Anúncios Pão com Manteiga

* Evite o roubo – junte-se a nós. Nunca roubamos colegas.

* Monte Gordo – que o magro não aguenta

* Drogaria – se não fosse proibido. Assim, tenho medo da polícia

* Andar Baixa – faz mal à espinha; endireite essas costas

* Dá-se 5 000$00 – a quem der 10 000$00. Negócio absolutamente limpo. Lavo sempre as mãos antes de receber a massa

* Furos para água – orifícios para vinho, buracos para cerveja, aberturas para leite, covas para laranjada. Fazemos orçamentos.

* Parede vende-se – pintada de verde, sem buracos de pregos. Tem apenas um quadro pendurado

* Bom Andar – tudo depende dos sapatos. Use o nosso calçado e verá como andará bem

* Quinta Compro – sexta vendo. Sou um inconstante

* Paio Pires – Mortadela Amaral, Presunto Silva, Bacon Oliveira, Salsichas Borsalino. Carnes das melhores proveniências

* BMW, DKW, VW – Pltr rtgsls  ldkjhd lslkjdh

* Andar na Pontinha – é perigoso; mantenha o equilíbrio!

* Sementes – levas porrada! É muito feio mentir.

  • in revista Pão com Manteiga, diverso números, 1981/2

A Cara

Sinónimos: rosto, face, tromba.

Breve explicação: um homem sem cara não é um verdadeiro homem. Provavelmente não será também uma mulher. A cara é, portanto, uma das partes mais importantes do corpo humano e justifica-se que nos ocupemos dela nesta primeira lição.

Localização: a cara localiza-se um pouco acima do pescoço, mas não muito. Apenas o suficiente para não se confundir com o tórax.

Conteúdo: é muito variável de pessoa para pessoa. No entanto, determinados constituintes existem na esmagadora maioria dos humanos, nomeadamente a boca e o nariz.

A boca trata-se de uma abertura logo acima do queixo, rodeada por duas faixas mais ou menos vermelhas, a que chamamos lábios. Note-se que a boca pode estar aberta ou fechada e possui uma propriedade fundamental, que poderá ser facilmente comprovada pelo leitor atento. Para tal, pegue num pedaço de pão com cerca de 8 centímetros e tente introduzi-lo no nariz, nas orelhas e assim sucessivamente.

Não conseguiu, não é verdade?

Pois tente agora enfiá-lo na boca.

Que tal? Entrou, não foi?

E, mesmo sem dar por isso, o leitor desatou a fazer movimentos com os dentes, para cima e para baixo, e acabou por engolir o pão. Experimente com o pão barrado com manteiga. Mais agradável ainda, hem? Pois é a isso que se chama comer. Já sabia, com certeza… Nem sempre se pode ser original…

Bom, acima da boca está o nariz. O nariz é um apêndice com alguns centímetros de comprimento e dois orifícios. Trata-se de um órgão muito útil, mesmo imprescindível. Assim, o nariz serve para nos assoarmos, mas, sobretudo, para metermos o dedo no nariz.

Como é do conhecimento geral, sem nariz não se poderia meter o nariz onde não se é chamado, não se poderia torcer o nariz, a mostarda nunca nos subiria ao mesmo. Serve também para levar murros e é muito utilizado quando está nevoeiro; nestas alturas, medimos um palmo à frente do nariz e se não enxergarmos coisa nenhuma, confirma-se que está nevoeiro.

Além da boca e do nariz, a cara pode ainda possuir dois olhos, com as respectivas sobrancelhas e duas orelhas – mas nem sempre. Pouco se sabe quanto à utilidade dos olhos, embora muita gente os utilize para ver.

A expressão “comer com os olhos” deve ser banida, uma vez que ficou provado que é com a boca que se come. Tal como no nariz, também se dão murros nos olhos ou, de preferência, deita-se-lhes poeira.

Das orelhas, conhecem-se apenas duas utilidades: ou servem de abano, se forem grandes, ou se faz o ninho atrás delas. De resto, são inestéticas e desprovidas de interesse.

Função: falámos do conteúdo da cara e da utilidade de cada uma das suas partes. Mas a cara propriamente dita, como um todo, merece uma referência à parte.

Como se sabe, existem vários tipos de caras, nomeadamente, a cara de parvo, a cara de mau, a carantonha, a cara de pau, a cara de poucos amigos, e a vida, que está cara. Por vezes, a cara serve para se transformar em bolo. O leitor talvez não acredite, mas se fizer mais uma pequena experiência, comprovará que não o estamos a enganar. Esta experiência pode realizá-la na cara de um amigo seu, ou na sua própria cara, em frente a um espelho, não necessitando de nenhum material especial. Basta, de facto, de dar uma série numerosa de socos no nariz e nos olhos (cf. Referências anteriores a estes dois órgãos). Como vê, tem a cara feita num bolo. Aproveite e coma-o. Com a boca, claro. É para isso que ela serve, como já aprendeu no início desta lição.

Conclusão: mas nestas coisas de anatomia, as aparências iludem muito. É

 frequente, por exemplo, que um tipo com cara de poucos amigos, tenha um fígado impecável. Aliás, quem vê caras, não vê corações, como se sabe…

  • in Revista pão com Manteiga, nº1, junho 1981

Deputado do Chega: a culpa é da mãe!

Miguel Arruda, deputado do Chega pelos Açorews, foi apanhado a roubar malas nos aeroportos de Lisboa e de Ponta Delgada. Alegadamente.

Difícil perceber tal atitude.

Mas basta ver o seu currículo para perceber: Arruda tem um Mestrado em Ciências Biomédicas, outro em Ambiente, Saúde e Segurança, uma pós-graduação em Segurança Alimentar e Saúde Pública, outra em Engenharia de Qualidade, para além de uma licenciatura em Ciências Biológicas e da Saúde – mas afinal, o que o Miguelito queria era ser um simples trabalhador de handling.

Estas mães castradoras!…

“Atos Humanos”, de Han Kang (2014)

Han Kang (Gwangju, Coreia do Sul, 1970) foi o Prémio Novel da Literatura de 2024.

Dela, já tinha lido, A Vegetariana.

Este Atos Humanos é um pequeno livro todo ele dedicado ao período em que a Coreia do Sul viveu sob a ditadura de Park Chung-hee e dos seus seguidores. A cidade de Gwangju, onde a autora nasceu, foi uma cidade mártire, com milhares dos seus habitantes a serem barbaramente assassinados pelos militares, a mando do ditador, apenas porque se tinham rebelado contra as ordens de Seul.

As atrocidades cometidas devem ter sido horríveis e Han Kang que, na altura, teria apenas nove anos, decidiu escrever sobre isso, com o lirismo que lhe é característico.

Trump – a sequela

Os americanos escolheram, novamente, Donald Trump como presidente.

Poderíamos dizer que o problema é deles, mas não é só deles.

Após tomar posse, Trump assinou cerca de uma centena de decisões, entre as quais, o abandono dos Estados Unidos do Acordo de Paris e da OMS.

Ver aquele basbaque a assinar estas decisões com uma caneta para cada decisão, e tecendo comentários idiotas a propósito é de ir às lágrimas. Por exemplo, a propósito de Espanha, pergunta a alguém se esse país faz parte do BRICS! Mais à frente, fala de Gaza como se fosse um futuro destino turístico, dizendo que tem sempre bom tempo e sugerindo que, sob o ponto de vista imobiliário, aquilo poderá ser, sei lá, uma nova Ibiza!

Garantindo que não vai ser vingativo, foi ameaçando os que se opuseram a ele e indultou os 1500 idiotas que invadiram o Capitólio, quando Biden ganhou as eleições ou, como Trump disse no discurso de tomada de posse, quando lhe roubaram a eleição. No futuro, quando um democrata vencer as eleições, os radicais republicanos poderão invadir o Capitólio novamente porque há já o precedente de um indulto presidencial.

Mais estranho ainda: pela primeira vez, um presidente americano fez o que Biden acabou de fazer – indultar uma série de cidadãos que, presumivelmente, poderiam ser acusados por Trump. Entre eles, está o médico que, durante a pandemia, aconselhou o uso de máscaras, medida sempre atacada pelo Trump que, na altura era presidente. Biden pensou que este médico poderia vir a ser acusado por Trump e, então, indultou-o preventivamente – coisa que é inédita.

Outra novidade – para além do chapéu ridículo que a Melania usou durante toda a cerimónia, mesmo ao almoço – foi o facto dos grandes multimilionários das redes sociais terem estado presentes. Para além do já esperado Musk, o Zuckerberg e o Bezzos.

Claro que o Musk deu nas vistas. Tão excitado estava que fez a saudação nazi por duas vezes. Por mais que ele negue, não há dúvida que foi isso que ele fez, o que está de acordo com os seus apoios à extrema-direita inglesa e, sobretudo, alemã.

A menos que, afinal, aquele gesto não passe de um efeito secundário da ketamina que ele, decerto, tomará…

De qualquer modo, penso que iremos viver tempos difíceis.

A única coisa boa: Trump não pode ser reeleito.

Ou será que vai poder?…

“Retrato Huaco”, de Gabriela Wiener (2021)

Gabriela Wiener (Lima,1975) é uma jornalista, colunista e escritora peruana emigrada em Espanha.

Retrato huaco é o nome que se dá a peças de cerâmica que representam rostos indígenas e que, segundo se dizia, capturavam as suas almas.

Gabriela Wiener, mestiça, é tetraneta de Charles Wiener, explorador austríaco-francês que visitou o Peru no século 19 e de lá levou, para Paris, muitas peças de cerâmica e não só, abrindo um museu perto da Torre Eiffel.

Gabriela escreve este pequeno livro de autoficção arrojado, confessando-se adepta do poliamor, vivendo com um marido e uma namorada. Fala-nos do trisavô, colonialista, do pai, revolucionário e adúltero, da mãe e da amante do pai, bem como das suas próprias aventuras sexuais, fora do seu núcleo familiar.

É, por isso, um livro arrojado e estranho, difícil de catalogar.

Duas citações:

Página 45:

“Os meus avós paternos eram tão brancos, que eu não me sentia confortável com eles. Quando o meu avô branco morreu, a minha avó branca começou a tocar-nos um pouco mais e a peidar-se quando ia de uma divisão para a outra, saiu do armário como uma católica simpática e ensinou-me a tricotar. A minha avó chola balançava-me nas pernas e ensinava-me a rezar, enquanto falava com o meu pai como se estivesse a falar com o dono da fazenda, até que adoeceu e começou a mandar todos à merda.”

Página 110:

“Não queremos deixar de foder com brancos, o que queremos é começar a foder entre nós. Branqueámos o sexo, branqueámos o amor, racionalizámo-lo. O poliamor, por exemplo, é uma prática branca que não tem em conta como funciona a circulação do desejo e os seus limites para pessoas como nós, as feias do baile. Desconfiem dos olhos azuis e da lógica do progresso aplicada ao corpo! Deixámos de desejar e de amar corpos como os nossos, afastámo-nos das nossas próprias formas de vida amorosa e sexual, do que nos sai da cona”.

Está dito!

“A Picada da Abelha”, de Paul Murray (2023)

Calhamaço de 716 páginas, finalista do Booker de 2023, é um romance à “moda antiga”, um daqueles que poderá dar um bom filme, uma história com várias personagens, cada uma com as suas peripécias.

O livro conta a história, aparentemente banal, de uma família irlandesa, que vive numa parvónia, a duas horas de Dublin.

Maurice tem um stand e oficina de automóveis, cujos lucros lhe permitem, depois da morte da mulher, viver dos rendimentos, no Algarve. Tem dois filhos: Frank, uma estrela do futebol gaélico e Dickie, pouco dado ao desporto, mas com futuro como gestor do stand. Frank morre tragicamente e Dickie acaba por casar com a noiva de Frank, Imelda e desse casamento nascem Cassandra e JD.

Esta é a base da história. Depois, Murray desenvolve-a, dedicando uma parte do livro a cada personagem. À medida que a história se desenvolve, a trama vai-se adensando e o final é digno de um thriller.

Além disso, o autor condimenta a história com todos os ingredientes actuais: alterações climáticas, emigrantes brasileiras, abrigos anti-nucleares, dúvidas sobre a identidade de género, atenção aos pronomes correctos, crises económicas, etc.

Claro que aconselho…

Trumpalhadas

Donald Trump deu ontem uma conferência de imprensa, no dia em que a sua eleição foi confirmada, sem que o Capitólio tenha sido invadido por apoiantes da Kamala Harris.

Ele disse tantas enormidades que não sei se serei capaz de as referir todas.

Disse, por exemplo, que quer anexar a Gronelândia e o Canal do Panamá. A Gronelândia é uma região autónoma da Dinamarca, mas, segundo ele, os EUA querem anexá-la porque lhes dá jeito, por causa dos navios. O Trump disse que vai usar pressão económica, mas não pôs de parte a ameaça militar. O mesmo em relação ao Canal do Panamá. Os EUA devolveram o Canal aos panamianos em 1999, no tempo de Carter, pelo preço simbólico de um dólar. O Trump diz que, neste momento, é a China que domina o Canal e que, portanto, ele quer reconquistá-lo!

Quanto ao Canadá, melhor seria que se juntasse aos EUA. Os canadianos só tinham a ganhar.

Disse ainda que há água a mais, que há certas regiões onde há tanta água que nem sabem o que fazer com ela; além disso, que a água cai do “heaven” (não disse sky), portanto, não há necessidade de a racionar.

Falou contra as eólicas. Disse que no País de Gales há tantas eólicas que as pessoas estão a ficar crazy.

Falou também a favor dos aquecedores a óleo, em vez dos aquecedores eléctricos.

E quanto aos reféns israelitas, avisou o Hamas que, se até 20 de janeiro, data da sua tomada de posse, os reféns não estiverem livres, que o Médio Oriente vai transformar-se num inferno!

Ora, sabendo que o Trump é apoiado pelo homem mais rico do mundo, e sabendo que ele, Elon Musk, anda a fazer campanha a favor da extrema direita alemã e a tentar minar o Partido Trabalhista britânico, só me apetece dizer que estamos fodidos!

“Queria? Já Não Quer?”, de Marco Neves (2024)

O subtítulo deste pequeno livro diz tudo: Mitos e Disparates da Língua Portuguesa.

Entre eles, o mito de que a palavra “bica” é um acrónimo de “beba isto com açúcar”, que é uma daquelas ideias peregrinas postas a correr nas redes sociais. O autor pesquisa, procura e até consegue, neste caso, transcrever um depoimento de um descendente dos fundadores da Brasileira do Chiado, a explicar que bica vem disso mesmo: de uma bica, a bica da cafeteira de onde saía o café de saco.

Mas o livro debruça-se sobre outros disparates, como o do título. Estará errado dizer “queria um café e um pastel de nata?”. E o que devemos responder ao empregado espertinho que nos responde: “Queria? Já não quer?”

Talvez lhe devêssemos responder:” Eu que eu queria era partir-lhe a cara, mas não devo, devido a convenções sociais, portanto, quero exigir-lhe que me traga um café!”

E, afinal, a excelente palavra “caralho” vem mesmo do cesto da gávea, ou estamos todos enganados? Quando mandamos alguém para o caralho, será que pensamos todos nesse cesto?

Enfim, mais um livrinho de Marco Neves que devia ser obrigatório ler antes de começar a usar as chamadas redes sociais…

A Água

A água é um dos líquidos mais úteis ao homem e sem ela a nossa economia chegaria à ruína. Aliás, já anda lá perto…

Felizmente, apesar da seca que assola o país real (porque o outro, o país imaginário, já é uma seca desde o tempo do Eça de Queiroz, pelo menos), apesar da seca, dizíamos, a água encontra-se facilmente. Basta procurá-la, por exemplo, nos rios, mares, oceanos, lagos, lagoas, albufeiras, riachos, ribeiras, poços, charcos, pântanos, sargetas, fontes, nuvens e, por vezes, também nos canos, não é pal?

Sem água, seria o desemprego, as indústrias arruinar-se-iam. Note-se, por exemplo que, sem água não haveria submarinos, banheiras, bidés, lavatórios, torneiras, paquetes, navios, bisnagas, garrafas, boias, nadadores-salvadores, fatos de banho, âncoras, pescadores, minhocas, linguados, safios e outros peixes, algas, alforrecas, corais,  ilhas, quedas de água, cascatas, cataratas, arquipélagos, porta-aviões, borrifadores, chuveiros, canos, desentupidores, canalizadores, estações elevatórias, o homem da Atlântida, piscinas, pranchas de saltos, barbatanas, termas, mangueiras, bombeiros, o deserto deixava de fazer sentido, ninguém tinha sede, não teria piada nenhuma atravessar o Canal da Mancha a pé ou ir a Cacilhas de mota, não haveria chuva, nem chapéus de chuva, nem aguaceiros, nem gabardinas, nem galochas, cargas de água, trombas de água, até mesmo o desporto perderia várias modalidades, a natação, o polo aquático, a pesca submarina, não haveria naufrágios, maremotos, inundações. Enfim, vendo bem, talvez até fosse bom que não houvesse água!

Mas há água!

Pior ainda, existem diversas qualidades de água. E nem sempre no estado líquido. Com efeito, encontramos a água no estado sólido, sob a forma de gelo ou água mineral. No estado líquido, citemos a água-ardente, que é “um fogo que arde se beber”, como já dizia Camões; a água-pé, que me dispenso de comentar porque não gosto de conversas baixas; a água-rasca, espécie de água de má qualidade, utilizada para tirar manchas de tinta; a água-mole, utilizada para furar pedras duras – processo que requer muita persistência; a água destilada, que se obtém correndo 3 mil metros com um copo de água na mão – a meio do percurso, o copo começa a suar e a água destila; a água potável, armazenada em potes; a água lisa, para lavara a Mona; a água salgada, com a qual se preparam as lágrimas dos portugueses; a água doce, para bolos e outras guloseimas, etc…

Antigamente, também se fabricava a chamada água de colónia, mas como os novos métodos de exploração dos países do 3º mundo, a sua denominação mais correcta será água das ex-colónias.

Ah! e a água benta, que é a água da chuba, quando batida pelo bento.

  • in Pão com Manteiga, Rádio Comercial, 20-09-1981