“Canção Doce”, de Leila Slimani (2016)

Há quem diga que os escritores escrevem sempre o mesmo livro.

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De certo modo é o que se passa com esta excelente escritora franco-marroquina.

Em “…O País dos Outros“, a história gira em torno de Mathilde, uma jovem francesa que se casa com um marroquino e que vai viver para o país do marido, sofrendo, depois, todas as desventuras que daí advêm; em “…No Jardim do Ogre“, é Adéle, uma jornalista casada com um pediatra e obcecada por aventuras sexuais, que vai caindo numa espiral de desgraças; neste “…Canção Doce”, é Louise, uma ama obsessiva-compulsiva que domina a história.

Dos três livros, este foi o que mais me impressionou pelo tema. Logo no primeiro capítulo, ficamos a saber que a ama assassina as duas crianças e ficamos logo incomodados.

Depois, Slimani vai contando a história que leva Louise ao precipício e o método que usa é semelhante ao que usou em “…No Jardim do Ogre”, com a história de Adéle.

E porque o tema central do livro me incomodou, quando acabei o livro, senti um certo alívio…

“No Jardim do Ogre”, de Leila Slimani (2014)

Depois de ter lido o excelente No País dos Outros, fiquei com curiosidade em ler os restantes romances desta autora franco-marroquina (Rabat, 1981).

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Este No Jardim do Ogre não fica atrás. Lê-se de um fí´lego e é difícil parar de ler.

Slimani conta-nos a história de Adéle, uma jovem atraente, que trabalha como jornalista e que é casada com um médico. Apesar de ter uma vida boa, Adéle sente-se insatisfeita e procura a felicidade nas suas aventuras sexuais, arranjando sempre mentiras cada vez mais inverosímeis para enganar o marido que, pelos vistos, não se interessa muito por sexo.

Adélia provém de uma família modesta e tem uma relação conflituosa com a mãe, e indiferente com o pai. Tem vergonha da família.

Richard, o marido, vem de uma família abastada, mas Adéle considera os sogros e os cunhados aborrecidos, enfadonhos. É um suplício passar o Natal em casa deles, mas pior é passar o Ano Novo em casa dos pais.

Vinga-se bebendo muito e fodendo ainda mais, com colegas do jornal, colegas do marido, desconhecidos.

Adéle é possuída pelas suas pulsões sexuais e troca tudo por uma nova aventura, incluindo deixar o seu filho de dois anos, dias seguidos, í  guarda de amas.

As situações vão-se complicando ao longo do livro e o desfecho não pode ser bom.

Gostei muito.

“A Anomalia”, de Hervé Le Tellier (2020)

Le Tellier (1957) formou-se em Matemática, depois em Jornalismo, é linguista e autor de diversos romances, contos, etc.

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Com este “…A Anomalia”, ganhou o Goncourt do ano passado. A Presença editou-o agora, com tradução de Tânia Gadanho e capa de Catarina Sequeira Gaeiras.

Li-o em duas penadas e é difícil parar de o ler. Le Tellier conseguiu, como disse Le Figaro, escrever o romance impossível porque para além de ser bem escrito é, simultaneamente, um thriller e um romance fantástico.

A ideia central de A Anomalia, é uma grande ideia: um avião da Air France aterra em Nova Iorque em março e, três meses depois, esse mesmo avião, com os mesmos passageiros e a mesma tripulação, aterra novamente.

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Como disse o autor, numa entrevista ao Expresso, todos nós gostaríamos de nos confrontarmos connosco próprios, em carne e osso, de podermos ver e falar com um nosso duplo, mas que não fosse uma imagem num espelho ou um clone: fí´ssemos exactamente nós mesmos.

Os conflitos que este “…simples” acontecimento desencadeia são a substância deste livro, que foi um dos melhores que li nos últimos tempos.

“Casa de Dia, Casa de Noite”, de Olga Tokarczuk (1999)

Diz-se que há escritores que escrevem sempre o mesmo livro.

Tokarczuck insere-se nessa categoria. Desde que ganhou o Nobel, em 2019, os seus títulos anteriores têm sido publicados em Portugal e verifico que, no fundo, a escritora polaca escreveu sempre o mesmo livro, embora sempre diferente.

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Entrei em contacto com esta ex-psicóloga clínica através do excelente Viagens, de 2007. Li, depois, Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos, de 2009, e depois, Outrora e Outros Tempos, de 1992.

Todos estes livros, a que dificilmente poderemos chamar romances, têm estrutura idêntica: são pequenos textos que nos vão contando pequenas histórias, são descrições curtas de lugares e de acontecimentos, como se fossem peças de um puzzle que nós vamos juntando na nossa cabeça. No final, quando terminamos o livro, ficamos com a impressão de que ficámos a conhecer aquele sítio e aquelas pessoas.

Este Casa de Dia, Casa de Noite, não foge í  regra. A acção passa-se algures depois do final da segunda Grande Guerra, numa aldeola polaca que foi ocupada pelos alemães. A narradora vai-nos contando pequenas histórias, da sua vizinha Marta, dela própria, de um monge que queria ser rapariga, de um casal que enfrenta a rotina da vida, e de muitos outros.

Veremos se Olga Tokarczuck consegue manter este estilo nos seus próximos escritos.

“Raízes Brancas”, de Bernardine Evaristo (2008)

Gostei muito de Rapariga, Mulher, Outra, o livro com que esta escritora anglo-nigeriana venceu o Man Booker de 2019.

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Fiquei com curiosidade em conhecer outras obras de Evaristo e a Elsinore editou agora um romance de 2008 e que foi uma desilusão.

A ideia é muito boa: Bernardine Evaristo cria um mundo em que os escravos são os brancos e os senhores são os negros, mas penso que não conseguiu dar a volta í  excelente ideia que teve.

Neste livro, os negros, que são os senhores, castigam os escravos brancos, mandam-nos borda fora quando eles estão moribundos, vendem-nos em hasta pública, mas continuam a usar tangas e não me convencem como senhores do Mundo.

Evaristo acaba por construir uma história centrada numa escrava branca que, depois de algumas tentativas, consegue fugir.

Não me convenceu.

“O Homem do Casaco Vermelho”, de Julian Barnes

O homem do casaco vermelho é o Dr. Samuel Pozi, o fundador da disciplina de ginecologia em França, homem sedutor e bem relacionado, viajado e culto, que teve uma vida cheia e que viveu entre 1846 e 1918.

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Julian Barnes tomou conhecimento de Pozi através da pintura de John Singer Sargent, representando o médico envergando uma longa capa escarlate, com o rosto a três quartos, com uma mão no peito e outra na cintura. E foi estudar a figura de Samuel Pozi. E assim nasceu este curioso livro que nos conta múltiplos episódios da chamada Belle Époque.

Ao longo do livro desfilam muitas personagens, para além de Pozi: Oscar Wilde, Guy de Maupassant, o conde de Montesquiou, Sarah Bernhard, Clemenceau, George Sand, Edmond de Goncourt, Colette, entre muitas outras.

Pozi foi um médico inovador e procurou aprender com outros, quer em Inglaterra, quer nos Estados Unidos.

A propósito dos feridos da guerra Franco-Prussiano de 1870-1871,

“…Pozi viu como havia mais probabilidades de os soldados feridos morrerem devido a infecções e septicemia do que devido í  ferida inicial: os cirurgiões operavam em condições imundas e de contaminação múltipla, sendo muitas vezes os feridos transportados da frente de batalha sobre palha cheia de merda em veículos que antes tinham sido ocupados por cavalos. Mesmo na cirurgia em tempos de paz, a higiene básica era frequentemente negligenciada. O cirurgião americano Charles Meigs (1792-1869) ficou famoso por se ter sentido ultrajado quando alguém lhe sugeriu que ele e os colegas deviam lavar as mãos antes de operar. «Os médicos são cavalheiros e as mãos dos cavalheiros estão limpas», declarou.”

O livro de Julian Barnes está repleto destes pequenos episódios de índole médica, mas também muitos outros, que nos revelam como a alta sociedade, os intelectuais e os bem-nascidos viviam na Belle Époque, como este:

“…Em 1867, Mallarmé, então com vinte e cinco anos, numa carta escrita em Besançon, queixa-se da cidade a um amigo. Descreve um vizinho que aponta para uma janela do outro lado da rua e diz: «Deus me valha! A Mme. Remaniet comeu espargos ontem!» «Como é que sabe?» «Pelo bacio que ela pí´s no peitoril».

Para além de um grande cirurgião, Pozi era um homem bem vivido; terá tido muitas amantes, incluindo Sarah Bernhard e algumas das suas doentes (dizia-se que as consultas eram os preliminares) e uma importante colecção de arte.

Percebe-se que gostei bastante da companhia deste livro. Trata-se, ainda por cima, de um livro bonito, de capa dura, com diversas ilustrações, algumas a cores, edição muito cuidada da Quetzal, com tradução de Salvato Teles de Menezes.

Outros livros de Julian Barnes: O Ruído do Tempo; O Sentido do Fim; Arthur & George; Amor & Etc;

“Luto”, de Eduardo Halfon (2017)

Eduardo Halfon nasceu em 1971 na cidade de Guatemala, mudou-se para o sul da Florida aos 10 anos, regressou a Guatemala, onde foi professor de literatura. É considerado um dos melhores escritores latino-americanos da actualidade.

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Este pequeno livro “…Luto”, editado em 2017, ganhou diversos prémios literários (nomeadamente, o de melhor livro estrangeiro, em França) e lê-se numa tarde.

É uma escrita depurada, sem arabescos nem rodriguinhos. O tema é autobiográfico, o que parece ser uma característica deste autor.

O livro gira í  volta da história de um irmão mais velho do escritor, um menino chamado Solomon, que terá morrido afogado no Lago Amatitlán, aos 5 anos ““ ou será que morreu numa Clínica, em Nova Iorque, vítima de uma doença incurável?

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Recordando episódios da sua infância, de uma maneira ou de outra, marcados pela “…imagem” da criança afogada, o autor viaja até junto do Lago Amatitlán, tentando descobrir se essa história terá sido mesmo verdadeira, ou não passará de uma lenda.

São 100 páginas que valem cada linha.

“Breve História do Mundo em 50 Lugares”, de Jacob F. Field (2017)

Nascido em Londres, em 1983, Jacob F. Field é formado em História Moderna pela Universidade de Oxford e autor de diversos livros.

Esta breve História do Mundo é um excelente livro para ler em voz alta para ouvidos atentos que queiram saber coisas básicas sobre alguns lugares do mundo que se tornaram importantes para a História.

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São 50 lugares que o autor escolheu, nomeadamente, a Biblioteca de Alexandria, a bacia do Rio Amarelo, a Acrópole, a Igreja de Santa Maria do Sião, Cusco, as planícies de Abraão, a casa de Anne Frank, o CERN, etc.

Sobre cada um destes lugares ““ e em três ou quatro páginas ““ o autor relata os factos principais que ficaram ligados a esses sítios. Numa linguagem simples e com uma grande capacidade de síntese, Jacob F. Field consegue prender a nossa atenção e dar umas pinceladas na História do Mundo, da Europa í  ísia, passando pela ífrica e pelas Américas.

“Não Mais Amores”, de Javier Marias (2012)

Javier Marias (Madrid, 1951) reuniu neste volume todos os seus contos.

Diz o próprio que “…o que aqui se oferece acabe por ser a totalidade aceite e aceitável da minha contribuição para o género. Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa”.

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O autor sofrerá de falsa modéstia.

Para ser sincero, os contos de Javier Marias não me entusiasmaram.

Um tradutor metido em sarilhos durante a rodagem de um filme com Elvis Presley podia ser um bom princípio para um conto. Uma mulher que lê para um fantasma, também. Uma aspirante a actriz porno í  espera de conhecer o seu companheiro no filme, idem. Tudo boas ideias, mas que, depois, se perdem, penso eu, num emaranhado de frases complexas.

“A Escola de Topeka”, de Ben Lerner (2019)

Ben Lerner, nasceu na cidade de Topeka, no Kansas, em 1979 e, com este livro, foi finalista do Pulitzer ““ livro que foi considerado um dos dez melhores livros do ano para o New York Times.

No entanto, para mim, foi um livro difícil, com uma temática muito “…americana”. Conta-nos histórias de uma família de psicoterapeutas e da comunidade que vive em seu redor, em Topeka.

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Cada capítulo refere-se a uma das personagens do livro (Jane, Jonathan, Adam…) e ficamos a conhecer um pouco do passado destas pessoas, o seu presente e, no último capítulo, o futuro.

O livro foi escrito já durante o “…reinado” de Trump e o autor mostra bem a sua repulsa pela governação daquela criatura.

No último capítulo, conta-se a participação de Adam, da sua mulher e de uma das suas filhas, numa manifestação contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement) e a maneira como esta instituição tratava as crianças, filhas dos chamados imigrantes clandestinos. Um livro interessante, mas irregular. Os capítulos dedicados a uma espécie de concurso de oratória são, como disse, demasiado “…americanos”.