“A Viúva Grávida”, de Martin Amis

—Ora aqui está outro escritor contemporâneo muito badalado e com o qual não consigo encontrar afinidades.

Dele, ainda só tinha lido “O Cão Amarelo” (2004), que já não me tinha entusiasmado.

Este último livro de Martin Amis, editado no ano passado, diz que é “uma comédia de costumes, um pesadelo. Um livro brilhante, assombroso e gloriosamente arriscado”.

Os adjectivos são próprios de quem quer valorizar o produto que está a vender.

Li “A Viúva Grávida” com alguma dificuldade.

Trata-se de uma história certamente dedicada a outras inteligências – inteligências que percebam e aceitam frases como esta, na página 239: «continuava a coçar o pequeno inchaço avermelhado no lado mais pálido do antebraço, onde, na noite anterior, um mosquito lhe havia inserido a sua seringa. Keith estava no seu estado habitual, que era este. A cada dois minutos, ele conseguia ouvir os céus a relincharem perante a indulgência dele; e nos minutos entre esses, corava alvos suores ao pensar na sulfurosa fossa de alcatrão da sua alma.»

Ufa!

Ainda segundo a contracapa, a acção do romance decorre na década de 1970, num castelo, em Itália. Aí, meia dúzia de jovens interpretam a revolução sexual.

Talvez… mas confesso que quase não dei por nada.

A culpa deve ser minha…

Samantha Fox e o ministro das Finanças

—Quem se lembra da Samantha?

Em 1986, um jogo de strip poker permitia-nos despir a Samantha quase toda. Para ela ficar com as maminhas í  mostra, era preciso estar um bom bocado de volta do computador, até conseguir que ela tirasse a roupa.

Samantha foi um ícone dos anos 80, com o seu grande êxito “Touch Me”, acompanhado do sugestivo subtítulo “I Want Your Body”.

Também participou em alguns filmes pornográficos (não vi nenhum) e gravou seis álbuns (não ouvi nenhum), mas ficou mais conhecida pelos posters que forravam as paredes de muitos adolescentes desse tempo.

Pois a Samantha está viva e de boa saúde. Com 46 anos, foi convidada para actuar na inauguração do Naturewaterpark, perto de Vila Real.

Em entrevista ao DN, quando lhe perguntaram se ainda era um sex symbol, respondeu, toda atrevidota: «claro que sim, não se nota? Tudo no sítio, e espero continuar a ser sex symbol por mais alguns anos. Sinto-me jovem e bonita.»

Assim é que é, Samantha! Alto astral!

—Mas, perguntarão, o que tem a Samantha a ver com o ministro das Finanças, Vitor Gaspar?

Será que eu considero o Gaspar um sex symbol?

Será que eu era capaz de passar horas, em frente ao computador, a tentar despir o ministro, num jogo de strip poker?

Não! De modo nenhum!

Mas Samantha e Gaspar têm algo em comum.

Na citada entrevista, a Samantha diz: «Vou contar-lhe um segredo: os fãs que estão mais próximos do palco, quando o concerto começa, pedem o tema (Touch Me) e fazem o gesto com as mãos de tentarem tocar-me no peito. Mas logo lhes respondo: “Vamos guardar o melhor para o fim”. E no fim não têm direito a nada!»

É nisto que Gaspar é igual a Samantha: promete-nos cortes na despesa e, afinal, atira-nos com mais impostos.

No fim, não temos direito a nada!

O melro

Sabem quem é Daniel Campelo?

É aquele senhor deputado do CDS, que ficou conhecido por ter votado a favor de um Orçamento do governo de Guterres – o famoso Orçamento limiano.

Assim chamado porque Campelo era presidente da Câmara de Ponte de Lima, terra do queijo limiano.

Pois esse senhor é agora secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural – isto é, secretário de Estado de Coisa Nenhuma, já que florestas e desenvolvimento rural, são coisas que cá não há…

E foi ele, sagaz, que anunciou ter retirado o melro da lista das espécies cinegéticas.

A partir de agora, é proibido caçar melros!

Mais uma contundente medida deste governo, no sentido de diminuir a despesa pública!

O Coelho de férias!

O mundo ocidental está í  beira do abismo.

Para tentar encontrar uma resposta para a crise global provocada por José Sócrates:

a) David Cameron, primeiro-ministro inglês, reuniu-se com o presidente francês, Sarkozy

b) Sarkozy, para além de conversar com Cameron, teve conversas telefónicas com a chanceler alemã, Angela Merkel

c) Por sua vez, Merkel trocou opiniões com  Berlusconi, o primeiro-ministro italiano

d) De sublinhar que Berlusconi, este ano, desistiu de tirar férias

e) O comissário Olli Rehn, aquele que fala inglês com as sílabas arrastadas, interrompeu as férias e regressou a Bruxelas

f) Trichet, o chefe do Banco Eurpeu, convocou uma reunião de emergência

g) O chefe dos americanos, Obama, esteve ao telefone com Merkel e Sarkozy e fez uma comunicação de emergência ao país

e o primeiro-ministro de Portugal, Coelho, entrou de férias e está a banhos, em Manta Rota!

Para se justificar, colocou um texto de ir í s lágrimas, no Facebook, intitulado “uma pequena reflexão de verão“.

De um tipo como este, não seria de esperar outra coisa, se não “uma pequena reflexão”…

E a comunicação social, bajuladora, noticia o medíocre texto, como se fosse uma obra de arte da literatura, citando-o quase na íntegra.

Lembram-se, certamente, do que aconteceu com as férias do Sócrates, o gajo que desencadeou esta crise toda…

Logo no primeiro ano, publicaram uma foto em que o homem punha protector solar nas costas de outro homem. Era o irmão, mas isso pouco importava, na altura.

No ano seguinte, noticiaram, em parangonas, que estava no Quénia, com os filhos, a fazer safaris fotográficos, em vez de estar a poupar dinheiro.

Mas o Coelho pode ir de férias í  vontade.

Coitado, também já é primeiro-ministro há dois longos meses, porra!

“Chico” – o novo disco de Chico Buarque

—O último disco de Chico Buarque, “Carioca” (2006), desiludiu-me um pouco. Achei-o morno, sem grande chama e sem uma grande canção que deixasse marca.

Pelo contrário, este “Chico” é um grande disco.

Começa da melhor maneira, com “Querido diário” (hoje pensei em ter uma religião/ de alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício/ por uma estátua ter adoração/ amar uma mulher sem orifício) – e termina com a melhor canção do disco, “Sinhá”. São duas cantigas í  Chico.

As restantes oito canções são todas muito audíveis, com destaque para “Essa pequena”, um surpreendente “blues” e “Sou eu”, com os jogos de palavras habituais em Chico.

Grande disco, este “Chico”. Já o ouvi várias vezes.

Pobres doentes e doentes pobres

Aquele ministro da lambreta, o Mota, anunciou ontem o PES.

O PES, Plano de Emergência Social, é assim uma espécie de caridade mascarada de medidas sociais.

Uma dessas medidas visa distribuir pelos pobrezinhos doentes, medicamentos que estejam nos últimos seis meses do seu prazo de validade.

E poderemos assistir a cenas como esta:

Mota – Está a ver, amigo, tem aqui três caixas de Sinvastatina que lhe dou eu. Agora, já pode controlar o seu colesterol.

Pobre – Mas eu só tomo um comprimido desses por dia, e o prazo de validade das caixas termina no mês que vem…

Mota – Ora, ora… passa a tomar dois ou três comprimidos por dia! Tem que aproveitar, porque é de borla! E assim até acaba com o colesterol mais depressa!…

O Papa e o papel higiénico

A Renova teve uma ideia, digamos, de merda!

Literalmente!

Aproveitando a visita do Papa Bento XVI a Espanha, a Renova lançou um novo modelo de rolos de papel higiénico com as cores da bandeira do Vaticano.

A ideia é que os fiéis atirem os rolos í  passagem do Papa, como se fossem serpentinas.

Claro que pedras com as cores do Vaticano tinha sido uma ideia muito melhor, mas enfim…

O objectivo é fazer propaganda í  Renova e, mesmo depois do Papa se ir embora, os espanhóis podem continuar a pensar em Bento XVI, sempre que limpem o cu…

50 anos de 4 L

Faz hoje 50 anos que a Renault apresentou ao público o primeiro modelo do 4L, que rapidamente se popularizou como R4.

O R4 teve uma longa e profícua vida, que se prolongou até 1993, com mais de 8 milhões de viaturas matriculadas.

O R4 foi o meu primeiro carro. Comprei-o em enésima mão no stand do Alberto Henriques da Silva, em Julho de 1978, faz agora 33 anos.

—Custou-me 110 mil escudos (548 euros), numa altura em que, como médico recém-formado, ganhava 8 mil escudos por mês (39.90 euros).

Tinha tirado a carta há pouco tempo e nunca tinha conduzido nenhum carro, para além do da instrução, que era um Fiat, se não me engano. Por isso, e porque o R4 tinha a alavanca das mudanças ao lado do volante, a viagem do stand, em Lisboa, até ao Algueirão, onde morava nessa altura, foi uma aventura.

Aquilo era dá cá a bengala, com o manípulo virado para a esquerda, e metias a primeira; toma lá a bengala, com o manípulo virado para a direita, e metias a segunda; dá cá a bengala, com o manípulo virado para a direita, e metias a terceira; toma lá a bengala, com o manípulo virado para a esquerda, e metias a quarta. Se não era assim, era parecido.

Só que eu, depois da primeira e da segunda, não atinava com a terceira.

O que vale é que ainda não havia IC 19 e, a partir da Damaia, era tudo província e quase não se viam carros na estrada…

Foi a bordo deste R4 que fomos todos para Moimenta da Beira, para cumprirmos os nossos seis meses de Saúde Pública, no Centro de Saúde de Armamar.

A viagem demorava o dia todo e era um pesadelo. Atrás, os miúdos enjoavam e, de quando em vez, era preciso parar na berma, para o vómito da ordem.

E há que recordar que, naqueles tempos, a auto-estrada Lisboa-Porto terminava em Aveiras de Cima. A partir dali, e até Moimenta da Beira, era um sufoco atrás dos camiões carregados de tudo e o R4 sem força para os ultrapassar.

Como enésimo dono deste R4, tive direito a sobre-aquecimento do motor, logo um mês depois da compra. E, nos trajectos entre Moimenta e Armamar e nas visitas í s escolas da região, para fazer Saúde Escolar, muitas vezes ficámos no caminho, com o R4 a fumegar, qual geiser do Yellowstone!

Em Novembro de 1978 desisti. Comprei um Fiat 124 em quinta mão e vendi o R4 por 30 contos (150 euros).

Apesar de tudo, tenho saudades do velho R4.