A Criação do Domingo

No princípio, a semana possuía apenas seis dias, o que era um inconveniente inegável. Por isso, às 24 horas de sábado, deus decidiu criar o domingo.

Adão e Eva ficaram satisfeitíssimos porque tinham o dia livre para crescerem e se multiplicarem, entregando-se ao Pecado Original, sob os olhares reprovadores dos Querubins. Esse foi o primeiro domingo que ficou na História da Humanidade. E, apesar de tudo, deus achou que o domingo fora uma boa invenção.

Com efeito, sem domingos, não haveria a missa de domingo, os passeios de domingo e o Pão com Manteiga. Sem domingo, Fernando Namora não teria escrito o romance “Domingo à Tarde”, a semana inglesa teria de começar na sexta-feira à hora do almoço e os calendários teriam muito menos números vermelhos. Sem domingo, o domingo de Páscoa calharia para aí a um sábado.

Percebendo tudo isso, deus achou que o domingo fora uma boa invenção e sentiu-se até tentado a criar mais domingos ao longo da semana, eliminando dias bem mais aborrecidos. Teríamos então o domingo, a segunda-feira, o segundo domingo, a terça-feira, o terceiro domingo, a quarta-feira e o sábado. Mas isso seria muito confuso e convidaria os homens à boa vida. Por isso deus deixou ficar a semana como ainda está hoje e para mostrar que nem tudo corre bem aos domingos, escolheu esse dia para o Dilúvio.

Talvez digam as Escrituras que Sodoma e Gomorra foram destruídas a um domingo, que as setes pragas do Egipto calharam a um domingo, que Cristóvão Colombo descobriu a América a um domingo e que François Mitterand foi eleito a um domingo.

E é por essas e por outras que o Pão com Manteiga é a um domingo.

  • in Pão com Manteiga, 21.6.1981

“A Carne”, de Rosa Montero (2006)

Este é o sexto romance de Rosa Montero que passa pelos meus olhos. Nascida em 1951, Montero escreve que se desunha, mas é um pouco irregular. Gostei muito de A Louca da Casa (2023), de “A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te” (2013), de “O Perigo de Estar no Meu Perfeito Juízo” (2022) e de “Instruções para Salvar o Mundo” (2008); gostei menos de “A Boa Sorte” (2020) e também deste “A Carne” (2016), que terminei hoje.

Este último é um romance mais ligeiro, em que Rosa Montero assume o início da velhice. Nascida em 1951, Rosa teria os mesmos 60 anos que a protagonista do romance, Soledad, uma solitária que se envolve com um prostituto, trinta anos mais novo que ela.

Como pano de fundo, uma das habituais obsessões da escritora: os escritores malditos que, de um modo ou outro, tiveram vidas estranhas e trágicas.

Apesar de ser um romance mais ligeiro, não deixa de ser interessante, embora o final, na minha opinião, seja um pouco atabalhoado.

Montenegro, tem vergonha nessa cara!

O governo cancelou os festejos do 25 de abril devido à morte do Papa Francisco. Montenegro anunciou que os festejos seriam adiados para o 1º de Maio – e no Dia do Trabalhador organizou um concerto do grande combatente anti-fascista, esse ilustre militar de Abril, Tony Carreira, nos jardins do Palácio de São Bento.

Montenegro não merece ser primeiro-ministro de todos os portugueses, mas apenas das balzaquianas malucas por um tipo com uma voz fininha que, ainda por cima, plagia as canções francesas.

Tem vergonha nessa cara, Montenegro!

“A Água do Lago Nunca é Doce”, de Giulia Caminito (2021)

Giulia Caminito (Roma, 1988) consegue, com este romance, uma narrativa convincente dos marginalizados, dos pobres, dos dependentes dos apoios sociais e que, apesar disso, tentam melhorar as suas vidas.

A narradora é a jovem Gaia. A sua mãe, trabalha a dias e é uma lutadora; o seu pai, trabalha nas obras e, certo dia, cai de um andaime e fica preso a uma cadeira de rodas; tem um irmão mais velho, filho de outro homem e dois irmãos gémeos, ainda bebés quando acontece o acidente do pai. Uma verdadeira desgraça. Mas a mãe, Antónia, luta e quer que a sua filha tenha um futuro diferente e Gaia, que não se dá muito bem com a mãe, também tenta ser diferente, fugir daquela vida. Será que consegue?

Uma imagem com texto, livro, pessoa, Cara humana

Os conteúdos gerados por IA poderão estar incorretos.Gaia sabe que é diferente das suas colegas e que nunca poderá ter o que a maioria tem:

“E depois aquilo que não tenho, desde logo a televisão, os telefilmes da Italia Uno, as madeixas louras do cabelo, os cromos dos futebolistas, o Game Boy, a PlayStation, Tom Raider, todos os livros que me proibiste (…) o curso de natação, de voleibol, de teatro, o telemóvel sempre a tocar sem nunca se cansar, o McDonald’s onde festejar o aniversário (…), os discos da Britney Spears, as idas vespertinas a discotecas menores…”

Tem vergonha do seu corpo:

“O que fiz durante anos foi tapar-me, evitar a nudez, não suportar as exibições, afastar os corpos dos outros, não por ser valente, não há em mim valentia, nada de casto ou pio, nada de impoluto, mas porque me dão nervos as pessoas nuas, ter de as satisfazer, não saber aproximar-me delas, os cheiros que têm, os cheiros que eu tenho, a boca que entreabrem, os lábios que humedecem, as palavras sussurradas que dizem”.

E também há coincidências engraçadas:

“Trocamos ainda assim números de telefone e ela deixa-me a estudar, levanta-se e sacode com a maõ o vestidinho às bolinhas e chama o cão que se chama Gin, como gin tonic diz-me ela e sorri…”

Gostei muito.

“Orbital”, de Samantha Harvey (2023)

Samantha Harvey (Kent, UK, 1975) venceu o Booker Prize de 2024 com este livro.

Penso que o júri valorizou a originalidade deste pequeno livro, cuja acção se desenrola numa estação orbital durante apenas 24 horas.

Lá dentro, seis astronautas de diversas nacionalidades entregam-se às suas actividades rotineiras enquanto a escritora vai descrevendo as diversas órbitas, são 16 ao todo, e o que se vai vendo em cada uma delas, os oceanos, os continentes, um tufão que se está a formar, os acidentes geográficos. Achei o livro monótono e tive alguma dificuldade em lê-lo até ao fim. Com efeito, embora sejam curiosos alguns pormenores relacionados com a vida a bordo de uma estação orbital, a descrição acaba por ser um pouco entediante

Grupo Excursionista “Os Montenegros”

Foi um sucesso a nossa excursão ao Mercado do Bolhão, no Porto. Visitámos demoradamente as bancas dos legumes e das frutas, as diversas bancas de peixe, os talhos e tudo e tudo.

Fomos muito bem recebidos pelas vendedoras com quem trocámos muitos beijinhos e abraços.

No fim, tirámos esta linda foto.

Estamos já a organizar excursões aos mercados de Benfica e de Arroios!

Consultório de Beleza – o buço

Rubrica da responsabilidade da nossa colaboradora Lizete Rimel, especializada em excrescências da cútis, com dois cursos tirados em Paris a uma pessoa que ia a passar distraída.

Vamos então ao nosso assunto de hoje, que é o buço.

O buço é uma espécie de bigode modesto que algumas senhoras possuem ou, para ser mais científico, um conjunto de pêlos situado entre a parte inferior do nariz e o lábio superior.

As senhoras detestam ter buço e fazem as coisas mais incríveis para o ocultar: disfarçam-no com água oxigenada, lixívia ou ácido bórico, rapam-no, arrancam-no e outras coisas piores. Quando os buços são mesmo muito abundantes, as senhoras, em vez de os disfarçarem, disfarçam-se elas próprias. Chega até nós a notícia de que, nos Estados Unidos, foram postas à venda umas pálas especiais, fabricadas em Singapura, que servem exactamente para tapar o buço, aplicando-as sobre aquela região, presas às orelhas por uns atilhos. Vendem-se em várias cores e com aromas delicados.

E, no entanto, o buço é tão simples de extrair, bastando um pouco de paciência e a confecção de um creme, cuja invenção data de há uma data de anos. É a famosa Pomada Buçal, que já as egípcias usavam para tirar o buço. Diz-se mesmo que a própria Cleópatra usava essa pomada, embora alguns historiadores de cosmética garantam que isso é uma mentira enorme, já que o nariz da Cleópatra era suficientemente extenso para tapar o buço.

Ora bem, a receita é simples: arranje 500 gramas de farinha de trigo e misture com 250 gramas de algodão em rama, um dente de alho, duas cebolas picadas com um alfinete, uma lata de graxa castanha, um pouco de noz mosca e derreta tudo em banho-maria ou Manuel, conforme. A mistura obtida é passada depois pelo picador e novamente se amassa até formar uma pasta de consistência duvidosa, assim entre a argamassa e o granito. Em seguida, aplica-se sobre o buço, tendo o cuidado de evitar o nariz. Há casos de senhoras que ficaram sem o nariz ao retirar a pomada…

Depois de bem aplicada, deixa-se ficar durante 22 horas e 52 minutos, findos os quais se puxa por aquilo como se fosse fita-cola. Em princípio, os pelinhos saem com um gritinho de dor. No entanto, pode acontecer que não saiam e, nesse caso, não sei.

Bom dia e paciência para todas são os desejos de Lizete Rimel, cujo buço faria inveja ao próprio Bismark.

  • in Programa da Manhã da Rácio Comercial com Júlio Isidro, 13/12/1983

“As Coisas”, de Georges Perec (1965)

Segundo a badana, “As Coisas”, romance de estreia de Georges Perec (1936-1982), tornou-se um “clássico da literatura contemporânea.”

Pode ser que sim, mas é um romance demasiado datado e muito localizado em França e numa certa juventude francesa dos anos 60 – que nada terá a ver com a portuguesa dessa época, por exemplo.

Os protagonistas são Sylvie e Jerôme, dois jovens que desistem dos estudos e se dedicam a fazer inquéritos para empresas de publicidade, actividade muito em voga naquela época (em Portugal, um pouco mais tarde, penso).

Apesar de viveram com pouco dinheiro, o grande objectivo da sua vida era tornarem-se ricos e adquirir coisas – daí o título do livro.

Incapazes de conseguirem os seus objectivos em Paris, decidem partir para a Tunísia, que foi um protectorado francês até 1956. Aí, numa cidade triste, Sylvie foi professora e Jerôme não fez nada. Acabaram por regressar a Paris, sem terem conseguido enriquecer.

Apenas interessante.