“The Pink Panther”, de Shawn Levy

pinkpanther.jpgDepois de ver o filme sobre Peter Sellers, pareceu-nos adequado espreitar este remake da Pantera Cor-de-rosa, em que Steve Martin interpreta o papel do desastrado inspector Clouseau.

Na verdade, não se trata de um remake, mas sim de um filme inspirado na série de filmes realizados por Blake Edwards, nos quais Peter Sellers era Clouseau e levava ao desespero o chefe Dreyfus (agora interpretado por Kevin Kline).

Martin não é Sellers, mas safa-se mais ou menos bem, embora não resista a algumas palhaçadas, coisa que o verdadeiro Clouseau nunca faria: por mais idiota que fosse a situação, por mais desastrados que fossem os seus gestos, tudo era feito com uma dignidade e uma seriedade que, por isso mesmo, se tornava hilariante.

Mas enfim, como entretenimento, não aleija a inteligência.

Por que não posso levar pistolas de abate de gado no avião?

Aproxima-se o meu segundo período de férias. Planeei um fim-de-semana em Praga, com a malta toda. Quero rever essa cidade por onde passei, í  pressa, há cerca de 6 anos.

Com toda esta história dos possíveis atentados, estava na dúvida do que poderia levar comigo, a bordo do avião, na cabina. Confesso que estava preocupado, sobretudo, com a possibilidade de não me deixarem levar, por exemplo, um livrinho, para ler na viagem. Imaginem que ando a ler um livro chamado “Como fazer uma bomba a bordo de um avião e como fazê-la explodir, nas barbas do piloto”. Será que poderia levar um item como este?

E o maço de cigarros, para matar o vício, mal aterrasse em Praga – será que me seria permitido levar o maço de cigarros comigo? É que o tabaco mata, como todos os maços anunciam! E o isqueiro? E o telemóvel? E um pacote de excelentes bolachas torradas Triunfo?

Decidi ir verificar. Fui ao site da TAP e, no endereço http://www.inac.pt/hthttm/art_proib_transp.asp

descobri que não posso levar comigo, por exemplo, pistolas de abate de gado! Francamente! Quem é que pode viajar para Praga sem uma simples pistola de abate de gado?

Para quem não sabe o não pode levar consigo, na cabina do avião, aqui fica a lista:

a) Armas de fogo e outras

Qualquer objecto que possa, ou aparente poder, disparar um projéctil ou causar ferimentos, nomeadamente: armas de fogo de qualquer tipo (pistolas, revólveres, espingardas, caçadeiras, etc.); réplicas ou imitações de armas de fogo; componentes de armas de fogo (excluindo miras telescópicas e óculos); pistolas e espingardas de ar comprimido; pistolas de sinais; pistolas de alarme; armas de brinquedo, de qualquer tipo; armas de zagalotes; pistolas de pregos e pistolas de cavilhas, industriais; bestas; fisgas e fundas; armas de caça submarina; pistolas de abate de gado; dispositivos de atordoamento ou electrochoque, e.g. pistoletes para gado, armas de dardos eléctricos (tasers); isqueiros com forma de arma de fogo.

b) Armas pontiagudas e objectos cortantes

Artigos com pontas aguçadas ou lâminas susceptíveis de causar ferimentos, nomeadamente: machados; flechas e dardos; crampons; arpões e setas; piolets e picadores de gelo; patins de gelo; navalhas de tranca e navalhas de ponta e mola, com lâminas de qualquer comprimento; facas, incluindo facas cerimoniais, com lâminas de comprimento superior a 6 cm, de metal ou outro material suficientemente forte para ser usado como arma; cutelos; machetes; navalhas e lâminas de barbear (excluindo as giletes de recarregar e as giletes descartáveis, com lâminas encapsuladas); sabres, espadas e bengalas de estoque; escalpelos; tesouras com lâminas de comprimento superior a 6 cm; bastões de esqui e de marcha; rosetas de arremesso (shurikens); ferramentas com potencial para serem usadas como arma, e.g. berbequins e pontas de broca, facas tipo x-acto, facas multiusos, serras de todos os tipos, chaves de parafusos, pés de cabra, martelos, alicates, chaves de porcas/fendas, maçaricos.

c) Objectos contundentes

Qualquer objecto contundente susceptível de causar ferimentos, nomeadamente: tacos de baseball e softball; tacos ou bastões, rígidos ou flexíveis, e.g. matracas, mocas, cassetetes; tacos de críquete; tacos de golfe; sticks de hóquei; sticks de lacrosse; pagaias de caiaque e canoa; skates; tacos de bilhar; canas de pesca; equipamento de artes marciais, e.g. soqueiras, bastões, mocas, nunchakus, kubatons, kubasaunts

d) Explosivos e substâncias inflamáveis

Qualquer substância explosiva ou altamente combustível que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: munições; cartuchos explosivos; detonadores e espoletas; explosivos e engenhos explosivos; réplicas ou imitações de material ou engenhos ; explosivos; minas e outros explosivos militares; granadas de todos os tipos; gases e contentores de gás, e.g. butano, propano, acetileno, oxigénio, em grande volume; fogo de artifício, archotes de qualquer tipo e outros artigos pirotécnicos, incluindo poppers e fulminantes de diversão; fósforos não amorfos; geradores de fumo; combustíveis líquidos inflamáveis, e.g. gasolina, gasóleo, fluido de isqueiro, álcool, etanol; tintas pulverizáveis; terebentina e diluentes; bebidas alcoólicas de teor alcoólico superior a 70% em volume (140% proof);

e) Substâncias químicas e tóxicas

Qualquer substância química ou tóxica que ponha em risco a saúde dos passageiros e tripulantes ou a segurança da aeronave ou bens, nomeadamente: ácidos e bases, e.g. pilhas e baterias com risco de derrame; substâncias corrosivas ou descolorantes, e.g. mercúrio, cloro; aerossóis neutralizantes ou incapacitantes, e.g. mace, gás lacrimogéneo; matérias radioactivas, e.g. isótopos medicinais ou comerciais; venenos; matérias infecciosas e agentes biológicos perigosos, e.g. sangue contaminado, bactérias e vírus; matérias susceptíveis de ignição ou combustão espontâneas; extintores de incêndio.

A lista é longa e fastidiosa e existem alguns itens que são incompreensíveis. Pergunto-me: quem iria viajar, seja para onde for, levando consigo “minas e armadilhas militares”?

Por outro lado, por que carga de água, não poderei viajar, transportando, comigo “bactérias e vírus”? O que vou eu fazer í  minha querida sinusite?

Será que tenho que a deixar em casa?

“The Life and Death of Peter Sellers”, de Stephen Hopkins

petersellers.jpgA minha vida dava um filme – era uma rubrica, se não me engano, da revista Crónica Feminina, dos anos 60 do século passado.

A vida de qualquer pessoa dava um filme, por mais monótona ou “normal” que a vida seja. Tudo depende de quem realiza o filme. Mesma a vida sempre igual, a “vidinha”, como dizia O’Neill, pode transformar-se num grande filme – ou numa grande chatice.

Ora, pelos vistos, a curta vida de Peter Sellers (54 anos), parece ter sido tudo menos monótona. Este filme de Hopkins mostra-nos um Sellers dominado por uma mãe possessiva, muito dado a caprichos e crises de fúria, dominado pelas personagens que ele próprio foi criando, ao longo da sua carreira, desde o tempo em que ganhava a vida como cómico de rádio, até ao momento em que atingiu a celebridade, com os filmes da série Pantera Cor-de-rosa e, sobretudo, com Dr. Strangelove, de Kubrick.

Geoffrey Rush faz um excelente Peter Sellers, assumindo todos os seus tiques conhecidos: a maneira de andar, os truques vocais, os “accent”. O filme mostra-nos que Sellers não existia por si (há uma cena em que o actor se olha ao espelho e não vê nenhum reflexo). Sellers era as personagens que encarnava.

Egocêntrico, caprichoso, muito provavelmente sociopata, Peter Sellers destruiu-se a si próprio, terminando a sua carreira com “Being There” (“Benvindo Mr. Chance”), um filme sobre alguém que praticamente não existia e que, por isso mesmo, quase chegou a Presidente dos EUA.

Portugueses na linha da frente

Já tínhamos portugueses donos de grandes clubes de futebol: o Chelsea de Mourinho, o Inter de Luís Figo, o Manchester de Cristiano Ronaldo.

Mas esta semana tudo mudou.

As duas primeiras figuras da hierarquia institucional do nosso querido Portugal, tiveram o seu nome ligado a grandes acontecimentos internacionais.

Rebento de orgulho!

O nosso Presidente Cavaco foi o primeiro a saber que a princesa Letícia está grávida!

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Não me parece haver dúvidas que foi graças í  força que Cavaco emana, que o espermatozóide real fertilizou o óvulo antes plebeu.

Afinal, não é verdade que Cavaco, como dizia Miguel Cadilhe, seja como o eucalipto, secando tudo í  sua volta.

Todos sabemos como a taxa de natalidade é baixa na maior parte dos países europeus. Parece-me, portanto, lógico, que Cavaco se apresse a visitar a Bélgica, a Holanda, a Suécia, a Noruega, para ver se as realezas desatam a reproduzir-se.

O que a gente precisa é de príncipes e princesas!

Perante isto, Sócrates não quis ficar atrás.

E toca a surgir num cartaz eleitoral, sentado ao lado de Hugo Chavez, “rompiendo el bloqueio”!

O segredo do sucesso de Sócrates ficou assim explicado.

Como é possível que um político odiado por 700 mil funcionários públicos, por juízes, professores, sindicalistas, reformados e pensionistas, beneficiários da ADSE, da ADMA, da ADME, da ADMGF, autarcas em geral e autarcas madeirenses em particular, continue a ter uma tão alta taxa de popularidade, que mantém o PS í  beira da maioria absoluta?

Pois a resposta é só esta: Sócrates tem aliados fortes. São eles: o venezuelano Hugo Chavez, o iraniano Aminejad e o cubano Fidel de Castro.

Petróleo e charutos – é esta a resposta!

No entanto, algo me perturba: lá ao fundo, não sei porquê, mas aquele casario faz-me lembrar o Casal Ventoso.

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“Kinsey”, de Bill Condon

kinsey.jpgAlfred Kinsey (1894-1956), foi um zoólogo norte-americano que, a determinada altura da sua vida, decidiu aplicar as suas técnicas de estudo dos insectos, no estudo dos comportamentos sexuais dos norte-americanos. Assim como coleccionava milhares de insectos, estudando as suas diferenças e as suas particularidades, começou a entrevistar milhares de norte-americanos, tentando saber quais eram os seus hábitos sexuais.

Em 1948, publicou Sexual Behaviour in the Human Male e, cinco anos depois, um volume idêntico, dedicado í s mulheres.

Claro que Kinsey não descobriu a pólvora mas, numa América puritana, onde não se falava de sexo, onde o sexo oral era proibido em muitos Estados (acho que, em alguns Estados, essa lei ainda não foi revogada, embora já ninguém lhe ligue), onde nem sequer passava pela cabeça das pessoas que uma mulher “decente” pudesse ter prazer sexual, Kinsey teve a coragem de demonstrar que, afinal, a vida sexual dos americanos era tudo menos “politicamente correcta”.

É espantoso que Kinsey tenha chamado a atenção para muitas coisas que, hoje em dia, ainda são tabus para muito boa gente: a importância do clítoris, o constrangimento sexual pelas regras sociais, a bissexualidade, a homossexualidade, etc.

O filme, realizado por um tal Condon (“condom” significa preservativo…), é competente e dá-nos pistas para perceber melhor a personalidade de Kinsey (Liam Neeson): um pai autoritário e puritano até í  náusea, a sua própria inexperiência sexual até conhecer a sua mulher (Laura Linney), as suas dúvidas quanto í s suas preferências sexuais, a sua obsessão pelo trabalho, a dificuldade em distinguir entre o que é “normal” e o que é “patológico”, no que respeita í  sexualidade.

Um filme interessante, num momento em que se discutem, em diversas publicações, muitas das coisas que Kinsey já tinha publicado há mais de 50 anos e que foram praticamente ignoradas.

Os ilegais do Ginjal

Passear í  beira-rio, no Ginjal, é um privilégio, repito.

Nestes primeiros dias de Outono, com aquela luz especial a derramar-se sobre o casario de Lisboa, caminhar ao longo do Tejo, por volta das 6 da tarde, faz-me sentir muito bem.

São cerca de 5 km, ida e volta, passando pelos restaurantes desactivados do Ginjal, as fábricas de conservas de peixe abandonadas, o Atira-te ao Rio e o Ponto de Encontro, o elevador da Boca do Vento (avariado), e continuando por ali fora, mesmo até ao fim do cais.

A paisagem é sempre a mesma, mas sempre diferente, conforme a hora do dia, a estação do ano, a intensidade da luz: muda o céu, muda a cor do Tejo. Na outra margem, também Lisboa parece uma cidade diferente, de cada vez que percorremos aquele caminho.

Os habitantes do Ginjal devem ser meia dúzia de idosos, que resistem em casas a prometer derrocada para breve.

Mas a população do Ginjal aumentou recentemente. Famílias de emigrantes ilegais (romenos?), instalaram-se nas ruínas de uma das fábricas de conservas.

Aqui mesmo.

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Por entre montes de lixo. O cheiro é nauseabundo. Ao cheiro do lixo acumulado, junta-se, agora, o aroma peculiar de urina e fezes humanas.

A Câmara e a Junta de Freguesia já têm conhecimento do que se passa. Um jornal local disse, até, que alguns destes emigrantes se entretêm a assaltar os passeantes. Nunca vi tal coisa. No entanto, não deixa de ser anacrónico. O tempo vai passando e a densidade populacional deste local vai aumentando.

Custa a crer que se consiga viver no meio de tanto lixo, sem um tecto digno desse nome. Como será quando começar o Inverno?

Mas há compensações.

É isto que estes emigrantes ilegais vêem, todas as manhãs, quando acordam!

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Ferenc – o aprendiz de democrata

O primeiro-ministro húngaro foi apanhado a dizer que o governo tinha que mentir ao povo, de manhã í  noite, para justificar as medidas de austeridade económica, impostas para que o país possa aderir í  União Euroipeia. Uma inconfidência que alguém gravou e passou í  comunicação social.

Os húngaros vieram para a rua, exigiram a demissão do governo, deitaram fogo a carros, apedrejaram a polícia e provocaram o caos em Budapeste. Dizem que tudo foi orquestrado pela a extrema-direita, mas o que é certo é que mesmo os apoiantes do primeiro-ministro ficaram muito desiludidos com a performance de Ferenc Gyurcsany.

Não se mente assim ao povo.

Aliás, não se diz, em voz alta, que se mente assim ao povo.

A Hungria ainda é uma jovem democracia. Ainda tem muito que aprender.

Portugal podia dar-lhe uma ajuda, não?…

“O Hussardo”, de Arturo Pérez-Reverte

hussardo.jpgPí¨rez-Reverte é um escritor espanhol com algum interesse. Os seus livros “O Cemitério dos Barcos Sem Nome” (2000) e “A Rainha do Sul” (2002), são romances de aventuras bem conseguidos, cheios de peripécias, ao estilo de Alexandre Dumas. “A Tábua de Flandres” (1990), no entanto, não me pareceu tão interessante.

Muito menos este “O Hussardo”. Publicado em 1983, foi o primeiro romance de Pérez-Reverte. A edição que li é de 2004 e é uma revisão, feita pelo próprio autor e, como ele diz, numa nota introdutória, “aliviado de alguns advérbios e adjectivos desnecessários”.

Mesmo assim, pareceu-me um romance aborrecido. São páginas e páginas de descrições dos uniformes garbosos dos hussardos de Napoleão, das glórias que eles aguardam ao combater os andrajosos espanhóis e, depois, uma longa e fastidiosa descrição de uma batalha, que acaba em sangue, lama e morte.

O autor quer-nos mostrar como os jovens hussardos eram iludidos com a honra e a glória de pertencerem a um regimento tão garboso, servindo a França e o Imperador; depois, a realidade das batalhas era bem diferente, degradante e tenebrosa.

Não valia a pena escrever um livro por isto.

“Sideways”, de Alexander Payne

sideways.jpgVencedor de dois globos de ouro e candidato a cinco í“scares, este filme do mesmo realizador de “About Schmidt” (com Jack Nicholson) é bem esgalhado e proporciona duas horas bem passadas.

Dois amigos decidem fazer uma viagem enóloga pelas vinhas da Califórnia. Miles (Paul Giamatti), é um professor de liceu, autor de um romance que ninguém está interessado em publicar, e tenta recuperar de um divórcio turbulento. Jack (Thomas Haden Church) é um actor medíocre que se vai casar no final dessa semana, depois de uma longa carreira de solteirão.

As peripécias que os dois amigos vão vivendo, ao longo da semana, a visão da vida, sempre pessimista, de Miles e sempre optimista de Jack, o encontro com duas amigas, que Jack convence Miles a engatar, tudo isto tendo como pano de fundo as provas de diversos vinhos californianos – provas que, por vezes, se transformam em grandes bebedeiras, são os ingredientes do filme.

Realizado ao estilo de road movie, “Sideways” foi uma agradável surpresa.