Vendam a cocaína!

Portugal foi o segundo país da Europa que maior quantidade de cocaína apreendeu em 2006: mais de 34 toneladas.

Melhor que nós, só a Espanha, com 47 toneladas.

O Público faz as contas: a 45 euros a grama, a cocaína apreendida renderia mais de 1,5 milhões de euros – cerca de metade do que vai custar o aeroporto da Ota.

í“ Sócrates: estás í  espera de quê, pá?

Criança triste, criança alegre

Segundo um relatório da Unicef, divulgado ontem, uma em cada cinco crianças portuguesas diz que está triste.

Todos os órgãos de comunicação social parecem chocados com este resultado. Não percebo porquê.

Com o aumento do desemprego, o deficit, os cortes nos benefícios sociais, a eliminação do Benfica, pelo Varzim, a continuação de Carmona í  frente da Câmara de Lisboa e Salazar í  beira de ser votado o melhor português de sempre, o que me admira é que, em cada cinco crianças portuguesas, haja quatro felizes!

Aliás, este relatório da Unicef é altamente preconceituoso.

Por exemplo: não é a gravidez, uma fase da vida tão bonita para qualquer mulher, a taxa de natalidade não está a baixar perigosamente, não é verdade que, qualquer dia, não há população activa em quantidade suficiente para pagar as reformas aos velhotes? Então, qual é o mal de Portugal ser o terceiro país da Europa com maior taxa de gravidez na adolescência, sendo apenas suplantado pela Hungria e pela Inglaterra? Não deveríamos ter mais grávidas – e quanto mais cedo, melhor?

Outro exemplo: parte-se do princípio, altamente discutível, que a escola é uma coisa boa. É apenas mais um preconceito. E o relatório da Unicef diz que, no que respeita í  educação, Portugal está em último lugar, na tabela dos 21 países estudados.

No entanto, se partirmos do princípio que a escola é uma seca, é normalizadora, que incute nas crianças os valores burgueses da classe dominante, então, os nossos putos estão de parabéns, porque são os que mais se borrifam para a escola, isto é, os que se revoltam contra essas regras arbitrárias de que é preciso saber ler e escrever e contar, para ser alguém na vida.

O relatório assinala, ainda, que Portugal é o país onde mais crianças são vítimas de “bullying”. Note-se que, dos 21 países estudados, também faz parte os Estados Unidos onde, de vez em quando, há uns rapazinhos que resolvem entrar lá na escola deles e matar uma série de colegas e professores. Apesar disso, os americanos queixam-se menos de “bullying” do que os portugueses.

Várias conclusões a tirar: ou os americanos não confundem “dying” com “bullying”, ou os putos portugueses são uns queixinhas, logo desde pequeninos e não toleram que lhes chamem “peida gadocha”, “caixa de óculos” ou “pernas de alicate” e acham logo que isso é “bullying”.

Aliás, se Portugal está em primeiro lugar, no que diz respeito ao “bullying”, não se percebe por que raio não inventou um termo português para esta treta.

“Porrada”, por exemplo, é um excelente termo.

“A Conspiração Contra a América”, de Philip Roth

conspiracao.jpgA ideia deste novo livro de Roth é engenhosa: em 1940, quando Hitler se preparava para iniciar a 2ª Guerra, Charles Lindbergh concorre í s eleições norte-americanas e derrota Roosevelt.

Lindbergh era, na altura, um verdadeiro herói, depois das suas façanhas na aeronáutica e consegue derrotar o candidato democrata, prometendo aos americanos que estes não vão interferir na guerra dos europeus.

A Alemanha, a Itália e o Japão podem, assim, tomar conta do mundo, perante a neutralidade dos EUA.

Sendo Lindbergh um simpatizante das ideias nazis, os judeus americanos começam a temer que lhes aconteça o mesmo que aos judeus da Europa.

O livro é narrado pelo próprio Philip Roth que, na altura, tinha 9 anos e vivia uma vida tranquila, com os pais e o irmão mais velho, em Newark, num bairro maioritariamente judeu.

A vitória de Lindbergh muda totalmente a vida desta família e muda, também, a História do Mundo.

O mais curioso nesta obra de Roth é exactamente o facto de o livro ser narrado por alguém que, em 1940, tinha 9 anos. Assim, as mudanças na vida daquele miúdo, na vida dos seus pais e do seu irmão, dos seus amigos e dos judeus daquele bairro, são uma parábola das mudanças que ocorrem em todo o mundo.

Imaginem, só por um momento, que os Estados Unidos tinham um presidente nazi e que, em vez de entrarem na 2ª Guerra, ao lado da Grã-Bretanha, se mantinham neutrais e que, mais tarde, declaravam guerra ao Canadá?

Perturbador, no mínimo.

O 3º Mundo em todo o seu esplendor

Notícia de ontem, no Público:

“Só nos últimos dois anos desapareceram cerca de 180 tampas de esgoto e grelhas de sumidouros na área do concelho de Vila Franca de Xira.”

Segundo o jornal, o passado mês de Dezembro, foi o pior: foram roubadas 87 tampas de esgoto!

Um povo que rouba tampas de esgoto tem o país que merece!

“Six feet under” – 4ª série

setepalmos4.jpgBrilhante, é o mínimo que se pode dizer desta série da HBO.

Tendo como pano de fundo, a Funerária Fisher & Diaz, vamos acompanhando, ao longo de 12 episódios, as vidas atribuladas de uma série notável de personagens: Nate, que acabou de perder a mulher (sabemos, no último episódio, que não foi suicídio), continua í  procura de um sentido para a sua vida; Brenda, que não é capaz de manter uma relação estável e que acaba por voltar para Nate; David, que quer assumir a sua relação homossexual com Keith, como uma relação monogâmica, mas que não resiste a uma nova aventura sexual, nem que seja com o canalizador; Ruth, que descobre que o seu novo marido é, no fundo, um paranóico, com terror de catástrofes; Claire, que anda í  procura da sua identidade artística e se mete cada vez mais nas drogas; Rico, que vê o seu casamento desabar…

E as personagens secundárias são, também, todas elas, muito ricas e perturbadas, como convém: a mãe de Brenda, psicoterapeuta e ninfomaníaca; o irmão de Brenda, maníaco-depressivo; os amigos de Claire, todos eles artistas perturbados.

Cada episódio começa, como de costume, com uma morte estranha e inesperada, mas o funeral já não é o centro da trama, como nas primeiras séries. A família Fisher poderia ser proprietária, por exemplo, de uma padaria, que iria dar no mesmo – embora uma Funerária dê o tom ideal í  série.

Parece que a 5ª série será a última, o que é pena, mas também se compreende que o tema acabe por se esgotar.

Com a verdade me enganas

Sócrates foi í  China. Conseguiu grandes contratos, novos investimentos, melhores relações comerciais, acordos bilaterais?

Não sabemos.

O que sabemos é que o ministro da Economia, Manuel Pinho, disse, perante empresários chineses, que um dos atractivos de investir em Portugal, era o facto de, por cá, os salários serem baixos.

Os indígenas revoltaram-se.

Toda a Oposição quis linchar o ministro.

Até os sindicatos, que há décadas reclamam melhores salários, que convocam greves para reivindicar aumentos salariais, que criticam a política de miséria do Governo – até os sindicatos vilipendiaram o ministro por ele ter dito que, em Portugal, os salários são baixos.

Mas afinal: os nossos salários são baixos ou são altos?

Vejam lá se decidem!

socrates_salarios.jpg

Borgaparques

Um construtor civil tentou aliciar o vereador do Bloco de Esquerda da Câmara Municipal de Lisboa para votar favoravelmente um negócio de permuta de terrenos.

O construtor era da Bragaparques.

A conversa foi gravada e a gravação entregue na Polícia Judiciária.

Uma vereadora do PSD demitiu-se, Carmona Rodrigues diz que não sabia de nada, Santana Lopes afirma que o negócio sempre lhe cheirou a esturro.

carmanasantona.jpg

Sabem-se as verdades, zangam-se as comadres – Brigaparques.

Pelos vistos, a empresa de construção civil, já construiu parques de estacionamento de norte a sul do país.

Será que usou o mesmo estratagema – Borgaparques?

Sá Fernandes, o tal vereador do BE, devia era ter recebido a massa e ficar caladinho – Burkaparques?

Uma reportagem gripada

Eu sou do tempo em que a malta ia í  janela ver como estava o tempo. Confiávamos pouco no boletim mentirológico.

Agora, temos a Protecção Civil.

Graças a ela, e ao eco da comunicação social, os portugueses ficam a saber que devem andar pela sombra quando está muito calor e que precisam de vestir camisolasde lã quando está frio.

Passámos í  fase das vagas. Nunca mais tivemos um calor do camandro, nem um frio do caraças.

Em vez disso, temos uma vaga de frio ou uma vaga de calor.

E passámos a ter um país muito mais colorido, graças aos alertas amarelos e laranjas.

Hoje, estamos num daqueles dias em que o mapa de Portugal está todo amarelinho ou laranjinha.

É mais fashion, sem dúvida.

Ontem, no telejornal da RTP-1, alguém se lembrou que a gripe devia estar a chegar.

Eu sou do tempo em que a gripe era uma coisa habitual. Todos os invernos, havia uma. E a malta sabia como tratar dela: umas aspirinas, umas colheres de mel, uns abafos, um ou dois dias de cama. E a gripe ia-se embora.

Agora, não.

A gripe passou a ser mais uma ameaça.

A repórter da RTP-1 foi ao Banco de urgência de um hospital do Porto, para ver a gripe in loco.

As urgências estavam calmas.

A gripe ignorava, olimpicamente, a comunicação social.

Mas a reportagem tinha que ser feita.

Então, a jovem repórter perguntou í  chefe da equipa médica: “como tem sido a adesão í s urgências?”

E a minha colega, talvez nervosa por “estar na televisão”, respondeu: “a assiduidade í s urgências tem sido a habitual”

Adesão e assiduidade?

Mas afinal, hoje em dia, os doentes aderem í s urgências ou são assíduos nas urgências?

Nenhuma das senhoras se lembrou da palavra “afluência”, por exemplo.

Não há dúvida que estamos em época de eufemismos.

Por que não: “tem tido mais doentes nas urgências”?

Por que não: “está um briol dos antigos” ou “está um frio do caraças”? Ou, simplesmente, “está frio” – o que é habitual, em Janeiro.

E fico por aqui, porque tenho que ir ao site da Protecção Civil, para saber quantas camisolas devo vestir para enfrentar este barbeiro!