
Risco adicional

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Os cientistas não param. Agora descobriram que uma lesão na ínsula faz com que os fumadores deixem de ter necessidade de fumar.

Agora já sei: vou começar a dar com a cabeça nas paredes.
Pode ser que acerte na ínsula e, finalmente, consiga deixar de fumar…
A ideia é boa: um avião despenha-se, algures numa ilha do Pacífico, entre Sydney e Los Angeles. Sobrevivem cerca de 40 passageiros: um cirurgião atormentado pela morte do pai, alcoólico, uma foragida da justiça, gira demais para ser assassina, um ex-soldado do exército do Iraque, que seguia em busca da sua amada, um paraplégico que gostaria de ser super-herói e que, depois do acidente, começa a andar, um membro de uma banda pop, viciado em heroína, um casal de coreanos, uma jovem grávida em fim de tempo, um gordo que ganhou a lotaria, dois falsos irmãos, um cowboy í procura do assassino dos seus pais, um negro e o seu filho.
Com todo este material, era só entrançar as histórias e dar, í ilha, um toque de mistério: estará deserta? quem poderá viver para lá da selva que bordeja a praia?
Misturando uma espécie de Robinson Crusoe da era moderna com a ideia de um “reality show”, os criadores de “Lost” conseguem prender a atenção dos espectadores, de episódio para episódio, embora o nível de cada um seja muito variável. Por vezes, a narrativa, em “flash back”, das histórias de cada uma das personagens é um pouco lamecha e recheada de estereótipos.
Da nova vaga de séries televisivas norte-americanas, esta não é, certamente, a minha preferida, mas não deixa de ser um bom entretenimento.
Aguardo pela 2ª série, esperando que os argumentistas tenham uma boa e racional explicação para todos os mistérios da ilha.
É por estas e por outras que os referendos podem ser uma má ideia.
As coisas que por aí se têm dito sobre o aborto – quer os movimentos pelo “sim”, quer os pelo “não” – são tão bárbaras que, por vezes, apetece que as mães dos tipos que as dizem, tivessem abortado.
Já ouvi dizer que, com a aprovação da lei, o aborto passará a ser tão comum como os telemóveis, que as mulheres que abortam incorrem na pena capital, que o aborto é como o enforcamento de Saddam, que as classes trabalhadores não têm outro remédio senão recorrer aos vãos de escada, para abortar, que o Estado vai gastar cerca de 10 milhões de euros com os abortos, etc, etc.
E depois, como é que os movimentos de cidadãos pelo “sim” e pelo “não” já conseguiram cerca de 200 mil assinaturas para se legalizarem? Não me espantaria que muitas assinaturas fossem repetidas. Aliás, a Comissão Eleitoral já disse que só vai verificar as assinaturas por amostragem, portanto, nunca iremos saber se todas aquelas assinaturas são verdadeiras.
Tal como no outro referendo, vou votar afirmativamente, porque me parece ridículo que, em 2007, ainda seja possível condenar uma mulher por interromper a sua gravidez.
No entanto, não sou capaz de fazer afirmações tão definitivas como a maior parte dos tipos dos diversos movimentos.
Eu sei lá se a mulher que decide abortar tinha alternativas, eu sei lá se ela aborta com o mesmo espírito com que deita fora uma camisola velha, eu sei lá se aquela gravidez iria desgraçar-lhe a vida, eu sei lá se a boa opção seria continuar ou interromper a gravidez.
Sendo médico há 30 anos, já contactei de perto com tantas mulheres que fizeram uma ou outra opção e cada caso foi um caso.
Quem sou eu, portanto, para decidir em nome de cada uma dessas mulheres?
E quem é o bispo de Viseu, o Patriarca de Lisboa, o Paulo Portas, o líder da Intersindical, a Maria José Morgado, o José Sócrates, ou quem quer que seja, para darem sentenças sobre um assunto tão íntimo, tão pessoal, como este?
E, no entanto, é vê-los falar de cátedra!
Quando oiço alguns tipos do “sim”, tão afirmativos, a defenderem o aborto, quase que me apetece votar “não”.
Quando oiço alguns tipos do “não”, tão peremptórios, a condenarem o aborto, mais vontade tenho de votar “sim”.
Porque lido com pessoas reais, com problemas reais, votarei “sim” – mas com imensa vontade de me abster…
Ai, ai, que vem aí a União Europeia dar tau-tau ao Governo português, por causa dos voos da CIA!
Que medo!
Vejam bem que o Governo português sabia que a CIA andava a transportar prisioneiros de avião, fazendo escala em aeroportos nacionais, e não fez nada!
Podia, por exemplo, atacar os aviões da CIA e libertar os prisioneiros, oferecendo-lhes asilo político.
Podia, por exemplo, não autorizar a escala dos aviões da CIA, mesmo sabendo que, depois, em vez de apanhar tau-tau da União Europeia, apanhava tau-tau do Sr. Bush.
Podia, por exemplo, deixar os aviões da CIA aterrarem e, depois, quando eles estivessem já com os motores parados, prender os agentes secretos e apresentá-los, como troféus, í s televisões de todo o mundo.
O governo português podia ter feito todas estas coisas – mas não! Ficou caladinho, sendo cúmplice dessa coisa horrorosa que é transportar eventuais terroristas para Guantanamo.
Felizmente que temos mulheres como Ana Gomes!
Ela denunciou tudo! Ela foi aos sítios e falou com pessoas que viram os prisioneiros agrilhoados! Ela não se deixou enganar por esse personagem sinistro, chamado Amado, que, além de ser ministro dos Negócios Estrangeiros deve ser, no mínimo, um agente da CIA encapotado!
E agora, meus senhores, vamos ver os burocratas da União Europeia a vir por aí fora, chegar ao Palácio de S. Bento, baixar as calças ao Sócrates e dar-lhe uns quantos açoites, que é para ele ficar a saber que, para a próxima, não pode deixar os aviões da CIA sequer voarem sobre o nosso querido e amado Portugal!
Ora! Deixem-se mas é de lérias!
A Pousada fica num mosteiro-fortaleza, no meio de lado nenhum. O mosteiro foi mandado construir entre 1351 e 1356 por frei ílvaro Gonçalves Pereira, pai de D. Nuno ílvares Pereira. í€ primeira vista, a construção faz lembrar um castelo, com as suas torres e as frestas e a sua utilidade seria, em princípio, a segurança das fronteiras de Portugal.
Em 1527, a Ordem dos Hospitalários muda de nome, passando a chamar-se Ordem de Malta e, no ano seguinte, o filho de D. Manuel toma conta do mosteiro, alargando o número de aposentos. Depois, vêm os Filipes, o terramoto de 1755 e um temporal devastador, em 1897. A coisa foi-se arruinando. Em 1910, o mosteiro da Flor da Rosa é declarado monumento nacional e, 30 anos depois, começa a reconstrução. Em 1991, a Enatur adquiriu o mosteiro e encarregou o arquitecto João Luís Carrilho da Graça da recuperação do edifício.
Quando se chega í Pousada, a visão é bizarra: assim, no meio de lado nenhum, surge este edifício medieval, imponente e austero, rodeado de pequenas courelas, onde autóctones cultivam couves e guardam ovelhas. Os galos a cantar í s 5 da manhã e os canitos a ladrar, impedem a ordem do silêncio, que devia vigorar por aqui.

A adaptação do edifício a Pousada é excelente. O arquitecto até parece que não mexeu em nada. Os quartos são sóbrios, a sala do bar é muito bonita e a ala nova quase não se dá por ela.
Ali, a 30 km, fica Marvão. Lindo! Pena que esteja tudo em obras, para remodelar a canalização e acabar com a praga das antenas de televisão.
Uma história dentro de outra história. Robert Wilson escreve livros policiais diferentes. O crime não é o cerne da trama, mas sim a história particular do protagonista.
No caso de “O Cego de Sevilha” (2003, D. Quixote), o protagonista é Fálcon, detective sevilhano que se depara com um assassínio particularmente bárbaro: alguém atou firmemente Raul Jimenez a uma cadeira, em frente a um televisor, passou-lhe uma corda pelo pescoço, cortou-lhe as pálpebras e obrigou-o a ver algo de tão horrível, que o pobre homem acabou por cortar as próprias carótidas com a corda que o prendia.
A este assassínio estranho, outro se lhe seguiu e, no decorrer da investigação, Fálcon acabou por perceber que havia uma ligação entre os mortos e o seu pai, também já falecido, que fora um conhecido pintor, cuja grande obra fora produzida enquanto vivia em Tânger. É então que Fálcon decide, finalmente, espiolhar o antigo estúdio do pai e descobre os seus diários.
Os diários de Francisco Fálcon são um livro dentro do livro e a sua narrativa é a parte mais interessante deste livro. Descobrimos que o pai do detective tinha sido membro da Legião espanhola, combatera contra os comunistas na Guerra Civil, instalando-se, depois, em Tânger, vivendo do contrabando, em sociedade com Jimenez. E descobrimos que, afinal, o grande pintor tinha sido um torcionário, um pedófilo e um assassino.
A história do assassino de Sevilha transforma-se, assim, na história pessoal do detective e na sua descida ao abismo da sua história pessoal.
Um livro interessante, embora eu pense que Wilson se deixou levar pelo material que ele próprio inventou e que acaba por deixar muitas pontas soltas (por exemplo, a psicoterapia a que o detective decide submeter-se, na sequência das suas crises de pânico, desaparece da narrativa, í medida que ele vai lendo os diários do pai; talvez não tivesse sido má ideia ler aquilo tudo, de seguida…)

E tens razão: foi Mário Soares, há uns anos atrás.
Mas o Professor não é homem para dar espectáculo. Nunca o hás-de ver montado num elefante, na Índia, ou numa tartaruga, nas Seychelles.
Aí está uma grande diferença entre o estilo presidencial de Mário e de Aníbal.
Outra grande diferença: a comitiva de Soares, na visita í Índia, era composta por 135 pessoas, enquanto a de Cavaco tem apenas 130.
O Sr. Weiss anda nisto há muitos anos, embora não pareça. Começou como baterista, em Denver e acompanhou grandes nomes dos blues e do jazz, durante as décadas de 60 e 70. í€s tantas, foi parar ao Tropicana Motel, em West Hollywood, onde conheceu Tom Waits e gravou um álbum, salvo erro, em 1981.
Depois, deve ter-se distraído com coisas mais importantes, das quais apenas posso suspeitar, olhando para a sua fotografia, no interior do cd.
Cerca de 13 anos depois, lançou outro álbum e, no ano passado, este “23rd & Stout”, que tem uma espécie de subtítulo: “Deranged Detective Mysteries”.
Diz Weiss: “if you ask me why I recorded this album and I would tell you «because it was the wrong thing to do»”.
Permitam-me discordar.
O álbum é óptimo e, embora a influência de Tom Waits seja evidente em algumas faixas, sobretudo a percussão “desorganizada”, Weiss mantém uma performance «cool» e «jazzy», que Waits já perdeu há uns anos. Além disso, os dotes vocais de Weiss são muito mais versáteis, sendo capaz de soar como um “crooner” country, um hispânico bebâdo, um louco rouco ou, até, fazer falsetes credíveis (mais ou menos…)
Aconselho a faixa “No vale nada (porque no m’importa)” para quem, como eu, tem algumas saudades do “velho” Tom Waits, do tempo em que ele não era tão consensual, no que diz respeito í chamada “crítica intelectual”.
Gogol Bordello é um grupo de oito alucinados, que combinam elementos de punk, música cigana e ambiente de cabaret brechtiano.
O líder da banda, Eugene Hutz, é ucraniano e deixou o seu país após o desastre de Chernobyl. Foi refugiado na Polónia, Hungria, íustria e Itália e, desde 1993, em Nova Iorque.
Foi nesta cidade que se juntou a mais uns quantos emigrantes de leste e formou este bizarro Gogol Bordello.
“Gypsy Punks” parece saído da banda sonora de um filme de Kusturika, mas mais arrocalhado. A velocidade é sempre a abrir.
A voz rouca de Hutz canta, na faixa “60 Revolutions”: “I’m gathering New generation/ That’s gonna stand up to it/ Toi this karaoke dictatorship/ Where posers and models with guitars/ Boogie to the shit for beats/ I make a better rock revolution/ Alone with my dick!”
Este é o terceiro disco dos Gogol Bordello e foi editado em 1005. Fiquei com vontade de conhecer os dois anteriores