles! Juro que não me importava de trocar: eles vêm até ao Monte de Caparica fazer umas urgências e eu vou passar uns dias a Tiro! Por que raio só eles é que aparecem na televisão?!

h) sobre o estúpido anúncio da TV Cabo: um homem chega a casa e a mulher, depois o filho, depois a filha, depois a criada, todos o deixaram porque ele não aderiu í  TV Cabo! Deviam felicitá-lo! A TV Cabo é a maior aldrabice desde que a televisão por cabo foi inventada!

i) sobre a idiotice de se querer inundar a selecção nacional de futebol com luso-brasileiros. O Deco foi um precedente idiota. Agora, qualquer jogador brasileiro medíocre, que não tem lugar na selecção do seu país, quer integrar a selecção portuguesa, adquirindo a nacionalidade portuguesa. Ele é o Pepe, o João Paulo, o Liedson…

Valerá a pena perder tempo com estas merdas?

Meus amigos, a mediocridade desta malta é tão grande, que até dói!

O país é bonito, mas o povo não presta!

Vão-se catar!

O passeio dos tristes

Nunca gostei de militares.

O pior período da minha vida passei-o na tropa. Nos anos 80, já com três anos de licenciatura, 28 de idade e dois filhos pequenos, fui arrancado do Serviço Médico í  Periferia, para prestar o Serviço Militar Obrigatório.

Deixei de prestar cuidados médicos í  população do concelho de Mourão, para ir fazer consulta de Clínica Geral no Hospital Militar de Évora. Mas não fui consultar os soldados, não senhor! Fui consultar os familiares dos senhores oficiais.

Mas antes, tive que passar seis semanas de humilhação, na recruta, nas Caldas da Rainha. Imaginem um pelotão de médicos, todos com 28 anos e mais, alguns deles já especialistas, sentados, a meio da noite, nas matas da Foz do Arelho, a tentarem identificar sons: uma lata que caía, uma bota que pisava caruma e – suprema imbecilidade! – um alferes a mijar!

Nunca mais me esqueci deste episódio. Ainda hoje, não consigo entender a importância que teve, para mim, médico de família, conseguir identificar, no escuro, o som de um alferes a mijar!

Mas foi isto que fui aprender na recruta. Isto, e também, a montar e a desmontar uma G-3, a marchar na parada e a fazer funeral arma.

Terminada a recruta, fui então para o Hospital Militar de Évora, mas a palhaçada continuou. Como éramos quatro médicos a prestar serviço militar obrigatório (quatro! em Mourão, para todo o concelho, foram colocados três médicos, no Serviço Médico í  Periferia, e só lá ficaram dois, quando eu fui para a tropa!) – como éramos quatro médicos, decidimos dividir o serviço e cada um de nós, só ia ao Hospital uma semana por mês.

Uma tropa fandanga!

Por isso, faz-me muita confusão ver os militares a protestarem contra os privilégios que o Governo agora lhes retira, nomeadamente no sector da saúde –  privilégios a que eles chamam direitos.

Faz-me ainda mais confusão ver militares tentarem ludibriar a lei, armados em chicos-espertos, chamando “passeio do descontentamento” í  manifestação.

E ainda mais confusão me faz saber que esses militares organizaram o tal “passeio”, contra a opinião do Chefe de Estado Maior, do Ministro da Defesa e da Governadora Civil de Lisboa.

Um militar não pode ir contra as ordens da hierarquia. Por definição. Assim como um médico não pode ignorar um homem caído, no meio da rua.

O líder do tal “passeio”, disse, por exemplo: “não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril”.

Como diz o Vasco Pulido Valente, também foram os militares que fizeram o 28 de Maio. E acrescento eu: também foram os militares que fizeram a guerra colonial, que sustentaram Salazar durante quatro décadas e que me obrigaram a ouvir um alferes a mijar!

Portanto, façam o favor de se deixarem de merdas!

Recortar é viver

* Segundo o primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, o ataque que matou 18 civis palestinianos, em Gaza, foi “um erro”, uma “falha técnica”.

A intenção seria matar muitos mais?

* O ministro da saúde, Correia de Campos, afirmou que quer que, em 2010, todas as crianças tenham dentista.

O Fábio Micael, de 14 anos, com os dentes todos podres, está com azar. Em 2010, já não será nenhuma criança…

* A Alitalia acabou com uma tradição de 50 anos. A partir de agora, as hospedeiras daquela companhia aérea italiana, já podem usar calças.

Acabaram os bons tempos em que as hospedeiras só usavam cuecas!

* Título do Público: “Tigres tamil perdem 22 barcos em batalha naval”.

É sabido que os tigres sempre preferiram o xadrez í  batalha naval…

* O porta-voz do presidente Hamid Karzai, do Afeganistão, homenageou o ex-secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld. Disse: “estamos reconhecidos pelo que Rumsfeld fez para apoiar o Afeganistão desde há cinco anos”.

Ainda há gente boa no mundo…

Uma sugestão: por que razão o Donald não vai viver para o Afeganistão?

* Um juiz norte-americano condenou um homem a usar, durante 22 meses, no local de trabalho, uma t-shirt com a inscrição: “sou um agressor sexual”.

Sugestão: obrigar José Sócrates a usar, até ao fim do mandato, uma t-shirt com a inscrição: “sou um gajo de esquerda”.

* O Benfica entrou no Guiness Book of Records. É, de todo o mundo, o clube com mais sócios. Tudo graças ao “kit de sócio”, inventado por Luís Filipe Vieira.

Os portugueses não são capazes de resistir a promoções.

* Os portugueses são dos povos mais baixos da Europa, com uma média de 1 metro e 65 e meio. Abaixo de nós, só Malta.

Mas a malta somos nós, não é?…

* Santana Lopes publicou hoje, no DN, um artigo com as suas ideias sobre a Baixa de Lisboa.

Sempre é mais fácil publicar um artigo do que concretizar uma única das suas ideias. Lembram-se que ele já foi presidente da Câmara de Lisboa?

* Dezenas de portugueses passam fome, na Holanda, há vários dias, segundo noticia o Público, hoje.

É a habitual mania das grandezas. Por que carga de água tinham que ir para a Holanda passar fome? Não lhes bastava passar fome em Portugal?

Finalmente, boas notícias!

Primeira notícia boa:

Um estudo publicado na revista Science, revela que, se a pesca intensiva, a poluição marinha e a destruição dos ecossistemas prosseguir, em 2050, a totalidade das espécies de peixes estará esgotada.

Quer isto dizer que, quando eu tiver 103 anos, não mais me sentirei obrigado a comer peixe porque faz bem í  saúde!

Segunda notícia boa (aliás, muito melhor que a anterior):

Segundo um estudo da Universidade de Oklahoma, os medicamentos anti-colesterol podem proteger os fumadores das lesões pulmonares.

Há cerca de um ano que tomo, todos os dias, um comprimido de 10 miligramas de Rosuvastatina. O meu colesterol está num nível patético: 143 mg por decilitro, segundo as análises da semana passada.

E agora, ainda por cima, ao tomar esse comprimido mágico, posso estar descansado, sempre que acendo mais um cigarro, porque ele também protege os meus pulmões!

Obrigado, Rosuvastatina!

Lobo Antunes e o Benfica

Lobo Antunes fala pouco. Quando fala, refere-se, quase exclusivamente, aos seus livros. É raro ouvir, da sua boca, uma opinião sobre o mundo que o rodeia. Aliás, ele próprio diz que está a ficar cada vez mais autista.

Neste contexto, a importância desta sua afirmação, na entrevista í  Pública, é de salientar:

“(…) descobri – parece-me, é cada vez mais claro – que a escolha política é a mesma coisa que a escolha de um clube, é muito mais afectiva que racional. Se fosse racional, toda a gente pensava da mesma maneira politicamente. Da mesma maneira que se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente era de um clube – na minha opinião, obviamente, toda a gente era do Benfica.”

Não posso estar mais de acordo!

Se a escolha de um clube fosse racional, toda a gente seria do Benfica!

Está dito!

Pequenas notas sobre um país minúsculo

Estou de férias. Fui passear até Praga, na passada semana. Estive lá quatro dias. Esta semana, estive entretido a fazer bricolage. Não li jornais, nem vi telejornais.

Senti-me muito bem.

Mas hoje, não resisti mais. Comprei o Público e o Diário de Notícias e vi o telejornal í  hora do almoço.

Senti-me logo mal. Muito mal.

O chefe dos bombeiros disse que o Estado investe tudo nos incêndios e não quer saber das inundações. Talvez fosse melhor deixar arder mais um bocadinho e, com o dinheiro que sobrasse, limpar melhor as sarjetas.

Acho uma injustiça o ministro que se ocupa dos incêndios ser o mesmo que tem a seu cargo as inundações. Devia ser um ministro para cada tipo de catástrofe. O António Costa pode ter as costas largas, mas deve ser difícil estar praticamente a apagar as últimas labaredas, quando já tem que ir a correr, escoar as águas.

Li também, no Público, que “o TGV vai entrar em Lisboa pela margem direita do Tejo”. Fiquei estupefacto. Ora, se Lisboa fica na margem direita do Tejo, por onde raio poderia o TGV entrar?

Só que, mais í  frente, o jornal publica um mapa, segundo o qual, o comboio rápido vem do Porto, chega a Lisboa, passa para o Barreiro e, depois, vai por Évora, em direcção a Espanha. Ou será que ele vem de Espanha, passa por Évora, entra em Lisboa (pela margem esquerda do Tejo, que é onde fica o Barreiro), e depois é que vai para o Porto?

Muito provavelmente, como se trata de um comboio de alta velocidade, nós nunca saberemos por onde é que ele entra em Lisboa. Vai ser tão rápido que, quando a gente se põe a pensar se ele vem da direita ou da esquerda, o tipo já passou.

Aliás, hoje em dia, estes conceitos de direita e de esquerda estão cada vez mais baralhados.

Veja-se o Sócrates, que continua a malhar nos funcionários públicos, e o Marques Mendes, sempre a defendê-los. Afinal, quem é de esquerda: o dito socialista Sócrates ou esse grande defensor dos operários e camponeses, soldados e marinheiros, chamado Marques Mendes?

Ainda hoje, o Benfica foi a votos. Esse grande clube, que conta com 6 milhões de adeptos e cerca de cem mil sócios, escolhe o seu novo presidente. A escolha é entre Luís Filipe Vieira e Luís Filipe Vieira. Os sócios poderão ainda escolher Luís Filipe Vieira, caso não engracem com os outros dois.

Mais de metade do telejornal foi dedicado ao facto de Luís Filipe Vieira ter afirmado que vai assistir ao Porto-Benfica, sentado no camarote presidencial do estádio do Dragão.

Que grande notícia!

Ora tomem lá mais esta notícia: eu não vou ao estádio do Dragão! Vou ver o jogo sentadinho no meu sofá, na companhia dos meus irmãos e cunhados.

Isto é que é uma grande notícia!

Outro título do Público: “Gago diz que superior pode beneficiar de verbas para a ciência”. E como será que Gago dirá isso? Assim: “su-superior po-pode benefi-ficiar de ver-bas-bas para a ci-ciên-cia”. A menos que o diga a cantar.

Fechei os jornais. Enjoado.

Quero voltar para Praga.

Só mais três ou quatro dias, por favor!

Provocações de Cesariny

De cigarrinho na mão e olhar atrevido, Mário Cesariny concedeu uma entrevista ao Sol.

Já passou dos 80, mas continua o mesmo provocador.

Apenas algumas citações:

Sobre os ingleses e os americanos:

“Estava farto de latinos e fiquei a gostar dos anglo-saxónicos. Chamam-lhes hipócritas, mas eles não são. São actores. Estão sempre a representar Shakespeare. Um vagabundo chega í  tabacaria e pede “May I have a box of matches, please?” Isto é linguagem de príncipe. “may I have”… “poderei eu ter… uma caixa de fósforos”. Um vagabundo. Já os americanos são uma espécie de ingleses a quem tiraram a inquietação, a metafísica. De maneira que eles andam muito contentes, “How are you?”, “Fine thank you”. Com imensas dores de estí´mago porque a comida é muito má.”

Sobre Vieira da Silva:

“Escrevi um artigo a falar nela, porque ela era desconhecida por cá. Aconselhava-a a não se demorar muito, porque ainda ficava estragada.”

Sobre os surrealistas, os neo-realistas e o Estado Novo:

“Também não era tempo de andar a falar alto. Íamos para a choça, o que não nos agradava muito. Os neo-realistas ficavam muito honrados quando iam presos. Nós não achávamos graça nenhuma.”

Sobre os homossexuais e a Marinha:

“Portugal era o país mais homossexual do mundo. E não era só a Marinha. O 25 de Abril, com a libertação dos homossexuais, também libertou a Marinha desse hábito. Passaram a considerar-se uns homenzinhos que não fazem essas coisas. Agora fazem entre eles ou com um tenente qualquer.”

Sobre as manifestações de orgulho gay:

“Acho feio, porque em vez de aparecerem como pessoas normais, põem umas mamas, pintam-se, ficam uns verdadeiros abortos. Eu, que sou homossexual, se encontrasse aquilo na rua, passava para o outro passeio, porque em vez de angariarem simpatia, ofendem.”

Sobre a pintura e a poesia:

“A poesia morde mais o fígado: se odeia, odeia, se não odeia, não odeia. A pintura parece uma coisa mais objectiva, fora de nós. Suja as mãos, limpa-se o pincel, há o cavalete e a tela. A poesia não. É apenas entre a nossa cabeça e o papel.”

Sobre a morte:

“Não (penso) muito (na morte). Penso mais nas doenças.”

Vale a pena ler.

Morrer no caminho

Um grupo de trabalho, contratado pelo Ministério da Saúde, propõe o fecho de diversas urgências e a abertura de outras.

Reportagens da RTP, de norte a sul do país, mostraram testemunhos de velhotes, dizendo, a propósito do fecho do SAP lá da terra: “vamos morrer no caminho”.

Os portugueses são mestres na criação de frases deste tipo.

Em http://bompovo.spreadshirt.net, encontramos t-shirts com algumas dessas frases. Mas faltam lá muitas.

São frases que mostram a pequenez do povinho.

Trabalhando na Saúde há 30 anos, já ouvi muitas frases destas.

Uma das que mais me irrita é “bem se pode morrer”, proferida por uma utente do SNS, com dores nas costas, que está í  espera da sua consulta há quase uma hora. Ainda na semana passada, no serviço de Atendimento Complementar, passavam uns minutos das 21 horas, a TV transmitia o jogo do Sporting e, como é habitual quando há jogos na televisão, não havia doentes. Uma utente inscreveu-se e, logo a seguir, interpelou a administrativa: “então, não há médicos?”

Foi atendida quatro minutos depois de se ter inscrito!

Quatro minutos – e mesmo assim protestou!

Só lhe faltou dizer “bem se pode morrer”.

Algo de parecido se passa com esta história das urgências.

Claro que não confio muito nos tecnocratas da saúde.

É evidente que o que o ministro quer é poupar dinheiro, fechando serviços.

Mas também é verdade que os SAP que foram abrindo por esse país fora, dão, í s pessoas, uma falsa sensação de segurança, já que não estão equipados para salvar a vida de ninguém.

Se um velhote tiver um AVC a meio da noite, o melhor é ir directamente para o Hospital mais próximo, mesmo que fique a uma hora de caminho. Se, antes disso, passar pelo SAP lá da terra, só vai atrasar o início da terapêutica porque, o máximo que o médico de serviço lhe vai fazer, é escrever uma carta e enviá-lo para o hospital. Entretanto, já passou mais meia hora. E talvez, desse modo, acabe por morrer no caminho.

Também já trabalhei num SAP que estava aberto 24 horas.

Durante a noite, os únicos doentes que me apareciam eram, quase sempre, os doentes com dores de dentes ou com dores de ouvidos. São dores tramadas. Um tipo toma uma aspirina ou um dois ben-u-rons, a dor não passa, mas vai-se aguardando… pode ser que passe com uma noite bem dormida. Só que ninguém consegue dormir com uma dor de dentes e, aí por volta das 5 da manhã, um tipo já não aguenta mais e vai ao SAP, na esperança de que o médico lhe tire a dor.

Convenhamos que ter SAPs abertos toda a noite, para resolver odontalgias e otalgias, é capaz de ser desperdício.

O problema é que, no meio desta polémica, ninguém fala claro.

O ministro devia dizer, claramente: tenho que cortar nas despesas; os SAP que estão abertos durante a noite são falsos serviços de urgência; não estão equipados para resolver problemas verdadeiramente urgentes; sucessivos governos andaram a enganar a malta; ir a um SAP com uma dor no peito, podendo ser um enfarto, é puro desperdício; o médico que lá está de serviço não vai fazer nada; mais vale ir directamente para o hospital de referência; portanto, vamos fechar alguns SAP – poupamos dinheiro e, assim como assim, os casos verdadeiramente urgentes serão tratados onde devem ser: nos hospitais.

A oposição devia dizer: o que o ministro quer é poupar dinheiro; ao fechar os SAP, está a tirar aos cidadãos os serviços de proximidade que foram sendo criados ao longo dos últimos anos; nós, se estivéssemos no governo e tivéssemos coragem, faríamos o mesmo.

De qualquer modo, o povinho continuará a dizer: bem se pode morrer!…

Por que não posso levar pistolas de abate de gado no avião?

Aproxima-se o meu segundo período de férias. Planeei um fim-de-semana em Praga, com a malta toda. Quero rever essa cidade por onde passei, í  pressa, há cerca de 6 anos.

Com toda esta história dos possíveis atentados, estava na dúvida do que poderia levar comigo, a bordo do avião, na cabina. Confesso que estava preocupado, sobretudo, com a possibilidade de não me deixarem levar, por exemplo, um livrinho, para ler na viagem. Imaginem que ando a ler um livro chamado “Como fazer uma bomba a bordo de um avião e como fazê-la explodir, nas barbas do piloto”. Será que poderia levar um item como este?

E o maço de cigarros, para matar o vício, mal aterrasse em Praga – será que me seria permitido levar o maço de cigarros comigo? É que o tabaco mata, como todos os maços anunciam! E o isqueiro? E o telemóvel? E um pacote de excelentes bolachas torradas Triunfo?

Decidi ir verificar. Fui ao site da TAP e, no endereço http://www.inac.pt/hthttm/art_proib_transp.asp

descobri que não posso levar comigo, por exemplo, pistolas de abate de gado! Francamente! Quem é que pode viajar para Praga sem uma simples pistola de abate de gado?

Para quem não sabe o não pode levar consigo, na cabina do avião, aqui fica a lista:

a) Armas de fogo e outras

Qualquer objecto que possa, ou aparente poder, disparar um projéctil ou causar ferimentos, nomeadamente: armas de fogo de qualquer tipo (pistolas, revólveres, espingardas, caçadeiras, etc.); réplicas ou imitações de armas de fogo; componentes de armas de fogo (excluindo miras telescópicas e óculos); pistolas e espingardas de ar comprimido; pistolas de sinais; pistolas de alarme; armas de brinquedo, de qualquer tipo; armas de zagalotes; pistolas de pregos e pistolas de cavilhas, industriais; bestas; fisgas e fundas; armas de caça submarina; pistolas de abate de gado; dispositivos de atordoamento ou electrochoque, e.g. pistoletes para gado, armas de dardos eléctricos (tasers); isqueiros com forma de arma de fogo.

b) Armas pontiagudas e objectos cortantes

Artigos com pontas aguçadas ou lâminas susceptíveis de causar ferimentos, nomeadamente: machados; flechas e dardos; crampons; arpões e setas; piolets e picadores de gelo; patins de gelo; navalhas de tranca e navalhas de ponta e mola, com lâminas de qualquer comprimento; facas, incluindo facas cerimoniais, com lâminas de comprimento superior a 6 cm, de metal ou outro material suficientemente forte para ser usado como arma; cutelos; machetes; navalhas e lâminas de barbear (excluindo as giletes de recarregar e as giletes descartáveis, com lâminas encapsuladas); sabres, espadas e bengalas de estoque; escalpelos; tesouras com lâminas de comprimento superior a 6 cm; bastões de esqui e de marcha; rosetas de arremesso (shurikens); ferramentas com potencial para serem usadas como arma, e.g. berbequins e pontas de broca, facas tipo x-acto, facas multiusos, serras de todos os tipos, chaves de parafusos, pés de cabra, martelos, alicates, chaves de porcas/fendas, maçaricos.

c) Objectos contundentes

Qualquer objecto contundente susceptível de causar ferimentos, nomeadamente: tacos de baseball e softball; tacos ou bastões, rígidos ou flexíveis, e.g. matracas, mocas, cassetetes; tacos de críquete; tacos de golfe; sticks de hóquei; sticks de lacrosse; pagaias de caiaque e canoa; skates; tacos de bilhar; canas de pesca; equipamento de artes marciais, e.g. soqueiras, bastões, mocas, nunchakus, kubatons, kubasaunts

d) Explosivos e substâncias inflamáveis

Qualquer substância explosiva ou altamente combustível que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: munições; cartuchos explosivos; detonadores e espoletas; explosivos e engenhos explosivos; réplicas ou imitações de material ou engenhos ; explosivos; minas e outros explosivos militares; granadas de todos os tipos; gases e contentores de gás, e.g. butano, propano, acetileno, oxigénio, em grande volume; fogo de artifício, archotes de qualquer tipo e outros artigos pirotécnicos, incluindo poppers e fulminantes de diversão; fósforos não amorfos; geradores de fumo; combustíveis líquidos inflamáveis, e.g. gasolina, gasóleo, fluido de isqueiro, álcool, etanol; tintas pulverizáveis; terebentina e diluentes; bebidas alcoólicas de teor alcoólico superior a 70% em volume (140% proof);

e) Substâncias químicas e tóxicas

Qualquer substância química ou tóxica que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: ácidos e bases, e.g. pilhas e baterias com risco de derrame; substâncias corrosivas ou descolorantes, e.g. mercúrio, cloro; aerossóis neutralizantes ou incapacitantes, e.g. mace, gás lacrimogéneo; matérias radioactivas, e.g. isótopos medicinais ou comerciais; venenos; matérias infecciosas e agentes biológicos perigosos, e.g. sangue contaminado, bactérias e vírus; matérias susceptíveis de ignição ou combustão espontâneas; extintores de incêndio.

A lista é longa e fastidiosa e existem alguns itens que são incompreensíveis. Pergunto-me: quem iria viajar, seja para onde for, levando consigo “minas e armadilhas militares”?

Por outro lado, por que carga de água, não poderei viajar, transportando, comigo “bactérias e vírus”? O que vou eu fazer í  minha querida sinusite?

Será que tenho que a deixar em casa?