KAOS

Caos é a palavra mais ouvida nos noticiários e mais lida nos jornais.

Se o Orçamento não for aprovado, será o caos. Se o Orçamento for aprovado, com as medidas de austeridade draconianas, o caos será.

Com o corte nos vencimentos, muitos médicos, que já estavam para se reformar antecipadamente, vão mesmo fazê-lo, passando-se para a iniciativa privada – será o caos na Saúde.

Os polícias, gê-éne-érres, guarda prisionais e demais, com o corte nos vencimentos e o congelamento das promoções, preparam-se para aderir í  greve geral do dia 24 de novembro – será o caos na Segurança.

Os juízes, para além de levarem uma ripada de 10% nos salários, ficam também sem subsídio de residência e vão passar a viver ao relento – será o caos na Justiça.

Os professores não precisam de fazer mais nada porque, na Educação, já temos o caos.

O caos nas Finanças, o caos na Economia, o caos no Emprego, o caos, o caos, o caos.

Quem se lembra do KAOS?

Temos que chamar Maxwell Smart e a sua inseparável agente 99!

Castelos em “Já Lá estive”

A primeira vez que estive em Los Angeles, fui dar um passeio até Venice e outras praias. O motorista, de nacionalidade brasileira, foi fazendo comentários durante o percurso e a páginas tantas perguntou se em Portugal tínhamos castelos.

Claro que temos, respondemos. Muitos castelos!

É que ali em cima, continuou o motorista, fica o castelo da família Hearst e apontou para uma espécie de palácio, mandado construir pelo multimilionário William Randolph Hearst.

Está-se mesmo a ver que o velho Hearst nunca veio a Portugal. Se tivesse vindo, teria aprendido a construir castelos como deve ser e não aquela piroseira.

Portugal terá cerca de 200 castelos medievais e eu gosto muito de castelos.

No passado fim de semana fui visitar mais uns quantos: Juromenha, Terena, Alandroal, Borba e Vila Viçosa.

Em “Já Lá estive“, que faz agora um ano, com 178 posts, há pequenas notas sobre estes castelos e ainda sobre os de Abrantes, Celorico da Beira, Pinhel, Belmonte, Sabugal, Sortelha, Castelo Rodrigo, Linhares da Beira, Marialva, Trancoso, Castelo Novo e Arouce.

E muitos outros hão-de vir.

Farto!

Por vezes estou farto das unhas dos pés pintadas de vermelho com porcaria no sabugo, das unhas sujas dos bebés de colo, da porcaria acumulada nos umbigos e entre os dedos dos pés, das manchas de sujidade nas regiões mais inacessíveis das costas, das crostas de caspa nos ombros, dos cabelos oleosos, escorridos, mal oxigenados, com as raízes í  mostra, das orelhas sujas, dos olhos ramelosos, do cheiro a sovaco não lavado, do odor a corpo e a cama e a suor retoiçado, dos restos de comida nas gengivas e nos escombros dos dentes podres, dos traços escuros nas dobras dos cotovelos e dos joelhos, dos calcanhares encardidos a arrastar chinelas de meter o dedo, das banhas pendendo sobre o púbis.

Outras vezes, encolho os ombros e ando em frente.

Especialistas

Tez morena, cabelo puxado para trás, ar de tipo vivido, camisola de alças, braços outrora musculados, com alguma gordura pendente, a descair a tatuagem de amor de mãe.

Olha para a repórter da televisão com olhos de carneiro mal-morto, se não estivesse aqui a câmara comia-te toda, e diz que já é o terceiro ano consecutivo que há incêndios neste sítio, no Gerês, e não se aprendeu nada. Se os bombeiros tivessem vindo quando eu os chamei e se tivessem começado logo a fazer o que estão a fazer agora, a coisa não tinha ficado tão complicada…

É um especialista em combate a incêndios.

Somos um país de especialistas.

Treinadores de bancada, economistas de vão de escada, doutores da mula ruça, juristas de trazer por casa, medinas carreiras da treta, filomenas mónicas armadas ao pingarelho, nunos rogeiros de pacotilha.

Nos fóruns da tsf e da sic notícias, é ouvi-los, bom dia sr. manuel acácio, a arrotar postas de pescada e a botar opinião sobre tudo, desde a crise económica até í  reflorestação da Peneda-Gerês, desde o plantel do Benfica í  falta de condições das clínicas oftalmológicas.

Não há portuga que não mande umas bocas sobre qualquer coisa e certamente que nenhum de nós conhece um que diga que não gosta de trabalhar, outro que afirme que mete baixas fraudulentas, outro ainda que afirme fugir deliberadamente aos impostos.

São sempre Os Outros e a culpa é sempre Deles.

Somos todos muito honestos, muito competentes, muito organizados, muito esclarecidos, menos os treinadores, no futebol, os dirigentes, na política, os bombeiros, nos incêndios.

Nas reportagens televisivas, vemos mulheres vestidas com batas (porque será que todas as portuguesas que aparecem nas reportagens usam bata?) correndo de um lado para o outro, de mãos na cabeça, enquanto as chamas lavram a escassos metros das habitações lá da aldeia.

E não vemos homens. Eles estão afastados, encostados aos muros, a dar entrevistas, a explicar como é que devia ser a estratégia dos bombeiros. Eles que deviam ter limpo a caruma e as garrafas de minis que deitam para o chão, eles que atiram beatas incandescentes pela janela do carro – eles são os especialistas no combate aos incêndios.

E estamos condenados a respirar o mesmo ar…

Enfadado

Enfadado, é o termo.

Não estou farto, nem irritado, nem zangado, apoplético, aborrecido, indignado, chateado, encolerizado ou mesmo furibundo.

Já não me espanto com a falta de assunto dos telejornais, a discussão í  volta das scut deixa-me indiferente, estou-me borrifando para a golden share, quero que o Sócrates vá pentear macacos e que o Passos Coelho dê uma volta ao bilhar grande, bocejo com a crise económica, adormeço ao som da voz do Medina Carreira, não ligo ao que diz o Teixeira dos Santos, viro as costas aos sindicatos, encolho os ombros í s associações patronais e desprezo solenemente todos os restantes parceiros sociais.

Estou mesmo muito enfadado.

Temos um governo a prazo que tem que pedir licença ao maior partido da oposição para poder publicar uma simples portaria, um Presidente da República que gostava de ser primeiro-ministro, uma comunicação social toda ela de direita e um calor do caraças, que até faz os funcionários da Câmara da Amareleja mudarem os horários de trabalho e cada vez apetece menos ligar a estes políticos pelintras, sem estofo, sem qualidade, sem nervo, sem pica, sem categoria.

E, por isso, estou enfadado.

Não me surpreende o facto do Ronaldo ter comprado um filho, como quem compra um Porsche, não me espanta que a mulher do Presidente dos Açores tenha gasto 27 mil euros numa viagem ao Canadá, não ligo nenhuma ao adiamento da leitura da sentença do processo Casa Pia e espreguiço-me perante tudo isto com uma indolência genuína.

Já nem quero que me tirem deste país, que me arranjem outro lugar para viver, que me façam o favor de arranjar outros políticos, outros comentadores políticos, outros treinadores para a selecção, outra selecção.

Quero apenas que me deixem assim, quietinho, sossegadinho.

Enfadado.

Saudades da paróquia!

Estive uma dúzia de dias ausente e que saudades que eu já tinha!

Saudades do ministro da Economia, Cavaco Silva, sempre a acentuar a próxima bancarrota do país a que ele preside – se a situação é insustentável, por que razão não dissolve a Assembleia e convoca eleições antecipadas?

Saudades da discussão em redor das Scut: quando as Scut foram criadas, todos criticaram o governo por não ter criado portagens; agora, os que não queriam portagens, já as querem e os que eram a favor, são contra. E depois, ainda há a história do ex-assessor do secretário de Estado das estradas, que agora está na empresa que fornece os chips que serviriam para a cobrança electrónica! E alguém acredita que o PSD está preocupado com a privacidade dos cidadãos, ao ser contra os chips? Enredo de telenovela…

Saudades de manchetes como a do Público de ontem: «cortes na cultura ameaçam os artistas independentes». Então, se eles são independentes por que razão estão preocupados com os cortes no Orçamento do Estado? Independentes, dependentes de subsídios?

Saudades de um país que tem um primeiro-ministro, Sócrates, a ser queimado em lume brando e outro primeiro-ministro, Passos Coelho, já na calha, que se reúne com o futuro primeiro-ministro espanhol, Aznar, que praticamente já está a governar, mas que não tem coragem para fazer passar uma moção de censura ao governo e provocar eleições antecipadas, a fim de se tornar primeiro-ministro, de facto.

Saudades de um primeiro-ministro, Sócrates, que, pelos vistos, deve ser o único português que ainda acredita no país, ao ponto de afirmar: “muitas vezes sinto-me sozinho a puxar pelo país!»

Pois deve ser por isso – por estar sozinho a puxar – que o país não sai do mesmo sítio…

Houve tempos em que ele, o país, até partiu, í  descoberta, qual jangada de pedra, mas o Saramago morreu, a crise instalou-se e o país não sai da cepa torta.

Que saudades que eu já tinha da minha paróquia!

Cegos, surdos, mudos

Os cegos de Santa Maria nunca pensaram vir a ser tão famosos.

Desde há uma semana que todos os telejornais abrem com notícias sobre os 6 doentes que tiveram a infelicidade de serem intervencionados, naquele dia.

Primeiro, a culpa era da droga injectada nos olhos dos doentes, que é fabricada pela Roche e que não seria a indicada, porque o Infarmed já tinha sido avisado pelo próprio laboratório produtor, e que outros centros oftalmológicos não a usavam, sabe-se lá se os médicos não a teriam usado para beneficiar a Roche e, assim, conseguir um lugar num maravilhoso cruzeiro no Mar Morto, para duas pessoas, com estadia e pequeno-almoço e a possibilidade de assistir a um congresso sobre cegueiras iatrogénicas.

Depois, a culpa era da farmácia hospitalar, bem que o Sr. Cordeiro da ANF avisou, que as farmácias hospitalares, ao ficarem fora do controlo da Associação Nacional das Farmácias iriam começar a fazer porcaria e estava-se mesmo a ver que a farmácia do Hospital de Santa Maria não percebia patavina daquilo e tinha preparado mal as seringas e o Sr. Cordeiro é que sabe porque, em terra de cegos, quem tem um olho, é rei.

Mas, afinal, a culpa poderá ter sido de uma contaminação. O Avastin não faz mal nenhum, a farmácia é uma gaja porreira, só que anda para aí um maluco í  solta, que decidiu misturar o medicamento com um produto tóxico qualquer, só para cegar aqueles 6 desgraçados.

Já temos a Maria José Morgado em campo, a investigar.

O problema é que ainda vamos descobrir que, afinal, tudo foi obra de extra-terrestres, que andam a fazer experiências em nós, e só não vê quem não quer, porque o pior cego é o que não quer ver, e eles querem ver se somos resistentes ou quê, para depois nos darem injecções nos olhos, para ficarmos todos ceguinhos e eles nos poderem colonizar í  vontade.

Cega não estará, mas surda tem estado a Joana Amaral Dias, com a malta toda a ligar-lhe e ela sem ouvir o telemóvel.

Toda a gente quer saber quem está a mentir: o Sócrates ou o Louçã?

O Louçã diz que o Sócrates convidou a Joana para as listas do PS, por Coimbra ou, no caso de não querer, outro lugar em qualquer organismo do Estado, porteira no Museu dos Coches, guarda nas latrinas da estação do Rossio ou mesmo Directora-Geral dos Directores-Gerais.

Sócrates, por seu lado, diz que não vê a Joana há meses (outro ceguinho…).

E os jornalistas, preocupados com tão importante assunto, vá de ligar para o telemóvel da moça e ela, surda que nem uma porta, não o ouve e não atende.

Cegos e surdos poderemos não estar, mas mudos ficamos nós com este país tão pequenino, com uma política que tropeça no diz-que-disse, que parece uma capelista de bairro e se resume a uma paróquia pequenina, com cheiro a naftalina.

Abstinentes e repetentes

Se, por um lado, houve cidadãos que decidiram não votar, e foram a grande maioria (64%), houve outros que decidiram votar duas vezes.

A televisão mostrou ontem um deles, um tal Vitor Manuel Teixeira da Costa Santos que, na sua ingenuidade, não sabia que estava a cometer um crime.

Orgulhoso da sua esperteza saloia, disse como fez: primeiro, usando o seu velho cartão de eleitor, foi votar na freguesia de onde é natural; depois, com o seu novo cartão único, votou na freguesia onde actualmente reside.

Muito contentinho, acrescentou: “E votei as duas vezes no mesmo partido!”. Depois, sorriu para a câmara, exibindo alguns dentes estragados, montou na  Famel e partiu, í  desfilada, em direcção í  sua freguesia natal, a Golpilheira.

País de opereta este: o autor do golpe, é natural de Golpilheira…

PS – se existe uma freguesia chamada Golpilheira, será que também haverá uma Falcatrueira e outra, Roubalheira?