Um altar pobrezinho

Que altar mais pindérico está projectado para receber o Papa na Jornada Mundial da Juventude!

O presidente da Câmara, Carlos Moedas, revelou que consultou sete empresas e que os orçamentos começavam nos 8 milhões.

E foi escolher aquela coisa reles, que só vai custar uns míseros 4,2 milhões de euros!

Como disse o Grande Líder Nuno Melo, quase que se confunde com a indemnização da Senhora Dona Alexandra Reis.

Dizem os organizadores, que Lisboa poderá receber cerca de um milhão de visitantes para participar na JMJ. Ora, o tal palco só consegue albergar duas mil pessoas. Onde vão enfiar as restantes? Não seria melhor construir meia-dúzia de palcos semelhantes, colocados em círculo, com uma rampa a uni-los, de modo a que o Papa se pudesse movimentar ente eles, usando uma cadeira de rodas eléctrica?

O bispo auxiliar de Lisboa disse que ficou magoado com o custo do altar-palco. Magoa-se com pouco, o bispo. Se calhar, é por isso que é auxiliar…

Quanto ao nosso Presidente, parece que já sabia do preço do altar-palco, mas fez de conta que não sabia. Ouvi-o dizer que aquilo era muito bonito. É próprio de uma pessoa que viaja pouco. Está sempre metido no Palácio de Belém e conhece pouco mundo, caso contrário perceberia que o altar-palco é um verdadeiro mamarracho, mas parecido com um daqueles parques para praticar skate.

Quando soube do preço, Marcelo terá dito para reverem o projecto.

Estou de acordo!

Façam uma coisa como deve ser, uma coisa que torne Moedas imortal. Ele já disse que dava o corpo í s balas!

Toca a disparar!

Aforismos do Pão com Manteiga: Jogos (maio 1981)

* Não faça jogo sujo; antes do poker, lave as mãos

* É óptimo jogar aos bilas nos cemitérios; as covinhas já estão feitas

* Nas cartas, como no resto, uma dama nunca se balda

* Quem não gosta do jogo do galo, muitas vezes, é a galinha

* Nunca jogue í  barra do lenço com ranhosos

* Até no xadrez os bispos andam em diagonal

* O jogo do chinquilho é o diminutivo do chamado jogo dos chinco que, como xe xabe, é jogado por chinco jogadores.

“Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar”, de Dany Laferrií¨re (1985)

Dany Laferrií¨re nasceu no Haiti em 1953, emigrou para o Canadá e fixou.se em Montreal em 1976. Trabalhou em fábricas dos subúrbios e foi lendo os seus autores preferidos, entre os quais se destaca Henry Miller.

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Este pequeno livrinho com um título bem provocatório faz lembrar, de vez em quando, a escrita torrencial do Miller ““ mas só de vez em quando.

Tudo se passa í  volta de um negro que está a escrever um romance, do seu companheiro de quarto, uma espécie de guru muçulmano que passa a vida a dormir e de muitas raparigas brancas ““ raparigas universitárias que, pelos vistos, adoram foder com pretos. Segundo a personagem principal do livro, Cota, parece que as universitárias brancas de Montreal têm uma obsessão pelos negros e querem ir com eles para a cama. O resto, são congeminações sobre literatura, poesia, versículos do Corão, muito vinho e cerveja.

Um pequeno livro curioso.

“Lições”, de Ian McEwan

Lições foi o melhor livro que li neste último ano. Ian McEwan é um dos meus autores preferidos e este calhamaço de 650 páginas excede as expectativas

O livro conta-nos a história de Roland Baines, desde que, aos 11 anos, é seduzido pela sua professora de piano, Miss Miriam Cornell, até í  sua velhice, depois de passar por muitos episódios marcantes, ao mesmo tempo que se assinalam os diversos acontecimentos da actualidade: a crise dos mísseis de Cuba, a queda muro de Berlim, Chernobyl, Margareth Tatcher, Angela Merkel e, finalmente, a pandemia do covid 19.

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A sua relação com a professora de piano vai ser marcante para a sua vida. Entre os 14 e os 16 anos, Miriam Cornell toma Roland como seu escravo sexual. Ele consegue libertar-se, mas essa memória vai perdurar por toda a vida. Mais tarde, outro episódio também deixa marcas: a sua mulher abandona-o, a si e a um filho de meses, porque se quer tornar uma grande escritora. E já quase no fim da vida, enfrenta a morte inesperada de uma última companheira.

O livro tem passagens que merecem ser citadas e aponto aqui apenas algumas, caso contrário, teria que transcrever quase todo o livro.

Na página 32, Roland fala do cocó do filho Lawrence:

“…Sem fazer barulho, Lawrence fez cocó enquanto dormia. O cheiro não era assim tão mau. Uma das descobertas da meia-idade ““ o quão depressa começamos a tolerar a merda da pessoa que amamos. É uma regra geral.”

Eu acrescentaria: é dos livros!

í€cerca da relação entre pais e filhos, nos anos 1950:

“…Nos anos cinquenta, muitos pais não eram muito próximos dos filhos, especialmente das filhas. Abraços, expressões de amor, eram considerados demasiado vistosos, demasiado embaraçosos. A sua própria infância foi típica. Palmadas nas pernas, no rabo, eram comuns. As crianças, por muito amadas que fossem, tinham de ser educadas e não ouvidas.”

Sobre a relação especial de Roland com uma das suas netas:

“…Ficava comovido pela forma como ela o procurava para lhe apresentar as suas reflexões solenes ou as suas perguntas ponderadas, ou para insistir que ele se sentasse ao lado dela nas refeições. Queria saber coisas do seu passado. Ficava fascinada pelas evidências claras da pujante vida interior de uma criança de seis anos. (…) Achava que Stefanie o considerava um bem antigo e extremamente precioso, cuja existência frágil tinha o dever de conservar. Sentia-se lisonjeado sempre que ela lhe dava a mão.”

Finalmente, quando Roland enfrenta a lenta e dolorosa agonia da pessoa que ama, fala sobre a eutanásia.

“…Tinham passado dois séculos antes de o establishement ter achado que valia a pena olhar por um microscópio para examinar os microrganismos que Antoine van Leeuwenhoek tinha descrito em 1673. Estava contra a higiene porque era um insulto í  profissão, contra a anestesia porque a dor era um elemento de doença dado por Deus, contra a teoria germinal da doença porque Aristóteles e Galeno pensavam o contrário, contra a medicina baseada na evidência porque não era assim que as coisas eram feitas. Agarraram-se í s sanguessugas e í s sangrias durante o máximo tempo possível. Em meados do século XX, defenderam a amigdalectomia maciça das crianças, apesar das provas. Um dia, eles chegariam ao direito de uma pessoa racional escolher a morte em vez de uma dor insuportável e impossível de amenizar.”

Livro que deve ser lido já!

Outros livros de McEwan: A Barata; Máquinas Como Eu; Numa Casca de Noz; A Balada de Adam Henry; Mel; Na Praia de Chesil; Cães Pretos; Entre os Lençóis; O Jardim de Cimento; Solar

“Palavras Descruzadas”, de Bagão Félix (2022)

Surpreendeu-me este livro de Bagão Félix. Desconhecia que um tão formal ex-ministro das Finanças pudesse ter um sentido de humor tão refinado. Claro que, para ler este seu livro, tive que me abstrair que o senhor é membro do CDS, e compensou o facto de ser do Benfica.

O livro é muito curioso, sobretudo a parte, digamos, mais gramatical.

Está dividido em 5 partes: Palavra puxa palavra, Idiomatismos, modismos e idiotismos, Onomástica e toponímia, Entre letras e números e um Post Scriptum sobre o desacordo ortográfico.Achei a primeira parte mais interessante. Aqui, Bagão Félix fala sobre uma série de erros muito comuns na comunicação social e não só, como este, na página 43:

“…Já quanto ao verbo evacuar, na sua forma transitiva, significa esvaziar ou desocupar. «A sala de aula teve ser evacuada», pelo que os estudantes tiveram de ser retirados. No entanto, ainda há pessoas a dizer ou a noticiar (!) que «houve uma ordem para os alunos evacuarem imediatamente».

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É claro que este verbo assume também a forma intransitiva, querendo dizer defecar, expelir fezes. Não admira, pois, que a «ordem para os alunos evacuarem imediatamente» não tenha sido devida e literalmente cumprida. Alguns, por manifesta prisão de ventre, outros por a fila de espera sanitária ser longa, e outros, ainda, por entenderem evacuar, mais calmamente, em casa e com um videojogo nas mãos.”

Para além de assinalar muitos outros erros comuns, Bagão Félix também demonstra o seu gosto pelas palavras ao dar publicidade í s excelentes “…greguerias” de Ramon Gómez de la Serna. São tantas que apetecia transcrevê-las todas. Deixo aqui apenas estas três:

“…A cabeça é o aquário das ideias

Ressonar é comer ruidosamente sopa de sonhos

Reumatismo é ter dor de cabeça nas pernas”

Aqui está um livro muito interessante, que proporciona algumas tardes de divertida leitura, que devia ser obrigatória para alguns elementos da comunicação social e para os defensores do Novo Aborto Ortográfico.

The Fabelmans, de Steven Spielberg (2022)

Antes do filme começar, Steven Spielberg surge no écran para nos dizer que aquele é o seu filme mais pessoal e para nos agradecer por o irmos ver num grande écran e numa sala com outras pessoas.

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The Fabelmans é a história do pequeno Samuel Fabelman até ser aceite num estúdio cinematográfico. Vemos, primeiro, o Sammy em criança, a fazer os primeiros filmes com uma câmara que a mãe lhe dá e, depois, o adolescente Sam, a fazer filmes caseiros, já com montagem e com música a acompanhar. Ao mesmo tempo, desenvolve-se a história da família, do pai que trabalha em computadores e obriga a família a mudar-se, primeiro para Phoenix, depois para a Califórnia, da mãe, que podia ter sido uma pianista profissional, do tio Bernie que, afinal, é mais do que um tio, das três irmãs de Samuel. Ficamos a conhecer a dificuldade de integração de Sammy na escola californiana, onde é o único judeu, dificuldade que acaba por ultrapassar graças aos filmes.

Claro que Samuel Fabelman é Steven Spielberg, como o próprio já disse em diversas entrevistas e este é um dos melhores filmes que vi ultimamente.

Expresso – 50 anos

Foi há 50 anos que o Expresso saiu pela primeira vez.

Não há dúvida que, na altura, foi aquilo a que se chama uma pedrada no charco. Era um jornal diferente de todos os que existiam, moderno e arrojado. Lembro-me de ler, com entusiasmo, as colunas de Miller Guerra e de Sá Carneiro, tentando perceber, nas entrelinhas o que eles, de facto, insinuavam.

O República já fazia parte do meu dia-a-dia, e o Expresso veio juntar-se-lhe. Com o prec, o República finou-se. O Expresso, pelo contrário, foi-se fortalecendo e continuei a comprá-lo todas as semanas. Era leitura para o todo o fim de semana.

Nos últimos anos, no entanto, o Expresso já não é o que foi. É um jornal cada vez mais encostado, com um director que não esconde a sua simpatia pelos liberais, e com canais directos para o Palácio de Belém. Continuo a comprá-lo, mais por hábito do que por prazer. Folheio rapidamente o corpo do jornal, raramente me detendo num artigo. Começo a ler o editorial do director, irrito-me e desisto. Começo a ler a opinião do Miguel Sousa Tavares e acho que já li aquilo há uns tempos. A opinião dos colunistas habituais também não traz nada de novo. Em resumo, o corpo do jornal vai para a reciclagem em três tempos. Fica a Revista que ainda consegue despertar-me algum interesse. Não falho as Palavras Cruzadas!

De qualquer modo, parabéns ao Expresso.

Coisas da democracia

Três notícias na edição de hoje de o Público, fazem-nos pensar um pouco sobre o valor das democracias.

Em Portugal, a nova secretária de estado do Tesouro foi demitida depois de ter recebido meio milhão de euros de indemnização por ter sido despedida da TAP.

Faltavam-lhe dois anos de contrato, tal como a Fernando Santos, o selecionador nacional de futebol que, no entanto, recebeu 3,5 milhões de indemnização.

Percebe-se a diferença: Santos ganhou um campeonato da Europa, enquanto Alexandra Reis, a secretária de Estado, não ganhou coisa nenhuma ““ a não ser a tal indemnização.

Nos Estados Unidos, o congressista republicano George Santos admitiu que mentiu sobre a sua formação académica e o seu histórico profissional durante a campanha para as eleições intercalares de novembro.

Santos é adepto de Trump e afirmou que não é criminoso; acrescentou: “…o meu pecado foi ter enfeitado o meu currículo. Peço desculpa. Fazemos coisas estúpidas na vida”. Mesmo assim, pretende tomar posse como congressista.

Em Israel, o Parlamento aprovou duas leis que poderão permitir que os políticos passem a ter um poder quase absoluto e em que as mulheres, homossexuais, estrangeiros, ou até judeus não ortodoxos, possam perder direitos.

Um dessas alterações torna possível que políticos condenados por crimes graves como corrupção, possam ser ministros.

São coisas da democracia ““ o pior regime político, mas o único que é aceitável…

Os jornalistas passaram de conferentes a entendedores

Aqui há uns tempos era frequente os jornalistas da rádio e da televisão, dizerem coisas como estas:

* “…Vamos agora conferir como decorreu a reunião de hoje do Conselho de ministros”.

* “…Hoje foi mais um dia de greve dos trabalhadores da Transtejo; junto do representante do sindicato, o nosso repórter vai conferir a adesão í  paralisação…”

Portanto, os jornalistas conferiam. Eram conferentes.

Mas os tempos mudaram e agora, ouvimos os mesmos jornalistas a dizerem:

* Vamos agora tentar perceber como decorreu a reunião de hoje do Conselho de ministros”.

* “…Hoje foi mais um dia de greve dos trabalhadores da Transtejo; junto do representante do sindicato, o nosso repórter vai tentar perceber a adesão a esta greve”

Ou seja: os jornalistas da rádio e televisão, deixaram de ser conferentes, para passaram a ser entendedores.

E para entenderem melhor o que se passa passaram a ter a ajuda permanente dos comentadores.

Todos os canais de televisão têm os seus comentadores para questões relacionadas com a guerra, a inflação, a corrupção, os casos dos tribunais, o futebol, as crises políticas, as alterações climáticas e tudo e tudo.

Quer isto dizer que, afinal, os jornalistas não entenderam nada e precisam dos comentadores para perceberem o que se passa.

Por isso, mesmo que confiram e tentem perceber o que se passou na reunião de hoje do Conselho de ministros, precisam da ajuda de um comentador para compreenderem mesmo o que se passou.

Há qualquer coisa no curso de comunicação social que está a falhar…