Este foi o último livro publicado por Mega Ferreira (1949-2022) e é um pequeno dicionário de palavras que caíram em desuso.
O autor aproveita cada uma dessas palavras para recordar momentos da sua infância ou da sua adolescência e, como Mega Ferreira nasceu poucos anos antes de mim, muitas dessas recordações tiveram eco em mim.
Podia citar várias passagens deste pequeno livro, mas esta é muito significativa. A propósito da palavra capelista, escreve:
“…No meu trajecto infantil para a escola da Rua das Pedras Negras, passava todos os dias por duas capelistas. A maior, situada defronte da igreja de São Cristóvão, propunha, além das retrosarias que lhe davam razão, sabonetes (Musgo Real), pó de talco (Ausonia), pasta de dentes (Couto), creme de depilação (Taky), borrachas de apagar (Inexca) e lápis (Viarco), latinhas de creme Nivea e os rebuçados do Dr. Bayard.”
O livro apresenta-se em forma de dicionário e ainda na letra C, encontra-se a palavra comboios que, apesar de tudo, está outra vez a usar-se mais, talvez devido í prolongada greve dos maquinistas. Mas o que Mega Ferreira nos conta nesta entrada do seu Roteiro, é que morou, durante algum tempo em Mem Martins, o que é uma coincidência. Penso que ele terá morado aí na mesma altura em que eu morava no Algueirão. E, morando na linha de Sintra, ia todos os dias para Lisboa de comboio e…
“…Ora, o comboio da linha de Sintra foi o veículo através do qual me fiz ao mundo. Conheci comerciantes e funcionários públicos, bancários e militares, estudantes e jornalistas, solicitadores e comissionistas, professores e despachantes de alfândega (profissão que caiu em desuso, entretanto). Andava-se menos, muito menos, de automóvel, nessa época. No comboio, jogava-se í sueca, lia-se o Diário de Notícias e o Século (as senhoras eram muito da Crónica Feminina), e os mais novos, todos estudantes, discutiam política, í s vezes veladamente, outras nem tanto.”
Começo por uma declaração de intenções: o João Miguel Tavares (a partir de agora identificado com JMT), irrita-me por razões pouco ortodoxas. Irrita-me porque carrega nos érres e irrita-me porque tem cara de quem sofre de obstipação. Deixei de seguir o programa Governo Sombra por causa dele.
Claro que tem todo o direito de ter as suas opiniões, mas podia guardá-las lá para casa. No entanto, por razões que não compreendo, tem direito a publicar duas vezes por semana, crónicas na última página do Público.
Habitualmente, limito-me a ler o título ““ isto porque no início, desconhecendo a pestilência da criatura, li duas ou três crónicas e demorei semanas a recuperar. Estou em crer que quem lê sempre as crónicas de JMT, corre sério perigo de vida.
A de hoje intitula-se “…Há algum perigo maior do que o Chega? Sim, o actual PS”
Por dever ““ e protegido por uma máscara anti-gás ““ decidi ler a crónica de hoje. No fundo, alimentei a falsa esperança de que JMT se tivesse passado definitivamente.
A crónica começa por revelar que há dois tipos de direita em Portugal: «A direita 1 considera aceitável que o PSD faça um acordo com o Chega para chegar ao poder (…). A direita 2 considera tal acordo inaceitável. (…) Como se sabe, eu faço parte da direita 1».
Portanto, ficamos a saber que o JMT não se importa que o PSD se alie ao Chega (coisa que já sabíamos, claro).
Depois de mais umas considerações para encher chouriços (uma página inteira do Público custa muito a preencher), JMT termina com este parágrafo espectacular:
«A direita 2, tal como a direita 1, não gosta de António Costa ““ só que não suporta as porcarias de Ventura. A direita 1 não suporta as porcarias de Ventura ““ mas sabe que ele é apenas o subproduto de um regime apodrecido. O primeiro responsável por esse apodrecimento não é o Chega. É o Partido Socialista.»
Que conclusão brilhante!
Dito de outra maneira, o primeiro responsável pelo apodrecimento do regime que deu origem ao Chega e ao Ventura, foi a maioria (absoluta) dos portugueses que votaram no PS.
Que fazer então?
Penso que a única solução é expatriar JMT, enviá-lo para outro país que tenha outro povo porque este não o merece!
Entretanto, vou forrar o caixote do lixo com a última página do Público…
Não foi fácil a leitura deste calhamaço de mais de 700 páginas…
David Graeber (1961-2020), foi um antropólogo norte-americano e Wengrow (1972) é um arqueólogo britânico.
Ambos são autores desta obra que mostra uma nova interpretação para as sociedades humanas mais antigas. Como nasceram civilizações por nós ignoradas, com organizações sociais completamente diferentes das que estamos habituados a ouvir falar? será que todos os povos passaram pela mesma evolução, desde os pequenos clãs ou bandos até aos Estados mais complexos? Ou será que a narrativa a que estamos habituados está desactualizada?
Estes dois autores vão descrevendo inúmeros exemplos de novas descobertas que põem em causa esta narrativa. Houve povos que viveram em anarquia, sem reis nem chefes, que praticaram a agricultura apenas em parte do ano, enquanto noutra parte voltavam í recoleção. Desconhecemos e ignoramos o que se passou na América pré-colombiana e toda a História da humanidade é demasiado eurocêntrica.
Embora esta obra esteja escrita numa linguagem acessível, nem sempre é fácil seguir o raciocínio dos autores, sobretudo para quem nunca estudou estes assuntos.
Vale a pena transcrever algumas passagens.
Esta, na página 155, é dedicada aos liberais:
“…A sabedoria convencional também nos transmite que, assim que se verifica um excedente material, há também o surgimento de especialistas de ofícios a tempo inteiro, guerreiros e sacerdotes que o reclamam e vivem í s custas de parte dele (ou, no caso dos guerreiros, que passam a maior parte do tempo a tentar descobrir novas formas de o roubar uns aos outros): e, sem demora, começam a aparecer os comerciantes, os advogados e os políticos. Estas novas elites, como Rousseau enfatizou, bão agrupar-se para proteger os seus ativos, pelo que o advento da propriedade privada é seguido, inexoravelmente, pela ascensão do Estado”
Em certas sociedades, ser-se político exigia muito mais do que actualmente, como na Mesoamérica, em Tlaxcala:
“…Aqueles que aspiravam um papel no conselho de Tlaxcala, longe de terem de demonstrar carisma pessoal ou a capacidade de superar os rivais, faziam-no num espírito de autodesvalorização ““ quase vergonha. Era-lhe exigido que se subordinassem ao povo da cidade. Para garantir que esta subordinação não era uma mera encenação, cada um tinha de se sujeitar a provações, começando pela exposição obrigatória í humilhação pública, encarada como a recompensa adequada í ambição, e depois ““ com o ego em farrapos ““ a um longo período de reclusão, no qual o aspirante a político sofria os tormentos do jejum, da privação do sono, sangria e de um rigoroso regime de instrução moral. A iniciação terminava com uma «saída» do recém-constituído funcionário público num ambiente festivo de celebração.”
Quanto í definição de Estado:
“…Contudo, talvez o primeiro a tentar a desenvolver uma definição sistemática tenha sido Rudolf van Ihering, um filósofo alemão que, no final do século XIX, defendeu que um Estado era qualquer instituição que reclamava o monopólio de uso legítimo da força coerciva dentro de um determinado território (…). Segundo esta definição, um governo é um «Estado» se reivindicar uma certa extensão de terra e defender que, dentro das suas fronteiras, é a única instituição cujos agentes podem matar pessoas, agredi-las, cortar-lhes partes do copor ou prendê-las em cadeias, com von Ihering salienta, que pode decidir sobre quem mais possui o direito de o fazer em seu nome.”
E este velho adágio mongol, que ainda hoje está bem actual:
“…Conquistar o mundo a cavalo é fácil; o difícil é desmontar e governar”.
E só mais uma, mostrando que, se a invenção da lâmpada pode ter sido revolucionária, há outras invenções que a História ignora e que podem ser ainda mais importantes:
“…Sempre que nos sentamos para tomar o pequeno-almoço, é provável que beneficiemos de uma dúzia de tais invenções pré-históricas. Quem foi a primeira pessoa a descobrir que poderíamos fazer crescer o pão crescer através da adição daqueles microrganismos a que chamamos fermentos? Não fazemos ideia, mas temos quase a certeza de que foi uma mulher e muito provavelmente não seria considerada «branca» se tentasse imigrar para um país europeu acutal; e sabemos que a proeza dela continua a enriquecer as vidas de milhares de milhões de pessoas”.
Mais um grande romance simples de Elizabeth Strout, que venceu o Pulitzer com o anterior romance dedicado a esta personagem por ela criada.
Olive Kitteridge foi professora de matemática na pequena cidade do Maine, Crosby. Está reformada, sobreviveu ao seu primeiro marido, Henry, um farmacêutico muito popular naquela cidade e, agora, neste segundo volume, casa-se com Jack, um viúvo com muito dinheiro, que gosta de viajar em primeira classe, coisa que Olive abomina.
Como é habitual nos romances de Strout, embora Olive seja a protagonista, há muitas outras histórias para contar. São histórias simples, de encontros e desencontros, de algumas tragédias, de coisas que acontecem í s pessoas. Olive Kitteridge tem algum relacionamento com os protagonistas destas histórias, porque foi professora de matemática de todas elas.
Olive vai envelhecendo e acaba por ir viver para uma residência para idosos e, mesmo aí, as histórias vão acontecendo.
Mais um grande livro sobre pessoas verdadeiras, embora de ficção.
O bispo de Santarém explica por que razão não suspende um padre que foi acusado de pedofilia.
Explica o bispo ao repórter da Sic: “…Pelos exames a que foi sujeito […] e a conclusão foi que se trata de uma depressão. A pessoa está sobre uma depressão e fez o que não devia. Essa depressão não se configura com um pedófilo compulsivo. Não é a mesma coisa”.
O bispo estava a falar de um padre que abusou de duas meninas com 11 e 12 anos. estava deprimido, coitado…
Um dia acordou, sem saber o que fazer, deprimido, e abusou de uma menina de 11 anos. não foi uma compulsão.
Outro dia, deprimido como o caraças, abusou de uma menina de 12 anos. Nada de compulsão!
O padre estava sobre uma depressão , que é como quem diz, estava em cima de uma depressão. Que mais podia ele fazer se não abusar de meninas?
O bispo de Santarém é um cómico, o que não admira, já que se chama José Traquina.
Isto de os padres estarem deprimidos e desatarem a abusar de meninas ou meninos, não passa mesmo de traquinices!…
Como o bispo Traquina explicou í Sic, um pedófilo compulsivo abusa de menores mesmo sem estar deprimido. É uma compulsão. Como aquelas pessoas que não saem de casa sem ver vinte vezes se o gás está fechado.
Nada disto se passava com o padre em questão. Como o bispo Traquinas afirmou, ele até fez exames! Devem ter sido análises í pedofilia!
Ai Traquinas, traquinas ““ quando é que tu quinas?!
No xadrez, os bispos só andam na diagonal. Pelos vistos, na Igreja católica, também. Se andassem a direito, já tinham dado de caras com os padres abusadores. Mas parece que não viram nada.
O cardeal patriarca, com aquele sorriso cínico que lhe é tão característico, diz que só recebeu uma lista de nomes. Precisa dos factos e do contraditório.
Está-se mesmo a ver que querem confrontar as vítimas. “…Então meu filho, não terás sido tu que te puseste a jeito?… Não mintas ou a ira do Senhor abater-se-á sobre ti, pecador!”
Ao fim e ao cabo, até foram poucos casos. Quantos milhões de católicos tem Portugal? Muitos! E quantos casos a Comissão Independente descobriu? Uns escassos milhares.
Até o presidente Sousa disse que estava í espera de mais. Neste segundo mandato, parece que o presidente Sousa anda um pouco distraído. Até se esqueceu que foi ele que convidou o presidente Lula para a sessão solene do 25 de Abril!
Mas voltando aos bispos.
Parece que uma boa parte dos membros da igreja católica seguiu í risca as palavras de Cristo: “…Venham a mim as criancinhas”. Mas na versão mais prosaica de António Boto: “…Gosto mais de fedelhos/ vou-lhes ao cu/ dou-lhes conselhos/ Enfim, gosto!”
Saudades de quando os professores davam aulas todos os dias e aceitavam prescindir de 10% dos salários, do subsídio de natal e do subsídio de férias, tudo para agradar í troika, como tu pediste!
Saudades dos comboios sempre a rolar, com os maquinistas felizes por estarem a ajudar o país a sair da bancarrota!
Saudades das urgências hospitalares quase vazias e dos médicos do privado a regressarem ao SNS, trazendo consigo os enfermeiros!
Saudades das casas para alugar a preços acessíveis, sobretudo aquelas casas para jovens, praticamente de graça!
Saudades dos impostos cada vez mais baixos, que nos deixavam margem para gastarmos dinheiro em marisco e outras loucuras!
E saudades do irrevogável Paulo Portas!
Diz-me que voltas, Passos, mas traz o Portas contigo! Mas avisa antes para ter tempo para fazer as malas e raspar-me daqui para fora!
Gostei muito de A Gorda, o livro anterior de Isabela Figueiredo. Não posso dizer o mesmo deste novo romance.
Penso que as personagens são demasiado esquemáticas. O protagonista é um homem solitário que vive í custa do Rendimento de Inserção, uma pequena pesada de uma avó nonagenária e da recolha de trastes que apanha no lixo e vende na Feira da Ladra. Para compor o ramalhete, é vegetariano e adora animais em geral, e cães em particular. Na casa ao lado vive uma vizinha que é acumuladora e adora gatos.
Posso estar enganado, mas a história do protagonista é pouco credível. Durante a noite, anda pelos contentores, em busca de coisas que as pessoas deitam fora e que ele aproveita, para depois vender na Feira da Ladra, mas essa parte ““ a da venda dos objectos recolhidos no lixo ““ quase não faz parte da história e poderia enriquecê-la. Visito a Feira da Ladra com frequência e penso que aqueles homens e mulheres e estão ali a vender bugigangas, velharias sem importância, verdadeiro lixo, são muito capazes de terem histórias bem interessantes para contar. Não é o caso do protagonista deste romance. A história dele é mais comezinha. Perdeu os pais muito cedo, o pai era do PCP, a mãe era mais moderada, a avó foi funcionária pública. Ele teve uma paixoneta por uma colega de liceu que se entregou í droga e que, afinal, talvez fosse lésbica. Quase a terminar a história, o protagonista, o tal que vai vender trastes para a Feira da Ladra, diz:
“A segunda, terceira e quarta novidades de 2019 é que tinha passado a ter telemóvel para lhes telefonar todos os dias. e televisão, que a minha avó me oferecera. pequena, mas com qualidade HD, aliás, ultra HD. era como se estivesse no cinema e dentro do ecrã. e um pacote de tv, internet e fixo. era todo um novo mundo. podia ver as notícias, mas sobretudo os canais de filmes e documentários.”
Quase parece um anúncio a um dos operadores do mercado…
Fui percorrendo as páginas deste livro de Isabela Figueiredo, em busca do interesse que A Gorda me despertou. Em vão. Paciência…
Depois do êxito de O País dos Outros, que venceu o Prémio Goncourt, a expectavia era grande em relação a este segundo volume da saga de Mathilde e Amine, uma alsaciana que se casou com um marroquino, indo viver para o norte de ífrica, enfrentando todas as grandes diferenças civilizacionais entre as suas raízes e as do seu marido marroquino.
Este segundo volume não me marcou tanto como o primeiro, talvez porque a escrita de Slimani já me fosse conhecida de outros livros, como em Canção Doce e No Jardim do Ogre.
Apesar disso, gostei bastante deste segundo volume da saga da família Belhaj. Acompanhamos o crescimento de Aicha, que se forma em Medicina e se casa com Mehdi, a emancipação de Selim, que, seguindo o movimento hippie, sai de casa e acaba nos Estados Unidos, país que Amine, seu pai, gostaria de ter conhecido.
Seguimos o envelhecimento de Mathilde, que engorda e aceita que Amine tenha amantes, mas que vai conseguindo algumas conquistas, como ter uma piscina na propriedade cada vez maior do seu marido.
Não há dúvida que Slimani escreveu uma obra épica e, com o aparecimento de novas personagens, como o marido de Aicha e a sua relação ambígua com o Poder do rei Hassan II, poderemos vir a ter um terceiro volume desta saga.