James Ivory realizou este filme em 1993, com Anthony Hopkins no papel de Mr. Stevens e Emma Thompson, no papel de Miss Kenton.
O facto de ter gostado muito deste filme fez com que me sentisse afastado do livro. Por vezes, a leitura do livro, afasta-me do filme; outras vezes, acontece o inverso.
No entanto, passados todos estes anos, arranjámos o tempo e a disposição para ler mais este livro do Nobel Ishiguro e não nos arrependemos.
A personagem do mordomo Mr. Stevens é excelente. Agora, que assistimos a manifestações por toda a Europa, a favor do direito à habitação e contra o custo de vida, com cargas policiais cada vez mais violentas, Mr. Stevens personifica a maioria silenciosa que segue cegamente a autoridade, incapaz de a pôr em causa. Darlington Hall, a casa que ele serve, está no meio de um grande conflito europeu, com a Segunda Guerra Mundial no Horizonte, mas o mordomo apenas está preocupado com a sua profissão. A sua política é o trabalho, como se dizia nos anos do Estado Novo. Tudo lhe passa ao lado, excepto a organização do seu trabalho – tudo lhe passa ao lado, incluindo Miss Kenton.
“As pessoas sofrem. Gente trabalhadora, decente, comum, sofre terrivelmente. A Alemanha e a Itália puseram a casa em ordem, agindo. E o mesmo fizeram os desgraçados dos bolcheviques, à sua maneira, suponho. Até o Presidente Roosevelt, repare, não tem medo de dar alguns passos ousados, em defesa do seu povo. Mas olhe para nós, Stevens. Os anos passam, um após outro, e nada melhora. Tudo quanto fazemos é discutir, debater e procrastrinar.”
Uma declaração que poderia ser dita pelo André Ventura, substituindo Roosevelt por Trump.
Uma leitura muito interessante.
