Quem é Sampaio da Nóvoa?

Andam os socialistas muito preocupados com a candidatura í  presidência da República de Sampaio da Nóvoa.

Quem é, afinal, este homem?

Será ele o D. Sebastião que regressa entre o nevoeiro?

Da Nóvoa ou da Névoa?

Um Presidente Sampaio não será suficiente para um país pequeno como o nosso – embora o outro fosse Jorge e este seja da Nóvoa?

Sampaio diz que “não quer nada mas está disposto a tudo”.

A tudo? Mesmo a tudo?

Isso não pode ser perigoso para um homem de 60 anos?

E no entanto, tem bons padrinhos.

Alegre e Soares, esses jovens e promissores quadros do PS, já disseram que apoiam da Nóvoa.

Marcelo Rebelo de Sousa, outro protocandidato, diz que Sampaio “cobre toda a esquerda”.

Toda a esquerda?

Cobre o PCP, os Verdes, o Agir, o Bloco, o MAS, o LIVRE, mesmo o MRPP?

E cobre como?

Em sentido figurado ou cobre mesmo?

Não será esforço de mais para um homem de 60 anos?

Mas ficamos na dúvida: alguém conseguirá ultrapassar o nosso grande e brilhante Cavaco?

Acho que nem paio, nem nóvoa!

No lixo, mas a crescer!

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque anuncia que temos os cofres cheios.

O primeiro-ministro, Passos Coelho, em visita ao Japão, garante que Portugal poderá vir a ser “uma das nações mais competitivas do mundo”.

O presidente Cavaco não se cansa de “difundir a evolução positiva da economia portuguesa”, que, segundo ele, poderá crescer 2%.

E, no entanto, a agência Fitch continua a classificar a nossa dívida como lixo.

Ora, não é possível que uma ministra. um primeiro-ministro e um presidente estejam – todos! -enganados.

Conclui-se, portanto, que é a Fitch que não percebe nada de economia.

Sugiro que a Maria Luís pegue na massa que acumulou nos cofres e compre a agência Ficth.

Depois, pode deitá-la no lixo…

“Nove Histórias”, de J. D. Salinger (1948-53)

salingerJ. D. Salinger (1919-2010) é conhecido pelo romance The Catcher in the Rye (Uma Agulha no Palheiro), publicado em 1951 e que foi um êxito instantâneo e que, ainda hoje, continua a vender cerca de 250 mil cópias por ano.

Talvez amedrontado com tal sucesso, Salinger pouco mais obras publicou, deixou mesmo de publicar em 1965 e deu a última entrevista em 1980.

9 historiasEstas 9 histórias, que a Quetzal editou no ano passado, com tradução de José Lima, surpreendem, sobretudo pelos diálogos, tão bem escritos que parecem transcrições de conversas reais.

As histórias são estranhas, tão estranhas como alguns dos seus títulos: Um dia ideal para o peixe-banana, Pai torcido no Conneticut ou Pouco antes da guerra com os esquimós.

Não é, de facto, uma leitura fácil, as histórias não têm um final feliz, aliás, muitas vezes, nem final têm, mas a escrita é soberba.

“O Museu da Inocência”, de Orhan Pamuk (2008)

pamukArranjei finalmente vontade para ler este romance de Orham Pamuk (Istambul, 1952). Como já disse, desconfio sempre dos best sellers e receava que este fosse mais um desses livros que vendem milhares e que pouco interesse têm.

O Museu da Inocência foi o primeiro romance que Pamuk escreveu depois de ter ganho o Nobel, em 2006.

E esmerou-se.

Tenho alguma dificuldade em qualificar o livro mas apetece-me dizer que parece um romance “í  moda antiga”, uma história escrita por alguém muito antigo, uma história “que já não se usa” …

museu da inocenciaO livro conta a história de Kemal, um jovem novo-rico de 30 anos que, apesar de estar noivo de outra abastada jovem, se apaixona por uma prima afastada, Fusun, de 18 anos, empregada numa loja de roupa. Amor impossível.

A história, que parece saída da Mil e Uma Noites, começa nos anos 70 e prolonga-se por cerca de 30 anos e, í  medida que se desenrola, vamos tomando contacto com a evolução de Istambul, pelo menos ao nível das classes mais endinheiradas que queriam, a toda a força, ser e, sobretudo, parecer, ocidentalizadas.

Como se diz na página 275: «Na Europa, os ricos são suficientemente refinados para agir como se não fossem ricos. É assim que as pessoas civilizadas se comportam. Se queres saber a minha opinião, ser culto e civilizado não tem nada a ver com sermos todos livres e iguais; tem a ver com sermos todos suficientemente refinados para agir como se assim fosse.»

Kemal vai para a cama com Fusun, o que é muito “ocidental”, mas nunca chegam a casar.

Nos anos seguintes, a obsessão de Kemal por Fusun vai crescendo e começa a coleccionar objectos relacionados com ela: brincos, postais ilustrados das ruas que percorreram juntos, bilhetes e cartazes de cinema, beatas que ela fumou, etc, até nascer a ideia de fazer um Museu todo dedicado a ela.

E Pamuk foi mais longe, criando mesmo um Museu da Inocência, num dos bairros de Istambul (http://en.wikipedia.org/wiki/The_Museum_of_Innocence_%28museum%29).

Passei apenas dois dias em Istambul, mas a leitura deste livro fez-me lembrar constantemente aquela cidade, não sei explicar porquê.

Talvez porque Pamuk conseguiu impregnar a sua história com a essência da cidade onde nasceu.

Vale a pena ler.

í“ Núncio, mostra lá a lista!

O assunto desta semana foi a lista VIP do fisco.

Para quem andou distraído com as declarações do Ricardo Salgado, os habeas corpus do Sócrates ou optimismo do Cavaco, recordo que os Sindicatos bufaram que existe uma lista de contribuintes VIP; se os funcionários do fisco consultarem os dados fiscais dos tipos que fazem parte dessa lista, toca uma campainha algures, e são apanhados.

Supõe-se que, dessa lista, fariam parte o presidente, o primeiro-ministro e outras figuras de topo.

Segundo os Sindicatos, o secretário de Estado Paulo Núncio seria o responsável pela lista.

Núncio desmentiu.

Passos Coelho disse que mantinha a sua confiança no secretário de Estado.

A ministra das Finanças, superiora hierárquica de Núncio, não se pronuncia porque anda toda contentinha porque tem os cofres cheios!

O director-geral da Autoridade Tributária demite-se e diz que ele é que tem a culpa de tudo mas a Oposição exige a demissão de Núncio.

No Parlamento, Núncio diz que não se demite, não sabia de nada e é “visceralmente contra” a lista.

Estamos, portanto, ao nível das vísceras.

Mas como é que Núncio pode estar contra uma coisa que, pelos vistos, não existe?

E, se existisse, sinceramente, qual era o problema?

Agora, que sabemos, graças í  Maria Luís, que temos os cofres cheios de dinheiro, nada mais interessa!

Núncio: se fosse a ti, pegava na lista e pespegava com ela nos jornais todos amanhã de manhã.

Depois, pegava na Maria Luís e nos cofres cheios de dinheiro, e pirava-me para um paraíso fiscal qualquer.

Mandavas o Ricardo Salgado, o Henrique Granadeiro e o Zeinal Bava irem ter contigo, pagavas a um comando para vir libertar o Sócrates e fundavas uma República Portuguesa no exílio.

O Varoufakis ia-se roer de inveja!…

62 anos

 

E, de repente, estás com 62 anos!

Pela frente, na melhor das hipóteses, só viverás mais um terço do tempo que já viveste.

Tens que aproveitar o tempo, pá!…

Já passou a instrução primária na Escola do Mestre André, os nascimento do teu irmão Paulo e da tua irmã Bela, o périplo pelos liceus, o Camões, o D. João de Castro e o Passos Manuel,  o curso de Medicina no Hospital de Santa Maria, a Mila, tua companheira de sempre, que continua a teu lado, o teu filho Pedro, a tua filha Marta, a morte da tua mãe, os textos para o jornal República, o jornalismo na RTP e no Jornal de Notícias, as colaborações na Gazeta da Semana, no Pé de Cabra, no Bisnau, no Coiso, os textos para a rádio no Pão Com Manteiga, Programa da Manhã, Contra-Ataque, Uma Vez por Semana, os Intocáveis, as crónicas do Solnado, os programas de tv, a Quinta do Dois, o 1,2,3, a Zona Mais, o Lá em Casa tudo Bem, a morte do teu pai, a Saúde Pública em Moimenta da Beira e em Armamar, o Serviço Médico í  Periferia, em Mourão, o odioso Serviço Militar Obrigatório, em Évora, o exame de entrada na especialidade, os três anos em Psiquiatria, no Miguel Bombarda, os 30 anos de Medicina Geral e Familiar no Monte de Caparica, o teu primeiro neto, Alexandre, de vida breve, o teu neto Tiago, as tuas netas Joana, Ema e, há pouco, a Clara.

Fizeste móveis, pintaste paredes e tectos, encadernaste livros, montaste torneiras, estucaste paredes, semeaste alfaces e batatas e feijão verde, leste centenas de livros, aprendeste a tocar guitarra, ouviste milhões de músicas, viste milhares de filmes, fizeste fotografias quase todos os dias.

Continuas a trabalhar mais de 40 horas por semana, todos os dias a consultar mais de 20 pessoas, fazes cerca de 40 km de bicicleta todas as semanas e só não fazes mais porque a crise impediu que te reformasses este ano!

Publicaste três livros de histórias pouco clínicas, fizeste dois filhos e plantastes muitas árvores no teu quintal do Algueirão, sempre com a tua companheira, já puseste o pé em mais de 40 países nos cinco continentes, viajaste de carro, avião, comboio, barco, piroga, teleférico, helicóptero, mota, autocarro, avioneta, 4×4, cavalo, carroça, deste uma volta ao mundo, comeste cascavel no far-west, crocodilo no Quénia e salmão, enquanto vias o sol í  meia-noite.

Tiveste a possibilidade de ver os teus filhos crescerem e transformarem-se em cidadãos inteiros, um designer e uma psicóloga, viste-os formarem as suas próprias famílias e terem os seus filhos, que são os teus netos ““ o teu ADN vai continuar por aí quando te fores embora.

Podes morrer em paz ““ mas ainda não, porra!

Parabéns, pá

 

Cavaco forever!

Finalmente, Cavaco Silva fez-nos o favor de traçar o perfil do seu sucessor (confirmar aqui).

Ficamos assim a saber que, quem quiser suceder a Cavaco como presidente dos portugueses:

a) Não deve ter e muito menos emitir opiniões pessoais sobre:

– Falcatruas, desfalques, roubos ou qualquer outro fenómeno relacionado com bancos como o BPN, BPP, BES ou qualquer outro, nacional ou estrangeiro, pequeno ou grande;

– Prisão de anteriores primeiros-ministros, secretários de Estado, subsecretários ou mesmo directores-gerais;

– Burlas com vistos gold, silver ou mesmo latão;

– Fugas ao fisco ou a Segurança Social perpetradas por actuais ou antigos primeiros-ministros;

– Luvas obtidas com negócios que envolvam submarinos, blindados, tanques de guerra ou mesmo tanques de lavar roupa;

b) Por outro lado, o futuro presidente deve ter larga experiência em política externa e, tal como Cavaco:

– Exercer intensa actividade diplomática na guerra da Ucrânia;

– Trabalhar para a reunificação das Coreias;

– Continuar o esforço para o combate ao terrorismo, nomeadamente no que respeita ao Estado Islâmico;

– Mediar os conflitos no Mali, Sara Ocidental, Eritreia e Iémen;

– Manter na ordem o eixo franco-germano.

Em resumo: quem melhor que o próprio Cavaco pode suceder-lhe?

Sendo assim, é urgente propor um referendo nacional que permita mudar a Constituição, permitindo que Cavaco tenha um terceiro mandato!

Um primeiro-ministro que bebe laranjada

Vi hoje, num telejornal: Passos Coelho, num almoço qualquer, a beber laranjada, daquela ranhosa, tipo marca branca do Minipreço.

Ora, o que se pode esperar de um primeiro-ministro que bebe laranjada ao almoço?

Mas também não é razão para o crucificarmos só porque ele não “tinha noção” que era preciso contribuir para a Segurança Social.

Afinal, os funcionários da TAP não têm direito a viagens í  borla?

E os funcionários dos transportes públicos por acaso pagam bilhete?

Sendo assim, Passos Coelho, que inventa os impostos, devia estar isento de os pagar.

Lógico.

Ao fim e ao cabo, Passos faz o que qualquer português tenta fazer: fugir aos impostos.

Quem nunca recusou factura para não pagar IVA, por exemplo, que atire a primeira pedra ao primeiro-ministro.

Aliás, em qualquer caso, atirem a pedra.

Muitas.

Afinal, Passos Coelho não é perfeito!

Foi um balde de água fria!

Afinal, o nosso primeiro-ministro não é perfeito!

Vive em Massamá, viaja em executiva, não favorece os amigos e não enriquece com a política, mas não é perfeito.

E porquê?

Porque não sabia que tinha que descontar para a Segurança Social e porque estacionou mal o carro algumas vezes.

Parece que também se esqueceu de qualquer coisa relacionada com o IRS, além de ter pedido exclusividade como deputado quando, afinal, trabalhava para a Tecnoforma.

Em resumo: o homem tem defeitos!

Mas como ele muito bem disse, não se aproveitou do cargo para favorecer amigalhaços, como fez o Outro.

Claro que o Outro esperneou e lá dos confins da terra da Florbela Espanca, enviou uma cartinha, onde diz que “o primeiro-ministro está próximo da miséria moral”.

í“ Sócrates, que falta de imaginação!

Então com os cortes, a crise, o défice e a dívida, querias que o Coelho tivesse uma moral rica?

Pois se o homem garantiu que não enriqueceu!