Mercados

Gosto de ver mercados.

Gosto de ver as frutas e os legumes coloridos alinhados nas bancadas, os peixes, por vezes desconhecidos, com aqueles olhos esbugalhados e as bocarras abertas, os frangos sem cabeça, pendurados com as patas pendentes, e os locais fazendo as suas compras. Eles já lá estavam antes de eu entrar no mercado e vão continuar com as suas vidas, mesmo quando eu me venho embora.

La Boqueria (Barcelona), Mercado do Porto (Cuiabá), Centraltirgus (Riga), Mercato Centrale (Florença), Kauppatori (Helsínquia), Jema Al-Fna (Marraquexe), Petticoat Lane (Londres), são alguns dos mercados por onde já passei.

Algumas notas e respectivas fotos em Já Lá Estive, pesquisando a “tag” mercados.

Silly judge season

É tradicional: o mês de Agosto é o mês de notícias ainda mais patetas.

Há pouco material noticioso, a não ser os incêndios, a violência doméstica (24 mulheres assassinadas desde Janeiro pelos respectivos companheiros), a catástrofe dos incêndios na Rússia, as inundações na Polónia, na Alemanha e no Paquistão, o regresso de Fidel Castro, após quatro anos de retiro, a possível tensão bélica entre a Venezuela e a Colí´mbia, a divulgação na comunicação social de milhares de documentos secretos do exército norte-americano – mas, enfim, sem ser isto, que não interessa nada, pouco há para noticiar.

É, portanto, nestas alturas, que os jornais e as televisões se viram mais para os fait-divers, para a pequenina notícia idiota que, em outras alturas, passaria despercebida.

Chama-se a isto a silly season.

Mas esta silly season tem um atractivo: os juízes.

Não se entendem.

Por causa do Freeport, zangaram-se a sério. De um lado, Pinto Monteiro e Cândida Almeida; do outro, o sindicatos dos juízes.

Os procuradores encarregados do Freeport arquivam o processo, publicando um despacho em que dizem que não tiveram tempo, em 6 anos, para questionar o 1º ministro; Pinto Monteiro diz que manda tanto como a rainha de Inglaterra; ontem o Expresso dizia que Cândida Almeida negociou a não inquirição a Sócrates, em troca da publicação das perguntas que lhe deveriam ter sido feitas; o DN diz hoje que, segundo os ingleses, os procuradores portugueses não percebiam nada do processo e estavam mas era preocupados em afirmar a sua independência…

Silly judges!…

PS – este post deve ser lido tendo, como música de fundo, aquela célebre estrofe: “se tu visse o que eu vi/ í  porta do tribunal/ as cuecas do juiz/ embrulhadas num jornal”

Os poderes de Pinto Monteiro I

Pinto Monteiro I (leia-se “Primeiro”) diz que tem os mesmos poderes que Elizabeth II (leia-se “Segunda”).

Não está satisfeito e compreende-se.

Eu também não estaria.

Ser considerado o chefe dos procuradores e ser gozado por todos eles, estar no topo da pirâmide e ter um Sindicato a roer-me os calcanhares!…

Não sei porquê – preconceito, se calhar – sindicato cheira-me a suor, sovacos molhados, pêlos no peito, punhos no ar, dentes amarelos, bocas vociferantes expelindo perdigotos.

Caricaturas, eu sei…

Porque este sindicato dos procuradores é fato e gravata de seda, relógios automáticos, cabelo bem penteado, cuecas Armani (borradas na mesma, mas isso é outra questão, parecida com a história da lágrima do António Gedeão…).

E então, Pinto M onteiro I (leia-se “Primeiro”) quer outros poderes.

Por exemplo: a audição do Super-Homem, para poder fazer escutas sem precisar dos tipos da Judiciária.

Por exemplo: visão RX, para ver através das paredes e antecipar as tramas que lhe estão a tramar.

Por exemplo: poder voar.

Voar daqui para fora!

Santa ingenuidade…

Eu sei que parece ingenuidade, mas reparem:

– o Bruno Alves foi vendido ao Zenit de São Petersburgo por 22 milhões de euros (obrigado, tovarich! os relvados portugueses vão ficar muito mais seguros!)

– o Miguel Veloso foi vendido ao Génova por 9 milhões

– o Sporting comprou Zapater por 2 milhões

– o Benfica vendeu o Ramires por 20 milhões ao Chelsea e comprou o Rodrigo, ao Real Madrid, por 6 milhões

– o Porto comprou o avançado Walter por 3,7 milhões

– o Braga vendeu o Eduardo ao Génova por 4,5 milhões.

Só aqui estão contabilizados mais de 60 milhões de euros.

Crise? Qual crise?

Lugares comuns

Para mim, o Pedro Abrunhosa não me diz nada. Acho pateta aquela encenação da cabeça rapada e os óculos escuros e acho que o tipo já tem idade para ter juízo. Achei-lhe alguma graça, lá por volta de 1995, quando era preciso ter calma e ele não dava o corpo pela alma, mas foi mais í  custa do americano do saxofone. Daí para cá, uma vulgaridade.

Acontece que a TSF tem uma obsessão pelo Abrunhosa e pelo Jorge Palma, algo que não se percebe. Ou é doença dos locutores de continuidade ou há explicações mais prosaicas. Enfim… o que acontece é que tenho o rádio que está por cima da sanita sintonizado para a TSF. É lá que oiço as notícias das 7 da manhã, todas as manhãs. E, antes das notícias, é muito frequente levar com o Palma ou o Abrunhosa.

Estou-me a cagar para ambos, literalmente, mas irrita-me a vulgaridade armada ao pingarelho…

Explico melhor:

Tinha eu cerca de 14 anos quando os meus pais me ofereceram uma guitarra. Adolescente com guitarra e que aprenda meia dúzia de acordes, começa logo a compor canções. É dos livros. Então, eu compus uma canção intitulada “Vou”, apenas com três acordes, o mi, o ré e o lá, tudo em tom maior, claro.

Orgulhoso, decidi mostrar essa minha canção num jantar familiar. Uma das estrofes da cantiga dizia: “sozinho pela estrada/ com os bolsos cheios de nada/vou…”

Aí, o meu tio Xico, que era jornalista no Mundo Desportivo, zombou: “com os bolsos cheios de nada? que parvoíce é essa? se estão cheios, não podem ter nada…”

Eu ainda pensei em explicar que aquilo era uma figura de estilo, uma coisa poética e tal, mas quem era eu para pí´r em causa a sapiência de um tio, ainda por cima, jornalista?

Passaram 40 anos e oiço o Abrunhosa, na sua cantiga “Fazer o que ainda não foi feito”, a dizer que tem “uma mão cheia de nada”!

A cantiga, que também só tem três ou quatro acordes, é o cúmulo do lugar comum, quer na música, quer na letra, incluindo pérolas como “trago-te em mim, mesmo que chova no verão”, “és um mundo com mundos por dentro”, “amanhã é sempre tarde demais”, “esse teu corpo é o teu porto” e outras banalidades assim.

E a TSF, que passa tão pouca música, gasta minutos com vulgaridades destas.

í“ Abrunhosa, vê se amadureces, pá que eu, aos 14 anos, já tinha os bolsos cheios de nada!

Desculpa esfarrapada

Depois de ir pí´r os miúdos ao colégio, tive que ir fazer umas compras ao supermercado, depois deixei uma ropinha no sabão e dei um jeitinho í  casa, incluindo um lambuzadela í  casa de banho que os miúdos deixam sempre aquilo num alvoroço depois de tomarem banho, a seguir sentei-me a fazer o IRS, dei uma volta pela net, para ver as mensagens no Facebook e fui ao cabeleireiro, tive que arrumar a garagem, que está cheia daqueles caixotes que o Luis lá deixou antes de ir de férias, levei o carro í  revisão e aproveitei para ver preços dos novos modelos, no Outono estou a pensar trocar de carro, passei pela agência para confirmar a minha viagem de férias, fui comprar peúgas e uns boxers para substituir os que já estão esgarçados nas virilhas, bebi uma bica e comi um palmier, dei uma vista de olhos pelo jornal e, no meio disto tudo, não arranjei tempo para fazer 27 perguntas ao Sócrates!

E agora dizem-me que acabou o prazo e já não as posso fazer?!

Onde pára a justiça?!

Nota: os procuradores encarregados do caso Freeport dizem, ao fim de 6 anos de investigação, que não tiveram tempo para interrogar o desgraçado do Sócrates!…

Calor!

Sempre que está um dia quente como o de hoje, recordo-me deste conto, do Mário Henrique Leiria, que conta o seguinte:

Medicina tropical

O calor era alucinante. A chuva caía pesada, num jogo de massacre.

Sentiu que tinha uma tremenda dor de cabeça. Dirigiu-se ao posto clínico.

—– Isso é coisa sem importância – disse o médico. – Tome estes comprimidos – deu-lhe três.

Tomou.

O calor continuava, sólido e exacto. A chuva também, persistente.

A dor de cabeça estava aumentar. Voltou ao posto clínico.

– Vamos já tratar disso – afirmou o médico. – Ora vire-se para lá.

Virou-se.

O médico proporcionou-lhe quatro supositórios.

O calor ainda; e a chuva. Sempre.

A dor de cabeça a estoirá-lo. retornou ao posto clínico.

– Vai ver que fica bom – explicou o médico. – Ora abra a boca.

Abriu.

O médico extraiu-lhe imediatamente dois molares e um canino.

O calor estava realmente alucinante. A chuva era espaço líquido.

A dor de cabeça a invadir-lhe o corpo todo. Foi ao posto clínico. Uma vez mais.

– Então como vai isso? – perguntou o médico.

Puxou o facão e espetou-o, preocupado e consciente, através do médico.

Resultou.


Este conto foi publicado no livro “Contos do Gin Tónico”, editado em 1973 pela Estampa, com capa da Velha, nome carinhoso que adoptámos para designar o Mário.

O Mário foi o chefe de redacção das 13 edições de O Coiso, em 1975.

As comparações de Paulo Portas

Fazendo lembrar os seus tempos de director de O Independente e criador de títulos de primeira página, Portas disse: ” Sócrates está para a justiça social como a vuvuzela está para a música clássica”.

O Portas sempre foi um cómico que se perdeu na política, embora, na Assembleia da República, algumas das suas intervenções estejam ao nível do stand up.

Mas com aquela comparação, Portas pode ter iniciado uma nova moda na política portuguesa.

Assim, comentando a proposta do PSD para a revisão constitucional, Sócrates poderá dizer que Passos Coelho está para a Constituição como o parafuso está para a Torre Eiffel.

Ou questionado quanto í  possibilidade de uma aliança í  esquerda, o líder do PS poderá dizer que Jerónimo de Sousa está para o futuro da democracia como os sinais de fumo estão para o iPhone.

E quanto í  eventualidade do Bloco integrar um futuro governo, caso Manuel Alegre seja Presidente, Jerónimo de Sousa poderá dizer que Louçã está para a credibilidade política como a BP está para a defesa do ambiente.

Finalmente, se perguntarem a Passos Coelho a sua opinião sobre a hipótese do PS se coligar com o CDS-PP, o líder do PSD dirá que Paulo Portas está para a competência governativa como o submarino está para a aviação comercial.

Obrigado, Portas!

CPLP expande-se

Para além dessa maravilhosa democracia que é a Guiné Equatorial, outros países pediram, também, para serem membros de pleno direito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, a saber:

– a Venezuela, porque tem muitos emigrantes portugueses, porque nos compra os Magalhães e porque Chavez é grande amigo do Sócrates e do Alberto João;

– a Líbia, porque Kadhafi já armou a sua barraca em Portugal e gostou;

– o Kosovo, porque Portugal é um dos poucos países europeus que reconheceu a sua independência;

– a Ucrânia, porque metade da população já fala português porque, ou está emigrada em Portugal, ou já esteve e ficou a falar melhor português do que alguns portugueses nas entrevistas de rua dos telejornais;

– e a Coreia do Norte porque foi a única equipa a quem Portugal marcou golos no Campeonato da Vuvuzela.

Pequena nota: a esperança média de vida na Guiné Equatorial é de 51 anos, a taxa de mortalidade infantil é de 92 por mil nascimentos, três em cada quatro habitantes do país vive abaixo do limiar da pobreza e o actual presidente foi considerado pela Forbes o oitavo governante mais rico do mundo.