“Shuggie Bain”, de Douglas Stuart (2022)

Douglas Stuart nasceu em Glasgow em 1976, sendo o mais novo de três irmãos. O seu pai abandonou a família e os três irmãos foram criados pela mãe, dependente do álcool. Quando Douglas tinha 16 anos, a mãe morreu, devido a doença relacionada com o alcoolismo. Depois disso, viveu com os irmãos mais velhos, depois numa espécie de pensão. Conseguindo tirar um curso de design de moda, mudou-se para Nova Iorque aos 24 anos.

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“…Shuggie Bain” é o seu primeiro livro e arrecadou logo o Booker Prize. Agnes Bain e Shuggie Bain são os principais personagens. Ela é a mãe, alcoólica, e ele é o filho, dependente da mãe, mas, ao mesmo tempo, o seu único apoio.

Conhecendo a biografia de Douglas Stuart, percebemos que o livro tem que ser autobiográfico.

A acção decorre nos anos 80, na cidade de Glasgow, nos bairros sociais com os problemas do desemprego na época da Tatcher, as drogas e o álcool.

“…Ouvira dizer que a Tatcher já não queira trabalhadores a sério. O futuro, para a chefe do Governo, era a tecnologia e a energia nuclear e a saúde nas mãos dos privados. Os dias da indústria tinham acabado e os ossos dos estaleiros Clyde e dos caminhos-de-ferro Springburn jaziam na cidade como dinossauros em decomposição. Os bairros estavam cheios de rapazes trabalhadores a quem haviam prometido o ofício dos pais e que agora não tinham qualquer futuro. Os homens perdiam a sua masculinidade.”

Com as devidas distâncias, algumas passagens fizeram-me lembrar os bairros sociais onde trabalhei como médico durante mais de 30 anos.

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“…As mulheres olharam umas para as outras, Bridie falou primeiro.

– Temos de arranjar-te um subsídio. Vais ao escritório na segunda de manhã. Vais dizer-lhes que precisas de uma pensão de invalidez, se não vão pí´r-te a ir ao fundo de desemprego todas as quintas.

– E dão-me uma pensão de invalidez?

– Ah, não te rales, “˜miga. Basta eles verem onde moras e está feito. Olha para este bairro. ““ Bridie apontou para a rua vazia ““ Estás a ver novos empregos a aparecer por estes lados? O nosso é o clube da invalidez, e todas as segundas-feiras é dia de o clube ir levantar o subsídio.”

Aconselho vivamente.

“Comboios Rigorosamente Vigiados”, de Bohumil Hrabal (1965)

Hrabal (1914-1997) é um dos maiores escritores checos, embora a sua obra não seja tão divulgada como, por exemplo, a de Milan Kundera, pelo menos, em Portugal.

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Da sua biografia, consta o seu amor por gatos e cerveja e consta, também, uma morte bizarra: caiu de uma janela num hospital de Praga, quando dava de comer aos pombos.

Viveu a ocupação nazi e a repressão do post-guerra. Teve diversos ofícios, nomeadamente, foi ferroviário e essa experiência usou-a na escrita desta pequena novela passada durante a ocupação nazi.

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O narrador é Milos, um jovem estagiário dos caminhos de ferro e tem um problema de ejaculação precoce, o que o diminui perante a Masa, a sua amada. Procura inspiração no seu colega, o sinaleiro Hubicka, capaz de carimbar as nádegas da telegrafista. Muito curiosa, também, a personagem do senhor chefe da estação, que cria pombos e que os trata como se fossem bebés.

Um pequeno livro que vale a pena ler e um autor que eu gostaria de conhecer melhor.

“A Ilha das írvores Desaparecidas”, de Elif Shafak (2021)

Mais um livro muito curioso desta escritora turco-britânica. Se “…A Bastarda de Istambul“ abordava o conflito entre turcos e arménios, neste “…A Ilha das írvores Desaparecidas”, o pano de fundo é o conflito entre gregos e turcos em Chipre.

A propósito de um amor (quase) impossível entre a turca Defne e o grego Kostas, a autora conta vários episódios relacionados com o conflito entre os turcos e os gregos que dividiu Chipre em dois.

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Kostas é botânico e Shafak polvilha o livro com muitas curiosidades sobre árvores, plantas, aves e insectos. Graças a outra personagem, Meryem, ficamos a conhecer diversos usos e costumes do lado turco de Chipre, bem como inúmeros provérbios.

Outra curiosidade deste romance reside no facto de uma figueira ser também uma personagem, que ajuda a fazer avançar a história, como observadora do mundo que a rodeia, em particular do casal Defne-Kostas.

Finalmente, a filha do casal, Ada, que já nasceu na Grã-Bretanha, representa uma geração de imigrantes que nunca chegaram a conhecer o seu país de origem, mas que têm uma secreta curiosidade em saber mais coisas sobre ele.

Recomendo.

“As Pessoas Invisíveis”, de José Carlos Barros

José Carlos Barros (Boticas, 1963), ganhou o Prémio Leya de 2021 com este romance que li em três tempos.

A história começa por altura da Segunda Guerra Mundial, í  exploração de volfrâmio e í  amizade entre um engenheiro alemão e Xavier Sarmiento, um jovem que descobre que tem o dom de curar, graças a mezinhas e rezas e outros truques.

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Vamos acompanhando este Xavier, que depois se torna chefe de milícias e espalha o terror em ífrica. A história conta-nos, então, um dos massacres mais esquecidos ocorridos em Moçambique. E, no fim, dá a volta, terminando com o filho de Xavier, já nos anos 80, pouco depois da morte de Sá Carneiro.

Com uma linguagem muito curiosa que, aqui e ali, faz lembrar alguns romances e Aquilino, Barros vai dando conta de episódios da política nacional, como este:

“…Tudo acontece longe de Vilarinho. Os planos dos alemães para a invasão de Portugal, depois de a França ter caído sob o domínio do Terceiro Reich. Os planos do Caudilho de ocupar o país vizinho e de ficar com os portos estratégicos í  sua mercê. Os planos de Roosevelt para a ocupação dos Açores e de Cabo Verde. Os planos de todos para tomar conta do país, enquanto Salazar mexe os cordelinhos invisíveis da neutralidade e vai andando assim, se se molhar, entre os pingos da chuva.”

Aliás, o livro tem algumas citações de Salazar, como esta:

“…Depois do próprio Salazar, em 1933, desafiar os Governadores Coloniais a participarem do esforço de «organizar a protecção das raças inferiores, cujo chamamento í  nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa»”.

Quase no final do romance, em eleições dos anos 80, em Vilarinho houve três votos no Partido Comunista.

“…Até que o padre Américo confessou que um dos votos era da sua responsabilidade. Que estava na cabina de prumos metálicos e tabopan perfurado, a debruçar-se sobre o boletim, quando perdeu o sentido e parecia que o demónio lhe tomava a mão. E então pí´s uma cruz no quadradinho da foice e do martelo, a significar assim o esconjuro e, por essa via, a eliminação do que o símbolo representava. E, ainda possuído por uma entidade exterior, ainda meio atordoado, dobrou a papeleta em quatro, caminhou em direcção da mesa, introduziu-a na urna e recolheu o bilhete de identidade. E só quando saiu da escola se compenetrou do erro e da gravidade dele. E que desde domingo nem conseguia dormir.”

Recomendo.

“Encruzilhadas”, de Jonathan Franzen (2021)

Franzen é, actualmente, um dos maiores escritores norte-americanos e, pelos vistos, é especialista em escrever “…tijolos”.

Já tinha lido Liberdade (684 páginas) e Purity (694 páginas); este Encruzilhadas conta com 677 páginas.

Na contracapa deste livro pode ler-se que “…os romances de Jonathan Franzen são célebres pelas personagens inesquecivelmente vigorosas e pela sua perspicaz visão da América contemporânea.”

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Estou de acordo, e é talvez isso o único defeito dos seus romances, o serem demasiado americanos.

Neste Encruzilhadas, cuja acção decorre num curto período entre 1971 e 72, conhecemos a família Hildebrandt. Russel é um pastor menonita numa igreja nos subúrbios de Chicago; o seu casamento com Marion está num marasmo; ela engordou e deixou de lhe despertar desejo sexual. Entretanto, na paróquia, surgiu uma viúva jovem por quem Russel perde a cabeça. Marion tem, no entanto, um passado bem curioso, que sempre ocultou ao marido, nomeadamente, um internamento por crise psicótica. O casal tem quatro filhos. O mais velho, Clem, pretende oferecer-se como voluntário para o Vietname: Becky é a estrela do liceu; Perry, com 14 anos, é toxicodependente; Judson tem apenas 9 anos e quase não conta para a história.

Todas estas personagens travam as suas lutas individuais tendo a religião como pano de fundo.

Cada capítulo é dedicado a uma destas personagens e, depois de um começo um pouco complicado, embrenhamo-nos na história e é difícil parar de ler.

“Histórias de Cronópios e de Famas”, de Julio Cortázar (1962)

Quando, em 1975, comprei “…Todos os Fogos o Fogo”, de Cortázar, este livrinho que agora a Cavalo de Ferro decidiu reeditar, escapou-me.

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O livro está dividido em quatro partes: a primeira parte chama-se “…Manual de Instruções” e inclui, por exemplo, Instruções para Chorar, Instruções para Cantar, Instruções para matar formigas em Roma e outras.

A segunda parte tem o título “…Ocupações Particulares”, onde Cortázar falar da sua enorme família e de como ela se comporta para caçar jaguares ou em velórios, para além de outras ocupações particulares.

A terceira parte, chamada, “…Material Plástico”, reúne pequenos contos, como este, intitulado “…Progresso e Retrocesso”:

“…Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca vinha, empurrava um pouco com a cabeça, e pof!, já estava do outro lado.

Alegria enorme da mosca.

Foi tudo destruído por um sábio húngaro ao descobrir que a mosca podia entrar mas não sair, ou vice-versa, por causa de um defeito qualquer na flexibilidade das fibras desse vidro, que era muito fibroso. Em seguida inventaram o cata-moscas com um torrão de açúcar no interior, e muitas moscas morriam desesperadas. Assim acabou qualquer hipótese de confraternização com estes animais dignos de melhor sorte.”

Finalmente, a quarta parte reúne as “…Histórias de Cronópios e de Famas”. São seres imaginários e, juntamente com os esperanças, formam um conjunto surrealista inventado por Cortázar. Por exemplo, “…Conservação das Recordações”:

“…Para conservarem as suas recordações, os famas embalsamam-nas da seguinte forma: depois de fixada a recordação com todos os pormenores, envolvem-na dos pés í  cabeça num lençol preto e encostam-na de pé contra a parede da sala, com um pequeno cartão que diz: «Excursão a Quilmes» ou «Frank Sinatra».

Os cronópios, em contrapartida, esses seres desarrumados e mornos, deixam as recordações í  solta pela casa, a gritar alegremente, andam entre elas e quando uma passa a correr acariciam-na suavemente e dizem: «não te magoes» ou «cuidado com os degraus». (…)” Não há dúvida que é um livro diferente e penso que já ninguém escreve assim… e é pena…

Outros livros de Cortázar: Um Certo Lucas; O Jogo do Mundo;

“Contos de Odessa”, de Isaac Babel

Muito oportuna esta edição da Relógio de ígua. Numa altura em que a Ucrânia, e nomeadamente Odessa, estão permanentemente nas notícias, pelas piores razões, o lançamento destes Contos de Odessa dão uma ideia de como seria a vida nessa cidade, nos primeiros anos do século 20.

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Isaac Babel nasceu em 1894, em Odessa, e terá morrido em 1940, num Gulag, í s mãos do KGB ““ quer isto dizer que foi contemporâneo do domínio russo dos czares e, depois, dos bolcheviques.

A imagem que transparece de Odessa, nestes contos, é de uma cidade violenta, a que chamam a Marselha do Mar Negro, em que digladiam gangues, contrabandistas, malfeitores, ladrões e bêbados, judeus e gentios.

O livro é traduzido do russo por Nailia Baldé e a linguagem de Babel é muito peculiar. Os assaltantes do bairro de Moldavanka têm em Bênia Krik o seu chefe, conhecido como o Rei. Logo no primeiro conto, estamos no casamento do Rei:

“…Os convidados sentaram-se í  mesa sem respeitarem idades. Uma velhice tola não é menos tolerável do que uma juventude cobarde. Também não respeitaram as fortunas. O forro de uma bolsa bem recheada é feito de lágrimas.”

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Ao longo dos oito contos deste pequeno livro, vamos conhecendo muitas figuras deste bairro de Moldavanka, como, por exemplo, Liovka.

“…Um dia, Liovka, o mais novo dos Krik, conheceu Tabl, a filha de Liubka. Em russo, Tabl significa pombinha. Ele viu-a e desapareceu de casa por três dias. Ficava deliciado com o pó das calçadas desconhecidas e com os gerânios nas janelas alheias. Passados três dias, Liovka voltou para casa e encontrou o pai no jardim. O velho estava a cear. Madame Gorobtchik estava sentada ao lado do marido e olhava em redor como uma assassina.”

Um livro muito curioso.

“Tomás Nevinson”, de Javier Marías (2021)

Suspeito que, depois de escrever, ou enquanto escrevia, “…Berta Isla“, Javier Marías achou que tinha em mãos uma muito boa ideia e que podia e devia explorá-la.

Berta Isla era casada com Tomás Nevinson, um homem com dupla nacionalidade, inglês e espanhol, e versado em muitas línguas e capaz de fazer diversos sotaques e tons de voz.

Cedo foi recrutado para os serviços secretos britânicos e nesse primeiro livro, embora saibamos alguns episódios da sua vida de espião, sabemos, sobretudo, como a sua mulher suporta as suas longas ausências e até a notícia da sua morte que, afinal, era claramente exagerada.

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Neste volume de 650 páginas, Marías conta-nos o regresso de Nevinson do mundo dos mortos, a sua reintegração na embaixada de Londres em Madrid e, finalmente, descreve-nos, em pormenor, a sua nova missão.

Javier Marías é abundante em descrições dos pensamentos e das angústias das personagens; por exemplo, demora cerca de cem páginas para descrever o encontro de Nevinson com o seu chefe, altura em que vai conhecer a sua nova missão.

Esta última missão de Tomás Nevinson consiste em tentar descobrir qual de três mulheres, que vivem numa determinada cidade, teve um passado terrorista, ligado ao IRA e í  ETA ““ e o livro é muito crítico em relação a estas duas organizações terroristas, descrevendo os seus atentados nos anos 90 do século 20.

Travestido em professor de inglês, Nevinson, com outro nome, claro, vai aproximar-se das três mulheres, tentando perceber qual delas teve um passado de terrorista.

E, finalmente, quando se descobrir qual delas é a tal, será que Nevinson é capaz de a matar?

Curiosa esta frase, colocada na boca do protagonista e muito actual: “E esse conceito moderno de crimes de guerra é ridículo, é estúpido, porque a guerra se compõe sobretudo de crimes, em todas as frentes, e do primeiro ao último dia”.

Recomendo.

“Berta Isla”, de Javier Marías (2017)

O estilo de Javier Marías é inconfundível, sobretudo no que diz respeito í  descrição das suas personagens.

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Por exemplo, eis a descrição de Tupra, o agente secreto que vai contratar Tom Nevinson:

“…Tinha um crânio volumoso que lhe disfarçava a farta cabeleira encaracolada, de tal modo que nas têmporas se formavam caracóis ou quase. Os olhos eram azuis ou cinzentos, delimitados por umas pestanas demasiado compridas e espessas., femininas ao ponto de parecem postiças ou pintadas. O seu olhar pálido parecia irónico, talvez sem intenção de o ser, e bastante agradável ou apreciativo, olhos aos quais nunca é indiferente aquilo que lhes aparece pela frente e que fazem sentir-se dignas de curiosidade as pessoas sobre quem pousam: como se possuíssem um precedente que merecesse ser desvendado. Tomás Nevinson pensou que quem sabe olhar assim tem muito a ganhar, quem foca com nitidez e í  altura adequada, que é a do homem; e quem apanha ou capta ou melhor absorve a imagem que está í  sua frente, provavelmente acaba por se tornar irresistível para muitas mulheres, independentemente da sua classe, profissão, experiência, beleza, idade ou grau de petulância”.

É assim, com esta profusão de adjectivos, sinónimos e frases descritivas, que o autor nos vai contar a estranha história de Berta Isla, precoce namorada e depois mulher de Tomás Nevinson que, fruto do seu jeito para as línguas, os sotaques e as imitações, se torna agente secreto, ao serviço de Sua Majestade.

Berta é espanhola, Tomás tem dupla nacionalidade e a sua relação de marido e mulher vai sofrer muitos interregnos, por mor da profissão dele.

O livro é narrado por Berta, embora tenha, também, alguns capítulos dedicados a Tomás Nevinson e o escrito espanhol percebeu que tinha, entre mãos, um excelente material e escreveu uma espécie de segundo volume, este chamado exactamente “…Tomás Nevinson”, e que vou ler já de seguida.

Aconselho vivamente.

“O Terceiro Reich”, de Roberto Bolaí±o (2010)

Estava na prateleira há 12 anos, â espera de ser lido. Depois de ter lido o calhamaço “…2666″, fiquei como que cansaço de Bolaí±o e o título “…O Terceiro Reich” não me era apelativo. Deixei-o ficar para melhores dias. Agora, depois de ter lido “…Chamadas Telefónicas”, apeteceu-me.

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“…O Terceiro Reich”, publicado sete anos após a morte do autor, é mais um livro estranho deste autor chileno que, na minha modesta opinião, é muito mais europeu que sul-americano.

O narrador de “…O Terceiro Reich” é um turista alemão a passar férias numa praia perto de Barcelona, juntamente com a sua namorada Ingeborg. Ele é campeão da Alemanha de um jogo de guerra de tabuleiro, que dá o nome ao livro.

Escrito como se fosse um diário, o livro vai contando o dia a dia de Udo Berger, e as suas estranhas relações coma namorada, com um outro casal de alemães, Hanna e Charly, com a dona do hotel, Frau Else, com quem Udu tenta ir para a cama, com os espanhóis locais, O Lobo e o Cordeiro e com o Queimado, um tipo que vive na praia, dormindo por baixo de uma pilha de “…gaivotas”, aqueles barcos a pedais. Estas narrativas são entrecortadas com a descrição exaustiva de jogadas do Terceiro Reich, com avanços e recuos das tropas alemãs e dos Aliados.

A escrita fez-me lembrar “…A Espuma dos Dias” e outras narrativas de Boris Vian. Bolaí±o usa expressões “…deslocadas”, que parecem quase escrita automática, como esta:

“…O Queimado (…) aparece, ao abrir a porta, como uma figura apagada com borracha. (Aparece como um noivo que em vez das flores levasse, apertadas contra o peito, fotocópias)”.

Ou esta:

“…- Mortal ““ Frau Else olha para mim como se estivéssemos separados por um vidro antibalas”.

Estranho livro, este.

Outras obras de Roberto Bola^no: “2666“; “Os Detectives Selvagens“; “Chamadas Telefónicas“