Prémio Nobel da Paz 2011

Foi hoje anunciado o Prémio Nobel da Paz deste ano.

O Prémio foi atribuído a três mulheres: Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria; Leymah Gbwoee, activista liberiana pelos direitos das mulheres; e Tawakkul Karman, opositora í  ditadura do Iémen.

Os Prémios Nobel são sempre objecto de polémica, sobretudo os da literatura e da paz porque são coisas mais terra-a-terra. Pí´r em causa o Nobel da Química, atribuído a um cientista que descobriu os “não-cristais”, não nos passa pela cabeça, porque não fazemos a mais pequena ideia do que são “não-cristais”.

Agora, conceder o Nobel da Literatura a um poeta sueco que só o Vasco Graça Moura sabe quem é, em vez de premiar Bob Dylan (?), ou mesmo, Lobo Antunes!…

E quanto ao Nobel da Paz, basta recordar que ele já foi atribuído a Anwsar Sadat e Menachem Begin, Henry Kissinger, Barak Obama, Ximenes Belo e Ramos Horta, Shimon Peres e Arafat e até a um obscuro sindicalista católico e polaco, de grandes bigodes, chamado Lech Walesa – basta recordar estes nomes para desconfiar da isenção do comité que escolhe os laureados. Claro que a escolha tem uma forte componente política.

Este ano, escolheram três mulheres e só podem ser aplaudidos por isso.

Destaco a presidente da Libéria, Ellen Sirleaf.

Deve ser preciso muitos tomates para ser mulher e presidente de um país como a Libéria.

Nota: o Prémio Nobel da Paz é atribuído pela Academia Norueguesa (enquanto os outros são da responsabilidade da Academia Sueca). A decisão é tomada aqui e o prémio é entregue aqui.

Os semáforos de Bissau

O Diário de Notícias publica hoje, na página 25, um texto de Mussá Baldé, jornalista da Lusa, intitulado: «Todos querem ver os primeiros semáforos da capital guineense”.

O texto é tão fantástico, que merece ser transcrito quase na íntegra.

Começa assim:

«Bissau recebeu os seus primeiros semáforos, mas em vez de se tornarem instrumentos para melhorar o trânsito automóvel, na realidade, causam curiosidade e confusão no tráfego.»

Portanto, na principal avenida de Bissau, foram colocados semáforos, a título experimental. Os habitantes da Guiné-Bissau nunca tinham visto semáforos na sua vida. Assim, segundo Baldé:

«O problema é decifrar a informação que é dada por cada cor, pois, í s vezes, acende o vermelho e lá estão alguns condutores a acelerar para passar, justamente na altura em que os peões, que também desconhecem a ordem dada pelas luzes, tentam atravessar a avenida.»

Trata-se de uma situação potencialmente perigosa. Haverá atropelamentos?

Parece que não. Tudo é vivido com a alegria. Voltemos a Baldé:

«As gargalhadas, tanto dos condutores como dos transeuntes, têm sido regra para acalmar essas hilariantes situações frequentes nos cruzamentos onde existem os semáforos».

E parece que nem as autoridades conseguem perceber o que as cores dos semáforos significam.

«Estava a luz vermelha acesa no semáforo e manda-me avançar um agente do trânsito. Não obedeci porque ele estava errado, contou Alfa Djaló, um taxista que trabalha na avenida Combatente da Liberdade da Pátria».

Baldé explica-nos que a confusão dos agentes de autoridade não se limita aos semáforos, «também é notada na sinalização, pois agora, a estrada que liga o mercado do Bandim ao aeroporto da capital guineense, ao longo de uma extensão de oito quilómetros, possui sinais e travessias para os peões. “Noutro dia por pouco não atropelei uma velhota que estava a atravessar a avenida. Dizia ela que os jovens que ali se encontravam nos postes dos semáforos, mandaram-na passar, dizendo que o semáforo, que estava verde, era para os peões atravessarem”, relatou um jornalista da Rádio Nacional.»

E Mussá Baldé termina esta notícia extraordinária com esta frase lapidar:

«Já se fala em Bisssau que algumas pessoas do interior viajam para a capital do país de propósito para verem os primeiros semáforos do país.»

Quinhentos anos de colonialismo português fez da Guiné-Bissau este caso de sucesso!

Milagres

Telejornal da Sic:

Um homem, numa igreja, em Espanha, deu um tiro na cabeça de uma mulher grávida em fim de tempo. Inopinadamente. A seguir, meteu o cano da pistola na boca e suicidou-se.

A emergência médica chegou, confirmou o óbito da grávida, fez uma cesariana e o bebé nasceu, saudável.

A jornalista, dando voz aos crentes que estavam na igreja e que assistiram í  cena, diz que todos concordaram que se tratou de um milagre.

O que foi milagre – a morte da mãe ou o nascimento do filho?

Deus estava distraído, no momento em que o homem deu o tiro na cabeça da grávida e depois, para compensar, ajudou os médicos a salvarem a criança?

Notícia seguinte:

Na Austrália, um ultra-leve chocou contra uma roda gigante de um feira. Os dois ocupantes da aeronave e duas crianças de 9 e 11 anos ficaram encarcerados e o salvamento de todos demorou horas.

Novamente, a jornalista (não posso afirmar se foi a mesma), diz que houve milagre.

Se calhar, Deus estava ocupado a salvar estas quatro pessoas na Austrália, distraiu-se e, quando deu por isso, já o louco tinha morto a grávida e Nosso Senhor só foi a tempo de salvar a criança…

Mas milagre a sério é esta outra notícia:

Em Portugal, cerca de 500 médicos já mortos, continuam a figurar nos registos oficiais e alguns deles ainda passam receitas!

Isto sim, é um milagre do caraças!

Wright under our beards

O simpático sr. Jorge dos Santos, de 68 anos e um sotaque engraçado, era afinal um foragido procurado pelo FBI há 40 anos.

Vivendo tranquilamente numa pequena localidade de Sintra, o sr. Jorge, isto é, George Wright, não era apenas o vizinho prestável, mas sim um tipo condenado a 30 anos de cadeia,nos EUA, nos anos 70 do século passado, depois de ter assaltado um banco, morto um homem, desviado um avião que ia de Miami para Detroit, sequestrado os seus passageiros, conseguindo um resgate de um milhão de dólares.

Mascarado de padre, e com uma arma escondida na Bíblia, Wright conseguiu desviar o avião para a Argélia. Os seus cúmplices fugiram para Paris, onde acabaram por ser presos, mas ele decidiu ir para a Guiné-Bissau. Aí, casou com uma portuguesa e acabou por vir viver para Portugal.

Qual o espanto?

Depois do BPN e do buraco da Madeira, como é possível que ainda nos espantemos por termos bandidos a viver tranquilamente, mesmo debaixo das nossas barbas?

Programas da manhã

Programas da manhã das televisões.

Não vejo, felizmente.

Diariamente, no restaurante onde almoçamos, fico sentado de frente para a televisão muda e leio os rodapés: “grávida dormia com o tio da prima”, “tentou salvar a tia e ficou queimado”, “foi violada por um marreco de raça negra”, “comeu fruta estragada e teve trigémeos”.

Sorrio, encolho os ombros e dedico-me ao almoço, sempre saboroso. Obrigado, Tucha!

Mas há um personagem que me deixa ficar sempre incomodado. Não me lembrava do nome da criatura, mas fui procurar no site da Sic e descobri que se chama Hernani Carvalho.

Diz que é jornalista, penso que já trabalhou na TVI, mas agora está na Sic… e é um especialista!…

Caramba, que especialista do caraças!

Enquanto devoro o almoço, vou deitando o rabo do olho para o televisor e vejo o homem a gesticular, sempre de cenho cerrado. Ele parece ser assertivo, ter a certeza de tudo e ter uma palavra definitiva para dizer sobre tudo, desde o caso da moça violada quando regressava a casa, até ao tipo que disparou a espingarda sem querer e matou o amigo.

Hoje, de férias, “apanhei” o tal Hernani ao vivo, isto é, com som, cá em casa, mais uma vez, enquanto almoçava, um excelente curry de frango, preparado pela Mila, em honra de um outro que comemos em Tromso, em Junho.

Pois lá estava o Hernani a cagar sentenças, desta vez, sobre a Sónia Frazão, personagem que eu só passei a conhecer depois da dita ter feito explodir o seu próprio apartamento.

Apanhei a coisa a meio, mas o especialista criminal (!) dizia qualquer coisa sobre doença celíaca e neuro-transmissores e tinha um careca ao seu lado, que parece que também era especialista (eles são todos especialistas!…)

Gritei um palavrão e mudei para a RTP-1 e dei com o bispo Manuel Martins, um velhinho muito bem conservado, com as unhas arranjadinhas, o anelinho na mão direita, os ésses sibilantes, perorando sobre o mundo e os seus pecados!

O velhinho estava contra as telenovelas e dizia que não percebia como é que as famílias não faziam uma revolução contra as telenovelas!

Porra!

O Hernani na 3, o bispo na 1… nem fui ver a 4!

Com programas da manhã destes, não admira que a malta continue um pouco estúpida…

Morrer no caminho

Mais um SAP que vai fechar durante a noite, em Vendas Novas .

A população protesta. Faz uma vigília í  porta do Centro de Saúde.

Dizem que Montemor-o-Novo fica muito longe. “Vamos morrer no caminho!”, lamentam.

(Note-se que são cerca de 26 km de distância entre as duas localidades).

Preferiam morrer na sua terra, o que é natural… Sim, porque um venda-novense com um enfarto que vá ao SAP de Venda Nova tem muitas probabilidades de morrer ali mesmo…

Morrer no caminho… é este o destino dos portugueses…

Reforma porno-democrática

—Quem se lembra da Cicciolina?

De seu verdadeiro nome, Anna Elena Staller, Cicciolina foi uma actriz porno muito famosa nos anos 80 e 90 do século passado. Nascida na Hungria, naturalizou-se italiana, no início dos anos 70, ao casar-se com o realizador de filmes pornográficos, com o sugestivo nome de Riccardo Schicchi.

Mais tarde, casou-se com o pintor naif norte-americano, Jeff Koons, em 1991 (é o menino que está por baixo dela na imagem).

Em 1979, Cicciolina decidiu enveredar pela política, ao mesmo tempo que continuava a fazer filmes porno.

Em 1987, foi eleita deputada pelo Partido Radical e durante 5 anos dividiu o seu tempo entre o Parlamento europeu e as pilas de Ron Jeremy, Rocco Siffredi e muitos, muitos outros!

Agora, com 60 anos, Cicciolina reformou-se.

Reformou-se e foi sacar 3 mil euros mensais í  Caixa Nacional de Pensões italiana, pelos seus 5 anos de duro trabalho como deputada.

Depois de ter sido comida das mais variadas maneiras por múltiplos parceiros cinematográficos, Cicciolina decidiu vingar-se comendo os contribuintes italianos.

Mas a dívida soberana da Itália começa a vacilar.

E qualquer dia, a troika vai atacar.

Claro que isso, para a Cicciolina, é canja.

Ela está habituada a despachar três de uma vez…

Jardim dixit

O DN recorda, hoje, algumas frases lapidares do Alberto João. Ei-las:

Sobre a possível candidatura de Cavaco a Belém: «A ida do professor Cavaco para Belém seria nociva ao país e ao PSD. O sr. Silva devia ser expulso do PSD.»

Sobre a candidatura de Passos Coelho í  liderança do PSD: «Acha que depois de 30 e tal anos de política, estou para ser liderado por ese indivíduo?»

Sobre António José Seguro: «Esse senhor chegou a secretário geral do PS? Desculpa, o que eu me lembro do sr. Seguro é de andar a distribuir preservativos pelas praias».

Sobre Sócrates: «Sócrates está obcecado contra um povo, que é o madeirense, e quer fechar a imprensa que lhe é adversa. É nitidamente um Mugabe».

Sobre Guterres: Â«É um tonto… e caloteiro».

O facto deste gajo estar no poder desde 1978, sem que ninguém, nunca, o tenha posto na ordem, é um daqueles mistérios insondáveis.

E claro que vai ganhar as eleições novamente – pois se até o sr. Silva o desculpa…

Por que não esmagámos o Naite?

Confesso que estava í  espera que o Benfica fosse esmagado ontem.

Temi que os Red Devils viessem por ali abaixo, ludibriassem o Emerson, atrapalhassem o Máxi, baralhassem o Luisão e desfeiteassem o Artur várias vezes.

Pensei mesmo que o Benfica perderia, pelo menos, por cinco.

E afinal, nada disso!

Podemos até dizer que o empate até foi lisonjeiro para o Manchester.

Mas só depois do jogo terminado é que percebi o que, de facto, se passara.

Jesus explicou tudo.

E disse que o Benfica jogara taco a taco com o Naite.

AH! Aquela equipa, afinal, não era o Manchester – era o Naite!

Assim, está tudo explicado!

Dez anos depois

Dez anos depois, os acontecimentos do 11 de Setembro, em Nova Iorque, transformaram-se em mais um fait-divers.

As televisões nacionais mudaram-se para Manhattan e transformaram tudo em “motivo de reportagem”.

E vemos o primo da amiga que era namorada do bombeiro que faleceu na queda das Twin Towers a ser entrevistado, mais o português emigrado que assenta tijolos na nova torre, mais o outro que esteve numa das torres horas antes do primeiro avião ter atravessado a estrutura.

O significado do ataque ao coração do capitalismo acaba por ser relegado para enésimo plano, enquanto diversas equipas de reportagem aproveitam para se passear pela Times Square, pela 5th Avenue, pelo Central Park, reportando insignificâncias.

A RTP, que tem não-sei-quantos milhões de prejuízo, enviou para Manhattan, pelo menos três equipas de reportagem e hoje, í  hora do almoço (e í  noite também, certamente) os telejornais foram transmitidos directamente de Nova Iorque!

Mas que merda é esta?!

Então não estamos em crise?

Afinal ainda há dinheiro para enviar todas esta maltósia para a terra do Uncle Sam?

Mas o que é que aconteceu de novo, que mereça tamanha cobertura jornalística por parte de um país periférico, a braços com uma crise económica do caraças?

Cambada de saloios novos ricos!

P.S. – E ontem no Congresso do PS, aquela cena do jornalista da Sic a mostrar os bastidores jornalísticos ao António José Seguro? Orgulhoso, dizia-lhe que ali trabalhavam 53 profissionais! 53 profissionais para cobrir o congresso do PS? Só da Sic? Se a RTP e a TVI, o DN e o Público, a TSF e a Antena Um, etc e tal, enviaram o mesmo número de pessoas, serão mais os profissionais da informação que os congressistas!